Nelson Angelo

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IDENTIFICAÇÃO
Nome/Local e data de nascimento

Meu nome é Nelson Angelo Cavalcanti Martins, nome artístico Nelson Angelo. Nasci em Belo Horizonte, no dia 15/06/1949.

FAMÍLIA
Pais

Meu pai chamava-se Nelson Vieira Martins e minha mãe, Eloysa Cavalcanti Martins. Meu pai era médico e minha mãe, do lar. Gente de Ponte Nova, zona da mata mineira.

FAMÍLIA
Avô paterno

Eu tenho um pé no Norte também. O meu avô por parte de mãe era Alagoano, criado em Pernambuco – Cavalcanti –, que foi para Minas Gerais e lá constituiu família.

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Primeira infância

Nasci na Rua da Bahia, ao lado do Minas Tênis Clube, e vivi minha infância entre Belo Horizonte, Papagaio e Ponte Nova (terra da minha família, onde passava quase a metade do ano).

FAMÍLIA
Pai

Meu pai era médico, funcionário público. Foi convidado para trabalhar em Papagaio, onde por um tempo também foi prefeito. Papagaio era uma cidade pequena: rua principal, igreja, cinema e poucas casas. Lá vivi muito esse lado da simplicidade interiorana e suas ricas histórias.

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Estudos

Em minha infância, estudei num colégio de classe média, da congregação dos Irmãos Maristas. Isso começou no ano de 1955. Estudei lá até 1965, me transferindo depois para o Colégio Estadual em 1966, onde concluí o Clássico.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação musical

Dos dez aos 12 anos estudei violão clássico com o professor Raul Marinuzi, ali mesmo no Santo Antônio. Em seguida, por mais um ano, com o professor José Martins, que era muito conceituado e também admirado por todos, inclusive pelo violonista Andres Segovia. Eu tinha uma fascinação muito grande pela música popular e em Minas Gerais se ouvia muita música. O lugar foi uma ótima escola. Todos os meus amigos, tanto músicos como letristas, tinham esse aprendizado feito fora das escolas tradicionais. Era tudo no meio da rua mesmo, nas esquinas e nos bares, que era uma coisa tradicional de Minas Gerais. O bar sempre foi um lugar de encontro, de democrática troca de idéias e lições de vida.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Preferências musicais

Nessa época, todo tipo música era muito tocada no rádio. A televisão ainda não existia, veio um pouco depois. Todas as casas tinham piano, violão ou algum instrumento. A motivação era muito grande. Quem tinha talento se deu muito bem porque teve uma formação rica ali em Minas Gerais, Os gêneros musicais se alternavam. Ouvia-se ópera, clássico, jazz, samba, boleros, rock… Isso foi a semente de minha formação.
Do lado humano, a vida foi muito generosa comigo. Tive – e tenho – amigos de todas as classes sociais. Foi uma vida curiosa desde cedo, porque, pelo fato de estudar em colégio de classe média, conheci pessoas ricas e pobres, trocando informações e aprendendo com todas elas, sem discriminação. Também fiz muitas amizades de rua. Freqüentei precocemente a boemia da cidade.

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Futebol

Rolava muita pelada, ranca-toco. Eu era um peladeiro metido a jogadas inteligentes e lançamentos, mas a prática não exatamente correspondia à teoria. Joguei muito futebol, quando era menino, em casa de meu tio João, nas Palmeiras, e na fazenda da minha tia Marta, também em Ponte Nova. Havia uma coisa engraçada: um campo de futebol em declive. Então, a saúde era tanta que jogávamos mesmo assim, naquele campo. Das duas às quatro, o time atacava pra baixo; das quatro às seis, pra cima.

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Alto do Santo Antônio

Depois, me mudei de perto do Minas Tênis Clube – que era mais chique – para o Alto do Santo Antônio, perto da caixa d’água. Era um outro tipo de coisa. Tinha favela perto, não exatamente do tipo que é hoje: existia pobreza, mas com muita dignidade. Claro que existiam também os marginais (muito românticos comparados aos de hoje), que eram chamados “malandros”. Conheci um apelidado de Cabeção, que era um cara da pesada mesmo. Ele falava: “Ó, esses garoto aí é meu amigo, hein?” (puxando o x feito carioca). O cidadão era o rei da elegância e só andava de terno de linho branco, sapato de duas cores, chapéu, fumava tudo, remava no Parque Municipal, namorava todas as domésticas e contava histórias para os meninos que ficavam impressionados.

FORMAÇÃO MUSICAL
Carnaval

No carnaval, a gente formava blocos caricatos, onde eu tocava percussão. Costumávamos tocar juntos. Uma vez alguém falou assim: “Aí, o cara! Vem lá de cima (o pessoal morava lá embaixo de uma ladeira) e está tocando melhor que vocês”, para provocar. E eu fiquei bastante tempo no meio dessa coisa. Fora os maravilhosos bailes de clubes do interior.

FORMAÇÃO MUSICAL
Primeiro instrumento

Meu primeiro instrumento, na verdade, foi o violão, que eu peguei em minha casa; todo mundo tinha instrumento em casa. Peguei o violão e em 2 meses eu já tocava melhor que minhas irmãs. Eu tinha facilidade de ouvir e levava jeito para a coisa. Aquele tamborim lá da ladeira, construído com lata de gordura e couro do coitado do gato, também me deu subsídio.

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Pai

Em minha família havia clima musical. Meu pai tocava no violão apenas uma valsa chamada “Dalila”, Mas o negócio dele era medicina e pescaria.

FAMÍLIA
Mãe

A minha mãe era musical. Em sua adolescência, era costume de todas as mulheres aprender um pouco de piano. Todo mundo tinha um piano em casa. Em minha casa mesmo não havia piano, mas tinha em casa das minha tias, que era perto. Minhas irmãs chegaram até a estudar um pouco.

FORMAÇÃO MUSICAL
Instrumento / Violão

Sempre tive muita facilidade para o violão. Peguei e toquei rapidinho. Eu olhava e repetia, tinha facilidade visual e auditiva. Sempre fui um garoto musical. Por isso, muitas pessoas gostaram de mim como músico.

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Ponte Nova

Rolava muita festa em Ponte Nova. Quando tinha baile, todos os meninos iam – menino de interior é precoce em relação à vida: fez 12 anos e já está com cara de 18, querendo falar grosso. E começa logo o movimento para ir a todos os lugares. Vai da igreja à zona boêmia, ao clube, tem muitos amigos… Tive a felicidade de ter essa vida. Como diziam, comecei muito cedo. Tinha também aqueles namoros maravilhosos de cidade do interior. Aquela coisa das moças andando e os rapazes só olhando o footing. Então você se dirige à escolhida e diz assim: “Posso falar com você?”. Aquele lance inocente, meio atrevido! Ficava vermelho, envergonhado, a moça também. Aí a gente marcava um encontro no cinema. Foi um tempo de ver muitos filmes e muitas vezes também de não se lembrar do que se passava nas telas.

FORMAÇÃO MUSICAL
Preferências musicais

Como disse, nessa época a gente ouvia muita coisa. Óperas, como “O Trovador”, “ Palhaço”, “Cavaleria Rusticana”. Ouvia-se também muita música clássica. Na música popular foi a época em que começou a surgir a bossa nova. Foi fascinante! Comecei a ouvir o João Gilberto, o Tom Jobim, Tamba Trio, Os Cariocas. Muita música americana, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Ray Charles, Elvis Presley, Pat Boone, as grandes orquestras – Ray Conniff, Henry Mancini, Tommy Dorsey e muitas outras coisas. A informação era enorme, e aquilo, misturado na cabeça de uma pessoa jovem, dava um coquetel maravilhoso.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

Quando eu viajava de Belo Horizonte para Ponte Nova, eu ia muito de trem. E eu colocava o ouvido na janela da maria-fumaça e aquele som do vento batendo me fazia ouvir melodias; era o que eu mais gostava fazer. Era engraçado porque eu ouvia o que queria ouvir. Gostava muito de corais e a melodia daquilo – não sei se por causa do vento – me lembrava um coral. Então eu dirigia as notas. Já era um negócio de composição que eu não sabia exatamente o que era ainda. Eu ficava ouvindo e aquilo me bastava; nunca pensei em guardar. Devo ter feito grandes obras para coral e orquestra…

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Estudos

Eu era bom aluno. Entrei para o Colégio Marista (Dom Silvério). Era bom em matemática; assistia a uma aula e aprendia tudo ali, na hora. Tinha até uns colegas que pediam para que eu explicasse a matéria depois da aula. Tirei primeiro lugar muitas vezes no colégio. Uma vez, ganhei uma medalha que era chamada “Medalha de Excelência”, como o melhor aluno do ano. Isso foi no terceiro ano primário, em 1957. Engraçado porque isso geralmente não bate muito com músico. Músico geralmente é um cara mais baderneiro. Em compensação, quando eu parei de estudar, parei de vez. Acho que a reação foi inversa. Essa parada definitiva nos estudos foi no fim de 1966, quando eu já estudava no Colégio Estadual. Ao sair do colégio Marista, fui pro Estadual; lá completei o segundo grau. Mas, eu dormia na sala de aula. Aí falei com os professores que não queria mais estudar e os convenci. Falei: “Ano que vem, vou me mudar pro Rio de Janeiro e fazer só música. Não vou mais estudar”. Tinha uma professora de Geografia que me deixava dormir na aula dela e pedia aos colegas para fazerem silêncio. Ela me deu a prova de fim de ano para eu poder estudar somente as questões e passar. Acho que agora já posso falar nisso sem comprometê-la. Ela me disse: “Sei que você não vai estudar mais mesmo; já vi que não adianta querer nada com você”.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação musical

Entre os anos de 1962 e 63, a gente tinha lá no colégio um grupo de amigos que gostavam de música e então organizamos uma espécie de clube de música na cidade, que na verdade não teve uma longa duração. Nessa época, o pessoal do Grupo Opinião estava no auge do sucesso. Colocamos o nome do lugar de Carcará, em homenagem. Todos nos visitaram e nos deixaram muito empolgados. Nesse dia, em maio de 1963, conheci meu amigo Bituca.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

Aí o Carcará deu uma festa de inauguração e convidamos o pessoal do Opinião. Não pude ir a esse show que eles estavam fazendo, porque a gente estava cuidando da inauguração do nosso clube, do som, pintando parede e convidando todo mundo. Mas foi o primeiro dia em que ouvi falar do Bituca. Disseram: “Tinha um cara lá no show que deu uma canja e arrasou, o teatro veio abaixo!”. Um pouco depois, me aparece a figura, junto com Zé Kéti, João do Vale e Roberto Nascimento. Fizeram uma visita, um som e deixaram seus autógrafos na parede. Eu estava lá, quieto. Mas nesse tempo, todo mundo gostava de tomar umas biritinhas, e aquilo, às vezes, fugia um pouco ao controle e o pessoal ficava meio doidão. No meio dessa história, eu já estava alegre, falando enrolado. Aí o Milton viu e disse assim: “Eu acho você deveria tomar um Sonrisal”. Como não tinha nenhum lá, fomos procurar Sonrisal numa daquelas farmácias de plantão. Tomamos um Sonrisal cada um. Aí tinha um bar ao lado, e já aproveitamos para emendar em mais uma outra que não foi lá uma idéia das melhores …a calçada da Rua da Bahia que o diga. A partir desse dia, eu e o Bituca fizemos uma sólida amizade. Uma amizade unida pela música, pelos mesmos interesses, conversas, boemia. Aquela coisa de ouvir muito, de querer fazer alguma coisa pra mudar o mundo e ter uma vida assim. Fiquei amigo dele e de sua família, e a seu convite, os visitei muito em Três Pontas, onde também rolaram muitas histórias e peripécias da juventude. Algumas vezes ele me disse que eu era seu melhor amigo. Guardo isso no coração.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

Essa foi a mesma época em que o Tamba Trio foi a Belo Horizonte e fez uma apresentação maravilhosa no auditório da Secretaria Estadual de Saúde, onde meu pai trabalhou muitos anos como médico. Eu fui assistir a esse show. E fiquei totalmente fascinado! Conhecia as coisas pelo disco, mas nunca tinha assistido ao vivo ainda. Então aí é que a coisa pegou mesmo, foi aquela pedrada!

PESSOAS
Márcio Borges

Tem um fato marcante que aconteceu no dia desse show do Tamba. Tinha uma turma sentada perto de mim com um sujeito que gritava: “Maravilha, que beleza, que beleza!”. Batia palma, levantava… Eu nunca tinha visto tanta empolgação em minha vida! Pensei: “Meu Deus, que coisa engraçada… que entusiasmo!”. Eu fiquei olhando aquilo e falei: “Eu não vou esquecer a cara daquele maluco de jeito nenhum”. Pouco tempo mais tarde, conheci essa pessoa, que é o meu amigo Márcio Hilton Fragoso Borges, o nosso querido Marcinho Borges.

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Clube da Esquina: Origem do Clube

E nesse mesmo tempo, o Milton também já conhecia o Marcinho. Pra mim, o assunto Clube da Esquina (como as pessoas dizem hoje) começou aí. Nada de planos. Foi a vida que nos levou assim e seguiu em frente trazendo todos os outros fatos que mais tarde resultaram nessa história. Apenas amigos que comungavam de um mesmo ideal de vida.

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Bigodoaldo’s

Daí nós viramos grandes freqüentadores do Bigodoaldo’s, do edifício Maleta e de alguns outros lugares que permitiam que a gente freqüentasse (porque eu era menor de idade). Eram lugares onde a gente podia compor, evoluir a nossa amizade, trocar idéias. É muito interessante a cabeça das pessoas mais jovens sobre os parâmetros, os conceitos, o que quer fazer da vida, discussões filosóficas… Às vezes, ficava todo mundo numa tristeza danada; tinha um negócio que se chamava fossa na época da gente: “Pô, hoje eu tô na maior fossa”. Era aquela coisa meio ligada a um clima existencialista; influências de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, o existencialismo ainda que interpretado a nosso modo.

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Cinema

O Marcinho, por exemplo, era superligado em cinema (queria ser diretor) – o Bituca também. Eu também gostava, apesar de saber menos coisas sobre cinema; gostava, porque o cinema é uma arte de sensibilidade. Então a gente tinha altos papos. E começou a se juntar uma pequena e maravilhosa turma. Acho importante dizer que nunca fui homem de uma só turma. Tenho preferências, mas convivo com várias. É meu jeito de ser.

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Marisa

Lembro-me de uma moça linda, totalmente apaixonante, que foi amiga de nós todos; chamava-se Marisa. Uma pessoa única, uma bela e revolucionária mulher; era amiga, gostava dos assuntos pertinentes à rua, política, arte… Não tinha aquela coisa de separação. A Marisa era igual à gente, porque ela ficava ali. Daí a amizade ter se aprofundado tanto; acredito que nós todos tivemos uma relação profunda com ela. Acho que ela foi uma pessoa símbolo das mulheres, que merece sempre ser relembrada; talvez, pedindo licença para comparar, a nossa Leila Diniz. Uma mineira universal!

PESSOAS
Família Borges

Nessa época, eu comecei a conhecer o resto da família Borges: o seu Salomão, a dona Maricota e seus muitos filhos e agregados… Eles moravam no Edifício Levy. Uma família enorme, que sempre foi muito amiga do Bituca. Ele tinha lá como uma casa dele também. Me tornei mais amigo e comecei a freqüentar a casa. Andamos dando até umas festas lá, uma vez que o povo viajou. Essa festa foi um negócio! O pessoal mais velho e os mais novos viajaram: nessa época, o Lô ainda usava calça curta. Eu já era amigo do Marcinho e do Marilton, e sei que um dia resolveram dar uma festa. E a gente não achou limão para fazer batida. Então a gente comprou Ki-Suco de limão! Olha, aquilo ali foi um negócio sério na parada, porque deu um porre desastroso em todo mundo que experimentou.

PESSOAS
Marilton Borges

O meu amigo Marilton Borges cantava numa boate chamada Bigorrilho e no dia tinha um baile para fazer e não pôde ir, então chamou o Bituca pra substituí-lo. Mas o negócio já estava tão avançado na história, que o Bituca me convidou também. Eu falei: “Claro! É comigo mesmo”. Eu fui tocar bateria, não sei por que cargas d’água, e o Bituca foi cantar e tocar contrabaixo. Resumindo a história: fomos expulsos da boate. Mas imagina esse trio tocando… O Hélvius Vilela foi ao banheiro, desmaiou lá e ficou; o Bituca caiu com o contrabaixo pra frente… Falavam para mim: “Eu acho que isso aí está atravessado”. E eu respondia olhando pra baixo: “Onde, onde?”.

LOCALIDADES
Ponto dos Músicos

Em Belo Horizonte, tinha também uma coisa muito ligada aos músicos, que era o Ponto dos Músicos, um lugar aonde o povo ia para bater papo e arranjar baile pra fazer. Nessa época, o Milton me apresentou a algumas pessoas que eu não conhecia: o querido amigo e cantor Márcio José, o Valtinho batera, o Aécio Flávio, o próprio Marilton, o Hélvius Vilela. O pessoal ia ali pra bater um papo, combinar um almoço aqui, um almoço ali e tinha uma coisa de convivência muito saudável.

LOCALIDADES
Livraria do Estudante

Havia em Belo Horizonte uma pequena livraria chamada Livraria do Estudante. Lá se reuniam, cotidianamente, as maiores figuras da literatura mineira daqueles dias: Waldimir Diniz, Sergio Santana, Luiz Vieira, Luiz Vilela, Henry Corrêa de Araújo, Adão Ventura e muitos outros, que enriqueceram minha vida com suas amizades e informações preciosas.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

O Milton Nascimento, fazendo uma rápida análise, como músico e compositor, sempre trouxe com ele essa bagagem, uma coisa acima do comum, de uma pessoa que já nasceu com o dom de ter aquilo por dentro. E algumas pessoas perceberam isso nele, naquela época. E todas essas pessoas que se juntaram a ele, tinham um pouco dessa coisa, uma facilidade para lidar com a arte musical. Em torno do Milton, as coisas começaram a acontecer naturalmente. Ele sempre foi uma pessoa muito querida por todos os músicos.

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“Coragem”

Um episódio com o qual fiquei muito honrado – e vim a saber somente anos depois – foi contado no livro do Márcio “Os Sonhos Não Envelhecem”. A música “Coragem”, o Milton e ele fizeram em minha homenagem.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

O Milton falava daquele jeitão dele: “Você é um compositor”. Ele falava meio de arranco. Então foi uma coisa muito importante para mim. A gente também somou nossa amizade ao trabalho. Ele não me deu talento, mas me ajudou a amar mais profundamente a música. Como um irmão mais velho. Aquilo começou a tomar uma medida ali, e foi feito com muita gana, muita garra. Por isso é que resultou nessa questão estético-musical do agora chamado Clube da Esquina. Nos ouvimos muito! E o Milton sempre foi um irmão mais velho, um representante. E foi em torno dele que esses momentos foram construídos. É uma coisa de coração aberto. Porque eu não vi durante toda essa época – talvez mais tarde tenham outros parâmetros – uma pessoa pensar qualquer coisa e medir o que era isso, o que era aquilo. Tudo com o maior carinho, o maior respeito. O Milton sempre foi uma pessoa seriíssima. Uma pessoa que fez da música um sacerdócio. Alguns de nós seguiram esse exemplo. Me considero também um escravo da música.

PESSOAS
Lô Borges/ Beto Guedes

Eu me lembro uma coisa do Lô e do Beto Guedes muito jovens, quando eles começaram a botar as manguinhas de fora, a querer participar de uma coisa ou de outra. Um dia, eu já morava no Rio mas estava em BH e eles foram lá em casa me pedir pra fazer um arranjo pra uma músicas dele – era “Equatorial”. Eu falei: “Que coisa, essa meninada! Novos desse jeito e com tudo isso aí…”. E fizemos lá uma confusão danada. Com direito a um free orquestral, que chamei – para o delírio deles – de quelque chose. Eu os admiro muito!

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Clube da Esquina: Avaliação

A maioria das músicas que foram compostas nessa época raramente era só instrumental. Às vezes, uma coisa que era só instrumental acabava tendo letra. Existia um conceito ali. E o Milton era um maestro perfeito! O som saía diferenciado, por causa das pessoas. Talvez devido à ausência de um estudo formal. Por exemplo, às vezes se invertia um acorde e não se sabia teoricamente o que era aquilo: a pessoa pegava o violão e fazia intuitivamente. Por causa disso, houve uma diferenciação, uma originalidade, que é uma coisa bastante difícil de se conseguir nessa área. Outra coisa legal foi a diversidade das personalidades e histórias de diferentes regiões. Você nasce num lugar e mantém as características daquele lugar. Aí já vem uma história que foi da fase dos anos 70, da coisa hippie, que me fascinou muito, que é a idéia da não-fronteira. Queríamos mesmo um mundo sem fronteiras, sem limites.

PESSOAS
Fernando Brant

Fernando Brant, conheci um pouco depois do Márcio Borges. O Milton me falou um dia: “Você tem que conhecer um cara que eu conheci aí, da pesadíssima!”. Eu perguntei: “Quem é que é?“. Ele: “Chama-se Fernando”. E eu conheci o Fernando nessa época, lá em Belo Horizonte. Uma pessoa de muito talento e um amigo inestimável. Ele trabalhava no juizado de menores e muitas vezes eu e o Bituca passamos por lá e depois saímos os três para conversar. Um sujeito especial, que sabe como ninguém emitir conceitos simples e importantes.

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Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro é a cidade mais aberta do mundo. Você chegava e ninguém te perguntava de onde você era; se você era mineiro, carioca, baiano. Uma coisa totalmente simpática, que é típica do estado de espírito carioca. Me mudei para o Rio em dezembro de 66, aos 16 anos. Vim sozinho. Na verdade, eu ia para a Bahia, estudar no Conservatório da Bahia, mas aí já tinha a história do Milton e outros amigos terem vindo pra cá, e, principalmente a minha paixão pela cidade.

INFÂNCIA
Lembranças de infância

Mas minha paixão pelo Rio de Janeiro era de longa data. Meu pai formou-se aqui na Praia Vermelha, em 1930, na Faculdade de Medicina da Urca. Todo ano tinha uma festa da turma dele. Cada ano era num Estado, mas bateu de ser no Rio de Janeiro uma vez, quando eu tinha cinco anos. Viemos para cá. Só que, quando cheguei aqui e pisei no chão da cidade, me deu um treco, um negócio diferente. Além do mais, foi uma semana de festas e passeios. Acordava de manhã, o pessoal ia pro Quitandinha, dava uma volta em Petrópolis, almoçava no Copa. No outro dia pegava uma barca, dava uma volta na Baía de Guanabara com uma banda de música tocando carnaval, com direito a serpentina e tudo mais. Então além de eu já ter tido essa coisa com a cidade, ainda tive esta impressão de alegria. Quando eu cheguei em Belo Horizonte, fiquei meio amuado, meio chateado. Minha mãe falou: “O que foi? O que está acontecendo para você estar aí quieto?” Eu fui tentar falar, mas não consegui e caí no choro: “Estou com saudade do Rio de Janeiro…” – e abri a boca.

CIDADES
Rio de Janeiro

Então, aos 16 anos, não deu outra; Falei: “É para o Rio de Janeiro que vou”. E fui. Fiquei três meses na casa de uma tia em Laranjeiras e depois fui morar na pensão de uma senhora portuguesa, em Copacabana. Depois, morei no Solar da Fossa (que já não era mais aquela mesma de BH), fiz república num apartamento na Lagoa, na época do movimento estudantil dos anos 70, e também morei em casa de muita gente.

FAMÍLIA
Casamentos

Me casei com a cantora Joyce Silveira e com ela tive duas filhas: Clara e Ana, ambas Silveira Martins. Depois, e até hoje, sou casado com Maria Rita de Moraes, que já era mãe de Bruno Broca. Tenho dois netos: Tomas, filho da Ana, e Ângelo, filho da Clara.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

O Bituca já tinha feito sucesso no Festival da Canção e com um LP na Codil, com o Tamba Trio e arranjos do Luiz Eça – onde tinha “Travessia”, “Morro Velho”, e outras músicas dele. Então a EMI Odeon o contratou. Mas antes mesmo do “Clube da Esquina”, ainda houve alguns trabalhos que o Milton gravou: uma música minha com o Ronaldo Bastos, chamada “Quatro Luas”, o “Aqui, ó”, do Toninho Horta, “Sunset Marquis” dele, e muitas outras coisas. Aí os discos começaram a surgir. Os trabalhos começaram a acontecer vindos daquela efervescência que aconteceu anos atrás. E aí era material que não acabava mais. E o Milton, com sua facilidade vocal, sempre gostou muito de interpretar obras de outras pessoas. As nossas, as americanas, inglesas, latino-americanas, enfim… Então isto tudo foi mantido dentro da estética que vinha rolando, comandada por ele.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento) / Wagner Tiso

O Milton também tem uma história muito interessante, vamos dizer, paralela a esta que estou procurando contar, com o Wagner Tiso. Uma amizade dos tempos de Três Pontas, dos W’s Boys, um grupo que eles tiveram antes de ir para Belo Horizonte. Eles conviveram por muitos anos e fizeram muitas coisas juntos.

PESSOAS
Robertinho Silva

O que agora é chamado de Clube da Esquina era uma convivência em torno do Milton e de pessoas que gostavam de tocar uns com os outros. Aí veio uma turma aqui do Rio de Janeiro. Na bateria e na percussão, por exemplo, uma figura que é fundamental ao trabalho é o Robertinho Silva, que pegou toda essa combinação que já existia, entendeu e transformou isso na área dele, com uma generosidade enorme e um talento inesgotável. Ele é um músico espetacular e um amigo valioso. Ele e o Luiz Alves, grande amigo, e um grande contrabaixista brasileiro, acariciaram a música do Milton Nascimento em vários e importantes momentos.

FORMAÇÃO MUSICAL
Instrumento / Percussão

É curioso que me lembro que sempre tive idéias pertinentes à maneira de fazer percussão, apesar de não ser percussionista. Mas gostava, talvez pelo negócio do tamborim de antigamente. Eu tinha um certo conceito de usar várias coisas, de chacoalhar daqui e dali. E isso pra mim foi muito natural, porque, como Robertinho e Naná já ensinavam isso e o próprio Milton comungava dessa idéia, foi uma música colorida pela percussão. Não era uma coisa comum; você usava uma bateria, mas às vezes incompleta. Nesse aspecto, esta música difere da bossa nova, porque a bossa nova tem uma marcação específica, uma sonoridade clássica, de um baterista – não tem coisa de percussão na maneira que a coisa foi elaborada; não tem pandeiro, não tem chocalho, xequerês e coisas do tipo. Ela obedece a uma regra, é assim. Não estou comparando, estou apenas comentando a coisa formal. Existe mais África na música de Minas.

FORMAÇÃO MUSICAL
Preferências musicais

Uma coisa que me fascina é achar uma nota que normalmente não seria dada ali. Até hoje estou sempre procurando uma nota que chegue ao limite entre estar e não estar. A pessoa diz assim: “Se você passar meio tom pra lá, meio pra cá, conserta”. Uma coisa de músico. “Tá errado, dá meio tom pra cima ou meio tom pra baixo…” Tem que ser muito esperto. Mas eu gosto e vou além; às vezes, eu gosto até da nota no limite, buscar a certa. Eu prefiro uma nota meio errada, relaxada, do que uma nota certa de demonstração. Aquela coisa: “Está vendo? Eu estudei isso aqui, está vendo?”. Gosto de certas coisas atrevidas. “É assim que a banda toca!” É difícil e provocante.

PESSOAS
Naná Vasconcelos

Este pernambucano voador, nascido num fino berço musical, ao chegar também ao Rio de Janeiro, se tornou amigo de todas essas pessoas. Fizemos uma grande amizade, gravamos, juntamente com o Novelli, um disco em 1973, na França, que é muito conceitual. Sua colaboração e alegria foram inestimáveis. Mais um nordestino que se juntou e ajudou a construir as idéias de todos.

PESSOAS
Novelli

Depois, veio o meu amigo e compadre Novelli, que é outra pessoa dessa formação da escola da vida. É um músico excelente, um compositor talentoso e uma pessoa supermusical, que também participou dessa confraternização.

PESSOAS
Tavinho Moura / Flávio Venturini / Murilo Antunes

Mas esta turma tem muito mais gente. Com alguns não convivi naquela época. Tavinho Moura, Flavio Venturini e Murilo Antunes, todos eles figuras de grande importância e competência, conheci um pouco mais tarde e me tornei amigo e parceiro.

PESSOAS
Ronaldo Bastos

O carioca/mineiro Ronaldo Bastos é um gentil amigo que eu prezo muito. Vivemos juntos muitos sonhos e realizações até os dias de hoje. Suas letras dão um colorido todo especial ao nosso trabalho. Suas imagens escritas são das mais belas que ouvi.

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“Clube da Esquina”

O LP “Clube da Esquina” foi um disco do Milton muito importante, assim como vários outros. Foi numa fase em que o Milton andou passando uns tempos em Belo Horizonte, convivendo muito com as composições do Lô e do Beto, inclusive fazendo parcerias com o Márcio, com o Fernando. Tudo naquele universo da garotada, que até então não havia participado formalmente. E houve um grande entusiasmo da parte do Milton em trazer o Lô e o Beto para a cena. Então ele os convidou e começou-se a fazer ali o disco.
A tecnologia daquele tempo, se comparada à de hoje, parece a lamparina e a luz elétrica. O estúdio da Odeon era no centro da cidade, no Edifício São Borja; um prédio antigo. Era um estúdio grande, mas que não tinha muito recurso de playback. Você chegava, juntava logo uma turma, as orquestras iam lá pra dentro. Todo dia tinha a orquestra da casa que comparecia. Que beleza! Às vezes a gente gravava cordas e metais junto do violão, junto das vozes… Você podia gravar apenas duas vezes; depois, passaram pra quatro. Então era todo mundo ali, ao vivo e em cores. Se alguém errasse, parava tudo e começava de novo. A gravação do disco “Clube da Esquina” foi nessa época de poucos recursos. Cada um fazia um pouco do arranjo. Participava um pouco daquela história. E os arranjos para orquestra foram escritos pelo Wagner Tiso e pelo Eumir Deodato. Você chegava ali e tinha um monte de instrumento: violão, viola, guitarras, violões de corda de aço. A gente levava os instrumentos da gente também. Aí você olhava pra tudo que era canto e tinha instrumento de percussão. E o som estava rolando. E nada era muito ensaiado; é claro que, para falar “gravando”, a gente já tinha tocado a música muitas e muitas vezes antes, mas às vezes também não. A gente sentava de frente um pro outro, ouvia aquilo ali, olhava, olhava… E na segunda passada já estava todo mundo tocando, invertendo o acorde, fazendo outro som, buscando o efeito no instrumento. Foi um trabalho coletivo maravilhoso que aconteceu. Aí vinha a facilidade do Milton com aquele vozeirão! E foi assim, e com outras coisas mais, que surgiu o LP “Clube da Esquina”.

FORMAÇÃO MUSICAL
Ensaios

Então, o que você poderia chamar de ensaio, era muito a nossa convivência, porque os discos receberam sempre todo o apoio das pessoas. Os amigos letristas sempre participaram muito das produções – o Marcinho, o Ronaldo, o Fernando –, em todo disco que ia ser gravado. Por exemplo, no “Minas”, no “Geraes”. Tínhamos vários encontros: vários Bigodoaldo’s, vários Maletas… As pessoas se encontravam e diziam: “Porque essa música vai ser assim; vai abrir…”. Aí o Milton: “Não, vamos ver se a gente coloca um coral fazendo uma coisa ali”. Aí o outro dizia: “Vamos emendar essa música aqui com aquela outra”. E o tempo passava…

PESSOAS
Cafi

Meu amigo, o fotógrafo Cafi, foi, nessa época, o principal realizador dos registros da maioria dos momentos fotográficos. Ainda não existia o mundo da foto digital e o trabalho era mais artesanal. Digamos que ele seja responsável pela maior parte do material que existe. Juntamente com o Noguchi, também um grande artista, realizou diversas capas dos discos. As idéias sempre foram bastante democráticas, passando pela aprovação do Milton.

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“Simples”

Eu me lembrei que minha musica “Simples”, que é a última faixa do “Minas”, tem um solo de bateria no final, executado pelo Edson Machado – o grande Edson Machado –, numa participação maravilhosa. Esse mesmo solo abre o disco “Geraes”, na música “Fazenda”.

DISCOS
“Clube da Esquina”

Houve uma generosidade muito grande por parte do Milton, que misturou sua própria carreira com a dos amigos convidados. O Milton sempre valorizou muito a sonoridade humana. Eram muitas pessoas cantando. E nunca houve censura de nada, nem de ninguém. Mas sempre com muito cuidado para aquilo sair bonito e musical. No disco “Clube da Esquina”, eu toquei muita percussão, guitarra e fiz coro. Já no “Clube da Esquina 2”, fiz arranjos, toquei piano, violão, guitarra… tem musicas de minha autoria e parcerias com o Bituca.

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Brasil / Estados Unidos

Nós fizemos umas quatro ou cinco grandes turnês brasileiras com o Milton, fora as que tiveram lá fora. Eu fui uma vez pros Estados Unidos com ele para gravar o disco “Journey to Dawn”. Foram muitas viagens, muita vida, muitas histórias…

TURNÊS
“Minas”

Pelo que me lembro, as grandes turnês do Milton começaram a partir do disco “Minas”. Aí sim, virou coisa grande. Começava geralmente aqui no Rio de Janeiro – no Maracanãzinho ou outro lugar grande – e ia para São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Norte, Nordeste, Sul inteiro… Eram viagens enormes. E parecia uma coisa assim… de Beatles. Me lembro que se formou uma grande estrutura de produção. Tinham todos os recursos necessários para uma grande turnê. E os shows não eram para menos de dez, 20 mil pessoas; nunca. Ouvi pessoas dizerem que nunca tinham visto uma vibração igual aquela, que nem nos grandes shows que até então haviam assistido, não tinham sentido uma vibração tão forte. Nunca vi um negócio desses na minha vida; o palco tremia, o pessoal pulsava. Era uma pulsação conjunta; você sentia que um som pesado era ouvido por uma pessoa em posição de lótus. Ao mesmo tempo, aquela pessoa dançava junto e todo mundo parecia que estava muito concentrado no que estava acontecendo ali. Mas também você jogava pra platéia o seu coração, com toda a sinceridade. Para mim, eram religiosas essas turnês do Milton. Parece que você ficava totalmente numa outra esfera. Houve muita dedicação, houve muita coisa bacana. Eu acho que ali, naquele momento, e em vários outros, houve uma vitória da arte, da música.

DISCOS
“Minas” / “Geraes”

Na época em que o Milton morava na Barra da Tijuca, a casa dele era o centro das reuniões musicais “subversivas”, onde se discutia sobre como seriam os trabalhos. E a gente freqüentava de uma forma religiosa; ia todo mundo. Tinha ali uma sala com um piano, contrabaixo e violões, aquele mesmo ambiente de sempre, de música. E o disco foi planejado assim, com as coisas que o Milton achava e os nossos palpites. As ações foram distribuídas, tipo quem tocaria, quem seria convidado pra fazer arranjo… A primeira música do disco seria uma música do Novelli com o Ronaldo Bastos, chamada “Minas”, e a última música seria “Simples”, minha. E foi feito um roteiro em cima disso, com as músicas que o Milton queria cantar: para a Leila Diniz e tantas outras canções. Eram coisas que o Milton cultivava. No estúdio foi exatamente aquela mesma história; como sempre, foi chegando gente e mais gente…
E o esquema de estúdio era o mesmo. Ele ficou ali, as pessoas chegavam, um tocava um baixo aqui, o outro fazia uma percussão, um vocal. Foi assim no estúdio da EMI – Odeon e foi o que gerou as grandes turnês. O “Minas” tem histórias muito pitorescas; por exemplo, aquela história sobre o negócio do nome “Milton Nascimento” – “Mi” de Milton e “Nas” de Nascimento. Teve uma pessoa que percebeu isso. Ele foi elaborado numa seqüência muito interessante assim como o “Geraes”. O “Minas” e o “Geraes” são dois trabalhos interligados. Com duas turnês, com os mesmos esquemas. Eu regi o arranjo do Toninho Horta para o “Beijo Partido”. A minha faixa, “Simples”, também foi arranjo meu.. “Carro de Boi” a gente fez o arranjo em conjunto: Milton, Novelli e eu. Desde Belo Horizonte ele cantava essa musica do Maurício Tapajós com letra do Cacaso, que já havia sido registrada pelos Cariocas.

MÚSICAS
“Fazenda”

Fazenda foi escolhida para começar o “Geraes”. A música já estava pronta. Milton a interpretou lindamente; ele deu uma visão muito grande, muito popular para essa canção. A melodia, a letra e o arranjo são meus. Também toco viola de 12 cordas e faço vocal na gravação. Mais tarde, ela foi bastante regravada – inclusive por mim – e muitas pessoas disseram que foi a música da vida delas.

TURNÊS
“Geraes”

Na turnê do “Geraes” eu cantava “Tiro Cruzado” e “Canoa, Canoa” como convidado. O Lô, o Beto, o Novelli e o Flávio Venturini também fizeram participações. Foi uma turnê maravilhosa que agradou a todos que a assistiram.

DISCOS
“Clube da Esquina 2”

Acho que na seqüência vem o “Clube da Esquina 2”. Aí já expandiu. Na verdade pra mim, isso tudo é uma coisa só. Nunca teve duas, três… E sempre continuou sem um planejamento de nada. O “Clube da Esquina 2” expandiu-se em muitas participações comandadas pelo Milton. Grupos sul-americanos. Teve Mercedes Sosa, Elis Regina, enfim, já entraram amigos que o Milton havia feito. O grupo Azimuth, o grupo chileno Água e também vários músicos de São Paulo e do Rio. Aquilo tudo foi sendo somado e rolou a grande turnê do “Clube da Esquina 2”, talvez a mais recente que participei. Foi uma turnê enorme, também na mesma base de 20 a 30 mil pessoas por espetáculo. Era gente que não acabava mais e foi um grande sucesso. Dava pra viajar com uma boa de uma orquestra, com cordas e flautas. O Jaques Morelembaum participou do naipe de cordas; também o Paulinho Jobim, Danilo Caymmi, Novelli, Robertinho, Nivaldo Ornelas e tantos outros. Também foram convidados a cantora Joyce e o grupo Boca Livre.

PESSOAS
Wayne Shorter

O Milton me apresentou ao Wayne Shorter, que pra minha sorte gostou muito de mim. Mandou me buscar no hotel. E adorou a musica “Simples”. Ele ficou o maior fã dessa música. Ele iria gravá-la em seu próximo disco, mas acabou não acontecendo. Nós furamos um LP na casa dele de tanto ouvir essa música. A Ana Maria – sua mulher – ainda estava viva nessa época. Eles moravam numa casa muito bonita – aquelas casas de Los Angeles. Quando mandaram me buscar no hotel, fiquei honrado. Aí eu fui pra lá e passei uns dois dias. O Milton foi quem me permitiu conhecer, naquele momento, essas pessoas maravilhosas e importantes.

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Rio de Janeiro

Paralelamente a tudo isso, eu sempre tive um outro lado. Porque o negócio ficou mais localizado a uma coisa de sobrevivência. Não tinha mais aquele tipo de encontro como era em Belo Horizonte, que era full time, o dia inteiro. Aquilo era mais na hora dos shows, das produções dos discos. Mas aqui no Rio de Janeiro eu desenvolvi um outro círculo de amizades.

PESSOAS
Tom Jobim

Nessa época, eu morava na pensão da dona Margarida, na Francisco Sá. E a Márcia Rodrigues, que era amiga da Joyce, convidou a mim e a Joyce pra gente fazer uma visita ao Tom Jobim. E desde esse dia, dessa visita ao Tom, eu fiquei muito amigo dele. Teve uma coisa muito parecida com o que o Milton teve comigo; uma reação muito favorável. Quando ele viu minhas possibilidades até mesmo meio desorganizadas, meio garotão – eu tinha uns 16 anos –, ficou entusiasmado, o que muito me incentivou. Então comecei a freqüentar a casa do Tom Jobim, que era um de meus ídolos, como amigo. Um dia ele falou: “Quero que você seja amigo também do meu filho Paulo”. Então, o Tom e sua mulher Tereza, com toda sua simpatia, me receberam sempre muito bem na casa deles. Freqüentei a casa durante anos e foi para mim, além das amizades, uma escola.

PESSOAS
Luís Eça

O Luíz Eça me convidou pra morar na casa dele, que era no canal do Leblon. Ele foi outra pessoa importantíssima na minha vida. Um amigo muito querido, com um jeito bastante peculiar. Um músico brasileiro espetacular, com quem aprendi muito.

PESSOAS
João Gilberto

A gente imitava o João Gilberto. Tirava os acordes que ele usava e tocava muito. Inventava música, fazia de tudo. Acabei conhecendo o João na Cidade do México, nos anos 70. Foi muito bom; ele é um cara sério. Para mim, o maior discurso da música brasileira: muito som e pouco papo! Uma dedicação total.

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Movimento hippie

Aí veio a era hippie… Uma coisa de liberdade e cabeça. Rolava aquela praia de manhã no Posto 9… Muita gente bonita em todos os sentidos, uma imensa alegria, uma mistura de carioca e gente de todos os Estados do Brasil: pra mim, era o Rio de Janeiro, era o Brasil! Tudo lindo, com muito som!

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Pensão da Dona Margarida / Raul Seixas
Fiz uma amizade na pensão da dona Margarida com um cara que eu chamava de Raulzito – que era amigo de dois outros músicos baianos, o Carleba e o Eládio, que dividiam o quarto comigo. Era um quarto pequenininho. A gente, pra chegar na cama, tinha que pular por cima das outras camas. De vez em quando, dormia lá um cidadão chamado Raulzito, que tinha um conjunto chamado Raulzito e os Panteras, lá em Salvador. Um ano depois – eu já morava no Solar da Fossa, que é um outro lugar também interessantíssimo e cheio de histórias –, cheguei nos estúdios da Polygram e ouvi um som altíssimo: “Eu nasci há dez mil anos atrás…”. Eu olhei aquilo e falei: “Meu, quem é que esse maluco que está ali berrando desse jeito?”. Abri a porta do estúdio, olhei e espantado falei: “Rauzito! Mas o que você está fazendo aqui?”. E era o Raul Seixas, que se tornou um grande amigo. Eu tive altas histórias com ele. Uma vez, ele disse assim: “Eu gostaria muito de tocar violão como você. Eu quero produzir um disco seu”. A gente já tinha tomado umas cervejas. Eu dizia: “Claro, Raul. Você pode produzir um disco meu a hora que você quiser; pra mim vai ser ótimo, imagina… Vou ficar famoso…”. Mas acabou que ele não produziu. Muito generoso, o Raul Seixas; uma figura excelente. Ele tem uma importância enorme, não para a música exclusivamente. mas uma coisa de cabeça, de comportamento. Mais um filósofo do que um músico. O lance dele era a mensagem e seu modo irreverente. Era uma percepção da coisa social, da cabeça, do pensamento. E muito carisma.

PESSOAS
Vinicius de Moraes

Foi muito importante, porque nessa época conheci também o Vinicius de Moraes. O conheci por causa do Tom, no Carreta. Eu já era amigo dos filhos do Vinicius – do Pedro, da Suzana, da Georgiana e da Luciana – e o Vinicius era um freqüentador assíduo. Ele levava pra lá os filhos, a mulher e os amigos mais chegados, e eu tive a sorte de ser um deles. Encontrava também o Tom em Ipanema, no meio da rua, às vezes sem marcar nada e às vezes ele me ligava e dizia: “E aí, vai lá hoje?”. Aí eu pegava uma carona no carro dele e a gente ia batendo papo. Convivendo com eles, melhorei muito como pessoa. Pra mim, foi uma coisa ótima esse convívio com o Tom e o Vinicius. Sem contar as histórias que ouvi!

PESSOAS
Danilo Caymmi

Conheci ainda em Copacabana, na época da pensão da dona Margarida, o Danilo Caymmi, que é da minha geração, que tem uma participação também muito importante no trabalho com os mineiros – ele é muito amigo dos mineiros. A família de Dorival Caymmi é uma família espetacular, não há palavras pra dizer como são bacanas. São pessoas importantes na nossa história.

PESSOAS
Dorival Caymmi

E o Dorival Caymmi é aquele ser humano que já nasceu pronto, já nasceu ensaiado. Tem o dom de sintetizar, o que é uma das grandes qualidades do ser humano. É uma pessoa que diz duas frases e já te responde 500 coisas que você queria saber. É uma generosidade sem fim. Fui meio adotado pela família Caymmi – agora que estou percebendo isso – porque, com o Danilo, ele me levou pra mostrar aquelas malandragens do centro da cidade do Rio de Janeiro. E o Dorival é muito simpático, aquela figura carismática. Quando pegava um taxi, falavam: “Ô, seu Caymmi, como é que vai?”. Ele: “Ah, meu filho…”. E ficava aquele papo que você não queria outra coisa. Ele dizia: “Minha casa é sua”. Vamos dizer que essa fase foi uma universidade. Eles moravam em Copacabana, num Edifício chamado Comandante Lense. Dona Estela sempre me recebeu de braços abertos. Sou querido na casa. E isso é um orgulho pra mim. Lembro disso e dá uma sensação de alegria!

PESSOAS
Tom Jobim

O Tom Jobim me convidava para sua mesa na Churrascaria Carreta e depois na Plataforma. Conheci Vinicius de Moraes, Aloysio de Oliveira e grande parte dos amigos do Tom, apresentados por ele mesmo. Ele foi assistir a um show meu e do seu filho Paulinho Jobim. A platéia estava lá, com o Tom entre ela; aquilo foi um grande incentivo!

PESSOAS
Cacaso / Radamés Gnatalli

O Cacaso morava na avenida Atlântica e ficou muito meu amigo e parceiro musical; a gente começou uma hora a deslocar o chopinho pra lá. O Cacaso já era conhecido do Radamés Gnattali, que, nessa época, freqüentava muito o Restaurante Lucas, no Posto 6. Ali era meio que o ponto dele. Então, às vezes, tinha um chopinho no Lucas, à tardinha. Fui algumas vezes, ouvindo aquele mestre falando sobre música e vida. Música por vida. Porque as atitudes na vida são as que mais evoluem a pessoa na música. Você tem que tocar, praticar, senão enferruja tudo, mas, às vezes, a postura na vida te evolui mais do que a técnica. Aquilo é meio mecânico e você aprende a mecânica. Mas é a vida que te leva a formular os conceitos de uma maneira diferente.

PESSOAS
Cacaso

Quando eu conheci o Cacaso, nestes papos de churrascaria, fizemos uma música. Depois, ele me fez uma proposta: ”A gente fez uma música aqui, estamos gostando dela, então vamos fazer um monte e não vamos falar nada por enquanto, e quando as pessoas souberem, já tem um montão de música pronta”. Dito e feito. Nós paramos e ficamos um ano fazendo isso. Às vezes, ele ia lá em casa, mas era mais na casa dele, porque era ali na beira da praia de Copacabana. E tinha piano também. A gente ficava ali tocando piano, olhando o mar. Aí que começou a história do mar de mineiro, que eram aqueles mineiros olhando para aquele marzão besta… Mas tinha um sentimento também. Então começou uma coisa paralela, meio que uma simbiose. A gente começou a falar do mar e a fazer comparações com as coisas da vida. Quando a gente viu que tinha umas 80 obras, fizemos um musical, fizemos um monte de canções. Tinha até um folclore: “Ah, mas vocês não mostram! Coisa de mineiro… eles não mostram músicas pros outros gravarem!” Mas não era isso. A gente ficava doido para que as pessoas gravassem. Tinha música de tudo que é jeito: valsa, samba, choro, tudo. Foi uma dedicação total. Muitas delas ainda estão inéditas!

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Clube da Esquina

Acho muito importante a fundação do Museu Clube da Esquina,
Ele irá preservar nossa memória e contar às novas gerações a história de pessoas que fizeram – com muito amor – um trabalho que se tornou conhecido e reconhecido mundialmente. O tempo sempre foi um aliado fundamental desse tipo de coisas. A iniciativa do Márcio Borges nesse sentido foi ótima e irá esclarecer muito bem o que as pessoas entenderam da história e o que cada uma delas pensa.

CIDADES
Belo Horizonte / Rio de Janeiro

Nasci na Rua da Bahia, 2594, Santo Antônio. Amo muito a cidade de Belo Horizonte por sua gente e sua maneira de ser gentil. Vivi momentos muito importantes lá, fiz muitas músicas pra ela e nunca perdi o contato, pois ainda tenho família e amigos extraordinários que moram aí. É uma gente espetacular!
Sem jamais negar minhas origens mineiras, me considero também um carioca de coração. Foi a cidade que escolhi para viver e constituir família. Uma cidade que também amo, tenho grandes amigos e torço por ela. Gosto dessa terra, boto uma fé danada nesse lugar aqui. É uma cidade importante para o mundo.

TRABALHO
Projetos futuros

A gente sempre está fazendo alguma coisa e planejando algum projeto futuro. Tenho vários: O “Sertão da Cidade” é um projeto de um longa-metragem, feito em homenagem a Belo Horizonte e aos afro-mineiros, que têm uma participação definitiva na cultura de Minas Gerais. O convívio entre as raças é o maior presente que Deus dá, porque todo mundo pode aprender muito. Os afro-mineiros, com sua generosidade, nos deram lições permanentes. Será também um filme regido pela partitura e não o contrário. Inéditos ainda, um balé – “Tearaeza Sinfonia” – e o CD “Cross Fire”. Tenho também novas idéias e composições para novos CDs e ando escrevendo um pouco de música para orquestra, que sempre foi meu fascínio.

FORMAÇÃO MUSICAL
Instrumento / Piano

O piano também tem uma chegada espetacular em minha vida, Ganhei um piano! Isso é uma coisa rara de acontecer. Um cunhado meu na época – Marcos Scarpelli – me deu essa alegria. Eu morava no Jardim Botânico. Era meu aniversário. Eu vi uns caras subindo a escada do meu prédio carregando um piano e pensei: “Puxa vida, bem que podia ser pra minha casa!”. De repente, bateram à porta: “Senhor Nelson Angelo? Esse piano é para o senhor”. Eu quase caí duro! Me ajudou muito na vida.

FORMAÇÃO MUSICAL
Instrumento / Violão

O violão é aquele instrumento pequeno, de natureza delicada. É um mar de harmônicos – coisa que é bem mais sonora quando o violão é usado acusticamente. É bonito já pela forma: uma forma feminina. Todo mundo faz essa comparação com o corpo de mulher, que é uma coisa linda. Tem que segurar com todo carinho. É fundamental a postura do instrumentista. O caso do piano já é diferente, porque você não o carrega. Você senta ali e toca nas teclas. O violão não. Você tem uma relação física maior com ele, de abraço, de cheiro. Então o instrumento começa a te responder, porque é assim.

Voltar ao topo AVALIAÇÃO

Clube da Esquina: Museu

Tenho muita honra de ter participado com meus amigos de um trabalho que se tornou tão importante. Tenho orgulho disso e sei que, independentemente da interpretação de cada um, existe uma realidade que foi trabalhar o sonho de ser músico, de ser artista, e esse sonho estar registrado para a posteridade, com a admiração da maioria das pessoas que o conhece.

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2 Mensagens para Nelson Angelo

  1. Clara Redig disse:

    Que linda viagem essa, pelo interior de Minas, Rio de Janeiro, Los Angeles, Europa… acompanhada, na viagem, pela viagem musical de Nelson Ângelo, Milton, Lô, Marcio, Cacaso, Tom, Dorival, Vinicius…. um privilágio. Obrigada,
    Clara Redig

  2. Paulo Emilio disse:

    Nelsinho,no clube Carcará,na R.da Bahia seus colegas de Marista e amigos de Ponte Nova(Carlos Alberto Silva)ajudaram a monta-lo.Não tinha mobiliário,e seu ponto alto foi quando Maria Bethania veio nos visitar.abç Bodinho