Nico Borges

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, local e data de nascimento

Meu nome é Mauro Nilton Fragoso Borges, mais conhecido como Nico Borges, nasci em Belo Horizonte, 25/08/1959.

FAMÍLIA
Nome dos Pais

Meu pai é Salomão Magalhães Borges e minha mãe Maria Fragoso Borges, já falecida.

FAMÍLIA
Irmãos

Eu sou o caçula da minha casa. Ser caçula, normalmente, é ser o mais adulado e, ao mesmo tempo, o que apanha mais também. O fato de eu ser caçula não influiu muito no meu relacionamento com nenhum dos meus irmãos. Eu não tenho queixa nenhuma contra nenhum deles, pelo contrário, só tenho orgulho deles. O fato de eu ser caçula foi só uma coincidência – ter nascido por último.

FAMÍLIA
Cotidiano

Eu nasci no Bairro São Lucas e depois eu fui pro Edifício Levy. Em casa era uma bagunça porque o Bituca freqüentava muito lá em casa. Eu era garoto e na época o Bituca era contador, ia muito lá em casa, tocava as músicas, inclusive umas músicas mais antigas do Bituca me parece que foram feitas com o Marcinho lá no Levy. Isso eu não tenho muita certeza, porque eu era muito pequeno, mas eu sempre encontrava com Músico lá. Encontrava com o Bituca, com o Wagner Tiso, com o Nivaldo Ornelas, porque eles tocavam no Edifício Maletta – se não me engano. Tinha uma história dessas, mas era um convívio muito legal. Minha mãe não achava muito legal, porque era muita bagunça, mas em todo caso ela aceitava isso numa boa. Logo depois nós fomos pra Santa Tereza. A casa da gente ficou pronta e nós mudamos pra Santa Tereza.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Influências

Música da minha infância, que me marcou mesmo foi Beatles, não é? Porque sempre escutei o Lô, o Marcinho – Marcinho já escutava outras coisas, mais pro lado de bossa nova, jazz e mais pro lado rock-and-roll dos Beatles –, mas a minha referência mesmo sempre foi os Beatles. Depois dos Beatles, o Bituca. Uma vez, já no Rio de Janeiro – morava no Almirante Alexandrino, em Santa Tereza –, o Bituca me apresentou o disco do Yes, o Yes Álbum. Fiquei enlouquecido com o disco. Até hoje eu escuto esse disco e depois o próprio Bituca me apresentou o Genesis e foi me apresentando uma porção de coisa: Weather Report, Jaco Pastorius. Aí eu fui fazendo…, fui me formando musicalmente com esse tipo de música, mas mais levado pro lado dos Beatles. Com aquela influência depois, lá pra 1974, 73, eu já estava gostando um pouco mais do Yes e do Genesis, já estava mais pra esse lado. Essa formação foi a que eu tive, um lado mais rock-and-roll mesmo. Gostava de bossa nova, mas não tinha muito saco, com toda sinceridade. Não é um disco que eu ia chegar e comprar. Se tivesse o The Lamb Lies Down do Genesis pra comprar e um do João Gilberto, eu ia comprar o The Lamb Lies…; e do Yes, a mesma coisa. Numa boa, estou falando sem crítica, sem nada. É o meu gosto, normal.

Iniciação musical
Eu aprendi a tocar com meus irmãos. Aprendi a tocar piano, a tocar Violão , sei tocar contrabaixo, mas tudo Autodidata mesmo, vendo meus irmãos tocar. Na verdade eu sou mais compositor. Tenho várias músicas, gravei com Bituca, gravei com a Elis. Deixa ver… com meus irmãos mesmo, os Borges, ali foi junto com Gonzaguinha, uma porção de gente. Me deu uma base super legal pra eu passar a fazer minhas próprias músicas. Basicamente isso.

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Clube da Esquina

O Lô chegou com aquelas fitas de rolo, grandonas e, por acaso, ele tinha um gravador desse – o Marcinho que trouxe, se não me engano, junto com Bituca –, e colocou pra rodar lá dentro de casa. Todos nós, a família toda reunida, a gente escutou. Ficamos todos super satisfeitos. Eu, apesar de ser muito pequeno, gostei demais. Tem músicas daquele disco que eu gosto muito, outras nem tanto, mas isso não vem ao caso. A primeira vez que tive contato com o Clube da Esquina foi mais vendo o Bituca tocando piano lá em casa, o Lô tocando piano lá em casa e tocando na própria esquina.

Voltar ao topo LOCALIDADES BELO HORIZONTE

Santa Tereza/Esquina

Eu não ia muito à esquina porque eu era menor, não porque os caras estavam fazendo algum tipo de bobagem. Eu não ia porque minha mãe não deixava, mas eu sempre dava uma fugida pra ver o que estava rolando. Eu via o pessoal sentado tocando Violão , achava isso o máximo! O Naná Vasconcelos tocava as panelas da minha mãe – minha mãe super invocada com isso –, ele pegava as panelas da minha mãe e levava pra rua pra tocar lá na esquina. Tinha essa história também. Eu achava isso super legal e engraçado, mas o contato com o Clube da Esquina foi isso. Foi também o fato do Bituca…, por exemplo, “Ponta de Areia”, a primeira vez que eu ouvi foi o Bituca tocando. Ele tinha feito “Ponta de Areia”, mas ele tocou lá em casa, mostrou lá pra todo mundo, tem essa história também. Vi o Lô compondo “O Girassol” e minha mãe falando: “Pára com esse piano!”. Dava o mesmo acorde 45 vezes, minha mãe sempre falando isso e, depois, saiu “O Girassol”. Na verdade eu vi os meus irmãos compondo dentro de casa mesmo, tem um Fritz Dobbert lá em casa que é a maior relíquia, muitas músicas desse disco foram compostas ali.

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Os Borges

Gravamos o disco Os Borges nos anos 80, eu tinha 18 pra 19 anos. Dessa gravação eu recordo assim: foi uma gravação super legal com todo mundo unido, tocando… Você sabe como é, irmão, quando junta muito, sempre rola muita briga, muita discussão e tal, mas na verdade foi super legal o disco. O resultado do disco em si foi muito legal mesmo, porque teve muitas participações. Teve participação do Naná na música do Yé; do Guilherme, na música do Telo; do Bituca, na minha música; do Gonzaguinha, na música do Lô, digo, Gonzaguinha na música do Marilton e cada um tocando nas músicas do outro, entendeu? Foi um negócio super legal. O Telo tocou Bandolim na música do Yé e o Lô tocando Guitarra na minha música… Então foi todo mundo tocando quase todos os instrumentos ali mesmo, junto com a base que era o Ezequiel, o Rubinho, o Mário Castelo e o Toninho que hoje está lá na França – não é o Toninho Horta, é o outro Toninho, Toninho do Carmo. Essa era a base da gravação do disco. Tem a história que a Elis ouviu lá: “O que esse povo está fazendo aí?” Aí, ficou lá e adorou e depois chamou pra gravar o “Vento de Maio” com todos nós. Rolaram umas coisas super legais, tem umas fotos engraçadas disso. O lance do disco foi muito legal, agora, a divulgação do disco eu não achei muito legal, acho que não teve muita repercussão, sei lá. Mesmo porque cada um foi pro seu caminho e só sei que não rolou aquela seqüência que rolaria do disco, que seria turnê. Só sei que parou no disco. Fizemos uma turnê em São Paulo – que não foi muito legal devido a alguns incidentes que rolaram lá, não vou nem entrar no assunto –, mas o disco em si eu acho muito legal e tem outros discos que eu escuto. De vez em quando eu escuto.

DISCOS
Clube da Esquina II

Do Clube Dois eu participei quase nada. Eu participei num negócio que o Bituca chamava “Falta de Coro”. Era um coro de amigos do Bituca que sempre fazia alguns vocais, alguns backing vocais. Era eu, Bebeto de Três Pontas… Aí o Bituca apelidou Falta de Coro: “Vamos chamar agora o Falta de Coro”. Era uma zaga, era uns 20, uns 30 e eu participei mais do Clube Dois assim.

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Milagre dos Peixes/Ditadura Militar

Do Milagre dos Peixes eu participei mais. Este disco tem uma particularidade muito difícil de falar porque foi muito na época da ditadura, ou seja, Bituca fez o disco e todas as músicas tinham letras e acho que, se não me engano, foram duas músicas, ou nenhuma. Não lembro se foi uma ou duas que a censura deixou passar. Inclusive uma que eu e Telo gravamos juntos com o Bituca, tivemos que cantar lálálálálá porque a letra foi censurada – a letra era do Rui Guerra. Teve também “Hoje é Dia de El Rei” que foi censurada. Acho que a única que não foi censurada foi “Milagre dos Peixes”, se não me engano. Mas teve esse problema. “Escravo de Jó” foi gravada com a Clementina, acho que teve uma parte que foi censurada e outra parte teve que ser no lálálálálá. Na época tinha uma tal de doutora Solange, da censura, que todo mundo tremia de medo dela. Ela chegava, olhava a letra e qualquer coisa que ela percebesse que era alguma coisa contra o governo ou insinuação contra o governo dos generais, ela cortava a música toda, entendeu? Foi um disco que foi muito, é muito bonito e tudo, mas não é que… Eu lembro que o Bituca ficou muito chateado por ter que cantar todas as músicas no lálálálálá, poxa, o “Hoje é Dia de El Rei” é praticamente uma suíte, são quatro ou cinco partes, se não me engano. Foram cortadas todas as partes, todas as letras do Marcinho. Acho que a única parte que não foi cortada é na hora que o Bituca fala: “Filho meu” e pronto. Foi a única coisa que não foi cortada nessa música. Eu lembro muito desse disco assim… a gente com a letra. O “Pablo” também, que eu cantei sozinho, foi cortado, mas a gente com a letra pra cantar o “Cadê” e na hora de cantar lá vem a Dona Solange: “Não pode cantar!”, e vai no lálálálálá e vamos lálálá. Eu lembro desse disco assim. A minha participação, toquei percussão, fiz backing vocal, cantei sozinho com o Bituca, cantei com o Telo, foi super legal, mas teve essa particularidade da censura estar no calcanhar.

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Milton Nascimento/Lembranças da infância

Eu nunca fui comportado na minha vida. Então, quando o Bituca chegava, a gente ia passar férias com o ele no Rio. Aí o Bituca falava assim: “O Cristo está lá, olha como ele já está”. “Como Bituca?” “Ele já está assim, com as mãos nos olhos, porque vocês acabaram de chegar” (RISOS). Isso é verdade, o Bituca realmente falou isso.
Teve um lance do zoológico, eu quase caí na boca do hipopótamo. Quase mato o Bituca do coração. Aliás, quase que eu matei o Bituca do coração, várias vezes, nessas idas ao Rio de Janeiro.
O Bituca é meu padrinho na verdade, não é? Ele ficava super preocupado comigo e eu era o cão chupando manga e ele ficava enlouquecido. Depois a gente foi crescendo e tal, aí teve aquele show lá em Três Pontas, do Gerais. Não sei se a gente foi junto, só sei que eu estava lá na casa do seu Zino e dona Lilia pegando jabuticaba, diga-se de passagem, e andando de bicicleta que nem um louco pela cidade afora. Tem essas histórias, muito engraçadas. Essa do zoológico, diz que o hipopótamo estava com a boca aberta assim esperando eu cair. Teve uma do Pão de Açúcar também, eu cheguei na beirada, pulei a cerca. Tem essas histórias.
Hoje eu sou um cara comportado, mas são fatos da vida da gente que a gente nunca esquece.

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Márcio Borges e Lô Borges

Eu costumo falar pro pessoal, pra todo mundo que me pergunta isso: o Lô está com o Marcinho e vice-versa, como John Lennon estava com o Paul Mc Cartney. É aquela coisa da luva que encaixa na mão, então é um negócio que dá certo. Os caras compõem faz mais de 40 anos, um sabe muito bem o que o outro quer. O Lô sabe muito bem o que ele quer que o Marcinho fale na letra e o Marcinho sabe muito bem o que o Lô quer dizer na música. É isso que eu estou te falando, a proporção seria essa. O Lô está pro Marcinho como o John Lennon está para o Paul McCartney.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: avaliação

Eu acho o seguinte, depois, bem depois, teve a Tropicália; teve o movimento da bossa nova. Agora, o movimento – não puxando sardinha pro lado da mineirada – em termos de melodia, de harmonia, de jeito de compor, eu acho que é bem melhor porque as harmonias são mais ricas, as melodias são melhores, isso na minha concepção. Eu acho que é um movimento que vai transcorrer o mundo todo, se bobear chega em Marte porque é muito importante a referência do Clube da Esquina. É uma coisa muito importante pra muitos compositores. Tem gente que não gosta. Mas eu acho que o movimento Clube da Esquina se não for o mais importante da música popular brasileira, acho que até o próprio Jô falou isso uma vez, é um dos mais importantes. Tem o jeito de o carioca compor e tem o jeito do mineiro em cima da montanha compor. E o jeito do mineiro compor eu acha mais bonito, não falando mal dos cariocas, longe de mim, eu acho mais bonito, acho mais interessante, acho mais… Isso que eu acho, sou até meio suspeito pra falar, mas o que eu tenho a dizer a respeito do movimento Clube da Esquina é que é uma coisa pra ficar eterna. Neguinho vai morrendo ali, Deus me livre, mas o movimento Clube da Esquina vai sempre se renovando porque é o filho do Fulano que vai continuar; é o filho do Sicrano que vai continuar; é a segunda geração, a terceira. De repente é o meu filho que já está começando a se interessar, vai se renovando. Não é uma coisa que teve aquele movimento e parou ali. O Clube continua influenciando as novas gerações, entendeu? O Skank ultimamente tem bebido mais nessa fonte, tem muita referência, principalmente das músicas do Lô, mas eu vejo, por exemplo, as meninas do Amaranto, há um disco delas que chama Brasilêro, tem duas ou três músicas que é a cara do Clube da Esquina. O disco do Telo não preciso nem te falar. E tem o lance do Toninho Horta, pô, só fez abrilhantar mais ainda em termos de harmonia, de concepção musical, de tudo, o movimento Clube da Esquina. Além de ser um grande arranjador, um excelente Músico , um dos melhores guitarristas que tem nesse planeta. Aqui tem tudo, dentro do movimento tem tudo. Tem gente que canta bem, gente que toca bem, gente que fala bem. O Beto Guedes pra mim é um cara fantástico, o que você colocar na mão do Beto ele toca, é uma coisa impressionante. Isso eu vivenciei na casa do Bituca, o Beto tocando contrabaixo acústico, uma música do Mahavishnu Orchestra e eu tocando piano, falei: “Beto, pô!” “Não, vamos lá” e tocou. São músicos que têm o dom mesmo de tocar, e bem, vários instrumentos, várias coisas, isso é muito interessante, muito legal.

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Ditadura Militar/Festival em Três Pontas

Teve um caso, isso aconteceu no Rio. Foi no show do Bituca com o Som Imaginário. Foi nessa época da ditadura. Na hora que ia começar o show acabou a Luz . Ninguém sabe hoje por que acabou a Luz – teve esse caso. Acho que o show aconteceu, mas demorou pra caramba. Estressou todo mundo, o pessoal do Som Imaginário, principalmente o Zé Rodrix que é mais estressado, ele estourou, mas aconteceu, foi legal. Tem vários outros casos. Lá mesmo na gravação que teve em Três Pontas, aquele show do Bituca ao vivo, eu nunca vi tanta gente em cima de montanha na minha vida. Mas era muita gente mesmo. Estava lá o Chico, Francis Hyme, Fafá de Belém, estava todo mundo lá. Foi ao ar livre, foi mais ou menos em cima de uma montanha, então você olhava assim, eu estava mais ou menos perto do palco, você olhava lá na montanha tinha gente vendo, um negócio muito louco. Foi meu Woodstock aquilo lá (RISOS). Eu nunca vi tanta gente, gente em barraca. Eu nunca vi tanta gente junta numa cidade só, e Três Pontas é enorme, todo mundo sabe disso. Teve esses casos (ironiza), teve vários casos.

MÚSICAS
Outubro

Tem uma música do Bituca que me marcou muito. Eu acho uma das músicas mais geniais que o Bituca compôs – chama “Outubro”. Essa música, como se fosse, devido à proporção, é o meu livro de cabeceira, escuto quase todos os dias. Essa música eu gosto muito, tem outras que eu gosto, mas essa tem uma paixão pela letra, pelo jeito do Bituca cantar. Eu tenho essa gravação ao vivo, foi no Teatro Municipal de São Paulo. Quando eu coloco essa música eu começo a chorar: “Um homem desse tamanho chorando por causa de uma música que foi gravada há 15, 20 anos atrás!”. Toda vez que eu coloco essa música meus olhos enchem de lágrimas e fico totalmente emocionado. Essa é a música que eu acho.

Voltar ao topo CLUBE DA ESQUINA

Museu

O Marcinho sempre teve a cabeça voltada muito… Eu costumo dizer que o Marcinho está no mínimo uns 30 anos à frente de hoje. Por quê? Porque o Marcinho consegue antever uma coisa que é tão valorosa como o Clube da Esquina. Ele sabe que o que ele está fazendo é uma coisa que vai ser seguida por várias gerações, então, isso que é muito legal. Aquele baixinho, meu irmão, ele é f… Ia falar um palavrão, mas pode falar? Ele é foda! Ele sabe muito bem o que faz. Está 30 anos à frente de tudo. Isso é o que eu tenho pra falar do Marcinho, a respeito dessa idéia dele. Só podia sair do Marcinho essa idéia, de quem mais poderia sair essa idéia? Só do Márcio Hilton Borges, não é?

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