Nivaldo Ornelas

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/Local e data de nascimento

Meu nome é Nivaldo Lima de Ornelas. Nasci em Belo Horizonte, a “Nova Suíça”, em 22/4/41.

FAMÍLIA
Pais

Meu pai chama-se Alcides Ornelas e minha mãe, Estela Lima de Ornelas. Os dois são mineiros, do interior de Minas, mas a cidade que eles nasceram eu não me lembro. Meus pais são músicos amadores até hoje. Eles têm um grupo em Belo Horizonte, chamado Revivendo o Passado. Veja bem, eles têm mais de 80 anos e estão em plena atividade. Incrível, né? Se apresentam lá naqueles projetos do pessoal da terceira idade. Enfim, eles é que são os verdadeiros artistas da minha família. E por causa disso eu tenho outros irmãos que são músicos, inclusive o Cid, que toca na sinfônica lá, tem uma carreira.

FAMÍLIA
Relações familiares

A família toda é bastante musical. E eu vivi no tempo do sarau, quando a televisão não tomava conta ainda. Era aquele ambiente familiar, careta, mas ao mesmo tempo muito legal. Aquela coisa fechada, mineira, tradicional, religiosa, aquela atmosfera. Mas tinha um lado bom, que era o pessoal extremamente musical. Enfim, rolava uma conversa ao pé daquele fogão de lenha. E isso trás boas recordações.

FAMÍLIA
Irmãos

Tenho cinco irmãos, dos quais quatro são músicos – e desses quatro, dois são músicos profissionais.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Iniciação musical

Eu sou o segundo filho. Quando os meus pais perceberam que eu tinha talento, lá pelos oito, dez anos de idade, me levaram para uma escola de música em Belo Horizonte. Aliás, o Villa-Lobos, na década de 50, fundou escolas de música pelo Brasil inteiro, apoiado pelo Governo Vargas. E essa escola de formação musical em Belo Horizonte foi fundada pelo Villa-Lobos, pelo que eu sei. A escola é extraordinária; fica em Santa Efigênia, onde tinha – não sei se tem ainda – um quartel da Polícia Militar e lá era essa escola de música, num ambiente militar. Vê que contraste! O diretor da escola era o Sebastião Viana, pai do Marcos Viana, do grupo Sagrado Coração da Terra; o Marcos faz trilha sonora para o Jayme Monjardim aqui no Rio. O Sebastião Viana era assistente do Villa-Lobos aqui no Rio e, como ele era mineiro, foi o diretor da escola. E essa escola realmente foi uma coisa surpreendente, porque até hoje os caras que passaram por lá são músicos no Brasil e no mundo inteiro. Entre eles, estão o Benito Juarez, da Sinfônica de Campinas, e que foi meu colega na escola, Watson Clis, que é primeiro violoncelo da Osesp, de São Paulo, Márcio Malar, primeiro violoncelo da Sinfônica Brasileira, aqui no Rio. E vai por aí afora. É muita gente.
Era uma escola na qual os alunos recebiam um salário mínimo para estudar – isso quando eu tinha mais ou menos uns dez anos; a escola era para jovens entre dez e 15 anos – e era lotada. Essa ajuda de custo que nos davam nessa época seria hoje algo em torno de mil reais, mais ou menos. Mas era um outro Brasil, um outro país… E quem estudava lá teve que passar a estudar à noite, porque ficava o dia inteiro lá; saía duas horas mais cedo por causa da aula. Eu já estava com 10 anos, já estava na admissão, que era um período entre a escola primária e o ginásio. A formação da escola era de música teórica, mas muito bem feita. Tanto que nós, alunos dessa escola, fomos para o conservatório mineiro; todo mundo passou em primeiro lugar, porque o nível era muito alto. A gente estava vivendo uma época de pós-guerra; os professores judeus da Europa vieram para o Brasil e foram para Belo Horizonte. Estes professores eram o que tinha de melhor na Europa, então por isso que Minas Gerais tem tradição boa de música. Mas não vem só desse tempo, vem do ciclo do ouro – aliás, eu sou pesquisador dessa área – e por isso é que tem toda essa riqueza; isso não começa de um dia para o outro. E eu estudei nessa escola.

FAMÍLIA
Relações familiares

Dentro da minha casa rolava música; lá as pessoas se encontravam. Não tinha televisão, tinha rádio, mas o rádio não dominava. Porque rádio é auditivo, não é visual. Televisão hoje domina a vida as pessoas. Nesse tempo não tinha isso, então o povo era livre. Isso era muito bom. Eu sentava à mesa e conversava – naquela mesa enorme. O pessoal sentava e discutia. E era um matriarcado ferrado. Eu lembro a minha avó, que era aquela senhora austera, severa. E a criançada ficava ali, meio debaixo da mesa, ouvindo… era muito velado.

FORMAÇÃO MUSICAL
Canto

Quando eu era pequeno não tocava nada, mas ouvia. E também cantava; cantava muito bem. Mas eu era supertímido. Para que eu cantasse, o meu tio dizia: “Canta que eu te dou uma nota…” – e ele me dava uma nota de um cruzeiro. Aí eu ficava atrás da porta, ele enfiava a nota pela fresta, eu pegava a nota e cantava. Era muito bom isso; uma coisa que ficou gravada.

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Lembranças da infância

Nesse tempo tinha muito música instrumental, que era moda de viola. Chegavam uns caras do interior que tocavam aquelas modas de viola. E eu adorava aquilo. Falava: “Pô, interessante esse negócio!”. Achava aquilo uma onda. E eles cantavam aquelas serestas. Aquelas coisas daquele tempo, meio triste, meio melancólica; o clima já era bucólico mesmo, e aquilo era meio doído.

FAMÍLIA
Pais

Meu pai toca violão de sete cordas. E minha mãe é cantora. Aliás, eu fiz um show no Sesc Vila Mariana, “Nivaldo e convidados”, no qual eu levei muita gente. Levei Oswaldinho do Acordeom, Nelson Aires, Toninho Horta, de Belo Horizonte, Hermeto Pascoal. E a minha mãe foi a estrela da noite – e ela tem 85 anos. Ela tem a manha, é uma artista. Fizemos o vídeo e tudo; foi uma coisa – três noites no Sesc Vila Mariana. Foi um acontecimento. Então eu herdei o palco, a ribalta, dos meus pais; eu cresci com isso.

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento

Bom, aí eu desenvolvi rápido. Com 16 anos já era músico superpreparado. Eu e todos os outros da minha geração. E é uma coisa que surpreendia muito, porque a gente era muito novo. Inclusive, comecei a tomar bomba para caramba na escola, aquela história.

LAZER
Futebol

Eu brincava muito de futebol; o negócio era sempre futebol, porque meu pai era muito ligado nisso.

INFÂNCIA
Lembranças da infância

Agora, uma coisa interessante para a gente falar é o seguinte – eu falo isso para os meus filhos inclusive: na minha infância, era um outro Brasil. Por exemplo, no ginásio eu estudava grego! No Colégio Arquidiocesano de Belo Horizonte eu estudava grego, latim, espanhol, francês e inglês; estudava grego antes de latim. Este colégio era de padres – aliás, só tinha colégios de padre em Belo Horizonte. Eu fiz um levantamento e vi que em cada esquina era uma missão diferente: tinha missão espanhola, francesa, alemã, era uma loucura aquilo ali. Era um convento.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Religiosidade

Minha família era muito católica. Mas eu comecei a questionar aquilo cedo; achava um teatro ferrado: “Cara, espera aí! É isso mesmo? O pessoal com vela na mão?”. A Semana Santa era um horror. O pessoal comprava aquela briga; eles se sentiam triste também. Eu acho que hoje até ficou caricato, mas naquele tempo era pesado. Mas eu achava muito bom aquele tipo de música que eles tocavam na Semana Santa, porque era música de qualidade.

FORMAÇÃO MUSICAL
Profissionalização

Com 16 anos eu já era músico profissional. Mais eles se assustavam. Falavam: “Não, você vai ter que trabalhar. Que é isso. Não… pára com isso!” – eles não queriam, de jeito nenhum, que eu fosse músico profissional. Aí caiu a ficha. Por causa disso, eu trabalhei em banco sete anos da minha vida. Já tinha toda a formação de músico, mas meu primeiro trabalho mesmo foi no Banco Nacional de Minas Gerais; depois trabalhei na Caixa Econômica e em terceiro, no Banco Predial, se não me engano.
Quando eu digo que já era um músico profissional aos 16 anos, quero dizer que nesta idade já era um músico pronto. Eu tocava clarinete em eventos, tocava na Orquestra Sinfônica Jovem de Minas Gerais. E também nessa Polícia Militar onde tinha a escola, em que os alunos podiam optar em serem militares – eu, aos 16 anos, já tinha a patente de sargento. Eu poderia ser um sargento, se quisesse; só que eu não queria de jeito nenhum, porque tinha que esperar até os 18 anos para você ser promovido e eu não estava a fim. Então saí da escola, mas eu já estava preparado – a escola tinha um nível muito alto.

FORMAÇÃO MUSICAL
Instrumentos / Clarinete e violão

Eu tinha escolhido então tocar clarinete, mas já tocava violão, porque eu tinha aprendido com meu pai um pouquinho tudo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

Eu queria tocar música erudita, música clássica mesmo. Mozart, Beethoven, eu queria isso. Agora, paralelamente, nessa época, perto da minha casa tinha um povo que tinha uma Folia de Reis e Congado, que é uma manifestação mineira mesmo. E eu comecei a participar disso, comecei a gostar desse folclore mineiro, a me interessar por isso. E foi um outro caminho que me levou. Eu falei: “Olha que interessante isso aí”. E eu comecei a olhar a música popular mais atentamente, porque até então meu objetivo era a música clássica, ser um solista. E esse interesse pela música popular foi coisa minha mesmo, do que eu já conhecia a essa altura.

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Célio Balona

Depois dos 16 anos – lá pelos 17, 18 anos –, eu comecei a tocar em baile e conhecer outras pessoas. Conheci o Célio Balona, que era da escola também. Ele é um cara que tinha que depor aqui, porque todos os músicos pré-Clube da Esquina passaram pelo conjunto dele. Esse cara tinha um conjunto de baile em Belo Horizonte – acredito que tenha até hoje – com o Marilton Borges, que eu acho que é um dos caras mais importantes também. Todo mundo passou nesse conjunto. Inclusive, o Bituca era crooner desse conjunto do Célio Balona. Então, quando eu participei do conjunto do Célio Balona conheci outros músicos. Foi muito bom. Nessa época eu trabalhava em banco e nos fins de semana tocava nos bailes do Balona.

TRABALHO
Atividades profissionais

A história é a seguinte: eu sofria muito trabalhando em banco. Era um horror. Eu era péssimo funcionário. Eu me trancava no banheiro para ficar compondo, escrevendo música… era uma loucura.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

Eu comecei a compor quando eu já estava saindo da escola, porque a escola era muito acadêmica. Depois que eu comecei a conviver com o pessoal de Congado e Folia de Reis é que eu comecei a compor. Nessa época, eu copiava todo mundo. Na verdade, não era composição, era um ensaio, mas dentro desse lado mais mineiro, dessa tradição mineira.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

Até um dia em que eu comprei um disco do David Rose – um 78 rotações – com músicas do Gershwin: “Um Americano em Paris” e “Rapsódia em Blue”. Eu passei numa loja Normandie que tinha ali perto, no Centro de Belo Horizonte, ouvi aquele som, fui lá e comprei o disco. Falei: “Esse som está bom… esse é o lado…” – porque era uma música mais sofisticada. Pensei: “Ôba, que bom. É isso aí que eu quero”. O gosto a gente vai apurando e isso era um som realmente novo. Eu gostei daquilo ali, porque eu achava a música popular mineira muito verdadeira, mas era muito simplória. Simplória em termos de composição, de arranjo. Tinha aquele negócio de Montes Claros – como é que chamava aquilo? Seresta! – e eu achava aquilo chato para caramba. “Nossa, socorro. Que coisa horrível.” Queria música mais trabalhada, mais elaborada, música de músico. Aquilo é música para o povo. Mas quem é músico quer outras coisas; que nem o pintor, o cara quer achar, está sempre procurando outros tons. E eu já estava nessa.

FORMAÇÃO MUSICAL
Preferências musicais

Através do Gershwin eu comecei a pesquisar, comecei a ouvir música erudita. Comecei a ouvir Ravel, Debussy, Wagner, Richard Wagner, porque eu falava: “Ah, onde o Gershwin foi buscar isso? Ele também está copiando”. Foi aí que comecei a ouvir os originais. Isso aí me deu uma base boa de música erudita, de entendimento. Falei: “Existem essas pessoas, os gênios!”. É com eles que a gente aprende. Foi um momento bacana, que eu andei rápido.

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento

Eu aprendi a ler música cedo. Quando se aprende as coisas cedo, é igual a andar de bicicleta: fica. Mas eu sempre fui um cara altamente intuitivo. Então desenvolvi os dois lados, acho que até o lado intuitivo.

Robertinho Silva
O Robertinho, por exemplo, é um gênio. A maioria das gírias que existe no Brasil sai do meio musical e teatral. E muitas delas foram introduzidas por Robertinho Silva e Luis Alves, duas figuraças. A gíria “barraco”, quem inventou foi o Robertinho: “Pô, fulano armou um barraco!” – foi o Robertinho Silva que inventou isso, há pelo menos 20 anos. E tem outras, um punhado. Robertinho é um cara altamente intuitivo, observador da conduta das pessoas, do jeito popular. O cara observa.

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento

Enfim, nessa época que eu comecei a ouvir música erudita, era bastante intuitivo também. Mas eu comecei a desenvolver também o lado de sair tocando, como a gente falava. Isso na minha vida profissional me ajudou muito. E do pessoal do Clube da Esquina, eu era o único músico que tinha estudado música, de todos eles. Alguns deles eu é que ensinei. Eu era o único cara preparado, do ponto de vista didático. Mas isso porque eu tive essa chance; foi uma questão de oportunidade, do momento.

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Entrada na adolescência

Na escola de música eu fiquei uns cinco anos, dos dez aos 16, por aí – foi minha adolescência. Foi duro, era regime militar, tempo integral. Escolar militar religiosa, imagina! Mas na adolescência, minha diversão era o futebol.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Origem do Clube

Eu sou do movimento que originou o Clube da Esquina. Eu estava conversando com o Márcio outro dia sobre isso; o nosso movimento de pessoas é pré-Clube da Esquina. Depois dos 16, 18 anos, eu estava tocando em baile com o Célio Balona e comecei a conhecer outras pessoas. Conheci o Hélvius Vilela, que é um pianista; o Paschoal Meirelles, Paulinho Braga. E nós resolvemos fundar um clube de música em Belo Horizonte, cujo nome é Berimbau. Esse clube é em um lugar chamado Arcângelo Malleta.

CIDADES
Belo Horizonte

Nessa época, Belo Horizonte era uma cidade com aspecto de cidade do interior, mas com um movimento cultural ferrado de bom. O ensino na escola era muito bom. O Partido Comunista lá era ferradaço.

Voltar ao topo LOCALIDADES BELO HORIZONTE

Bucheco

Tinha um bar que chamava Bucheco, que era onde o pessoal se reunia e discutia; tanto que a revolução começou lá. Eu convivia com esse povo, mas o engraçado é que nós, músicos, não participamos de movimento nenhum. A gente convivia, mas sem tomar a iniciativa. E nesse Bucheco rolavam altas discussões.

LOCALIDADES BELO HORIZONTE
Edifício Archângelo Maletta

E todo movimento cultural de Belo Horizonte era no Malleta; é como se fosse um shopping, tudo acontecia ali dentro. Ali tinha um bar chamado Lua Nova, que era o bar dos jornalistas. Tinha um bar chamado Sagarana, que era dos escritores; tinha o Pelicano, que era do povo de cinema; tinha os artistas plásticos, que era um outro bar. E o Berimbau, fundado por nós: eu, Hélvius Vilela, Paschoal Meirelles e Paulinho Horta. Foi o primeiro clube de música em Belo Horizonte. A gente tinha 18 anos.

FAMÍLIA
Irmão / Luciano Ornelas

Quando tinha um jornal chamado Diário de Minas, o povo desse jornal ficava no bar dos jornalistas, lá no Malleta – o Lua Nova; entre eles estavam Fernando Gabeira e Alberico Souza Cruz – que foi diretor de jornalismo da Globo daqui. Aí o povo do Estadão foi lá, pegou esse pessoal todo e levou para fundar o Jornal da Tarde, entre eles um dos meu três irmãos que são jornalistas, o Luciano Ornelas, que depois foi redator-chefe do Estado, inclusive – mas agora ele está em outro jornal. E esse povo com 20, 22 anos fundou um jornal que foi a melhor coisa que aconteceu no país naquela época – hoje eu não sei como é que está o Jornal da Tarde. A página do Jornal da Tarde era meu irmão quem desenhava; ele era o diagramador.

LOCALIDADES BELO HORIZONTE
Bar Boate Berimbau

Sobre a fundação do Berimbau a história é a seguinte: o Hélvius Vilela, pianista, o Paschoal Meirelles, o Paulinho Horta , irmão do Toninho Horta, que faleceu recentemente, e eu tínhamos necessidade de um espaço, porque estava efervescendo o negócio. O Paschoal tinha um tio que era marceneiro e sabia fazer bem as coisas; então a gente arranjou uma sala no Malleta, cada um deu uma grana lá e fizemos esse bar. Nós tínhamos uma amigo que chamava Bolão, o Antonio Moraes, e esse cara era um gênio da arquitetura. Ele bolou uma parede negra dessa altura, com um pôster de cima até o chão; isso mais ou menos em 66. Então imagina a dificuldade de você fazer um bar com um pôster! Era tudo colado. Não sei como é que era a impressão nessa época, mas devia ser horroroso. Enfim, tinha pôster do Coltrane, do Modern Jazz Quartet…
Mas o bar foi um troço muito bem feito, com porteiro lá fora de gravatinha borboleta e tudo. Era um negócio bacana. Uma coisa que até então não tinha acontecido em Belo Horizonte. E tinha shows; era uma maravilha aquilo ali. Do ponto de vista artístico, foi um sucesso. Agora, financeiro, fracasso total. Ficamos devendo, uma loucura. Também durou um ano só… mas dali foi que resultou o Clube da Esquina. No Berimbau, a gente tocava jazz, bossa nova e as composições próprias, porque todo mundo já era compositor – a gente imitava, para falar a verdade; nesse tempo você imita muito, que é o processo, é o caminho. E muita gente do Rio e de São Paulo, quando ia a Belo Horizonte, ia no Berimbau. Já sabiam que existia esse lugar.

LOCALIDADES BELO HORIZONTE
Montanhês Danças

Eu cheguei ao jazz através do conjunto do Célio Balona – por isso que eu falo que ele é importante. Eu tocava clarinete e tocava em um lugar muito interessante, chamado Montanhês Danças, que era um dancing. Então quando eu trabalhava ali, o Célio Balona foi lá e me disse: “Eu queria um saxofonista na minha banda. Será que você não queria tocar saxofone?”. Eu falei: “Nunca pensei…”. E ele: “Mas vamos pensar então”. Aí fui desenvolvendo a idéia, ouvindo disco de jazz e falei: “Puxa, vou experimentar”. E deu certo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Preferências musicais

O jazz é o movimento cultural mais importante do século XX, incluindo aí artes plásticas, dança. Foi em tudo, foi no Andy Warhol, enfim, tudo é jazz, isso a partir do conceito que jazz significa liberdade de expressão artística. A pessoa pensa que jazz é só música, mas não é. É conceito. Por isso, no século XX, a mais importante manifestação artística é o jazz. Depois do jazz, a bossa nova brasileira é o maior movimento musical – aí já é musical – que modificou o próprio jazz. E a gente, nesse tempo, ouvia os dois. Aqui no Rio de Janeiro o couro comia… e a gente ouvia de tudo. E eles iam lá, inclusive. Houve uma época em que o Trio Tamba foi a Belo Horizonte em um festival e eles deram umas medalhas. Aí o Luiz Eça chegou para mim assim: “Eu vou te dar essa medalha, não pelo que você está tocando hoje, mas pelo que pode vir a ser no futuro”. Legal isso. Um dia eu até falei para ele: “Você me deu uma medalha”. Ele falou: “Pois é, tá vendo? Assim é a vida”. E a gente ouvindo muito bossa nova. Também ouvia nessa época o Tamba Trio, Os Cariocas , Paulo Moura – que foi meu grande protetor aqui no Rio quando cheguei –, Meireles e os Copa Cinco, Leny Andrade… Que mais que tinha? Tem tanta coisa meu Deus… Tom Jobim – que já existia coisa dele por aí –, Luiz Eça…

LOCALIDADES BELO HORIZONTE
Bar Boate Berimbau

No Berimbau começaram a vir muitos músicos do interior de Minas, que sabiam que lá tinha esse movimento e se interessaram em ir lá conhecer. Entre eles, o Milton e o Wagner. Eles eram do interior, não sabiam de nada. Bituca, quando chegou em Belo Horizonte, caiu o queixo quando viu aquilo. Falou: “Caramba!”. Quando eles chegaram em Belo Horizonte, eram aqueles caras talentosos do interior, mas sem nenhuma informação; não sabiam de nada. Mas o Berimbau era um clube de música essencialmente instrumental. Canário não entrava, como a gente falava na época. E o Bituca era cantor. Falei: “Não, cara, aqui não pode cantar. Você canta bem, o.k., mas tem que tocar um instrumento”. E o Paulinho Braga, irmão do Toninho Horta, emprestou um baixo acústico para ele, daquele grandão. E ele começou tateando, mas era muito talentoso e acabou tocando. Daí o Bituca, o Wagner e o Paulinho Braga fizeram o Berimbau Trio, que era o conjunto da casa; isso já perto de acabar o Berimbau. E era uma atração à parte. Mais pra frente eu me juntei a eles e virou o Berimbau Quarteto. Eu tenho esse retrato, inclusive.

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Festival da Fome

Aí o Berimbau quebrou, e o quarteto se dispersou – mas ficou o retrato. E o Aécio Flávio, que é um dos caras mais importantes do nosso movimento, resolveu fazer um festival dos mineiros no Rio, chamado Festival da Fome. E o Aécio tinha uma namorada que era da JOC – Juventude Operária não sei do quê – e arranjou um lance de ficarmos na Casa do Estudante, aqui no Rio. Viemos de ônibus Cometa, aquela turma, uns 20. Mas era um movimento bom, era uma turma boa. E o show dos mineiros ia ser no Clube da Aeronáutica, ali perto do Santos Dumont, perto da Perimetral. Chegamos lá no dia do show e foi um horror, não tinha ninguém. Estavam o Márcio Borges, a tia do Hélvius – dona Sissi – e o porteiro. Alguém ficou com pena da gente, foi lá e chamou os porteiros, os caras lá de baixo. Subiram umas dez pessoas, se espalharam e a gente fez o show. No outro dia, a Casa do Estudante falou: “Olha, era até hoje. Agora cada um se vira”. Pôs o povo na rua! Foi um horror, não tinha dinheiro para voltar, uma coisa… Mas alguns ficaram por aqui. Entre eles, o Wagner, o Celinho do trompete, o Paschoal, enfim, uns dois ou três ficaram por aqui, não sei onde. E o resto arranjou dinheiro emprestado e voltou.

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“Festival dos Mineiros no Rio de Janeiro”

O que tem de bom disso é que nós gravamos um disco, que eu tenho também – fiz até uma cópia para o Bituca uma vez –, que se chama “Festival dos Mineiros no Rio de Janeiro”. Esse disco tem muita coisa de bossa nova, Edu Lobo, Dori Caimmy, e coisas próprias. Passamos fome, mas alguém gravou – demais isso, né?. Nós fomos para o estúdio da Polygram, ali atrás da Sala Cecília Meirelles, na Musidisc; e gravamos um disco ali.

PESSOAS
Marilton Borges

O Marilton Borges, irmão do Márcio, foi um dos grandes precursores de todo o movimento. O Marilton Borges foi importantíssimo. Ele, o mais velho da família, foi quem liderou o lance primeiramente. Um cara supertalentoso; ele participou desses movimentos nossos. Ele fez um quarteto vocal: ele, Bituca, o Wagner e o Marcelo – o Neneco –, que era o melhor compositor da nossa época. O Bituca se inspirou muito nele. Hoje ele é engenheiro, não seguiu a vida, mas o Marcelo era um tremendo compositor. Fazia aquela atmosfera… ele foi o primeiro a captar a música popular. E eles tinham uma quarteto vocal bacana para caramba, meio imitando Os Cariocas. Mas, enfim, era muito bom.

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Atividades profissionais

Daí voltei para Minas, para a Caixa Econômica. Lá os movimentos eram feitos na minha casa. O Bituca levou o Fernando Brant; Márcio chegou a ir algumas vezes. Como meus pais eram músicos, tinha um ambiente bom. Teve um aniversário meu, inclusive, que o Bituca subiu na mesa, colocou uma toalha e cantou. Foi muito bom isso. Ele era mais solto do que é hoje. É engraçado, a pessoa vai ficando mais velha e vai se retraindo; ele era supersolto nesse tempo. Cabelinho cortado tipo Exército… E na minha casa rolava esses encontros nossos. Na época, depois do Berimbau, quando a gente voltou daqui do Rio, tinha muito encontro lá. Mas eu, na verdade, nunca toquei com Bituca e com o Wagner lá; nós tocamos no conjunto do Célio Balona uma época. E teve esse conjunto, que se chamava Berimbau Trio, e depois Berimbau Quarteto.

FORMAÇÃO MUSICAL
Shows

No Berimbau Quarteto, a gente fazia shows e aqueles festivais estudantis. Aí o negócio do Berimbau já deu uma outra cara, um outro conceito, uma outra postura na turma; ele era uma coisa mais sofisticada. Tem até uma história que, uma época, tinha que ser de smoking no Automóvel Club e o Wagner não tinha gravata borboleta. Alguém pegou um cinto, amarrou no pescoço dele e ele: “Ahhhh!”; já o Bituca estava de tênis e de smoking. Foi ótimo – só que a fotografia não pegou o pé.

CIDADES
Rio de Janeiro

E em seguida o pessoal começou a vir embora para o Rio de Janeiro. Primeiro, o Milton e o Wagner, através desse Pacífico. Ele é que os colocou na onda aqui. Depois vieram Celinho, Paschoal Meirelles e o pessoal foi chegando.

PESSOAS
Paulo Moura

O Paschoal falou para o Paulo Moura: “Olha, tem um garoto em Belo Horizonte que toca muito bem”. E o Paulo, maluco, me passou um bilhete: “Eu estou sabendo de você. Quero fazer uma banda jovem aqui e queria te convidar”. E eu estava doido para sair da Caixa Econômica. Esse foi o sinal – eu vim correndo. Chegando aqui, o primeiro lugar que eu toquei foi com o Paulo, em um lugar chamado Copa Leme, na Princesa Isabel; era um boliche e tinha música ao vivo. Hoje é um hotel, perto do Teatro Villa-Lobos, na saída do túnel. Esse foi o primeiro lugar que eu toquei no Rio, com Paulo Moura – que foi o grande incentivo nosso. O Paulo foi ótimo na minha vida.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

E eu continuava compondo. Quando a gente voltou do Rio – eu, Bituca, Wagner, Paulinho Braga, nesse tempo pós-Berimbau – foi o grande boom da composição. Foi aí que a gente começou a compor muito; eu já tocava violão bem. E apareceu Toninho Horta – até então não se sabia do Toninho, que é mais novo – e esse Marcelo. Então a gente começou a fazer esse movimento.

PESSOAS
Chiquito Braga / Valtinho

Surgiram dois nomes também: um é o Chiquito Braga; o outro é o Valtinho. O Valtinho é um baterista que hoje toca aqui com a Beth Carvalho; esse cara foi o maior gênio que eu conheci na vida. Eles eram mais velhos, então era pra eles que a gente perguntava as coisas. E o Chiquito Braga tocava com a Elizeth Cardoso. Foi o primeiro músico mineiro que saiu, veio ao Rio, viajou. Foi para o Uruguai, foi para não sei onde… Ele sabia das coisas, trazia os discos debaixo do braço e mostrava para a gente. Ele era o grande mestre. E o Valtinho era um cara que tinha um talento incrível. E eu lembro dele falando para o Bituca: “Bituca, você está cantando muito assim… Você está fazendo muito assim… A postura não é essa”. O Bituca, cabreiríssimo: “É mesmo”. “É, você está fazendo muito gesto, cara. Não, calma. Guarda um pouco para depois.” Ele parecia diretor de teatro, dando as dicas. O Bituca ouvindo ele era ótimo.

CIDADES
Belo Horizonte

Belo Horizonte era uma cidade do interior. Chegou aqui no Rio, some todo mundo. O Bituca estava por aí; Wagner tocava num lugar lá no Alto da Gávea, lá em cima. E a gente não se via. Toninho Horta também já tinha chegado. Marilton tocava e cantava com Simonal. E a gente não tinha o menor contato. Mas a vida aqui estava duríssima, estava muito difícil. Então eu voltei para Belo Horizonte.

FESTIVAIS
Festival de Belo Horizonte

Nessa minha volta para Belo Horizonte teve um festival, e foi quando eu conheci o Beto e o Lô. Nesse festival se apresentaram Túlio Mourão, Toninho Horta, Tavinho Moura – que cantou uma música que se chama “Como Vai Minha Aldeia”, que a letra é do Márcio e eu fui o arranjador, escrevi o arranjo pra esse festival. Quem ganhou o festival foi um cantor que já morreu, chamado Eduardo Conde – ele morreu o ano passado – defendendo uma música do Eduardo Lage, que é o maestro do Roberto Carlos. Nesse festival foi muita gente aqui do Rio. Foi o melhor festival daquele tempo esse festival de música em Belo Horizonte.

PESSOAS
Lô Borges / Beto Guedes / Toninho Horta

E ali apareceram o Lô, o Beto e tinha mais um outro compositor, Toninho Horta. Enfim, esse povo todo apareceu ali. O Lô tinha 16 anos e o Beto, 18. O Bituca já conhecia os meninos, porque ele morou na casa deles. Mas ali que deu o estalo de chegar para perto, porque eles apresentaram um som novo.

PESSOAS
Hermeto Pascoal

Mas em seguida voltei para o Rio. Já era mais ou menos conhecido. Alguém me convidou para ir para São Paulo – e lá fui eu para São Paulo, eu e o Paulinho Braga. Lá tinha uma boate chamada Star Dust, onde conheci o Hermeto. O Hermeto chegou para mim e falou: “Pô, interessante. Vocês são de onde?”. “Sou de Beulizonte…” Falou: “Mas lá toca assim é?”. Eu falei: “Tem gente melhor ainda!” – brinquei com ele – e ele falou: “É?”. Eu falei: “É. O povo lá é bravo”. Ele falou: “Ah, que interessante. Olha, eu estou indo para os Estados Unidos. Vou tocar com a Flora Purim e o Airto Moreira, quando eu voltar, quero fazer uma superbanda, experimental. Vocês topam tocar comigo?”. Eu falei: “Claro!” – eu já tinha visto ele tocar lá. E ele: “Então me aguarde”. Passou um tempo, eu voltei para o Rio.
Teve o Festival da Canção, acho que foi o último, mais ou menos em 74, e o Hermeto apareceu, me procurou e falou: “Vou fazer a banda. Vamos embora para São Paulo?”. Eu falei: “Vamos embora”. Fui para São Paulo e fiquei um ano com o Hermeto, que foi o seguinte: passava fome, não tinha dinheiro, o Hermeto não tinha público – ele não era conhecido. Do ponto de vista musical e artístico, era uma beleza. Mas grana, zero. E a gente tocava na Fundação Getulio Vargas, no Teatro Gazeta, Teatro Bandeirantes – acho que nem tem mais, na Avenida Luis Antonio –, na USP, na PUC, para todo lado. Foi onde o Hermeto começou. Foi a primeira banda que o Hermeto fez, e eu participei dela. Depois, eu fui para Montreaux com ele; eu rodei o mundo com o Hermeto. Ele foi o primeiro cara que, nessa época, já tinha um estilo de tocar, e por isso é que chamei a atenção dele. Ele perguntou: “Você é de onde? Onde é que você aprendeu a tocar assim?” – porque em Belo Horizonte eu, o Paulinho Braga e uns outros caras já fazíamos um som que era como um pintor sem tema: o cara sai pintando o inconsciente dele, expressionista.
A gente fazia esse tipo de música. Tecnicamente meio pobre, mas a idéia era boa, era inovador. E o Hermeto ficou impressionadíssimo. Falou: “Cara, é isso que eu quero também!”. Eu falei: “Ótimo, que bom”. Então ele me incentivou. Aí Bituca ficou sabendo que eu estava tocando com o Hermeto; ele cresceu o olho, ficou doido. Falou: “Cara, você está tocando com o Hermeto? Não pode… Não é possível!”. Eu disse: “Estou. E tem mais uma coisa: eu vou passar 6 meses em Belo Horizonte estudando, porque agora que eu descobri o que é que vai dar certo. Vou largar tudo e vou voltar. Eu vou para a casa da minha mãe e vou ficar estudando um tempo, vou me preparar mais. Agora eu sei o que é que eu quero”.

FORMAÇÃO MUSICAL
Shows

Seis meses depois, o Bituca apareceu lá, de bigode, pouco antes do “Milagre dos Peixes” – mais ou menos em 1975. Ele falou: “Olha, eu vou reunir a nossa turma no Rio de novo. Eu, você, Wagner, todo mundo. Topa?”. “Claro, vamos embora.” Aí a gente preparou o show “Milagre dos Peixes”, que foi gravado ao vivo, com orquestra. Foi um acontecimento.

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento

Aquele momento em que eu falei que tocávamos como uma pintura expressionista foi em 67, quando eu fazia parte do Quarteto Contemporâneo. A gente fazia música livre, um negócio precursor no Brasil, só instrumental. Era tão pouco dinheiro, a gente andava tão duro, que saía mandando qualquer uma; e começou a dar certo.

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“Viagem em Direção ao Oco do Toco”

Eu tenho um disco, que eu vou lançar, chamado “Viagem em Direção ao Oco do Toco” – porque é viagem para dentro; a verdade é uma viagem para dentro – no qual a primeira música chama “Tipo Sair Tocando”. Porque é o que é mesmo.

PESSOAS
Hermeto Pascoal

E foi isso de sair tocando que chamou a atenção do Hermeto – que fazia isso à maneira dele. Hermeto é como se fosse um pintor primitivista, sem nenhum preparo, mas com um talento absurdo. E sai mandando. No vídeo que eu fiz em São Paulo no Sesc, que a minha mãe participou, tem um momento, uma meia hora, que eu e Hermeto fizemos isso. Está gravado lá.

TRABALHO
Atividades profissionais

Toquei com muito poucos cantores. Na verdade, com quem eu trabalhei realmente foi com o Egberto Gismonti, mas mais fora do Brasil do que aqui mesmo. Com o Hermeto eu viajei bastante. Toquei também com o Bituca, o Milton.

PESSOAS
Airto Moreira / Flora Purim

Passei boa parte da minha vida nos Estados Unidos, com o Airto Moreira e a Flora, por causa do meu trabalho com o Hermeto e com o Milton. E a Flora mandava muito recado pelo Robertinho: “Fala para o Nivaldo que eu penso muito nele”. Eu falei: “Oba!” – eu pensava que ela estava pensando de outro jeito, mas era só musical mesmo…

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento

Depois do nosso trabalho com o Milton no “Milagre dos Peixes”, eu falei com o Wagner: “Wagner, o Bituca está com a carreira dele consolidada. Deixa ele na dele. Vamos fazer o Som Imaginário instrumental, cara. E o nosso primeiro produtor foi o Serginho Groissman, que era do Colégio Equipe, ali na Rua Augusta. Puta, era ótimo aquilo ali. Fizemos altos concertos ao ar livre. Tinha uma igreja lá que batia um sino às seis horas. E a gente rodou o Brasil, eu tenho as fitas, inclusive. Foi o primeiro grupo de música instrumental no Brasil que tinha concerto, tinha agenda e tudo. Mas quando tocamos com o Milton no “Milagre dos Peixes”, a formação do Som Imaginário era Luiz Alves, Robertinho, Toninho Horta, Wagner e eu. Nesse período era isso. Depois, saíram Robertinho e Luiz, entraram Paulinho Braga e Jamil Joanes, que foi a turnê instrumental, durante um ano. Foi bacana demais. Fazíamos altos shows aqui no MAM, na PUC da Gávea… foi só até 85, mais ou menos. Mas rodamos para caramba. E fizemos a cabeça de muita gente por aí. Nego ia lá ver mesmo.

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Origem do Clube

Sobre as origens do Clube da Esquina é o seguinte: no momento pós-Berimbau, quando já conhecia o Bituca, a gente ia muito na casa desse Valtinho – que era um cara agregador – e também na minha casa. E o Bituca sempre foi um cara que andava com gente do lado. É muito interessante, o Milton; primeiro, andou com Márcio; depois, andava com o Fernando; depois, eu lembro ele andando com o Nelson Ângelo. O Lô era um menino… – o Lô é bem mais novo, pelo menos uns oito anos mais novo que eu ele é, com certeza; nessa época faz diferença, eu tinha 18 e ele tinha dez. E começou aquele movimentozinho, pós-Berimbau. Mas esse movimento só foi acontecer realmente em 71, quando o Bituca pegou essa meninada e levou para um lugar chamado Mar Azul. E lá eles ficaram de 71 a 73, mais ou menos. Foi muito bom, porque ali eles conviveram. Eu não cheguei a ir lá. Eu era da turma do jazz, era de outra praia musical. Éramos de movimentos separados; nem melhor nem pior, mas diferentes.

DISCOS
“Clube da Esquina”

Daí, quando o Bituca foi gravar o disco “Clube da Esquina” – aquele disco que tem uma garotada na capa –, eu estava em São Paulo com o Hermeto. E ele: “Pô, cadê o Nivaldo?” – porque o Bituca sempre me prestigiou muito. Disseram pra ele: “Nivaldo está em São Paulo com o Hermeto”. O Bituca: “Ah, eu quero trazer o Nivaldo para o Rio, para gravar”. “Ah, não pode porque é muito caro, não sei o quê…” E ele insistiu: “Mas tem que vir!”. Aí me procuraram e eu vim gravar o “Clube da Esquina”. Já estava germinando isso, já estava essa turma. Era muito engraçado, porque era muito hippie o povo, muito Woodstock a turma. Isso era muito legal. Nego caído no chão de chinelo, calça de pijama. Já estavam nessa… Eu não cheguei a ser hippie, era caretaço. Engraçado, porque eu sempre fui sozinho, não entrava na onda; olhava de fora, não entrava. E nego queimando fumo lá, aquela onda. Era muito bom…
Mas aí eu gravei esse “Clube da Esquina”. Foi quando eu falei com Bituca que ia voltar para Belo Horizonte para estudar um pouco, preparar mais e tudo. E eles ficaram, foram para esse Mar Azul e ali germinou tudo. Entraram mais o Tavinho Moura, Toninho Horta, Tavito, o Lô, o Beto. Mas o que originou isso foi esses encontro nossos, pós-Berimbau, que tinha de mostrar música. Era uma maravilha, onde todo mundo copiava todo mundo e aquilo era altamente saudável.

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Europa

Eu fiz muita turnê na Europa com o Egberto, vários anos. A gente foi em um lugar, interior da França – não sei se é Nice, Lyon, sei lá – e tinha um bar lá chamado Minas Gerais! E tinha o nosso pôster na parede, do pessoal do Clube da Esquina! Depois da Bossa Nova, o Clube da Esquina é o maior movimento musical surgido no Brasil, em todos os tempos.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

O Tropicalismo é um movimento social; na minha opinião, musicalmente ele é pobre, quase inexpressivo. Mas do ponto de vista social, não; é um puta movimento. Mas o Clube da Esquina é um movimento essencialmente artístico, musical. E altamente profundo, a ponto de ser copiado no mundo inteiro. Eu estou falando isso porque eu vi ao vivo. Eu já fui no Japão, eu já fui para todo lado. E tem seguidores por lá. Para você ter uma idéia, há uns 10 anos, eu estava passando Natal na casa do meu pai, em Belo Horizonte e, na noite de Natal, apareceu uma menina que eu conhecia com um rapaz com cara de gringo. Aí ela falou: “Olha, tem um americano querendo falar com você”. Eu falei: “Mas hoje? Porra, noite de Natal!“. E ela: “Ah, mas ele vai embora e quer falar com você”. Cheguei lá, era o pianista que toca com o Pat Matheny, o Line Mays. O cara me beijou e falou: “Cara, que prazer”. Eu falei: “Meu Deus, calma…”. “Não, eu vim pra cá e queria conhecer você. E eu quero conversar sobre o Clube da Esquina”. Daí eu disse: “Então está bom, vamos lá”. O cara queria sair para tocar. Nós fomos então tocar em um lugar chamado Pianíssimo, em Belo Horizonte – saímos na noite de Natal, fomos tocar! Depois ele falou: “Eu queria que você me levasse no Clube da Esquina, onde vocês se reuniam” – na verdade existe uma rua, a rua Divinópolis, que é a rua do pai do Marcinho, seu Salomão. E é um lugar horroroso! Desculpe falar, mas parece o redor de São Paulo. Parece Barra Funda, Grota Funda, não sei o quê… Levei o cara lá e falei: “Cara, é aqui” – nós fomos de táxi. Ele falou: “Oh, my God.” E eu: “Eu te avisei, né?”. Mas esse exemplo serve para ver o alcance do lance.
O Idris Boudrioua, que é um saxofonista francês que mora aqui no Rio, falou para mim: “Olha, eu cansei de copiar coisas que você gravava com o Bituca quando eu morava em Paris. Cansei!”. Agora, para falar em termos de Tropicalismo, o Clube da Esquina não dá nem comparação, musicalmente falando. Para se ter uma idéia, os músicos de jazz americano – o jazz é uma música altamente elaborada, paralela à música erudita – estão ligados no Clube da Esquina. Eles nem sabem de Tropicalismo. Conhecem o Caetano mais pelo folclore dele, não pelo valor musical. Conhecem como artista. Mas isso também é pelo seguinte: em Minas Gerais, o ciclo do ouro, a igreja – que era dona do ouro – e os cristãos-novos – que foram os judeus convertidos, que vieram atrás do ouro também – trouxeram toda uma cultura, a melhor cultura que tinha na Europa esse tempo. Tem um livro que se chama “Resíduos Seiscentistas em Minas”, que fala muito disso. O escritor se chama Afonso Ávila. E tem um livro do Eli Box, um inglês que é brasilianista, que também fala muito disso. Os caras trouxeram o que tinha de melhor, não só na música, mas também no teatro, enfim, em tudo – o que vem lá de trás é coisa boa – e isso foi se elaborando. E nessa minha época, que o ensino de música – e o ensino de um modo geral também – era muito bom, coincidiu dessas pessoas do Clube da Esquina se reunirem. Isso gerou um fruto bom. É que nem São Paulo hoje, que tem ótimas escolas de música: o resultado disso, mais na frente, vai ser muito bom.

DISCOS
“Clube da Esquina”

O processo de criação do disco “Clube da Esquina” começou, inclusive, na minha casa. O Bituca ia para minha casa, ele e o Paulinho, e a gente passava tardes e tardes. Nessa época era birita. A gente ficava ali, trocando idéias noite adentro. A minha mãe chegava, abria a porta: “E aí?”. Eu falava: “Ah, pois é…”. A avó do Wagner Tiso morava na minha rua, a dona Clara, então a gente ficava ali, noites e noites – porque sozinho você não consegue nada; se não tiver troca de informações, ninguém anda. Não é assim que funcionam as coisas? Mas teve muito improviso, no próprio estúdio. Mudavam-se as coisas na hora. Era muito engraçado, porque o Bituca tomava todas e ficava deitado em um canto. Eu falava: “Cara, não é possível”. Dali a pouco ele levantava e cantava divinamente. Era um negócio tão absurdo. Ele estava assim jogado, parecia um saco de batata, num canto; dali a pouco, levantava o Bituca e cantava. Mas era um Sol. Era um negócio…nossa! E era muito bom porque se tinha total liberdade de criação, como dito pelo Robertinho. Eu acho, inclusive, que o Robertinho enriqueceu muito a música do Milton. A parte de percussão, de tambores. Robertinho é África pura, isso vem com ele. No palco, ele é surpreendente… E Bituca ficava era rindo – ele ri meia-boca – e deixava rolar.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

Praticamente o único cara cantor com quem eu toquei na minha vida foi o Bituca, porque tinha uma cumplicidade. As coisas aconteciam. De repente, estava pronta uma música, um disco. Ele falava: “Não é nada disso. Vamos começar de novo.Trás mais uma garrafa de uísque…”. E nego tomava todas, passava mal, era uma confusão. Mas as coisas aconteciam. O Bituca sempre foi um cara agregador, sempre andava com a patotinha dele.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Mas ninguém pretendia fazer nenhum movimento. Esse “Clube da Esquina”, eu só fiquei sabendo que se chamaria assim depois que o disco saiu, lá por 73. Aquela reunião de músicos não tinha nome, eram os mineiros.

CIDADES
Rio de Janeiro

E o povo aqui no Rio de Janeiro era muito engraçado, eu sofri muito aqui, porque o pessoal todo dizia: “Pô, mineiro é filho-da-mãe. É uma moita ferrada”. Uma moita significa tudo na encolha, não é? Nós éramos chamados de judeus mineiros por aqui – porque o povo israelita também é bastante assim. E eu conseguia olhar de fora também, e eu sabia que eles tinham razão. Robertinho e Luiz cansaram de falar isso: “Cara, não é mole, hein? Pelo amor de Deus! É todo mundo cabeça ruim, porque é muito pirado, mas ao mesmo tempo todo mundo fechado”. E o povo aqui no Rio de Janeiro não aceita; carioca é muito aberto, é diferente; é o oposto. Mas com o passar do tempo, a gente foi aprendendo a maneira de vida aqui, a verdade é essa.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Eu identifico todas as influências mineiras no disco “Clube da Esquina”; todas. Em Minas Gerais a música é muito religiosa, introspectiva; aquela atmosfera de enlevo e de fé. Aquele negócio intimista está presente. As Folias de Reis, as Congadas… Eu tenho uma música que se chama “Nova Lima Inglesa”. Assim como o Rio de Janeiro foi colonizado pelos franceses, Minas Gerais foi colonizada pelos ingleses, porque o ouro estava lá, e quem sabia extrair o ouro era a Inglaterra; eles é que tinham o know-how. Naquele tempo, a Inglaterra era os Estados Unidos de hoje. Foi a Inglaterra que implantou as estradas de ferro em Minas Gerais. Tanto que mineiro não fala muito “trem”? Trem é “train”. Uai de mineiro é “who I”? E Nova Lima é onde tem a São João Del Rey Mine Company, que é a mina de Morro Velho, ao lado de Belo Horizonte. Ali era uma vila de ingleses. Eu cansei de ir lá na minha infância, e era como se fosse a Inglaterra. Anos mais tarde eu fui pra Inglaterra e falei: “Olha, cara, agora que caiu a ficha”. Aquilo ali era um pedaço da Inglaterra. Então eles colocaram a estrada de ferro; o povo lá falava inglês direto nesse tempo. E eles trouxeram a cultura medieval, como a lenda do Rei Artur; trouxeram ela para Minas Gerais.

FORMAÇÃO MUSICAL
As Influências

Quando apareceu o rock inglês nas Minas Gerais, Genesis, Focus, Yes, Jethro Tull, nós já fazíamos isso lá sem ouvir os caras. O primeiro disco do Genesis que pintou em Minas Gerais – eu que ganhei esse disco – eu levei para a turma e falei: “Olha aqui”. Os caras: “Pô, os caras estão copiando a gente. Que onda é essa, olha só”. A gente achava que eles estavam copiando! E tinha muito Beatles também. Inclusive o Lô mais o Beto foram muito influenciados pelos Beatles. Mas antes de aparecer discos dos Beatles, já se faziam canções assim por lá. Parece uma loucura, parece pretensioso, mas não é; é verdade. Porque veio antes, os ingleses levaram toda aquela cultura inglesa, que é muito rica, para lá. A cultura inglesa é, na minha opinião, a mais rica que existe na Europa por volta de 1600, 1700.

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“Clube da Esquina”

Eu acho que a música “Clube da Esquina”, do Lô e do Márcio, representa fielmente o espírito musical do Clube da Esquina, porque ela é supersofisticada, é diferente, é inovadora. Eu acho que tudo começou ali.

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(Milton Nascimento)

O período de 70 a 76 foi o melhor período do Bituca, em que ele gravou conosco as coisas que ele fez lá em Belo Horizonte. E os melhores momentos, na minha opinião, foram o “Milagre dos Peixes Ao Vivo”, gravado ao vivo no Teatro Municipal de São Paulo e, em seguida, o disco que eu acho que é a síntese de tudo, o “Minas”, que foi um disco de laboratório. Todo mundo deu palpites. Esse disco é memorável. Agora é interessante que nós, na época, não acreditávamos muito nisso. Você faz, mas não sabe o que fez. Não tínhamos noção do alcance das coisas. O cara chegava e falava para mim: “Cara, isso é…”. Eu falava: “Mas espera aí, eu não estou enxergando isso tudo que você está falando. Não tem cabimento”. Para você ter uma idéia, por causa desse disco nós todos viajamos para tudo quanto é lado. Por causa desse “Minas”. Foi um estouro na época – se bem que o país era outro também, tem que se levar em conta isso. Esse disco é maravilhoso; uma obra-prima. Aquilo é um quadro do Salvador Dali, do Picasso, uma coisa assim. E isso porque é verdadeiro.
Segundo me foi dito pelo próprio Bituca, ele, na verdade, conta um pouco de sua história ali, das coisas que ele sofreu. O que eu vi ele sofrer de racismo, de intolerância… E vai por aí afora. Em Belo Horizonte, tinha um lugar que chamava Candelabro, na época pós-Berimbau, uma boate caretíssima. E tinha uma lista dos que não podiam entrar. E o Hélvius tocava nesse lugar. Eu falei: “Ô Hélvius, arranja um jeito da gente ir lá tocar um pouquinho”. Mas nós estávamos nessa lista dos que não podiam entrar, porque éramos persona non grata. Os nomes ficavam com o porteiro: “Nivaldo, você não pode. Bituca, ih, esse nem se fala”. Não podia entrar, e a gente ficava lá fora. Quando vinham os artistas do Rio, se apresentavam nesse lugar. A gente ficava lá fora, porque não podia entrar. E o Milton, o lance do racismo, nossa mãe! Eu vi coisas e coisas.

MÚSICAS
“Clube da Esquina”

A música “Clube da Esquina” vai ser descoberta mais tarde, ela não é para agora. Quando ela aconteceu, o Brasil era outro. Era um Brasil mais educado – educação era prioridade. O país hoje não comporta esse tipo de música. Não faz a menor diferença tocar ou não. Ninguém quer saber desse tipo de música. Isso é mais para a frente.

PESSOAS
Toninho Horta

O Toninho Horta, por exemplo, eu acho o maior compositor brasileiro de todos os tempos, juntamente com o Milton – mas o Milton é mais o intérprete, a voz, um gênio. Mas o Toninho Horta hoje, por exemplo, não tem espaço, ninguém fala nele. Se ele parar de tocar hoje, não faz a menor diferença no Brasil. Ninguém quer ele, não faz diferença. Meia dúzia de quatro quer, mas não se insere no contexto brasileiro.

TRABALHO
Avaliação

O Brasil ficou brega. O Brasil bregou de vez. No meio, músico tem reconhecimento, mas isso é um por cento da população. Para se ter uma idéia, vários caras foram influenciados por mim – eu falo no meu caso, que hoje são músicos, saxofonistas: o Chico Amaral, do Skank, começou sob o meu, né? O Jorge Israel, do Kid Abelha; o PC, do Lulu Santos; O Zé Nogueira, que toca com o Ney; o Léo Gandelman. O Léo, aliás, era meu fã – nós somos amigos hoje. Esses caras começaram a tocar sob a nossa influência. Então tem um respeito, uma admiração muito grande no meio musical – talvez até mais fora do Brasil. Agora, a música “Clube da Esquina”, no Brasil, não faz a menor diferença. Isso vai ser descoberto, verdadeiramente, lá na frente, daqui 50 anos. Aí sim, vai cair a ficha. Agora não tem menor condição, porque junto com um tipo de coisa dessas vem a educação, a saúde, as prioridades – que isso é resultado disso. A música não vem sozinha. Sobre o fato de falarem que alguns grupos mineiros atuais beberam na fonte do Clube da Esquina, eu não vejo isso. Não tem como beber, porque não tem condições para isso. Isso é coisa que o vento leva fácil. Eles são talentosos, são bem-intencionados, são verdadeiros. Mas não tem nada a ver. Azar deles de não quererem beber nessa fonte, porque o mundo inteiro quer. Mas não depende deles. O momento atual é que é pobre.

DISCOS
“Clube da Esquina”

Mas na gravação do disco “Clube da Esquina”, eu estava tocando com o Hermeto em São Paulo. Então eu vim para o Rio, gravei e voltei, assim como o Naná Vasconcelos, que também já estava não sei onde.

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento

Eu só comecei a participar do Som Imaginário mesmo em 74, a partir do “Milagre dos Peixes” – aí a gente rodou bastante. E depois, eu, ocasionalmente, gravei com o Bituca. Viajei, fiz muita turnê com ele na Europa, para tudo quanto é lado.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

Todas as vezes em que eu toquei em uma cidade que o Milton estava, ele foi lá. Isso foi muito bacana na minha vida. Na última vez, no Mistura Fina, Bituca estava lá. Ele estava até meio doente, mas ele foi. Mas teve muitas outras vezes, em Belo Horizonte, em São Paulo…

DISCOS
“Portal dos Anjos”

Meu primeiro disco-solo é de 78, o “Portal dos Anjos”, que é uma mexida lá nas Minas Gerais, no barroco mineiro. Eu fui altamente criticado por isso. Os caras falavam: “Porra, você é músico de jazz… fazendo um negócio de Minas Gerais?”. Ivan Lins, inclusive, queria até brigar comigo: “Pô, Minas Gerais está caindo aos pedaços”. Eu falei: “Você está caindo aos pedaços”.

FORMAÇÃO MUSICAL
As Influências

O Brasil, na minha opinião, é o seguinte: o Rio de Janeiro é a Corte, tudo veio para cá, tudo começou aqui. A Bahia é a África e a Europa, tem tudo. O Nordeste é Maurício de Nassau, negros e índios. Tem uma cultura fortíssima. O Sul do Brasil tem uma cultura que é meio Holanda, meio Alemanha, é meio separado. Para mim, o barroco mineiro trata-se do seguinte: tem suas origens na reforma religiosa que Calvino e Lutero fizeram em mil e sei lá quanto… Quando descobriram o ouro nas Minas Gerais, que a Europa trouxe o que tinha de melhor para lá, a Igreja Católica fez meio que uma contra-reforma religiosa aqui, para daqui levar para a Europa de novo. Começou ali. E esse sentido barroco se tornou forte ali por causa disso. Os habitantes de Minas Gerais naturalmente nasceram com isso no sangue. Mas ao mesmo tempo é rico, a cultura é forte. Mas eu acho pesado porque a opressão no tempo do ouro era tão forte que os mineiros ficavam calados, desconfiados. E isso ficou na maneira de ser do povo. E isso está em mim. Você não se liberta disso nunca.

DISCOS
“Som e Fantasia”/“Viagem através de um Sonho”

Eu conheci um músico brasileiro que morava na Europa, o Marcos Rezende, que foi o introdutor da música eletrônica no Brasil em 84, há 20 anos. E ele ficou fascinado com o meu trabalho com o Milton e queria me levar para a Europa. Falou: “Vamos fazer um disco juntos”. E fizemos um disco chamado “Som e Fantasia”, que é um disco que tem uma mulata na capa, com uns fios, ela carregando um queijo. Quem fez esta capa foi aquele cara da Globo, o Hans Donner. Eu falei: “Cara, mulata com um queijo… você tem certeza? Eu estou achando estranho”. E ele: “Eu enxergo assim”. E esse disco deu muito certo, porque a gente juntou Minas Gerais com o mundo. E em seguida fiz o disco “Viagem Através de um Sonho”, que foi o resultado desse trabalho meu com o Marcos e onde eu trabalhei com sons sintetizados. Realmente foi um momento muito bom. Aprendi muito com ele, e deu certo. Eu tirei aquela coisa bem artesanal mineira, bem simplória, para uma coisa mais sofisticada, mais mundo. E aí funcionou. Esse disco ganhou um prêmio, o Chiquinha Gonzaga. Foi um bom momento.

TURNÊS
Estados Unidos

A Flora mandava vários recados para mim: “Fala para o Nivaldo que eu penso muito nele”. E aí um dia ela me ligou, convidando para passar um tempo lá em Los Angeles. E eu: “Socorro!” – nunca tinha saído do Brasil, eu era recém-casado, tinha filho pequeno. Falei: “Pô, vou ou não vou?”. Fiquei naquela, mas fui. Só que antes disso aconteceu um negócio muito interessante: eu, o Vitor Assis Brasil, Márcio Montarroyos, Cláudio Roditi, Zeca Assunção, de São Paulo e o Nelson Aires, todos nós ganhamos uma bolsa para a Berkeley School, em Boston. Todos eles foram, mas eu não fui porque não tinha dinheiro. Eu era o único duro na parada e isso foi terrível. Eu fiquei numa fossa… Todo mundo foi e se deu bem lá e tal. Mas aí apareceu essa oportunidade para ir; eu falei: “Não vou para Boston, mas vou para Los Angeles.” E fiz uma turnê nos Estados Unidos de costa a costa, durante 3 meses, com show todo dia. Eu quase morri, porque a gente não tem esse costume aqui. O americano é do trabalho mesmo; eles são organizados. Mas foi bom, porque lá teve um reconhecimento muito bom. Fomos eu e o Robertinho Silva, inclusive. Ele era meu ajudante. Eu sou superdesligado, e ele ficava para trás catando as coisas que eu ia esquecendo. Enfim, deu certo, foi muito bom.

CIDADES
Los Angeles

Terminou, o Airto chegou para mim e falou: “Você não quer ficar aqui? Você fica aqui e as coisas vão aparecendo. Você está em Hollywood, cara!”. Só que Hollywood é um lugar que parece Brasília, não tem esquina nem boteco. E ninguém na rua. Todo dia parece domingo. Eu falei: “Socorro, cara, Deus me livre”. Uma vez o Robertinho estava andando na rua à noite e a polícia foi atrás dele. “O que você está fazendo aí?”. Ele: “Eu estou andando”. E a polícia: “Aqui ninguém anda. Cadê seu carro?”. o Robertinho: “Eu não tenho carro”. “Ah, não pode. Não pode. Pode voltar. Tu mora onde?” E ele: “Eu moro ali”. “Não, não pode andar aqui não.” Para você ver como é que é o nível do lugar. Então eu falei: “Eu não vou ficar aqui não”. Se eu tivesse ficado, poderia ter sido ótimo, só que eu vim embora. Mas foi uma experiência muito boa. Valeu.

TURNÊS
Europa

Em 82, eu fiz uma turnê com o Milton e o Wagner Tiso. O Milton fez essa turnê na Europa e coincidentemente eles iam lançar o meu disco, “A Tarde”, que só saiu lá. E teve o lançamento, que foi uma mão na roda, muito bom. Nessa turnê a gente foi de Portugal até Dinamarca – na Dinamarca, nesse momento, era como se a gente morasse lá. Quando se falava de Clube da Esquina, era um negócio assustador. Em Portugal não se tem idéia: a gente fazia show no Coliseu de Lisboa – que é o lugar que o Edir Macedo está querendo comprar agora, só que a população não deixou. Fizeram uma passeata na rua: “Aqui não! Igreja Universal não!”. E não deixaram comprar. E o Bituca fez três dias nesse lugar. No luar, cabem seis mil pessoas. Lotado todos os três dias, para se ter uma idéia de como que era o negócio. Depois, a gente foi para a França, Inglaterra, Holanda, Bélgica, até chegar na Dinamarca. Na Dinamarca nós ficamos uns dez dias fazendo shows, e eles iam passear de barco lá naquelas ilhas. E eu ficava por lá. Terminou o show eu fiquei lá; estava cheio do dinheiro no bolso, porque eu tocava num grupo de jazz que chamava La Fontaine, e estava no verão na época. Eu estava cheio da grana e falei: “Vou ficar aqui”. Não voltei para o Brasil e gastei o meu dinheiro todo lá. Quando eu voltei, quase apanhei, porque eu cheguei em casa duro! Fiquei uns 3 meses por lá.

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Festival de Montreaux

Eu fui em Montreaux com o Milton nessa época também. Com o Hermeto, eu fui em 79. Depois eu voltei com o Milton em 82, 84 e a última foi em 95, que eu fui com o Milton de novo, num programa que tinha Maria Bethânia e Gal Costa; um programa muito legal. Em 82 foi terrível, porque foi o dia que o Brasil perdeu a Copa e a gente estava tocando no dia, doido para ver o jogo, eu e o Wagner – a gente é muito ligado em futebol –, e ele falou: “Esse negócio de música é chato para caramba. O negócio é futebol”. E doido para ver o jogo; a gente tocando e o Brasil perdendo.

LAZER
Futebol

Eu já troquei muito a música pelo futebol. A prioridade para mim é futebol; música é segundo lugar. Tem uma história minha e do Wagner – e ele pode confirmar isso – que a gente estava no Canecão, e o Miles Davis ia tocar. Só que estava uma confusão, estava muito cheio. E esse dia tinha Vasco e Flamengo no Maracanã. Eu falei: “Tiso, esse show aqui não vai dar certo. Miles Davis está “locaço”…”. E o Miles estava “locaço” mesmo, até caiu debaixo do piano. Eu falei: “Isso aqui não vai dar certo não.” A gente tinha uma convite de cortesia, mas a gente não estava achando a moça – era o pessoal do Free Jazz – e ela não aparecia com o nosso bilhete. Eu falei: “O jogo no maracanã é às nove e meia, nove e quarenta. Tem um ônibus aqui, o Urca – Maracanã; em 15 minutos nós estamos lá, cara”. Ele falou: “É mesmo. Isso aqui não vai dar certo”. E a gente foi para o Maracanã. Deixamos Miles Davis para lá, coisa que todo mundo estava louco para ver.

PESSOAS
Wagner Tiso

O Wagner, às vezes, dormia na minha casa, porque a vó dele, a dona Clara, morava na minha rua, na rua Olinda. Acontece que o Wagner tem um irmão, chamado Gileno – que é músico também – que era o xodó da família do Wagner. Eles achavam que o Tiso não tinha talento. Falavam: “Não, você não; o negócio é o Gileno”. E era assim mesmo. Então o Gileno ficava hospedado na casa da avó lá, e o Wagner não ia. Ele não queria ficar na casa da avó, porque ele ficava na bronca com essa história. E o Paulinho Braga, que também tinha vindo do interior, não queria ir para o hotel, nem o Wagner. Então eles iam para a Igreja São José, lá em Belo Horizonte, ajoelhavam naquele negócio e ficavam ali, na missa das seis, puxando o ronco. O padre passava e falava: “Esses meninos são muito religiosos. Todo dia eles estão aqui”.

TRABALHO
Prêmios

Ganhei um prêmio em 83 da Associação de Críticos, como melhor instrumentista de sopro. Nesse tempo eu ia muito em São Paulo; o Zuza me protegia muito. E esse prêmio, como eu estava sempre me apresentando em São Paulo, acho que foi um estímulo muito bom; foi ótimo. Todos os que eu recebi foram ótimos. Foi uma coisa positiva porque não era mentira. Que nem agora, aqui no Rio tem um negócio que se chama Cjub – Charuto, Jazz, Uísque, Blog – que é uma turma de milionários daqui que fizeram esse clube de jazz, que eles pagam do próprio bolso. Cada mês é em um lugar. A Chivas paga a infraestrutura do festival e eles pagam o cachê dos músicos. E fazem crítica. Os caras são do ramo, uma turma entendida. Cara, crítica de músico é a coisa mais rara que existe. Crítica não é falar bem ou falar mal não, mas criticar com propriedade. E eles fazem isso. Então, por exemplo, um prêmio desse, por quem é de direito, eu acho muito bom. No caso, tinha o Fausto Canova, Zuza Homem de Melo, tinha uma turma em São Paulo, o pessoal era do ramo. E eles é que faziam esse prêmio. Aqui no Rio, tinha o prêmio Chiquinha Gonzaga, muito bom. E o Prêmio Sharp, que eu ganhei uma vez também. Eu acho que é válido. Com certeza.

TRABALHO
Projetos futuros

Bom, agora eu estou me preparando para lançar cinco LPs que não foram lançados: “Viagem Através de um Sonho”, “A Tarde”, “Colheita do Trigo” – que tem a participação do Milton, do Flávio Venturini, Túlio Mourão, muita gente do Clube da Esquina e que é um dos meus melhores discos –, “Viagem em Direção ao Oco do Toco” e “Balé Noturnos”, da Carlota Portela – que é um balé aqui do Rio de Janeiro. Tem também o disco “Dança dos Bonecos”, que é um filme que eu fiz a trilha. De discos são esses. E paralelamente eu estou fazendo Música de Câmera. Minha última apresentação foi com a Jazz Sinfônica de São Paulo, no Memorial da América Latina. E esse ano eu vou de novo. Eu estou escrevendo os arranjos para me apresentar de novo, com essa turnê.

FAMÍLIA
Filhos

A trilha sonora da minha vida são meus dois filhos. Meu filho se chama Mayo Ângelo e minha filha se chama Melissa. Ele é músico amador, não que ser músico profissional – eu acho ótimo. É desenhista. E a minha filha vai ser jornalista, porque ela está estudando ainda. Meu filho toca cavaquinho, acordeom, percussão. Toca vários instrumentos. E tem muito talento, mas está indo para outro lado. E eles são a trilha sonora da minha vida. Porque, na verdade, isso é que conta.

FAMÍLIA
Casamento

Eu sou casado. Da minha turma, dos meus amigos todos, do Rio inclusive, eu sou o único cara casado com a mesma mulher. Tenho 28 anos de casado.

FAMÍLIA
Filhos

Eu gostaria que meus filhos fossem – e já são – pessoas úteis a eles mesmos e ao próximo. Isso é o que conta. Ser pessoa inteira, realizada, isso aí. Músico, geralmente, é cabeça muito dançada, o raciocínio é muito rápido. A gente não tem paciência de esperar as coisas, porque a música a gente faz muito rápido, então a gente acha que a vida é assim. Mas não é.

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Educação dos filhos

Eu Incentivei meus filhos a estudarem. Eles tem bom texto porque eu pagava, digamos assim, 50 pratas por uma redação bem feita. Então meu filho ia no Maracanã, por exemplo, e eu falava: “Agora, faz a redação aí”. E ele: “Uma tarde de futebol…”. Aí ela ia fazer uma excursão e fazia uma redação. E eu corrigia. Falava: “Aqui, está vendo esse erro?”. Então eles têm texto bom, aprenderam a escrever. Eu pagava, e nisso eles aprenderam a valorizar o dinheiro também. Mas eles não estudaram música; foi uma grande dançada, porque eu acho que tudo contribui para alguma coisa. Para estudar música, você não precisa ser musicista. Não custa estudar, se não fizer bem, mal não faz. E com os meus filhos, pelo fato de eu ser músico, deixei correr muito mambo. Eu falava: “Eles já estão no ambiente, vai ser o que vai ser”. Mas não é bem assim não. Eu tenho uma afilhada, e falei para a mãe dela outro dia: “Faz o seguinte: ela tem um ano, coloca Mozart – mas aquele Mozart leve, suave – para ela dormir. Ela vai acostumar e isso faz bem à alma. Um minuetozinho, aquilo envolve, faz bem, e ela já começa a despertar o gosto”. Mas eu não fiz isso com meus filhos. Deixei correr, porque eles já ouviam música o dia inteiro mesmo, comigo estudando. Um dia falaram do John Coltrane, que eu ouvia muito, para o meu filho. Ele falou: “Isso eu ouvi a minha vida inteira!”. Ele ouviu muito mesmo. Mas eu acho que você tem que forçar um pouquinho a barra. Cedo, até cinco anos de idade; vale a pena. Tudo que investir, funciona.

TRABALHO
Avaliação

Quando você chega a uma etapa da vida, você acha que mudaria tudo. Eu faria tudo de novo, de outro jeito, com certeza. Eu agradeço a Deus pela oportunidade que me foi dada, primeiro, de viver, que já é um privilégio. Segundo, de conhecer as pessoas que eu conheci. E depois, pelo talento que Deus me deu. Quem é músico geralmente fica na dúvida se o seu talento é de mais ou de menos. Tem hora que acho que eu não tenho talento nenhum; tem hora que eu acho que eu sou um gênio. E isso ocupa seu tempo. Horas e horas pensando nisso, é uma loucura. Tudo o que você faz nunca é o bastante e quando alguém elogia, você fica na dúvida se aquilo é ironia, se é verdadeiro, qual a intenção. Eu acredito que todo artista tem um pouco isso.
Claro que precisa da vaidade, porque ela é a mola que impulsiona. Mas tem hora que a gente fica na paranóia ferrada. E vivendo de novo, eu acho que eu ia ser muito mais relaxado em relação a isso. Dar mais valor às pessoas, ao lado humano. Isso é que conta. Provavelmente, eu devo ter perdido muita amizade na minha vida, porque música geralmente era prioridade. Às vezes você conhece pessoas e elas vão ficando. A gente faz muita amizade, mas, de repente, muita gente que poderia ter sido importantíssima ficou ao longo do caminho. Porque o mundo nosso é dinâmico demais. Você está aqui, agora está ali. De repente está na Europa. Mas, depois de um certo tempo, você descobre que o mundo é tudo igual, as pessoas são todas iguais. O Egberto falou comigo uma época: “Você está vendo aqui? A gente está hoje aqui, está vendo? Amanhã, noutro lugar, é a mesma coisa”. A reação das pessoas é mesma coisa: um que chega perto, fala uma coisa, aplaude… Tudo igual. E a gente custa a descobrir isso. E, na verdade, o que conta é isso aqui.
Eu, toda a minha geração e muitos artistas no Brasil vivemos o seguinte momento: no Brasil, o espaço para coisas mais elaboradas está diminuindo cada vez mais. Um dia eu falei até para o pessoal: “Tanto faz no meu caso, se eu tocar ou não tocar, não faço a menor diferença. Coloca outro no meu lugar. Ninguém vai se importar”. Apesar de eu ter feito um trabalho que a gente está até falando dele agora, isso hoje não tem a menor importância. Não é engraçado? Vê como é que as coisas mudam. São ciclos. No momento eu vejo assim. Esse movimento Clube da Esquina, o.k., bacana. Mas não faz a menor diferença no Brasil de hoje. Hoje os caras estão fazendo ídolos da noite para o dia, nesses programas aí. A televisão domina e pronto.
Esse projeto que vocês estão fazendo é para colocar dentro de um lance para ser aberto daqui a algum tempo. Mas eu acho ótimo ter participado. Isso tem uma tremenda importância, me sinto gratificado de estar participando. Agradeço a vocês por isso. Mas o que eu estou falando é verdadeiro. O momento é esse que eu estou falando. Acredito que vai mudar de agora para a frente. Tem muito a ver com a situação política do nosso país; não é só música. Eu sou músico e os músicos também têm mania de achar que tudo parte da música. Coisa nenhuma! A vida é muito maior do que a música, do que o sujeito faz. É tudo. E o nosso país está vivendo o que vocês estão vendo que está vivendo. Existe a perda da autoridade, de respeito mútuo nas coisas. Então isso influencia. Eu acho que o tipo de arte que a gente faz é mais sofisticada, precisa de entendimento. A letra que o Márcio e o Fernando fazem não é: “Meu amor foi embora e voltou…”. Não é… “Amanhã você vai lá hoje” – não tem esse papo. É poesia. Mas, de qualquer maneira, a minha fé continua, não perco. Amém! Mas eu não vou mudar não. Não se muda.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Como eu falei, o pessoal do Clube da Esquina fez todo esse movimento sem pretender fazer. Fez porque era natural, porque era verdadeiro, era o momento. Mas as coisas andam, caminham. O Brasil era um país, hoje é outro. Amanhã vai ser outro. O pessoal vai precisar investir na educação de novo. Eu acho que o Golpe Militar no Brasil desestruturou completamente o sistema educacional no país. A escola aqui era ótima. Eu fiquei impressionado com o negócio da avaliação educacional que fizeram há pouco; o resultado foi baixíssimo. O cara chega para fazer vestibular de Economia e não sabe fazer continha de tabuada. Mas nossa contribuição foi feita, ela está aí. Uma contribuição absolutamente sincera, sentida, doída, sofrida. É uma vida, uma época.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

Três encontros que eu e o Bituca tivemos foram muito interessantes. O primeiro, em um lugar em Belo Horizonte chamado Tip Top. Naqueles momentos de agonia, ele não sabia o que fazer, não tinha lugar para tocar. Então ele falou: “Mas eu sinto que uma hora vai ter um caminho. Não pode, não tem cabimento. Porque tem muita coisa aqui dentro”. Eu falei: “Eu sinto a mesma coisa. Só que eu tenho aqui a minha casa. Você não tem. Você tem que ir; eu não preciso ir para o mundo. Eu vou ficar”. Ele falou: “Eu vou”.
Depois, no dia em que nós trouxemos o “Milagre dos Peixes” no Teatro João Caetano aqui, terminou o show e no camarim foi uma choradeira geral, porque estava muito bonito, com a orquestra. Só que rapidamente sumiu todo mundo. Abraça daqui, abraça dali, mas de repente estávamos eu e o Bituca sentados no meio-fio, literalmente. Eu falei: “Mas como é que é isso?”. Ele falou: “O sucesso deve ser isso, então. Isso é que é o sucesso”. “Então não vou dar conta.” Aí nós fomos para o Leme, onde tinha um lugar chamado El Cid. E tomamos todas. Aí eu falei: “Bituca, engraçado, porque eu sinto que uma hora vai dar certo”. Porque teve aquele lance todo, mas ninguém estava nem aí. Muito engraçado isso.
Aí passou o tempo. O Márcio Ferreira – que foi um empresário do Milton, que morreu cedo – foi muito importante na minha vida, porque ele me protegia, onde eu fosse. E ele é que me reencontrou com o Milton. A gente estava separado, estava meio arestas e tudo. E ele falou com não sei quem: “Eu preciso juntar o Nivaldo com o Milton de novo. Não pode. Eu preciso fazer isso”. E fez. Ele me viu tocando – eu gravei um disco tocando hino, só hinos: Nacional, da Bandeira, essas coisas – e ele ficou fascinado. E teve um 7 de Setembro que o Fernando Henrique, que era presidente ainda, convidou um coral de crianças chamado Curumim não sei o quê, o Milton e eu para tocar o Hino Nacional. Foi muito emocionante. Isso em Brasília. Aí encontrei com o Bituca e ele falou: “Eu estou lembrando do nosso encontro. Nós estamos aqui, né? Você tinha razão”.

TRABALHO
Parcerias

Teve um grupo em Belo Horizonte que se chamava Quarteto Contemporâneo. Eu, Paulinho Braga, Tibério César e Jairo Moura. A gente se apresentava na Rádio Guarani de Belo Horizonte, num estúdio que tinha lá. Esse foi meu período mais fértil. Foi ali que a gente realmente descobriu o universo que estava à nossa espera. E esse foi um momento espetacular.

TURNÊS
“Milagre dos Peixes”

Outro momento fabuloso foi um momento em que o Milton reuniu a turma de novo, no “Milagre dos Peixes”. A gente rodou o Brasil e foi um momento para não ser esquecido. Para ser lembrado.

TRABALHO
Avaliação

Cada disco que eu fiz representa um momento da minha vida. É que nem um sujeito que escreve os seus livros. E eu costumo falar que eu sou um pintor que pinta quadros e vai colocando no ateliê. Algumas partituras vão servir pra embrulhar pão, fatalmente. Mas está lá. Meu ateliê está cheio de quadros; está abarrotado. Não vai ter nem marchand para tanto. Mas está lá. Eu faço música de Câmara, que é música entre a música erudita e a música popular. Música para pequenos grupos. Escrevo música no computador, tenho um material muito grande; perto de 200 peças. E está lá. Eu não vou fazer a menor força para isso, porque não adianta; não em um momento como esse, em que o espaço está realmente pouco. Mas está lá, está registrado. Eu estou pintando os meus quadros e eles estão lá. Não produzo para ninguém; produzo porque produzo. Eu pinto porque pinto. E, enfim, tá lá.

Fale na Esquina

Uma mensagem para Nivaldo Ornelas

  1. @cdigest disse:

    Simplesmente maravilhoso! 🙂