Novelli

| | |

« « Retornar a página anterior

Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/ Local e data de nascimento

Meu nome é Djair de Barros e Silva. Nasci em Recife, Pernambuco, no dia 20 de janeiro de 1945.

FAMÍLIA
Pais

Meus pais se chamam José Henrique de Barros e Silva e Alice Marques de Barros. O meu pai era comerciante. Ele tinha – naquela época chamavam de compartimento – umas lojas no mercado de São José, que é como é o Mercado Central aqui, como na Bahia é o Mercado Modelo. Em 1957, ele vendeu tudo que tinha e levou a família pra Garanhuns, que é uma cidade na serra agreste de Recife. E Garanhuns tem um festival de música muito interessante que já tem uns 10 ou 12 anos. Então eu vivi parte de minha infância em Recife e um pouco mais em Garanhuns, antes de ir pro Rio de Janeiro pra fazer o que acontece até agora.

FORMAÇÃO MUSICAL
As influências

Lembro muito bem da minha infância em Recife. Foi muito musical, convivi com uma coisa limpa, pura de carnaval, de brincadeira, sem violência, a música no alto-falante e no rádio, alto-falante em praça e a coisa do rádio. A primeira impressão foi de ouvir uma música, sempre uma música brasileira, um pouco misturada com um bolero mexicano, com uma canção italiana ou até francesa. E americana, claro, até hoje, e começar a descobrir um interesse do dom. Então, por exemplo, eu brinquei carnavais puros, onde as pessoas jogavam talco, pó-de-arroz. Lança-perfume era pra dar um refresco, não era pra tomar um porre, ficar doidão. Era pra refrescar, porque dá um friozinho. Tinha os blocos e os palhaços, aquela coisa africana de maracatus, os reisados. O reisado é uma coisa mais ibérica, um pouco árabe também. Caboclinhos, um negócio mais indígena. E sempre na rua. Vem daí uma informação de brincadeira, mas também já de música.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação musical

Essa coisa de sarau caseiro eu não vivi muito. Talvez pelo fato de o meu pai trabalhar muito, não ter muito tempo pra esses desfrutes, na minha origem não tinha muito não. Eu me lembro que eu cantava, que a coisa original da minha história de música era cantar, eu não tocava nenhum instrumento. E quando tinha visita lá em casa, numa hora que meu pai tinha uma possibilidade de receber, ele me colocava pra cantar. Nós éramos 9 irmãos, mas ele me colocava pra cantar, eu pequenino assim. E eu cantava com muita vergonha, muito envergonhado, ficava atrás de uma porta cantando músicas do Cauby Peixoto, Custódio Mesquita. Tinha um alagoano que eu adorava, cantando “Adeus meu norte querido” – Augusto Calheiros, fantástico –, que era a mesma música que eu ouvia nos alto-falantes da praça e rádio, essas coisas.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Pais

Minha mãe era muito silenciosa, cantava discretamente. Ela teve nove filhos: oito homens e uma mulher. A mulher era no meio da história. Nasceram quatro meninos, nasceu a mulher e depois nasceram mais quatro. Com uma casa com nove irmãos, a convivência era apertada, delicada. E, nos vários estágios da idade, era um pouco precário de espaço. Quando a gente foi para Garanhuns, curiosamente meu pai foi estimulado por um dos meus irmãos mais velhos, o Reinaldo, que trabalhava com meu pai lá no mercado São José, em Recife, e que tinha resolvido ir para Garanhuns e tinha se dado bem. Isso atraiu meu pai. E o Reinaldo falou o seguinte ao meu pai: “Venha se associar comigo que aqui está o Eldorado.” (Risos) Meu pai fez exatamente isso: vendeu tudo que tinha na capital. De certa forma ele inverteu um processo de migrar.

Voltar ao topo CIDADES

Garanhuns

Eu cheguei a Garanhuns de 11 pra 12 anos, em 1957. Eu já estava acostumado a mudança. Eu viajava de trem de Recife pra Garanhuns quase todo ano porque o meu pai tinha sido gerente de uma relojoaria. E meu pai era muito ligado aos libaneses, comerciantes, uma coisa bem nordestina, da Bahia, de Pernambuco, de outros lugares. Inclusive os libaneses ficavam indignados porque as pessoas chamavam eles de turcos e é muito distinta a cultura. (Risos) Eles não gostam. “Tem turco novo aí na praça, não sei que lá.” E o cara não era turco, era libanês, é uma outra história. Eu tenho um irmão que tem como padrinho um comerciante libanês. E meu pai já tinha estado em Garanhuns antes desse meu irmão, o que o convidou. “Venha pra cá, se associe a mim, vende que aqui é que está bom.” Então meu pai já tinha um negócio com Garanhuns. Ele definiu e foi. E em Garanhuns, já adolescente, comecei a ter um relacionamento maior com o negócio de ouvir música, de procurar, de saber o que eu queria. Eu freqüentava muito a Rádio Difusora. Tinha uma discoteca lá e já em 59 – eu já tinha uns 14, 15 anos – eu comecei a ouvir João Gilberto. Na verdade, a bossa nova. A bossa nova, como dizem, dividiu a etapa, fez a divisão de águas.
A minha relação com música era uma coisa bem tradicional. Ao que tinha de moderno eu não tinha acesso porque ali no interior não chegava. Eu não sabia que tinha Johnny Alf. Eu sabia que tinha Ary Barroso, Custódio Mesquita, que era uma coisa que me impressionava pela beleza, não pela modernidade. A modernidade eu passei a conhecer com a bossa nova. Foi uma diferença realmente chocante. E na Rádio Difusora eu ia pra discoteca e ficava ouvindo, entre 59, 60, 61. Foi um aprendizado de freqüentar diariamente, religiosamente, ver as novidades, o que é que tinha chegado. E eu não tinha nenhuma informação erudita e jazzística, não tinha, não sabia quem era Miles Davis. E em 59, o Miles Davis já tinha gravado um disco, que eu fui conhecer depois no Rio de Janeiro, que se chamava “Quiet Nights”. Aí eu falei: “Puxa, que coisa!” Eu não tinha acesso. O disco Quiet Nights é Corcovado, em inglês. E também nesse mesmo disco tinha: [Cantando] “Aos pés da Santa Cruz, você se ajoelhou”, a música do Mariano Pinto. Depois tem um outro autor que me foge agora. E tinha também uma música do folclore gaúcho que era: [Cantarolando] “Vou me embora prenda minha”. Inclusive tem uma malandragem já antiga dos americanos. Essa música está registrada no disco como sendo do Miles Davis e do Bill Evans, que era o arranjador do disco. Chama-se “Song number two”, canção número dois, e na verdade é uma música lá dos gaúchos, lá dos pampas. (Riso) Isso aí faz parte da minha vivência no Rio de Janeiro. Mas na Rádio Difusora de Garanhuns tinha acesso a uma coisa que talvez fosse mais importante, que é o João Gilberto. Foi fundamental na minha geração dos cinqüentões. É um divisor muito impressionante. Com certeza que o Caetano, Chico, o Bituca, todo mundo está nessa, tranqüilo. Assino embaixo o que eu estou falando aqui.

Voltar ao topo EDUCAÇÃO

Estudos

Eu insisti pra ver se fazia pelo menos o ginásio. Fiz o terceiro ano e aprendi por exemplo um pouco de francês, de latim, porque eu repeti várias vezes, por falta de freqüência, falta de vontade, preguiça, mas aprendi umas coisas. Mas nunca me atraíram vestibulares e diploma. Quando eu faltava na aula era porque estava jogando sinuca, futebol, paquerando. Era a bola preta da escola, bola pretíssima. Houve uma época que eu tive uma professora muito severa, a dona Almira. Ela era irmã do diretor. E um dos meus irmãos, dos mais velhos, casou com uma sobrinha dela. É uma família Valença. O Alceu Valença é dessa turma aí. E a dona Almira em alguns momentos era também secretária. Era professora de matemática e secretária. E algumas vezes eu dei aula de matemática, porque ela ia atender alguma coisa na secretaria e falava: “Djair, continue a aula pra mim, por favor”. E eu nunca entendi isso, porque eu não sabia nada, mas acho que ela estava a fim de me estimular e, de repente, acreditava que eu tinha competência. E a matemática é uma coisa profundamente ligada à música. E eu nunca consegui ter paciência pra estudar o bê-a-bá. A minha passagem escolar não é muito digna, realmente eu não tinha muita paciência pra ficar sentado ouvindo. Mas muita coisa me atraía, sim. História, por exemplo. Mas eu estava mais a fim mesmo era de saber o que é que o João Gilberto queria dizer com aquilo.
Tem uma música de um mineiro, não sei se é Roberto Guimarães: [Cantando] “Amor, amor de primeira vista, amor de primeira mão é esse que chega cantando, sorrindo pedindo entrada no coração”. Eu não queria saber quem era o autor da música, o que me interessava era o cara que estava ali tocando e cantando. Muitos anos depois eu até conheci o Roberto, o autor dessa música que, se não me engano, está no primeiro disco, o Chega de Saudade. Já tinha uma coisa mineira querendo se insinuar.

CIDADES
Rio de Janeiro

Em 62, eu tinha 17 anos. A música pra mim era só uma coisa de bar, de cantar com um cara, sempre tendo que ter uma cara pra me acompanhar, tocando um violão, essas coisas. E em 62, eu fiz uma viagem pro Rio. Como meu pai já tinha desistido, já sabia profundamente que eu não estava a fim de estudar, de me diplomar em absolutamente nada, ele então me liberou. Me deu um dinheiro e eu peguei um ônibus na estação rodoviária de Garanhuns. Levou uns quatro dias de viagem pra chegar no Rio, uma coisa horrorosa. Foi 62. E eu tinha uns 17 anos e fique uns seis meses no Rio tentando. Cheguei a cantar em programa de televisão, cheguei a conhecer alguns músicos e tal, mas eu não tinha idade pra freqüentar. Tinha um show na época, num lugar chamado o Bom Gourmet, uma coisa assim, que era João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Os Cariocas. Mas eu não tinha nem dinheiro, nem idade pra… Na época tinha uns caras que ficavam na porta, que eles chamavam leão-de-chácara, hoje em dia chamam de segurança, e tinha uma placa assim: “Proibido até 21 anos”. Então não adiantava, porque eles não deixavam. Tinha um show também nessa época do Chico Anysio, o grande comediante e ator, e um violonista chamado Mão de Vaca, acho que já falecido. E era impressionante porque o Mão de Vaca acompanhava o timing do Chico Anysio contando histórias e piadas. Mas também não dava pra entrar. Eu cheguei até a flertar um pouco assim com os leões-de-chácara da época. Mas seis meses depois, o meu pai fez uma viagem de negócios pra São Paulo, passou pelo Rio e me levou de volta.

FORMAÇÃO MUSICAL
Profissionalização

Voltando a Garanhuns, no fim de 62, eu e um grupo de músicos, amigos, nós fundamos um conjunto pra fazer baile e ganhar um dinheiro. Porque eu não estava a fim de estudar, então tinha que me virar. Meu pai não ia me dar dinheiro, não ia me sustentar. Ia me dar um auxílio qualquer assim. Aí eu falei: “Bom, já que eu quero me profissionalizar, o lance é esse”. Então nós fizemos um conjunto de baile em Garanhuns. E eu era o crooner. Não tinha baixo no conjunto; o baixo foi uma coisa futura na minha vida, muito importante. E eu botei o nome do conjunto de Nouvelle Vague. Porque, quando eu ia a Recife, ficava com um dos meus irmãos que estudava lá e morava numa pensão. E tinha uma sessão de cinema aos domingos, chamavam de matinal, e passavam os filmes do Godard, do Truffaut, do pessoal da Nouvelle Vague francesa, aqueles filmes, o Acossado, a Chinesa, aquelas histórias, e eu era assíduo freqüentador. Aquilo me atraía como atraiu uma geração. Aí eu falei: “O nome do conjunto vai ser Nouvelle Vague”. Isso originou o meu apelido, meu nome artístico. O Djair de Barros e Silva virou Novelli. E com o negócio de baile no interior de Pernambuco nós criamos fama, porque a gente tocava de tudo. Em 63, eu ganhei dois discos, dois álbuns dos Beatles, edições americanas, capas belíssimas, não sei onde andam esses discos. Um chamava-se Introducing to the Beatles e o outro, Meeting the Beatles. Eram capas diferentes dos originais, dos primeiros discos dos Beatles, daquelas músicas estilosas, I Wanna Hold Your Hand. Eu cantava no baile, cantava em francês, em italiano, tudo mentido, cantava Beatles, cantava bossa nova, cantava assim, era uma miscelânea.
Quando eu falo “mentindo” é porque eu entendia o que eu queria dizer, mas eu não tinha, digamos, a pronúncia. Era uma coisa. O francês era melhor, o inglês era profundamente forçado. Tem até uma garota nesse recente programa, no Big Brother, que cantava uma música que era uma coisa grotesca. Eu não chegava a ser grotesco daquela maneira, mas é por ali, como referência é aquela coisa: ai uana arro iorran. [Riso] O pessoal adorava. E como também não sabiam o que eu não sabia, aquilo passava batido, passava liso, tranqüilo.
Então, a partir dessa coisa dos bailes no interior e de uma certa projeção, você já almeja: “Vamos pra Recife”. Em 65, o Nouvelle Vague se mudou de armas e bagagens pra Recife. E não tinha baixo.O conjunto era acordeão, guitarra, bateria e um percussionista que tocava um bongô, uma maraca e uma escaleta, que é aquela que chamam de porrinhola, que na verdade somava, era o mesmo som que o acordeão já fazia. Então em Recife nós contratamos um baixista, o Oswaldo Guedes, que é o cara que me apelidou de Novelli, com sotaque. Porque o nome do conjunto era Nouvelle Vague e ele falava que eu era o cantor Novelli. E ficou. E marcou.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Instrumentos/ Baixo

Até aí eu só cantava. Aí nós ensaiamos pra fazer um programa na TV Jornal do Comércio, a música era “Influência do jazz”, uma música do Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli: [Cantando] “Pobre samba meu, foi se misturando”. E eu ia cantar. À tarde nós ensaiamos, marcação, televisão, aquelas coisas e à noite o Oswaldo Guedes não apareceu. O instrumento dele estava lá, eu não cantei e peguei o instrumento. E era pra fazer uma mímica, pra não ficar feio aquela coisa, mas eu entendi a mecânica de uma maneira mágica, como é um instrumento afinado em quartas, isso eu vim saber 20 anos depois. “Ah, que tom é esse?” “É Fá maior. “E a nota é essa aqui, isso aqui que é o Fá? É a tônica do assunto?” “É.” Aí eu falei: “Ah, olha só, então quer dizer…” Pouco tempo depois eu ia dar uma canja pro Oswaldo Guedes, ele trabalhava numa boate chamada Samburá, em Boa Viagem, uma praia lá do Recife. E ele adorava quando eu ia. Eu, pra aprender a tocar o instrumento, ia dar uma canja pra ele. E ele adorava porque aí ele não trabalhava. E eu ficava a noite inteira. E o baixo acústico é um instrumento muito pesado e na época, em 1965, não tinha esses encordoamentos. Hoje em dia são mais leves, as cordas eram de couro, de tripa, não sei o quê. Você tinha que fazer uma bolha, esperar que a bolha rompesse, feria, até fazer o calo pra poder tirar a sonoridade no instrumento. Eu nunca tinha tocado nada antes e sou autodidata até hoje.
Tecnicamente eu nunca estudei. Cheguei a tentar, no Rio com a Wilma Graça, uma professora importante, mas com quatro aulas ela falou pra mim: “Você compõe?”. Eu falei: “Componho”. “Então toca uma música sua.” E desistiu de me dar aula porque eu não tinha a menor capacidade de aprender nada, não tinha a menor paciência, não tinha jogo nenhum.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

Eu descobri isso de compor cantando no chuveiro. Cantando no chuveiro, falei: “Pô, taí uma idéia. Eureca! Pô, isso aqui dá música”. E começou aí, mas tocar um instrumento ajuda muito. Dá mais segurança. Eu respeito muito, principalmente os sambistas, os cantadores de coco, os repentistas. Às vezes o cara não precisa de um instrumento – se bem que os repentistas têm uma viola apoiando – mas, na verdade, os partideiros no Rio de Janeiro, por exemplo, são fantásticos, os caras não tocam nada e saem cantando, e musicalmente têm um sistema e está tudo certo, uma capacidade muito grande. Mas já que estava no baixo — o baixo é um instrumento que dá uma nota básica e o acorde vem a partir daquilo, um instrumento de harmonia, digamos assim, mais expansivo que seria um violão que tem seis cordas, que faz acordes, o piano que é o campeão mundial, é o Pelé dos instrumentos, como diria o Tom. E aí comecei também a dedilhar um violão, a ficar curioso no piano pra ajudar a compor. E compor eu acho que é o essencial na minha coisa. O contrabaixo é a referência, digamos, de um reconhecimento, de participação em tantos trabalhos, mas acho que se perguntarem assim: “Você é o baixista ou é o compositor?” “Eu sou um compositor, é o que melhor eu faço.” Acho que eu levei um tempo pra entender isso. Por isso que o baixo foi tão rápido. Com quinze dias dando canja lá pro Oswaldo Guedes, eu tocava muito melhor que ele. E ele só tocava há 30 anos. E ele que falou isso: “Pô, Novelli, o cantor Novelli, eu levei 30 anos pra… não sei tocar nada. Você está há duas semanas dando umas canjas aqui e já toca mais do que eu”. Aí passava a mão no meu ombro, que era um gesto carinhoso de músico pra músico assim: “Esse cara é fera, não sei quê”.
Eu acho que o compositor não tem reconhecimento. Acho, porque é essencial a gente entender que a nós, brasileiros, temos uma expressão cultural de beleza, de verdade, de poder, muito especial. Houve uma época em que a música americana tinha até um certo domínio. Hoje não tem mais. Não só está no nosso domínio, como é uma riqueza cada vez maior. Aqui em Belo Horizonte, então, é covardia. O que eu conheço de jovens fazendo uma música de alta qualidade. Porque – essa coisa do Museu do Clube da Esquina – o que nos traz aqui nesta conversa é a qualidade dessa música brasileira. Você não pode regionalizar, afinal de contas. O Clube da Esquina não é um só uma coisa de músicos mineiros, tanto que eu sou de Pernambucano, o Milton é carioca – só que é muito mais mineiro que muito mineiro, com perdão da força de expressão, não quero, digamos assim, assuntar nada crítico. E nos trabalhos assim tem músicos de tudo quanto é lugar, tem Pat Matheny, Herbie Hancock, tem João Donato, tem o Maciel, Edson Maciel, tem Edson Machado, Robertinho Silva, Luís Alves e, naturalmente, o grande núcleo é mineiro, pô, na raiz inclusive: é o Milton, o Beto, o Lô, o Wagner Tiso, o Helvius Vilela, uma galera.
Eu falei a princípio que a composição é a música brasileira. A canção brasileira, nos seus diversos movimentos, atualmente não tem nem perto uma coisa no mesmo nível. É claro que a característica das músicas de variados países é uma coisa muito pessoal. Você ouve uma música japonesa ou uma música da Índia, sei lá, música árabe… Mas, eu digo, a essência da beleza, pra mim… não por ser brasileiro. Se eu estivesse na Índia adoraria sentir essa mesma sensação. Quando eu ouço uma modinha não sei de quem, não me interessa, pra mim é impressionante o sentido de verdade, de beleza: [Canta] “A lua que no céu surgiu”. Isso pra mim não tem similar. Já teve talvez na canção americana. E, na verdade, a América é um acidente. A canção americana é feita dos judeus, russos, não sei de onde, da Hungria, refugiados, asilados, e a canção brasileira não. A canção brasileira parte daquela coisa que o Villa-Lobos viajou pra poder pesquisar e ouvir in loco, aquela coisa do índio, do caboclo, do rural, do sertanejo, ela está nas entranhas, na raiz, ela não é uma coisa trazida, ela é uma coisa que nasceu aqui. [Sussurra] Nada mais tenho a dizer [Risos].

CIDADES
Recife

Em Recife era só música. Em Garanhuns era jogar sinuca, futebol, malandragem, mas em Recife não. Em Recife era 24 horas de música. Não, 24 horas não. Tinha uma hora que eu namorava. Teve uma época que eu namorava bastante, apaixonado como sou até hoje. E o negócio do crooner tinha isso, uma bela oportunidade. O crooner e o pianista eram os caras que ganhavam mais aquele setor delicioso. [Risos]
As artimanhas da sedução do crooner era cantar, escolher uma música com uma letra bem eloqüente… Quando eu assumi essa vocação, o medo da família passou a ser admiração. Ganhei o respeito do meu pai principalmente. E ele sentiu que não tinha solução e passou a me receber com mais delicadeza.

Voltar ao topo TRABALHO

Atividades profissionais

Eu passei pelo trabalho, mas muito pouco, até pra corresponder um pouco à coisa do meu pai, de me ver nele, pra poder convencê-lo que eu não estava à toa na vida, que não ia ser um cara que ia ficar na sinuca o tempo inteiro ou no futebol à toa. E aí trabalhei com tecidos, miudezas. No Rio, nessa época, em 62, nos 6 meses que eu passei lá, eu vendia bolsas escolares. Era uma firma gaúcha em que eu fiz um teste, passei, e então usava paletó e gravata e ia visitando casas no Leblon, na Lagoa, na classe média alta, pra vender bolsas escolares. Era um plano assim: “Você paga agora uma coisa que o seu filho vai fazer tudo, vai fazer o primário, o colegial, faculdade, tudo. Compre hoje”. [Risos] Era uma invenção e eu ganhava uma comissão em cada bolsa que eu vendesse. Era interessante isso. Era um bom vendedor.

CIDADES
Rio de Janeiro

Nessa primeira fase no Rio de Janeiro, com os músicos que eu admirava, essa coisa, eu não tinha a menor chance. E nordestino, então… Porque os preconceitos são vários. Não há só preconceito de cor, claro. Todo mundo sabe disso. E tem uma coisa que, digamos, não é uma questão muito severa. Acho que até é natural. Até no Nordeste, uma cidade, um bairro tem preconceito contra o outro, tem uma coisa assim. E realmente foi uma impressão que eu tive de cara no Rio. É assim: se você fosse se apresentar a um músico famoso, se você fosse daquela área, a manifestação do cara era diferente; se o cara achasse que você era nordestino e coisa e tal, tinha uma banca, uma pose de cara agressivo, talvez até medo: “Esse cara está querendo tomar o meu lugar. [Risos] Sai fora mano”. Tinha uma pose. Hoje é maior e mais disfarçado, é mais triste até, mas que ainda existe preconceito, existe. Mas a música resolve essa coisa. Quando os caras sentem que você é do ramo, acaba esse preconceito, você passa a ser um par, a fazer parte do meio. O homem é produto exatamente dessa coisa. Aí eles esquecem esse negócio, aí eles admitem você como seu par. [Risos]

FORMAÇÃO MUSICAL
Preferências musicais

Depois do Recife, volto pro Rio de Janeiro tocando baixo. Aí já com mais possibilidade de trabalho. Crooner ficava meio difícil e o contrabaixo já me dava mais possibilidade de me colocar, de me sustentar. Nessa época, 65, 66, eu já comecei a conhecer os músicos que também migraram: o Wagner Tiso, o Chiquito Braga, esse pessoal de Minas, o pessoal de São Paulo, paraenses, cearenses. E eu já comecei a dividir mais aquela precária vida de… Inclusive o movimento, o Beco das Garrafas, que era um lugar que centralizava, já estava no fim. Tinha um negócio de Jovem Guarda emergente. A bossa nova já não dominava. Já tinha Roberto Carlos. “Quero que tudo vá pro inferno”, aquelas coisas. O mercado já não era tão assim pra instrumentista. Houve uma época, na época da bossa nova, no auge, tinha 800 trios no Brasil. Nessa época não. A gente tinha que se virar tocando na noite. Já não tinha aquela coisa dos trios gravarem, estarem sempre acompanhando um grande artista. O músico ganhava bem, estava sempre elegante, de paletó e gravata, sapato novo, aquelas coisas. A gente não.
Essa geração nossa, do Wagner, do Milton, do Nivaldo Ornelas, Helvius Vilela, já é uma coisa mais precária. A gente tinha que encarar a noite, se virar pra trabalhar ganhando pouco, morar numa vaga. Mas valia a pena porque estava na juventude, força, puta tesão, aí dava tudo certo. E eu comecei a conhecer, a ter também acesso, por estar sendo visto por uns caras mais da elite. A primeira pessoa que me convidou pra fazer um trabalho que eu senti que eu ia conhecer aquele pessoal – pois da primeira vez não teve nem a menor chance, e na segunda vez tinha que ser porque ali era definitivo, foi definido na minha cabeça que eu ia ficar no Rio e ia ter que ser companheiro desse povo – foi o Mário Castro Neves. Ele era de uma família de músicos, o Oscar Castro Neves, o Ico, o Léo e o Mário Castro Neves. Ele me abriu um caminho realmente. Isso já de 66 pra 67.
Depois houve um movimento lá chamado Música Nossa. Reunia os músicos e eu passei a conhecer mais gente, o Roberto Menescal, esse pessoal que eu só ouvia lá em Recife, em Garanhuns, na Rádio Difusora. Eu ouvia esses caras. E trabalhei com um músico muito importante, um pianista de Santos Dumont, uma cidade aqui de Minas, Antônio Eugênio, o Toninho. Ele tocava muita coisa de jazz, música brasileira, mas com uma acentuação diferente. Eu já tinha ouvido em Recife um músico americano chamado Dave Brubeck que tinha muita música em compasso composto, cinco por quatro, cinco por oito, nove por oito. Era uma coisa que eu falei: “Como não leio partitura, eu vou ter que ouvir isso aí e assimilar o tempo que está, pra poder tocar junto e não me perder, não incomodar ninguém”. E o Toninho me ensinou muito isso. Antônio Eugênio, de Santos Dumont, é um mineiro na minha vida, antes do Milton, do Wagner. E esse movimento Música Nossa me deu a possibilidade de conhecer muita gente. Aí fiz amizade com Marcos Vale, parcerias. Conheci o Bituca nessa época, o Milton, por causa do festival, já em 67.

Voltar ao topo PESSOAS

Wagner Tiso/ Milton Nascimento

Conheci o Wagner Tiso ali no Beco das Garrafas, que já estava no fim O Wagner tocava com um músico. Era piano e bateria, não tinha baixo, revezando com um trio. Por exemplo: tinha um trio que era titular, tocava 40 minutos, e enquanto eles iam descansar, nos 20 minutos, entrava o Wagner e o Maurício Chiapeta, que era um baterista lá de Recife que migrou comigo. E eu tocava bateria e cantava numa boate lá perto com o Raul Vini, que era um pianista de Recife também. Eram os pernambucanos invadindo e se misturando com os mineiros. [Risos] E era engraçado porque o Wagner ganhava, digamos, quatro reais, e o Maurício, o baterista, ganhava três reais. Eu ganhava sete reais e não era baterista. [Risos] Mas pra me encaixar, eu cantava e tocava bateria com um pianista fazendo os 20 minutos para um trio descansar de seus 40 minutos. E tinha um Beco da Fome, no Rio, que era um lugar onde a gente ia quando acabava de tocar umas três, quatro horas da manhã, porque era um lugar que dava pra pendurar a conta. Não tinha dinheiro, mas tinha que comer, tinha que jantar depois de uma turnê, de uma maratona de tocar a noite inteira. E a gente se encontrava no Beco da Fome e ficava jogando conversa fiada até amanhecer.
Nós morávamos numa pensão de uma mineira, dona Gasparina, na rua Santa Clara. Morávamos eu, o Wagner, um outro baterista de Recife também, o Normando, Eduardo Piu-piu, um pianista… E quando aconteceu o negócio do Milton classificar três músicas num festival, eu morava com o Maurício, que era o baterista que trabalhava com o Wagner. E o Wagner morava num outro lugar, num negócio de vaga. É uma senhora que tem um apartamento e está precisando de um dinheiro e aluga um quarto para rapazes e moças solteiras respeitáveis. [Risos] Coisa que nós não éramos mesmo… E quando aconteceu o negócio do Milton, o Milton estava hospedado num hotel no Catete e eu morava numa vaga, num quarto com o baterista, e o baterista viajou com uma companhia, chamava-se Brasiliana, pra Europa. E o Wagner já tinha me falado: “Olha, esse cara aí que classificou três músicas, que estão falando nele, o Milton Nascimento, é meu companheiro de infância lá de Alfenas, Três Pontas”. Aquela coisa lá do sul de Minas, não sei o que lá. “E é fera, coisa e tal.” E falou pro Milton: “Tem um pernambucano aqui que quando vocês se encontrarem vai ser aquela coisa”. Aí eu estava num bar, o Bar do Careca, onde se reunia o grupo Manifesto. Estávamos sentados eu e o Normando, que era o baterista que morava com o Wagner. Sentou o bom crioulo à mesa e o Normando, em determinado momento, falou: “Pô, Novelli, pede mais uma cerveja aí”. E ele falou: “Você é o Novelli?”. E eu passei a conhecê-lo.
Então o Maurício foi pra Europa, eu fiquei sozinho na vaga e chamei o Bituca pra ficar comigo dividindo o preço da vaga no lugar do Maurício. E o Bituca foi, porque o hotel onde tinham colocado ele no Catete, além de ser longe da muvuca, era um hotel precário, coisa do Festival Internacional da Canção. Só que, em seguida, o Wagner e o Normando tiveram que sair da vaga e foram morar com a gente, quer dizer, onde cabiam dois… E a dona Renê, que era dona do apartamento, muito gentilmente compreendendo aquela coisa, colocou dois beliches. Onde mal cabiam dois, foram morar quatro, e todo fim de semana chegavam lá Toninho Horta, Marcinho Borges – porque o Bituca estava já em comentários. Então às vezes ficavam seis, sete, oito pessoas naquela coisa e a dona Renê com uma paciência impressionante. Todo mundo duro, né? [Risos]

Voltar ao topo FESTIVAIS

Festival Internacional da Canção/ Festival da Record

A minha primeira ligação com o festival é nesse que Milton tinha “Travessia”, “Morro Velho”, “Maria Minha Fé”, que nós conhecemos, agosto, setembro, outubro, fim de 1967. Mas eu só toquei em uma música, chamada… Os compositores eram o Alcivando Luz e Carlos Coquejo, era o MPB 4 que defendia e eu tocava baixo. O Alcivando inclusive tocava um violão com uma afinação diferente e eu sei que eu me lembro que era o MPB 4. Tem um livro na casa do Murilo Antunes, A Era dos Festivais, mas eu não lembro do nome da música não. Mas é a minha primeira relação com festival. E mais uma vez conhecendo novos músicos, Geraldo Vandré, não sei mais quem, aquela turma, Marília Medalha. Depois, num Festival da Record, em 68, 69, aí sim tem a primeira música em festival que eu consegui classificar, que é uma música que se chama “O Viandante”, música minha e do Wagner Tiso e a letra do Paulo Sérgio Vale. E em 70 pra 71, se não me engano no último Festival da Canção, foi a segunda vez que eu, como autor, consegui classificar uma música em parceria com o Luiz Eça. Se não me engano, o último festival. Aí já era música do Luiz Eça e letra minha. E as minhas músicas nunca passaram nem… Porque eram 40 músicas, e se classificavam 20 pra final. Mas valeu a pena ter participado dessas coisas porque eu passei a ter mais intimidade no nível de amizade com muita gente que posteriormente virou parceiro, amigos do peito, como Chico, Toquinho, Paulinho da Viola, muita gente.
Então o Nelson Angelo foi pra lá e o Milton conheceu o Ronaldo Bastos. O Ronaldo Bastos é fluminense, é de Niterói. Depois já tem outras adesões, tipo Joyce, carioquíssima, Zé Rodrix, que veio depois a formar o Som Imaginário, um grupo histórico com o Milton, e aí começou a misturar a coisa que origina o Clube da Esquina. Tem a coisa da rua da Esquina, aqui de Belo Horizonte, mas na verdade concretizou-se talvez no Rio, a sair do eixo mineiro, sair do curral pra ir pro mundo.
Eu participei do “Clube da Esquina 2.” Não me lembro onde eu estava no “Clube da Esquina 1”. Quando eu cheguei de uma viagem de algum lugar que eu não me lembro – não lembro se eu estava no México, ou na Grécia, eu estava em algum lugar perdido neste mundo velho de Deus – eu ganhei de presente uma fita de rolo e era como uma matriz do disco Clube da Esquina. Era o dia inteiro: “Com sol e chuva”. Eu ficava o dia inteiro por conta daquilo. [Risos] Eu e outros. Eu estava recém-casado, inclusive estava voltando do México. Eu perdi a possibilidade, mas na frente eu ganhei muito mais. Porque na seqüência do trabalho, tem o disco “O milagre do peixes”, primeiro gravado com a censura, num estúdio.

Voltar ao topo DISCOS

“Milagre dos peixes”

“Milagre” já é assim uma continuação do “Clube da Esquina”, mais eclético. Não é um trabalho que reúne só os mineiros. O “Clube da Esquina 1” é bem mineiro. Na seqüência do trabalho, já se unem outras personalidades.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composiçõe
s
A composição de “Viandante” é minha e do Wagner e a letra é do Paulo Sérgio Vale. A minha primeira música gravada realmente eu não me lembro, mas antes eu já compunha com o Marcos Vale. Tem umas músicas que até ficaram conhecidas. Tem um frevo, “Pelas Ruas do Recife”. [Canta] “Pelas ruas do Recife todo ano tem quatro dias de folia e a alegria vem pra mostrar que frevo e animação marcam passo no compasso no mesmo cordão”. Esse já tinha sido gravado pelo Marcos em 67 pra 68. A primeira música que eu fiz eu não me lembro. É um negócio do chuveiro, foi num chuveiro, mas eu lembro da emoção de compor minha primeira música.
É uma música que nunca foi gravada. É uma canção bem nordestina, que eu fiz a música e a letra eu dividi com um cara que não tinha nada a ver com música, o Paulo Silvestre, um amigo de colégio em Garanhuns. Ele era de Recife, era interno em Garanhuns. Eu namorava uma garota e ele namorava a irmã da garota. E quando eu fui pra Recife em 65, com o Nouvelle Vague, nós reatamos. Ele já não era mais interno lá em Garanhuns e ele se casou inclusive com a irmã da minha namorada de Garanhuns. E nós fizemos a música assim: [Canta] “Quando eu era criança na minha terra distante quanta festa e a esperança de que durasse bastante, do alto-falante se ouvia a música oferecida, o cantador de embolada cantando a alegria da vida, num desafio falava do que é bom e do que é mal, do que é certo e o que é incerto nesse mundo desigual”. Era uma suite, tinha vários movimentos, tinha um que falava uma coisa de: [Canta] “Marujada vai pro mar, já chegou o dia de ir pra longe”. A música terminava assim. O nome da música não sei, mas isso nunca foi gravado não. Mas eu tenho a letra em casa e me lembro da música. Eu tenho vontade de gravar. Na verdade, eu gravei muito pouco. A minha discografia é um disco com o Toninho Horta, o Beto Guedes e o Danilo Caymmi, produzido pelo Nelson Angelo, em 1973, na Odeon. Na verdade, era pra cada um fazer um disco, mas a indústria: “Não, junta os quatro, se quiser”. [Risos] Aí: “Vamos”. E juntamos mesmo e aparece o Beto Guedes, que eu conheci assim de relance, já com umas composições diferentes, com um negócio pop, de uma qualidade impressionante. Vocês conhecem o “Belo Horror”: [Canta] “Não quero você mais na minha casa”. Aí teve uma confusão. O Toninho… Eu sempre fui um grande fã do Toninho. Acho que ele é um dos grandes músicos que eu conheci na minha vida… Um cara muito inspirado, instrumentista, compositor, arranjador, um cara muito carinhoso com a música. Eu não consegui até hoje ser assim tão dedicado, não, [Riso] confesso.

DISCOS
“Milagre dos Peixes”

Foi a primeira vez que eu toquei junto de umas feras. Eu tocando baixo acústico com arco. Na frente eram Robertinho Silva na bateria, o Toninho Horta, guitarra, o Nivaldo Ornelas, sax e flautas, o Wagner Tiso comandando o piano – um tecladozinho assim – e o Bituca tocando violão. Mas tinha uma orquestra atrás e eu estava tocando com a orquestra, tanto que é o único disco que tem o meu nome real, Djair de Barros e Silva, está lá nesse disco, o resto é tudo Novelli. Mas essedisco é o único. O Bituca cismou de botar no crédito, “contrabaixo: Djair de Barros e Silva”, muito engraçado. E eu tocava ao lado, acho que eram dois violoncelistas, não era uma orquestra grande não, 8 violinos, 2 violas, 2 cellos, e era o Peter Daughbert um dos violoncelistas que estavam lá, o outro eu não me lembro bem, está nos créditos do disco. E o Peter me ensinou a dar as arcadas, que o naipe tem que tocar uma coisa uniforme, assim, pra não ficar feio. Um está pra lá e o outro está pra cá, tem que ficar aquela coisa plástica, bonito esteticamente. E curiosamente eu trabalhava com Egberto Gismonti também nessa época, e no grupo do Egberto Gismonti eu tocava baixo acústico e o Peter Daughbert tocava cello, Paulo Moura era sax, flauta essas coisas, Jane Duboc cantava e tocava um teclado e o baterista mudava muito, às vezes era o João Palma, às vezes era o Everaldo Ferreira, às vezes era o Rubinho. Mas nesse núcleo, então, eu já não tinha medo do Peter, eu já tinha uma intimidade com o Peter.
Porque é complicado, ainda mais que eu que nunca estudei. Eu estou tocando ali com os caras que são professores de uma orquestra sinfônica, tem que tocar afinado e pra valer mesmo, senão você está fazendo o que ali? Está mentindo, né? Não pode mentir. Essa é a hora da verdade. Aí “Milagre dos Peixes” me deu essa coisa do trabalho, do prazer do trabalho, mas também musicalmente me instruiu muito, me amadureceu, me deu segurança, me garantiu em muitos aspectos. É um trabalho muito importante. Às vezes eu ficava olhando pra platéia, era Chico Buarque, Francis Hime, músicos ansiosos pra ouvir aquilo ali.

PESSOAS
Milton Nascimento

O Milton é paralelo ao João Gilberto, também um divisor de águas. Apareceu com uma força muito grande, uma coisa diferente, muito forte. Muitos elementos novos: novos caminhos harmônicos, rítmicos, poéticos. Eu vi a admiração que os caras, os músicos, Oscar Castro Neves, Tom Jobim… Os caras ficavam babando com aquela música. No Festival Internacional de 67, que tinha “Morro Velho”, “Travessia” e “Maria Minha Fé”, tinha um júri, críticos, músicos Pro pré-festival, os caras escolhiam ouvindo fitas, três mil fitas de todo o Brasil. Os caras tinham que escolher 40 músicas que eram selecionadas pras eliminatórias, pra final. Na época tinha a Geny Marcondes, que era uma musicóloga, tinha o Eumir Deodato, que é muito importante na vida do Milton, o Agostinho dos Santos, que foi quem obrigou. O Milton morava em São Paulo e o Agostinho dos Santos, sentindo o talento, o dom diferente, fortíssimo, quase que obrigou o Milton a gravar numa fita cassete as três músicas. O Bituca nem estava querendo saber disso, não estava nem ligando pra isso. Aquela vida sofrida em São Paulo, aquela coisa dos primórdios e o Agostinho dos Santos que levou e registrou as músicas. E nessa audição dos jurados que iam escolher as 40 músicas, o Eumir Deodato quando ouviu não sei que música, falou: “Que beleza, essa vai”. E depois ele falou: “Olha, esse mesmo autor, já passaram duas músicas dele que vocês não ouviram direito não, eu estou aqui quieto, mas vamos reouvir?” Que eram três mil fitas, haja saco pra ouvir três mil fitas. “Então vamos voltar lá atrás.” Aí o Eumir Deodato convenceu os caras: “Olha aí, está tudo aqui”. Isso só foi o começo.
O primeiro disco do Bituca na verdade foi gravado, que é o primeiro disco de autor, solo mesmo. Ele já tinha gravado no Sambacana com Pacífico Mascarenhas, já tinha uma música gravada pelo Tempo Trio, que era o Helvius Vilela, o Pascoal Meireles e o Paulinho Horta – saudoso Paulinho Horta, irmão do Toninho –, e A Gente Sonhando, uma música do Milton com o Márcio Borges, isso é jurássico. E o primeiro disco do Milton foi gravado logo depois do festival com o Tamba Trio e arranjos do Luiz Eça. É um disco que tem a capa preta. É um disco da Codil que era uma companhia, um selo de um idealista, o Marcos Pereira. Não, não é Marcos Pereira. O Marcos Pereira fez um outro selo depois. É outra história, me foge o nome. Mas era um cara que apareceu na época e que produziu, bancou o primeiro disco de autor do Milton, que tem as músicas, aproveitando o embalo do festival.

Voltar ao topo DISCOS/ PESSOAS

“Courage”/ Milton Nascimento

O “Courage” é o segundo, com o Eumir em Nova Iorque. Foi quando o Milton conheceu o Herbie Hancock. Estava o Eumir como arranjador do “Courage”, que é um disco gravado em Nova Iorque. O Som Imaginário não tem nada a a ver comigo no sentido de que eu nunca fui integrante. A essência é Zé Rodrix, que é o cara. Era o Zé Rodrix, Tavito, Fredera, Wagner Tiso, Luís Alves e Robertinho Silva. Esse é o Som Imaginário. E eles iam fazer um som com o Milton e o Zé Rodrix, muito inteligente, falou: “Milton Nascimento, ah, e o Som Imaginário”. É daí que nasceu o nome. Ficou o “Ah”. O Som Imaginário é como quem diz assim: “é o Milton, mas nós estamos aqui também”. Eu toquei com eles em estúdio, mas ao vivo acompanhando o Milton. Houve uma época em que a banda do Milton era eu, o Wagner, o Toninho, o Nivaldo e o Paulo Braga e as pessoas achavam que era o Som Imaginário. Mas eu faço questão de dizer que na verdade não era o Som Imaginário. Foi essa moçada que marcou mesmo, que inclusive deu uma dimensão diferente ao som do Milton, que já era poderoso. Os caras empurravam mesmo, era impressionante. Era um acontecimento muito distinto do que rolava, mesmo com o poder do Chico, do Edu, do Dory, do Francis, Caetano e Gil, mas não chegava nem perto da novidade. Tanto que eles eram fãs.
Uma vez eu fui a uma festa assim, na época do festival, eu e o Bituca, e conhecemos nesse mesmo dia o Francis, o Edu, Erlon Chaves. E uma hora em que o Milton pegou o violão, acabou o papo, acabou a corte e passou pra outro departamento, matou todo mundo. O Edu, o Francis ficavam assim querendo entender de onde surgia aquela coisa. Isso eu testemunhei. Então realmente era muito interessante. Uma pessoa chega e dá uma concepção que é própria, mas que era assim extensiva. E é muito interessante, porque foi na mesma época em que o Toninho Horta, que é um músico tão forte quanto o Milton, também chega ali, [Canta] “Litoral é chão que acaba em mar”, no mesmo festival. Só que o Milton tinha três músicas classificadas. Só quem tinha três músicas classificadas, isso nunca aconteceu, era o Vinicius como letrista. O Vinicius tinha uma música acho que com o Francis, tinha uma música talvez com o Edu e uma outra com Ekel Tavares, que era um músico erudito. Mas o Vinicius podia. Não era de se estranhar. Agora, “quem é esse cara?”. Bom, o cara classifica três músicas num festival cheio de cobra, pô. Esse cara não pode ser brincadeira. [Risos]
Ele também sempre teve uma capacidade muito grande de agrupar pessoas. É o campeão. O negócio do Clube da Esquina é exatamente isso. Eu vejo uma grande possibilidade com essa história do Museu de ter um “Clube da Esquina 3”. O “Clube da Esquina 2” é um absurdo de gente que participa. É uma coisa. O estúdio era o tempo inteiro assim, cheio de pessoas, de músicos, de gente, de tudo… E é impressionante a adesão. Às vezes nem era isso. O cara estava lá, como eu, naquela coisa que eu falei. Eu fui receber um cachê lá e terminei gravando a versão original do “Nascente”. Eu toquei piano, o baixo é do Toninho Horta. Isso aconteceu outras vezes. Aí, por exemplo, o João Donato estava lá de bobeira, assim: “Pô, vamos lá cara”. E o João Donato chega e toca piano numa música lá no “Clube da Esquina 2”, Olho d’Água. É uma música belíssima do Paulinho Jobim, que está no disco “Saudades do Brasil do Tom”, com outro nome, um nome inglês talvez. E o Ronaldo Bastos fez uma letra. E o Donato está de piano e de repente o João Donato também toca trombone, ele e o Edson Maciel. Quer dizer, é uma coisa muito maluca, brasileira. O Donato não tem nada a ver com o Clube da Esquina mas passou a ter, definitivamente. Isso é um pequeno exemplo da multidão que ficava ali. Às vezes tinha um coro de 60 pessoas, e todo mundo cantava.
O clima da gravação era surreal. Salvador Dalí seria considerado um aprendiz de feiticeiro do surreal que acontecia. Aquela coisa era um movimento. Beto Guedes mordendo o cabelo, passando gente, coisa e tal. Chegavam umas moças que acabavam também gravando no coro, as namoradas, as esposas. É que se sabia que o que estava acontecendo ali no estúdio era uma coisa. Todo mundo queria participar, às vezes tinha gente de cinema, terminava todo mundo cantando, gente de teatro aparecia, gente de tudo, literatos, era uma confusão danada. E nada ensaiado, nada preestabelecido. Se chegava o Chico, então: “Se o Chico está aí, tem que gravar uma música que o Chico participe”, mesmo que houvesse uma música do Milton com Chico, digamos, uma parceria recente, O Cio da Terra, sei lá, mas não, aí o Chico é quem dizia: “Não, não, nós vamos gravar uma letra, uma versão que eu fiz pra uma música do Pablo Milanês”. Na verdade, cantada em espanhol e em português: [Canta] “El nacimiento de un mundo se aplazó por un momento, fue un breve lapso del tiempo”. Aquilo é que ia pintar e eu nunca tinha ouvido falar nessa música. Nem eu, nem Wagner, ninguém. E aprendíamos a música, tínhamos que aprender a música e gravar. Tanto que saiu um disco duplo. É exatamente pelo volume de participação. Na verdade, ele teria que ser duplo, porque ele é conseqüência e seqüência do primeiro, que é um dos discos pioneiros. Talvez até o primeiro álbum duplo seja o “Clube da Esquina 1”, salvo engano.

FORMAÇÃO MUSICAL
Shows

Eu fiz um trabalho com a Gal que é bem considerado, o “Fatal”. O baixista do “Fatal” era eu. Tinha o Lanny Gordin, o Jorginho Gomes, irmão do Pepeu, e dois ritmistas que eram dos Novos Baianos, o Baixinho e um outro, o Charles, sei lá. E o Pepeu inclusive entrou no lugar do Lanny na metade do show. E é um disco importante na carreira da Gal, é um disco meio lisérgico inclusive, da época de 1970, 71 e talvez ele tenha uma capa dupla, mas não são dois discos. É um disco só.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

O “Clube da esquina 2” é de 77 pra 78, porque entre 74 e 77 estão o “Minas” e o “Geraes”. No disco “Minas”, a música que abre o disco é uma música minha, que se chama “Minas”, só que mesclada com “Paula e Bebeto”. Aquele coro infantil, “lá lá lá”, mas a música é aquela que eu toquei aqui no piano. A primeira canta “com o coração”, depois ela teve uma letra do Ronaldo. E ela fecha o “Geraes”, com orquestra, arranjo do Francis Hime, com letra. E a música que fecha o “Minas” é uma música do Nelson Angelo, que abre o “Geraes”. Então tem essa pequena confusão. A minha música abre o “Minas”, vocalizada, e fecha o “Geraes” com letra e com orquestra; e uma música do Nelsinho, que acho que é “Simples”, fecha o “Minas” e o “Fazenda” abre o “Geraes”.

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento

Nesse período eu estava trabalhando com o Milton nos Estados Unidos. Tem dois discos que nós gravamos nos Estados Unidos. Entre 74 e o “Clube da Esquina 2”, o Milton foi contratado pela A and I Records, que era uma gravadora do Herbie Albert, um trompetista que fez muito sucesso com Tijuana Bros, que é uma orquestra americana. E o Sérgio Mendes inclusive gravava aqueles discos de grande sucesso mundial por esse gravadora. E ela era agregada à EMI. No Brasil ainda era Odeon, hoje em dia é EMI. E a A and I era do Herbie Albert e do Jerry Moss. E o Herbie Albert era um músico de sucesso também com Tijuana Bros. E ele era casado com Leny Hall, uma grande cantora, uma moreninha que cantava com o Sérgio Mendes. Tinha uma loura e uma morena. Leny era esposa do Herbie Albert e talvez a Leny Hall tenha falado: “Tem um músico lá no Brasil que você deve capturar. É o Milton Nascimento, um compositor, um cantor, um músico e vamos lá”.
O Milton assinou um contrato e nós gravamos dois discos lá entre 75 e 78. No meio de “Minas” e “Geraes” e “Clube da Esquina”. É fantástico: Airto Moreira, Raul de Souza, Herbie Hancock, Wayne Shorter, Hugo Fatoruso, Toninho, Nelsinho, Naná Vasconcelos. Um dos discos foi co-produzido pelo Ronaldo Bastos e o outro pelo Fernando Brant. É muita sorte na minha vida em tão pouco tempo ter feito tanta coisa. Terminei fazendo um disco com o Airto Moreira lá. Co-produzi o disco com ele, fiz uns arranjos e coisa e tal. Aquelas coisas de estúdio, eu, o Toninho, o Hugo Fatoruso, o Milton. A Flora Purim gravou uma música minha, “Tomara”, com Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro e eu não assisti à gravação. O Toninho é que ficou e fez uma partitura. E o pianista que está na gravação – é só a Flora e um pianista – é o Micoy Taynner, que era um dos meus ídolos jazzistas. Mas eu já tinha voltado para o Brasil e o Toninho é que ficou lá assumindo o meu lugar, pro cara tocar as harmonias, as minhas harmonias. Mas de qualquer maneira ele botou umas coisa dele lá que foram muito bem-vindas.
Então o Marcos Vale estava lá e eu conheci um cantor inglês chamado George Fame, que eu já sacava de um Festival Internacional da Canção, daqueles lá no Rio. O George Fame foi intérprete em um daqueles festivais. E foi a maior coincidência, porque o George Fame gravou “Pelas Ruas do Recife”, que é aquele frevinho meu com o Marcos. [Risos] O Laudir de Oliveira morava lá e tocava com o Chicago, era um grupo muito importante. Ele era o percussionista brasileiro que… Depois que o Airto tocou com o Miles Davis, criou-se uma…: “Pô, os percussionistas brasileiros é que são o negócio”. Tanto que alguns, Paulinho da Costa, Dom um Romão, Naná Vasconcelos, esses caras são mundialmente conhecidos, mas o Airto Moreira foi um pioneiro. É impressionante.

Voltar ao topo VIAGENS

Estados Unidos

Essa experiência nos Estados Unidos me influenciou de outras maneiras: a cultura, a comida, o paladar, aquela coisa que eu tinha como uma referência realmente era musical, porque o povo não. E Los Angeles é uma cidade muito grande, se você não tiver um carro, você não existe, você vai almoçar na casa de uma pessoa e é uma hora de carro aonde o cara mora, aqueles vales. E tem uns bairros, uma periferia, os mexicanos, os chicanos, que é a favela, e tem Hollywood, estranho, esquisito. Eu falei: “Não, eu realmente vou com uma música: com a minha, porque a deles eu já conheço suficiente e não quero mais não. Vou ficar com minha que está melhor”. Porque, na verdade, o que eu estou falando é a música, a palavra que pra mim sintetiza tudo: a vida. E aquela vida pra mim não é atraente não. Se falassem assim: “Você quer morar aqui e ganhar um milhão de dólares por mês?” Eu respondia: “Quero não, eu prefiro ficar duro lá no Rio, em Recife, sei lá onde, em Belo Horizonte, que ficar aqui, pô”. Isso aí é maluquice.

Voltar ao topo EVENTOS HISTÓRICOS

Ditadura militar

Eu freqüentei reuniões, eu sabia onde tinham aparelhos, eu escondi livros, escondi pessoas. Eu não era tão alienado assim, mas não posso falar de cadeira que eu tenha participado. A música pra mim era uma prática mais interessante como protesto, como forma de conviver. Nós morávamos num prédio, em 68, na rua Xavier da Silveira, eu, o Bituca, o Helvius Vilela, o Nivaldo Ornellas, o Celinho… Eu cercado de mineiros como sempre, aquele pernambucano ali no meio da mineirada. E o prédio era moradia de oficiais do exército aposentados, eles chamavam Monte Pio, e nós moramos um ano e nunca houve uma questão. E era uma bagunça, era festa, birita, som alto. Nunca houve reclamação, nunca apareceu, isso era um mistério. E foi nesse lugar inclusive que eu escondi pessoas, livros e coisa e tal. Lugar mais seguro impossível. E tinha aquela coisa do: “Pô, vamos no Teatro Gláucio Gil hoje? Vai estar lá o Paulo Mendes Campos, vai estar o Vereza, aquele ator”. Seriam os oradores. Eu ia, mas aquilo não tinha muito… Na terceira vez é como você ouvir um estilo de música o tempo inteiro. Por mais que você ame, aquilo vai encher o saco, vai saturar. No bom sentido, porque aquilo era muito importante, mas eu estava muito mais localizado numa forma de música. Mas estive nas passeatas, fui. Convivi com dramas de amigos presos, torturados, mas pessoalmente eu não posso dizer que sofri conseqüências tão severas como muita gente sofreu. E eu chorei, claro. Me emocionou muito.

FORMAÇÃO MUSICAL
Preferências musicais

Canções, eu adoro as canções. Acho que é uma coisa que, realmente, repito, é o que nós temos de melhor na nossa alma, na nossa postura, na beleza, na nossa verdade: é a canção brasileira. O ritmo tem uma grande importância, apesar de folclórico. Eu venho de um lugar, Pernambuco principalmente, que é muito rico. Você tem xote, maracatu, baião, coco, embolada, repente. Tem muita coisa pastoril, maracatu, reisado. Aqui em Minas você tem congadas, folias de reis. É uma confusão danada, modinhas e não sei quê. Então o Brasil é um absurdo, mas eu me localizo mais na canção, na beleza da canção, na coisa mais lenta, mais onde poeticamente o cara tem mais chance de expor a emoção ou a tragédia, o drama. Você vê que argentino tem isso no tango que é aquela coisa: é bonito mas não tem aquela beleza que você vê num: [Canta] “Ah, meu bem amado”. A Elis Regina cantando isso, “Quero fazer-lhe um juramento, uma canção”, é bonito o tempo inteiro, “eu prometo”. É brincadeira! [Risos] Se você desconfiar disso…
Tem uma coisa que me toca mais profundamente: o Milton cantando “Sem Fim”, que tem uma gravação original da Nana, e a Nana que me perdoe – mas ela sabe disso, a gravação da Nana inclusive é a primeira gravação da música. Mas o Milton gravou essa música e inclusive tem uma coisa curiosa. Ele escondeu de mim porque queria me fazer uma surpresa. É um disco chamado “Mil Tons”, que ele gravou metade com o Herbie Hancock e metade com o Naná Vasconcelos. Então essa música chama-se “Sem Fim”, é a primeira música que eu fiz com o Cacaso, que é mais um mineiro na minha vida. E é muito emocionante. A gravação da Nana é muito bonita, mas a coisa do Bituca com o Herbie é mais, digamos assim, visceral, tanto que eles mudaram acordes. E ele escondeu de mim. Mas só que por coincidência eu fui com o Carlinhos Vergueiro – compositor, parceiro meu, que tinha que marcar uma gravação dele – no mesmo estúdio, Transamérica. A gravadora é a mesma do Carlinhos e do Milton, a Ariola. Hoje em dia é BMG, uma coisa dessas.
E quando entrei com o Carlinhos no corredor onde ficam os estúdios, estava o empresário do Bituca, que na época era o Marcinho, uma pessoa daqui, falecida já, de Belo Horizonte. E tinha um cara que era um músico que tocava com o Djavan, que tinha um teclado lá pro Herbie Hancock tocar, e esse cara fazia uma programação, negócio de computador, pra tirar uns sons adequados pro negócio. Tinha o piano de cauda, o piano acústico, e tinha um teclado. E esse tecladista, esse músico que tocava com o Djavan, estava ali pra fazer a programação. Bota um disquete aí, pinta um som que o Herbie gosta, aí toca, faz aquela cobertura. Como não tinha orquestra, então o teclado servia. Então, quando eu estava no corredor – eu não sabia de nada –, o empresário e esse músico chegam, e me recebem falando: “Que música linda”. Eles já estavam ensaiando no estúdio, o Herbie e o Milton, e eu não estava entendendo nada. Eu falei: “Que música?” “A sua música que o Bituca está gravando.” Eu falei: “Ah, é? O Bituca está gravando uma música minha? É mesmo?”. Aí eu apareci lá e assisti à gravação. [Risos] Ele ficou meio puto. Ele queria era fazer uma surpresa.

FAMÍLIA
Filhos

Vai fazer 34 anos em junho que minha esposa e eu somos casados. Eu tenho três filhos. O mais velho vai fazer 33 anos, é baterista e mora em San Diego na Califórnia. Me deixa saudade e apreensão. Luíza vai fazer 32 anos. Minha filha canta legal mas não quer nem saber disso. E tem um temporão, que é o Fábio, mora em Florianópolis, também me dá saudade e apreensão. Tem 24 anos já. Eu conheci a minha mulher… ela era da produção de um show que a gente fez na PUC lá no Rio, no auge, em 68, o AI-5. E o show era o seguinte: eu tocava num show chamado Viola Enluarada, com o Marcos Vale, o Milton, acho que a Beth Carvalho também, eu, o Danilo Caymmi, o Antônio Adolfo, o Vitor Manga. E a Lucy, minha esposa, foi lá. Eu conheci na casa do Marcos Vale. Ela foi lá com uma outra pessoa pra pedir ao Marcos para arrecadar fundos, talvez, até pra guerrilha, sei lá, luta armada. Mas era pra arrecadar fundos. E eram o Milton, o Marcos, o Nelson Motta estava também na história, era o apresentador se não me engano, e a atração era o Geraldo Vandré, e é claro que a polícia pintou, pintou tiro. E eu conheci a minha esposa nessa onda aí.
Depois eu tocava com o Luiz Eça num restaurante, night club, sei lá, chamado Flag, e a Elis ia muito lá, a Elis, a Maysa. Eu tocava baixo e nos intervalos eu cantava uma música assim: [Canta] “Minha, vai ser minha, desde a hora em que nasceste”. E ficavam minha mulher e uma amiga dela, a Martinha, olhando pra mim. E a Lucy, a minha mulher, achava que eu estava a fim da Martinha, até que eu falei: “Você está enganada”. Seis meses depois juntamos os trapinhos.

PESSOAS
Elis Regina

Trabalhei com muitas divas. São distintos temperamentos, eu posso dizer assim, então você é que tem que temperar. A Elis, sensacional, tem uma história também bastante pitoresca. Eu trabalhei um ano com a Elis. Éramos eu, o Nelsinho e o Toninho nas duas guitarras, o Wilson das Neves, bateria, o saudoso Hermes Contesini, percussão, e o Sérgio Carvalho, que é um gordinho que toca com o Roberto Carlos, teclado, o Bolinha. Era um sexteto e a gente acompanhava a Elis. Nós gravamos um disco que se chama “Ela”, que na discografia da Elis é talvez o único trabalho que eu não gosto. E por acaso eu estou tocando no trabalho. Eu não sei, é uma coisa assim que não me soou bem na época, mas eu também não protestei, relevei. E depois nós fizemos uma turnê, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, aí chegou em Recife, na minha terra, era talvez o último show, e antes de ela cantar a última música, ela falou pra platéia assim: “Gostaria que vocês aplaudissem com bastante força esse grupo, esses músicos maravilhosos, porque hoje é o último dia que eles trabalham comigo”. [Risos] Sutil, sutil como um mamute. É o lado pitoresco da baixinha vesga. Uma vez o Wilson das Neves falou pra ela assim: “Olha, Elis, eu não quero tomar banho na sua piscina, mas não vem furar a minha bacia”. Boa, né? [Risos] Ela era muito adorável nos bons momentos. Mas era complicada. A Maysa já tinha uma relação assim: depois de alguns copos dava medo. Um approach muito poderoso. [Risos] Dava um certo medo. E tem outros temperamentos. A Alaíde Costa é um anjo, uma doçura, ela até fala de uma maneira diferente. [Imitando] “Você precisa ouvir”. É uma coisa muito generosa e tranqüila. A Nana, temperamental, grande cantora.

PESSOAS
Taiguara/ Hermeto Paschoal

Uma vez eu estava em casa lá na Barra e tocou o telefone. Era o Taiguara. Ele estava preparando um disco. Ele morava no outro lado. Eu morava de um lado da praia e ele morava no largo da Barra. E na época, o Taiguara gostava de tomar uns chás de cogumelo, ficava doidão, mas era uma inspiração. E o Taiguara estava hospedando o Hermeto Paschoal, por quem eu tinha uma grande admiração. Já tinha conhecido o Hermeto em São Paulo. Ele tocava num bar lá, no largo do Arouche. O bar era do pai do Lanny Gordin, que acho que era pianista, era sócio. Tinha um cara que tocava. Chamava-se Star Blues, uma coisa assim. Acho que existe até hoje no Largo do Arouche. E quando eu estava em São Paulo, na época gostava muito de ir pá lá, porque era o Nêne, bateria, um gaúcho maravilhoso, o Hermeto, o campeão do hospício musical, aquele duende, o Lanny Gordin tocando lá, o Alberto, um baixista gordinho. Então eu já conhecia o Hermeto delicadamente.
Aí tocou o telefone lá em casa e o Taiguara falou: “Olha, eu preciso de você”. Eu falei: “O que é que é?” “É que eu tinha um baixista aqui… Eu estou ensaiando um disco e tal, na Odeon, e o Hermeto está aqui em casa, eu estou hospedando o Hermeto.” Aí estava o Nivaldo, o Paulinho Braga, o Wagner Tiso, o Toninho Horta. “Você não quer fazer o baixo, não, nesse disco?” Eu falei: “Você paga o táxi e só”. E quando eu cheguei na casa do Taiguara, não era longe, era no outro lado da Barra, quando o Hermeto me viu – e dizem que o albino não enxerga bem, e é verdade, mas na verdade ele sabia que eu estava chegando, naturalmente o Taiguara falou – ele falou assim: “Chegou quem estava faltando”. Isso calou muito fundo, pô. O Hermeto Paschoal falar isso… Deve ser um pouco difícil extrair dele uma coisa assim. Isso me deu aquele ego. Falei: “Puta!” Eu fiquei à vontade. E é um disco do Taiguara maravilhoso. Chama-se Eimira, Tipira, não sei quê lá, nomes tupi-guarani. O Taiguara é chegado. Acho que a mãe dele, o pessoal da fronteira ali, das Sete Missões, Uruguai, Argentina, Rio Grande do Sul, aquela praia… O pai dele, inclusive, Ubirajara, tem nome de índio também, e toca bandoneon muito bem.

Voltar ao topo CLUBE DA ESQUINA

Avaliação

Eu acho que o Clube da Esquina é da esquina do mundo. O Pat Metheny inclusive achava que era um clube, quando mostraram pra ele aqui em Belo Horizonte. “Não, é aquilo ali cara.” “Mas como?” “É aquela esquina ali, the corner.” [Risos] The Corner Club. E o disco “Clube da Esquina 2” era um disco de cabeceira. Ele acordava e a primeira a primeira coisa que ele fazia era clicar um botão lá e começava a tocar as coisas. E naturalmente ele virou um admirador do Toninho Horta, por tabela do Milton e passou a fazer parte. Ele tem vários trabalhos com o Toninho, com o Milton.
O que se deve a esses mineiros é uma coisa talvez planejada pelo grande músico lá de cima. Eu acho que era isso, apesar de haver um relacionamento bastante interessante entre Pernambuco e Minas. Tem coisas… O Nelsinho é Cavalcanti, o Nelson Ângelo, e ele falou que tem os Cavalcantis de lá e os daqui. Lá também tem muito Cavalcanti e, digamos assim, os grandes poetas contemporâneos mesmo, os que subiram o degrau superior, eles são pernambucanos e mineiros: É Drummond, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, João Cabral… Tem essa coisa. Você tem o nosso querido pernambucano que escreveu “Casa Grande e Senzala”, o Gilberto Freyre. E tem um contemporâneo, o Sérgio Buarque, mas você vê a letra do Chico: “O meu pai era paulista, meu avô pernambucano, o meu bisavô mineiro, meu tataravô baiano e o maestro soberano, Antônio Carlos Jobim.” E está bom, ficamos por aí. Já está ótimo, né? É isso aí.

Voltar ao topo MUSEU

Clube da esquina

Tinha que ser a iniciativa do Márcio Borges, porque ele é assim. Inclusive é o mentor do Milton. Quando o Milton veio de Três Pontas pra Belo Horizonte, o Marcinho é que enturmou o Milton. Assim como, de certa forma, o Mário Castro Neves, o Antônio Adolfo, o Wagner, cada um me enturmou no Rio. Então é claro que tinha que ser o Marcinho o mentor dessa coisa que de repente está revigorando. Uma coisa que não deveria carecer disso, devia estar sempre. A gente se separou muito, se distanciou muito. De repente nós ficamos uns 20 anos, umas duas décadas… A coisa ficou muito um aqui, o outro ali. E isso está dando uma possibilidade e até um estímulo de até: “Por que não fazer um disco, um álbum do Clube da Esquina 3?” Nesse sentido, é a segunda vez que eu estou vindo aqui. A primeira vez foi para o negócio da pedra fundamental, aquela coisas lá no Bar Brasil, e agora já pro depoimento, digamos. Mas paralelo a isso, eu já fiz uma música nova com o Murilo, já tenho um projeto com o Marcinho. Então os frutos estão aí, evidentes. Eu fui assistir a um Tavinho Moura sinfônico no dia que eu cheguei aqui, lá com Wagner Tiso no Palácio das Artes. Mesmo que não tenha direta relação com o negócio do museu, está na onda. No outro dia fui ver o Lô, e fazia tempo que eu não via o Lô. Encontrei o Beto Guedes, me reaproximei do Telo, desse povo que eu não via fazia muitos anos, e pessoas que fazia muito tempo eu não via e que são pessoas que obrigatoriamente eu teria que estar o tempo inteiro. Eu acredito que essa coisa do Museu vai renovar essa possibilidade de a gente se estreitar mais. E tem brigas no meio, tem histórias, tem desentendimentos, como em tudo. A vida é assim, afinal de contas, não há como fugir disso, mas é um momento precioso que deve ser muito bem observado, muito bem aproveitado. E bom proveito pra nós todos. [Risos]

MÚSICA
“Sem fim”

[Canta] “Quando me larguei lá de onde eu vim, chão de sol a sol, ramo de alecrim, paletó de brim, tempo tão veloz. Não chamei meu pai, minha mãe não viu, desgarrei de nós, quando dei por mim, um sertão sem fim pelo meu redor, coração não deixe de bater.”

PESSOAS
Milton Nascimento/ Sarah Vaughan

Tem o caso da Sarah Vaughan, que pediu o Bituca em casamento. Ela estava cheia de birita lá no apartamento do Bituca, sentada, a gente ouvindo uma música. Ela olhou pro Milton e perguntou: “Milton, do you want to marry me?” É impressionante. A Sarah Vaughan. Aquela deusa, na casa do Milton, cheia de birita.

Fale na Esquina

Uma mensagem para Novelli

  1. Decio Luiz dos Reis disse:

    Muito bom depoimento, vou passar para meus dois filhos lerem.

    Garanto que vão aprender e saber da riqueza de nossa MPB.

    “Morro Velho”, “Travessia” e “Maria Minha Fé, eu estava lá meu irmão amis velho e minha cunhada me levaram para assistir, era uma quinta-feira, me lembro bem. O Festival tinha apresentação nas quintas, sabados e domingos.

    Fiquei como todos assombrado, o cara fazia a diferença, o Milton Nascimento, que em 1972, um amigo de Caxias RJ, terra que eu nasci, o Leones me levou no Teatro da Lagoa, para assistir o meu idolo Milton Nascimento, com COURAGE debaixo do braço, perdi o autografo dele naquele papel branco que embrulhava o disco de vinil. rrss, que pena.

    Há menos de 3 anos fiz a campanha publicitária, do ultimo show do Milton, foi produzido por um casal, jovem casal de Tres Pontas.

    Muito bacana o que você falou do meu amigo Laudir de Oliveira.

    Nem eu sabia da história da música do ultimo show do Milton, era tão antiga. E A Gente Sonhando.

    Obrigado,

    P.S: Tenho orgulho de você no meu Facebook.