Otávio Luiz Bretas

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

Meu nome é Otávio Bretas, mas o pessoal me conhece como Tavinho Bretas e às vezes Tavinho das Panelas também. Eu nasci em Belo Horizonte no ano de 1955.

FAMÍLIA
Nome dos pais

Meu pai é Nelson Tribococci Bretas e minha mãe é Maria da Conceição Ribeiro Bretas.

Apelido, Música: Veveco, Panelas e Canelas
Isso é uma história longa e inclusive foi composta uma música disso. O Fernando resolveu homenagear um grande amigo dele, que é o Veveco, Álvaro Hardy, e o Milton fez uma melodia e ele resolveu fazer uma letra baseando-se nas pessoas que eram meio multimídia. O Veveco sempre gostou de várias coisas de cultura além da arquitetura. A história começou com o biscateiro e pelo fato de eu também ser curioso em várias áreas, tanto em design com em música, foi feita essa música. Virou Tavinho das Panelas pelo seguinte: às vezes eu ligava para a casa do Fernando Brant quando o Milton vinha visitá-lo aqui em Belo Horizonte e o pessoal no telefone me perguntava: “Quem quer falar com ele?” e eu falava: “É o Tavinho” e diziam: “O Moura ou o das panelas?”, por que eu trabalhei com pedra-sabão durante muitos anos e uma das minhas marcas era dar de presente para os amigos panelas de pedra-sabão. O Fernando foi agraciado com algumas dessas panelas, então ficou Tavinho das Panelas. E a música “Veveco, Panelas e Canelas” foi mais ou menos uma homenagem em cima de três amigos. O Canela é o Chico Canelas, que mora em Três Pontas e que nunca está presente. Agora, infelizmente, o Veveco, que foi o principal homenageado nessa história, Deus resolveu convidá-lo para fazer uma obra arquitetônica lá no céu, então ele não está mais presente também.

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Milton Nascimento

Bom, eu vim a conhecer o Milton Nascimento por volta de 1978 mais ou menos, eu não me recordo muito. Eu tinha uma relação com o pessoal do Clube da Esquina aqui em Belo Horizonte muito superficial, conhecia já o Lô, o Flávio Venturini, os músicos todos. Eu já tocava como Paulinho Carvalho e conhecia a turma toda pelo fato de eu envolver-me com música também. Às vezes, até pelo fato de eu ter uma banda de rock‘n’roll, o Lô chegou a pedir um amplificador emprestado para ele e o Beto ensaiarem, já que eles iam fazer um show na Rua da Bahia, um show lá no Senai, no centro da cidade. Ao Milton eu cheguei através de um grande amigo chamado Keller da Veiga, que eventualmente é cenógrafo da Globo, trespontano, arquiteto, cenógrafo e músico, um grande pianista e compositor. E quando ele mudou para Belo Horizonte e passou a estudar arquitetura aqui, acabei me encontrando com uma amiga em comum aqui, a Vanda, e com o Keller numa dessas idas a Três Pontas. Apesar de eu freqüentar Três Pontas desde 1973 já que eu trabalhava com pedra-sabão e fornecer para algumas casas de lá. Nessa época eu fiquei conhecendo o Keller. Através de umas vindas dessas do Milton, nós estávamos numa pizzaria e o Keller falou que nós deveríamos conhecer um grande amigo dele que era músico e adorava o trabalho dele. Foi uma grande reunião de amigos e foi mais ou menos assim que eu conheci o Milton. E foi uma grande mudança na minha vida, porque a partir dali que os caminhos foram direcionados para essa área de música. Eu ainda não tinha uma visão do que eu iria mexer na área que eu estava estudando, que era desenho industrial na época. E foi através do Milton, através do escritório da Quilombo que eu fui direcionado para essa área de produção, de design gráfico.

Voltar ao topo TRABALHO

Atividade Profissional: Quilombo

A Quilombo era a antiga empresa do Márcio Ferreira, o antigo empresário do Milton, que veio a falecer se não me engano há mais ou menos nove anos. Quando eu trabalhava com a pedra-sabão, em 1979 eu saí da empresa e estava desempregado e fui passar uns dias no Rio de Janeiro, na casa do Milton, para passar um pouco do mal-estar de ter saído do emprego. Meu pai tinha recém-falecido. E nessa época o próprio Milton falou para eu tentar um trabalho lá com o Ferreira, que já estava começando a assumir a questão de empresário do Milton. Ele começou por volta de 1979 e 1980 e eu comecei a fazer alguns trabalhos como freelancer, como curioso, até porque não tinha nenhuma experiência.

TRABALHO
Atividade Profissional: Missa dos Quilombos

E o primeiro trabalho com que eu me envolvi realmente foi a produção da Missa dos Quilombos, em 1981. Era um garoto inexperiente trabalhando num projeto grandioso que envolvia bailarinos, cantores, tinha um coro, tinha um grupo de percussionistas, vários músicos, o Milton, os celebrantes. E nessa época, o Márcio Ferreira me chamou para trabalhar com assistente de produção dele, e para mim foi um convite primoroso porque era uma oportunidade para aprender como se fazia uma produção. No meio do caminho, o Márcio Ferreira resolveu viajar para Carajás, estava na época da implantação do Centro Urbanístico em Carajás, e o Márcio deixou tudo na minha mão. Resultado: fui parar no hospital de tanta loucura que aconteceu. Mas foi uma experiência fantástica, foi um trabalho muito gratificante e belíssimo, em que me envolvi com todo tipo de gente, um pessoal de Recife que trabalhou com muito empenho. Tive o prazer de conhecer Dom Pedro Casaldáliga e Dom Hélder Câmara que são pessoas maravilhosas. Eu acho que foi meu primeiro grande trabalho, depois veio a gravação do disco “A Missa dos Quilombos” na Serra do Caraça, que eu trabalhei como assistente de produção e os projetos foram se desenvolvendo dessa forma.

TRABALHO
Atividade Profissional: Quilombo

Eu trabalhei até por volta de 1985 na Quilombo. Nós tínhamos um projeto fantástico, um projeto de divulgação de música popular brasileira no interior de Minas Gerais. Porque o Milton, fazendo essas turnês pelo o Brasil, começou a observar que várias cidades no interior de Minas não tocavam música popular brasileira, já que as multinacionais mandavam os enlatados para as rádios. Nossa juventude começou a ficar meio desinteressada pela música popular brasileira, só escutavam certo tipo de música de péssima qualidade. E o Milton teve essa idéia fantástica de fazer uma distribuição de música popular brasileira no interior de Minas Gerais. E esse programa a princípio teve o nome de Cata-Vento. Inclusive o Demerval, nosso técnico de som atual, era quem trabalhava nessas edições do Cata-Vento. Então era um programa de uma hora semanal todo Sábado. Eram 72 cidades no interior de Minas recebendo esse projeto. Começou tendo uma audiência muito boa, porque o que acontecia? As cidades vizinhas que não recebiam o programa, porque não tinham FM, iam, copiavam o programa e distribuíam. Então dessas 72 cidades, ramificou para o triplo ou mais do que isso. E o Milton, todo fim de mês, entrevistava um grande artista, então tem especial com o Tom Jobim, Caetano, Djavan, Chico, esse pessoal todo da música popular brasileira. E eram especiais, o Milton entrevistando os grandes artistas, não só músicos, cantores, mas também de outras áreas e o programa começou a ter uma audiência muito grande. Com o tempo, acho que gente não conseguiu patrocínio pro ano seguinte e acabou que o programa mudou de nome, passou a ser Trem Azul na época da minha saída. Eu acho que esse programa durou mais um ou dois anos. Foi um trabalho muito importante e acho que boa parte dessa geração mineira foi muito favorecida com esse programa idealizado pelo Milton de divulgar a música popular brasileira, mineira. Inclusive, sem discriminação nenhuma. A gente tocava instrumental, que na época estava ficando muito em evidência, muita produção independente, tinha selos que não eram vinculados a multinacional e a gente não tinha nenhum compromisso com ninguém, não tinha essa historia do jabá, tocar o sucesso, então a gente tocava o que realmente era interessante para o programa.
Todo fim do mês tinha um especial. O Milton com um gravadorzinho com fita K7 ia para os lugares, entrevistava o pessoal, a gente trazia as entrevistas pra cá, transcrevia, fazia a edição, a edição de músicas, e era distribuído nessas cidades do interior de Minas. Teve outras cidades, porque chegando ali no sul de Minas, chega até o interior de São Paulo, e também na divisa com a Bahia, teve muita gente interessada. Mas aí o programa estava muito limitado porque o patrocínio era curto e as próprias rádios do interior não tinham recurso pra fazer a permuta de fita. Porque funcionava em um sistema de rodízio, a gente mandava o programa, tinha duas fitas com a gente, enquanto eles estavam transmitindo o programa, a gente ia gravando e fazendo esse sistema de rodízio.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Show: A Missa dos Quilombos

A Missa dos Quilombos começou a partir de um convite do Pedro Casaldáliga e do Pedro Teirra ao Milton Nascimento pra assistir a uma missa da Terra Sem Mares, que é uma missa do reconhecimento da Igreja Católica, na verdade da igreja brasileira, que eles fizeram com a cultura indígena. Então era uma missa como se estivesse pedindo perdão pelo o que eles fizeram com a cultura indígena. A missa foi composta, eu não sei o autor, eu não conheço o compositor, e o Milton foi convido para assistir a essa missa e a partir daí surgiu a idéia de se fazer o mesmo com o negro, porque eles tiveram o mesmo procedimento com os africanos que vieram pra cá, dizimaram a religião deles e tudo mais. Graças a Deus o negro teve a malemolência de arranjar um jeitinho, substituindo os santos do candomblé pelos da Igreja Católica. Então criou-se essa missa, é uma missa realmente na íntegra, com todas as partes da missa: ofertório, consagração e comunhão. A primeira missa foi celebrada com o corpo de Cristo presente e é uma missa baseada nisso, é uma missa conscientizando as pessoas sobre o que foi feito e exaltando a questão da cultura negra no Brasil. Foi um trabalho muito bonito, emocionante, com um sermão do Dom Hélder Câmara fantástico, que é o Louvação à Mariana. Existe isso em CD, eu acho interessante e as pessoas não conhecem, saiu pela remasterização da Poligran e é uma missa baseada exatamente nisso, nessa questão da Igreja Católica. Essa missa foi proibida pelo Papa, porque através da igreja brasileira ele teve conhecimento da missa e eu acho que por ter o corpo de Cristo presente e ter coisas de umbanda na missa e tudo mais… todo canto é com ritmos africanos. Essa missa foi celebrada pelo Papa e dois anos atrás, o Dom José Maria Pires, que é o único bispo negro no Brasil – está aposentado e morando aqui em Belo Horizonte, eu tive o prazer de reencontrá-lo –, foi um dos celebrantes da Missa dos Quilombos e ele teve a grande notícia de que o Papa havia liberado a Missa dos Quilombos com o corpo de Cristo presente. O Papa faleceu recentemente, vamos ver se esse novo que entrou, o Bento XVI, momento histórico, a gente está exatamente no dia que ele foi nomeado Papa, tem o mesmo procedimento, essa abertura, sem essa intolerância com outras religiões.
Na verdade, a Missa dos Quilombos envolvia muita gente e as últimas apresentações a gente fez nos 500 anos de descobrimento da América. A gente esteve em Santiago de Compostela a convite do governo espanhol e a gente fez a apresentação a Missa dos Quilombos lá sem o corpo presente de Cristo ainda. Aí passou a ser um espetáculo encenado, não era uma celebração. Depois o Marcio veio a falecer, a gente fez aqui no Brasil algumas apresentações em São Paulo e interior, Brasília, mas com a morte de Marcio Ferreira não se falou mais em fazer a Missa dos Quilombos. Existe um grupo no Rio que, através do Túlio Mourão, que era um dos músicos da Missa dos Quilombos (o primeiro foi o Flávio Venturini; depois, o Túlio, como era da banda do Milton, foi convidado pra fazer parte dessas missas mais recentes), através do Túlio, eles criaram uma missa encenada. É uma missa mais teatral, com o foco mais na questão do trabalhador, da escravidão não só negra, mas da escravidão do trabalhador hoje. É um belo espetáculo, muito bem montado, muito bem dirigido e com uma outra linguagem, uma outra roupagem. Não tem aquele perfil de cenário de igreja, é uma coisa totalmente diferente, tem uma coisa mais de fábrica, maquinário, muito ruído de máquina, muita solda, é uma outra visão da Missa dos Quilombos. Mas a primeira Missa dos Quilombos foi celebrada em 1981, no dia 22 de outubro, que é dia da Consciência Negra, em Recife. Teve um fato interessante que eu gostaria de colocar que é o seguinte: a gente sabia que a cabeça do Zumbi tinha sido colocada em uma praça em Recife e ninguém sabia em Recife onde essa cabeça tinha sido espetada. Eu estava com o Pedro Tierra, que é um dos autores, e a gente foi fazer uma previa lá em Recife, uma pesquisa de localização, e acabou que nós, no fim da noite, fomos parar em um terreiro de candomblé. E a gente conversado com o pessoal, eles falaram: “Vocês estão na Praça onde foi espetada a cabeça do Zumbi”. O terreiro era exatamente na praça que era da Igreja de Nossa Senhora do Carmo.
Zumbi dos Palmares é considerado o rei dos escravos no Brasil, que se rebelou contra tudo e criou o Quilombo dos Palmares, que era o maior quilombo do Brasil, e que hoje ainda existe na Serra dos Palmares. Tinha-se a intenção de fazer a missa lá, mas era uma parafernália, era uma produção muito grande, muitas pessoas envolvidas. Não sei, quem sabe um dia a gente retome esse espetáculo que foi bem interessante.

Iniciação Musical
Eu nasci em uma família onde as pessoas gostavam muito de escutar música, eu sou o mais novo lá em casa, minha irmã mais velha tem dez anos a mais do que eu. Meu pai sempre gostou de escutar música clássica, gostava de escutar jazz, escutava Gerswhin, Xerazade, e minha mãe gostava de música popular brasileira também, música clássica, meus irmãos vieram escutando esse tipo de música e eu vim acompanhando isso. Quando o Milton apareceu em 1964 no festival, com “Travessia”, eu já tinha envolvimento com música porque as minhas irmãs estudavam piano e eu por tabela aprendi piano superficialmente. Meu pai vendeu o piano e do piano eu pulei pro violão, sempre envolvido com música, sempre gostando de tirar as músicas. Aí apareceu Beatles na minha vida e paralelamente veio aparecer o Clube da Esquina, que para mim era uma coisa genial: “Puxa, que coisa mais interessante”. Era uma música popular brasileira diferente e quando saiu o “Clube da Esquina”, era um disco que não saía da vitrola e era interessante que em todos os ambientes ou se estava escutando Beatles ou Clube da Esquina. Eu estudava no Colégio Técnico, no Colégio Aplicação nessa época, adolescente, e como eu estudava em horário integral, a gente saía do bandejão da Universidade e ia para os DCEs e DAs da escola, sentava lá e ficava ouvindo Clube da Esquina, só dava Clube da Esquina. E essa história do Clube da Esquina foi realmente uma revolução em termos de conceito musical pra mim, em termos de criatividade, porque a música brasileira vinha em um ritmo, a gente escutava tropicalismo também, Caetano, escutava muita bossa nova através das minhas irmãs mais velhas, escutava Ângela Maria, todo o tipo de musica popular brasileira. Graças a Deus, o universo musical era amplo, pelo fato de ter muitos filhos e cada um ter um tipo de gosto. A gente tinha essa abertura. Eu acho que o Clube da Esquina foi o meu selo em casa.

Tavito
Em 1965, eu tinha 10 anos de idade. A gente morou um tempo no Rio, e a gente tinha uma grande amiga que se chamava Mônica – atualmente ela mora em Brasília – e ela tinha um violão. Ela era muito amiga do Tavito e tinha uma turma que ia muito lá em casa pelo fato de eu estar envolvido com música. Minha irmã que é cinco anos mais velha do que eu sempre gostou de música. Ela tinha essa amizade com a Mônica e paralelamente com o Tavito, que tinha o irmão Cancando, tinha o Sergio Werneck… Era a turma que ia lá pra casa pra tocar violão e fazer serenata de noite. Eles juntavam a turminha, botavam uma cerveja e ficavam lá e eu ficava prestando atenção em como o Tavito tocava violão, tocava muito Beatles e ele começou a me mostrar as músicas do Milton. E foi através do Tavito e da Mônica que eu cheguei a vir conhecer o Milton e depois fui acompanhando a carreira, o disco do Clube da Esquina, sempre tangenciando por fora até ter essa amizade maior com o resto do pessoal do Clube da Esquina.

Clube da Esquina
Com o pessoal mais velho eu não tinha muita relação, mas, pelo fato dos meus irmão serem mais velhos, eu tinha convivência com pessoas de cinco anos, sete anos mais velhos do que eu, e essa turma realmente acompanhava o Clube da Esquina e toda a discografia. A gente estava sempre curioso para aprender como tocava tal música, havia sempre esse intercâmbio entre o meio musical de Belo Horizonte, principalmente.

Voltar ao topo EVENTOS HISTÓRICOS

Ditadura Milita

Pelo fato de eu estudar no colégio Aplicação e lá ser um colégio em que os professores eram da Faculdade de Filosofia, a gente tinha consciência do que realmente acontecia no país, a questão da ditadura, da política de repressão. Com essa história, a gente começou a perceber como é que se compunha com inteligência tentando driblar essa censura barra-pesada. Eles tolheram em todos a criatividade do povo brasileiro e fazendo isso, eles realmente conseguiram fazer com que os compositores e autores se fizessem mais criativos, usando metáforas e simbologias. Eu acho que isso é uma marca na questão da composição dos anos 70 na música popular brasileira. O Clube da Esquina principalmente, as músicas do Marcinho Borges, do Fernando, eu percebo que são sempre dando um sentido diverso. Outro dia eu estava conversando, não sei se com o Fernando mesmo, a respeito de “Travessia”. Tem gente que acha “Travessia” uma música amorosa, de paixão, tem gente que vê como uma música política, quer dizer, isso abre um universo muito grande. Realmente, as composições do Clube da Esquina até hoje têm esta conotação, abrir espaço para a alma humana para as pessoas começarem a perceber que existe uma outra forma de pensar, uma outra forma de interagir, de se relacionar e eu acho que marcou uma geração muito grande. Eu vejo hoje meus colegas de escola – porque a gente se reúne sempre nas quartas-feiras do mês –, são colegas que se formaram há 30 anos e até hoje a gente se reúne e comenta muito sobre isso, sobre o que foi a nossa educação, o que a gente escutava na época e realmente é um marco nessa questão de aculturação da mocidade em Minas Gerais, foi muito forte. As pessoas estavam realmente interadas no que estava acontecendo aqui, Milton, Marcinho, Fernando, Beto, Toninho, Wagner, Nivaldo com a música instrumental, e isso abriu um leque e fez escola de muita gente. Você tem compositores aí, você vê o Flávio Henrique, um grande compositor, produziu um disco e fez uma música com letra do Marcinho Borges que é uma música que lembra muito Clube da Esquina. Eu falei assim: “Essa é a que vai estar no disco” (risos). É uma música muito bonita, se chama “Azul de Passagem”.

Voltar ao topo CLUBE DA ESQUINA

Avaliação

Eu considero o Clube da Esquina um movimento. O mineiro não faz muita propaganda do que faz, o mineiro é muito tímido, muito retraído, o baiano é mais expansivo. Então a Tropicália entrou como… Hoje você vê a música, o Axé está sempre na mídia, sempre sendo divulgado. Mas foi pra mim tão importante quanto o Tropicalismo, que eles consideram o maior movimento revolucionário da música brasileira, e isso eu questiono. Porque paralelamente tinha a turma do Clube da Esquina fazendo outro tipo de composição, tinha Edu Lobo fazendo uma música inteligente pra caramba, Chico Buarque, Dorival Caymmi, toda essa geração que a gente teve a sorte de estar presente e de escutar esse tipo de música. É realmente uma geração com uma fertilidade de criação que foi inigualável, eu acho que hoje existem bons compositores também, mas foi uma coisa marcante. Não sei se pela idade que a gente tinha na época de curiosidade, estávamos sempre curiosos em escutar tudo. “O Chico gravou o disco, vamos lá comprar o disco novo dele.” Hoje eu não tenho essa coisa de sempre comprar disco novo, por exemplo, do Skank ou do Jota Quest, que são a nova geração. Eu conheço o trabalho deles, mas isso fica para a geração que veio depois. Eu acho que isso é um ciclo de vida e vai ser sempre assim. Hoje em dia meus sobrinhos ouvem Clube da Esquina e adoram, então tem uma identidade. O que foi dito naquela época é eterno, “Os sonhos não envelhecem”, como diz o Marcinho Borges. E os sonhos não envelhecem mesmo, acho que o próprio sentimento do humano deixa você muito ligado ao que foi dito naquela época.

Clube da Esquina: Museu
É uma iniciativa fantástica, pelo fato de ter sido um grande movimento da música popular brasileira, ter sido gerado aqui em Minas Gerais e que as pessoas estão vivas hoje, estão participando disso. Isso é superimportante, isso é uma coisa que daqui a 100, 200 ou 300 anos, o acervo vai estar guardado como uma coisa real, viva, vai ser impressionante. Hoje existem outros projetos. O Centro de Referência da Música Mineira é um projeto da Petrobras. O que é o Centro de Referência da Música Mineira? Se você começar a fazer um levantamento, você tem que vir desde o barroco, dos compositores de Ouro Preto, que existe acervo de música barroca. São padres mulatos que compunham, Dom José Maria, por exemplo. O Centro de Referência da Música Mineira tem que ser muito abrangente. Então o que vai acontecer? O que tem de registro daquela época são partituras que foram preservadas pela igreja. Fora isso, você vai pegar as composições do fim do século. Vai ser muito difícil você achar, tem que percorrer cidades do interior, compositores que compunham valsinhas e choros, ou próprios sambas mesmo, no fim do século ou no início do século. Isso é muito difícil de resgatar e o que está sendo feito hoje com o Clube da Esquina vai ser um marco. As pessoas estão aqui para depor, é importante que fique este registro, e hoje a forma de guardar isso é mais prática, tudo digital, e o acesso a essa informação é muito fácil, através de computador e internet. Acho que é uma idéia fantástica, através do Márcio, o pessoal do Milton, Ronaldo, Lô, Beto. É importante que se tenha esta documentação guardada e preservada. Vamos comparar com o que fizeram com a obra de Bach. A família preservou toda a obra dele. Não existia um Clube de Bach (risos), mas hoje você tem no mundo inteiro toda a obra dele, tudo que ele compôs a vida inteira e isso é eterno, nunca vai acabar. Eu acho que é muito importante o que foi composto e o que vem sendo composto pelo Clube da Esquina, que abriu o leque – hoje tem outras pessoas envolvidas. Esse registro é muito importante como referência, de raiz mesmo, de informação do que foi feito e do que vai ser feito daqui a um tempo. Acho muito importante este trabalho.

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