Pacífico Mascarenhas

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/ Local e data de nascimento

Meu nome é Pacífico Mascarenhas. Nasci em Belo Horizonte, em 21 de maio de 1935. Eu sempre vivi na região da Savassi – nasci ali no Bairro dos Funcionários, onde eu convivi muito tempo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação musical

Ali na Savassi nós tínhamos uma turma muito grande. E a gente fazia serenata todo fim-de-semana. Nessas serenatas eu descobri que estava faltando música de coisas que a gente queria falar para as namoradas, como por exemplo “se eu tivesse coragem de dizer que te amo…”. Então eu ia fazendo essa letra e outras, explicando, por exemplo, que “não sou culpado de ter enfim apaixonado.” Então fui fazendo letras de acordo não só para o meu caso, mas para o caso de diversos amigos e o que eles queriam dizer para as namoradas. A gente se reunia lá na Savassi, em um bar chamado Bar do Pinto, na Praça Diogo Vasconcelos. E de noite a gente saía fazendo serenata pela rua, pelo bairro todo. Foi aí que tudo começou. Eu virei compositor nesse momento de necessidade de fazer letra. Eu já gostava de tocar piano e violão, então foi um pulo para começar a fazer só isso. Isso foi bem no final da década de 50 – talvez antes. Nessa época até conheci o João Gilberto, lá em Diamantina – ele não era conhecido ainda. Ele não tinha nem gravado disco. Ele estava morando lá com a cunhada dele. E nessa época eu já estava fazendo umas músicas. Mais tarde eu o reencontrei no Rio de Janeiro.

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Primeira gravação

Aí eu fui aumentando o número de músicas que eu fazia e fui selecionando, até que um dia resolvi fazer um long play com elas; isso foi em 1958. Fui para o Rio de Janeiro e levei um ótimo cantor que tinha aqui em Belo Horizonte, chamado Gilberto Santana, e o Paulo Modesto, que era o pianista que tocava no Minas, no Automóvel Club. Aí nós fomos para o Rio de Janeiro gravar na Companhia Brasileira de Discos. Eu reservei o estúdio lá e fomos de trem. Ficamos hospedados no Hotel Regente, que era de um músico da orquestra do Delê, aqui em Belo Horizonte. Na década de 50 ele foi para o Rio e casou com a proprietária desse hotel. Ele nem nos cobrou nada para fazer a gravação.
Eu lembro também que nessa época –quando o disco já estava pronto – o cantor, que era o Gilberto Santana, estava estudando Odontologia e ficou com vergonha de por o nome dele no disco. Inventou lá o “Marcos Vinícius”. O Paulo Modesto inventou também um nome: “Paulinho e Seu Conjunto”. O único que assumiu o próprio nome fui eu mesmo – músicas de Pacífico Mascarenhas. Foi o primeiro disco independente feito no Brasil. Nós fizemos mil discos, mas na realidade saíram só 900. E chegando aqui em Belo Horizonte eu entreguei no Sérgio Luis Discos, que era uma loja que havia ali na Rua Goitacazes. E ele vendeu os discos todos em menos de um mês, porque aqui em Belo Horizonte, antigamente, você chegava em uma rádio com disco às 9 horas da manhã e a pessoa da rádio, o entrevistador, tocava o disco todo. Às 11 horas já tinha outro programador. Eu ia no programa e ele tocava o disco todo. E assim ia, então, em todas as rádios.
Eu ainda consegui uma coisa inédita. Depois das 7 horas – que era a Hora do Brasil – todas as rádios tocaram ao mesmo tempo esse disco que eu tinha gravado. Eu havia combinado lá na Rádio Itatiaia: “Vamos ver se depois da hora do Brasil vocês tocam esse long play.” E disseram: “Tudo bem.” Fui na Rádio Cultura, Rádio Guarani, Rádio Mineira e combinei com todo mundo pra tocar ao mesmo tempo esse disco, num determinado dia. Hoje isso seria impossível. Eu, por exemplo, quando gravo um disco, nem levo mais para as rádios, porque eles não tocam mais; hoje eles pensam só em quem está em primeiro lugar, porque dizem que se puserem uma música que ninguém conhece, o ouvinte muda a estação na mesma hora. E para não ficar chateado eu não levo mais. Mas eu ainda continuo, apesar desses anos todos, a fazer música.
O disco teve uma grande repercussão na época. Todo mundo tomou conhecimento dele, porque tocava demais na rádio. E as minhas músicas ficaram muito conhecidas. Eu também fiquei conhecido por causa disso.

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Belo Horizonte

A grande rádio aqui em Belo Horizonte era a Rádio Inconfidência, que tinha até auditório, orquestra contratada e cast com vários cantores, masculinos e femininos. Tinha também a Rádio Guarani, cujo auditório era no Aldair Pinto. Aqueles programas de auditório davam até volta no quarteirão quando vinha um Caubi Peixoto, por exemplo. Era na Rua São Paulo com Afonso Pena. Essas eram as grandes rádios. A Rádio Mineira tocava músicas boas. Depois tivemos a TV Itacolomy, que surgiu em uma determinada época e depois acabou.

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Sambacana

Em 1964 eu inventei um processo para acompanhamento de violão, para ficar na contracapa do disco, e tirei a patente. Era uma tabela de acordes com as letras. Aí eu fui na Gravadora Odeon, procurei o Zé Ribamar, o Milton Miranda – que era um dos diretores artísticos da Odeon – e falei: “Olha, inventei essa idéia aqui.” Eles falaram: “Você quer vender essa idéia para a Odeon?” Eu falei: “Não, eu quero é lançar um disco com todas as minhas músicas.” Eles perguntaram: “Mas todas as músicas suas?” Eu respondi: “É.” (riso) Então dei as músicas para eles ouvirem e eles gostaram. Aí falaram: “Então, tudo bem. Você quer gravar com quem?” Eu convidei o Roberto Menescal e o Elmir Deodato para fazer essa gravação minha. E o Roberto Menescal chamou aquela cantora, Joyce. Em 1964 nós gravamos esse Sambacana, que era um corinho com voz feminina e uma masculina, e músicas curtas. Daí foi um pulo. A Rádio Jornal do Brasil começou a tocar, a Rádio Tamoio. E fez sucesso por estar tocando nessas rádios.
Esse processo que eu inventei era o seguinte: eu fiz uma tabela de acordes na contracapa e até registrei a patente no DNPI, que é o Departamento Nacional de Propriedade Industrial. Eu punha as letras das músicas e números. E fiz uma tabela de acordes na contracapa do long play. Então, por exemplo, esta canção tinha um determinado número e o cara olhava a tabela do lado. Ele olhava, ia vendo a letra e no final ele aprendia as músicas. Foi uma pena que isso não foi divulgado. Nós lançamos o disco e eles não fizeram força nenhuma lá na Odeon. Não divulgaram. Se tivessem mostrado na televisão, por exemplo, teria sido até sucesso. Porque seria mostrado: “Aprenda a tocar violão ouvindo o LP Sambacana.” Eles fizeram até um cartaz para pôr nas lojas de disco, mas não foi o suficiente para pegar. Mas aqui em Belo Horizonte teve uma repercussão, porque eu morava aqui e porque em todo programa que eu ia falava nisso.

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“Bituca” (Milton Nascimento) / Wagner Tiso

E já estava ficando conhecido aqui em Belo Horizonte. E um dia, em 1964, foi uma turma lá de Três Pontas me procurar em casa. Era o Gileno, o Wagner, uma porção de gente. Aí eu vi eles tocando e fiquei impressionado. Vi que o Bituca cantava muito bem e que o Wagner tocava piano muito bem. Eles tocaram uma música, que se chamava “Amor Escrito no Céu”, cuja letra sei até hoje. E eles demonstraram desejo de ficar aqui em Belo Horizonte.
Fisicamente eles eram miúdos. O Bituca usava muito um puloverzinho de lã, que eu lembro até hoje – não sei se era época de frio quando ele apareceu lá em casa. O Wagner era avacalhado; ele andava todo barbado. Quem olhasse não dava fé pra ele, por causa do jeitão. Eles eram assim, meio displicentes. Mas tocavam bem. E como eles queriam ficar aqui em Belo Horizonte, eu pus todos dentro do carro e fui lá na casa do Célio Balona e falei: “Ô, Balona, aqui tem um pessoal de Três Pontas. Esse é excelente músico. Esse aqui toca muito bem piano; esse aqui toca pistão”, que era o irmão do Wagner. O Balona virou e falou assim: “Olha, vamos fazer o seguinte: hoje já tem até uma festa para eles tocarem.” Falou pra eles arrumarem uma roupa escura e disse: “Encontra comigo lá no Ponto dos Músicos.”
Aqui em Belo Horizonte tinha um ponto onde músicos e garçons se reuniam pra arrumar serviço. Era na Avenida Afonso Pena com Tupinambás. Os músicos ficavam de um lado e os garçons do outro. Era ali que as pessoas iam pra contratar os garçons pra uma festa. Era na hora. E os músicos também esperavam ali, pra pegar serviço em algum bar, em alguma coisa que aparecesse. Lá era o ponto. Então o Balona falou: “Ponham uma roupa escura que eu espero vocês lá no Ponto dos Músicos, porque já tem uma festa hoje para vocês tocarem.” E eles foram.

FORMAÇÃO MUSICAL
Gravações

Então nesse tempo eu vi que o Bituca cantava muito bem e comecei a chamá-lo para fazer serenata com a gente. Eu o levava e ele cantava para as moças no Bairro dos Funcionários. Ele gostava muito de cantar uma música chamada “Misty”: (canta) “Look at me…” Todo mundo adorava a voz dele. Cheguei até a gravar uma fita com ele cantando umas 20 músicas para mandar. E como eu tinha gravado esse disco na Odeon, tinha um conhecimento danado lá no Rio de Janeiro – eu era bem entrosado. Então mandei pra diversas pessoas no Rio. Mandei para o Humberto Reis, que era programador da Rádio Tamoio e muito ligado a uma gravadora do Osvaldo Cadacho, que chamava Equipe. O Elmir Deodato até gravou uns discos nessa gravadora dele. Aí o Humberto Reis adorou a voz do Bituca e disse que ia falar com esse Osvaldo Cadacho para contratá-lo. Mandei para o João Melo, na gravadora Philips. O João Melo era o produtor da gravadora Philips e ele foi mostrar ao João Araújo, que é o pai do Cazuza, mas ele não gostou da voz do Milton. Não gostou e não contratou.
Quando a gente estava gravando as músicas para a fita, eu lembrei que ia lá no João Melo e falei pro Milton: “Milton, canta essa música do João Melo, chamada ‘Jogado Fora’.” E talvez por isso o João Melo tenha ficado muito mais entusiasmado. Mas esse João Araújo não gostou. E nessa ocasião que eu mandei a fita, ficaram sem falar nada. Os que gostaram também não se manifestaram. Tenho até um retrato do dia em que o Milton Miranda, que era da Odeon, veio pra Belo Horizonte. Nela está o Bituca, o Wagner… O Milton Miranda também não fez manifestação nenhuma, a não ser anos depois, quando o Milton ganhou o festival. Aí ele o contratou.

FORMAÇÃO MUSICAL
Ensaios

Nessa época, então, o Milton Nascimento e o Wagner estavam precisando morar em um lugar aqui perto. Aí já me surgiu a idéia de gravar o próximo disco em 1965 e convidar o Bituca e o Wagner para gravar junto. Porque eu tinha sido contratado pela Odeon para gravar dois long plays. O primeiro foi aquele com o Menescal. O segundo eu convidei o Bituca e o Wagner, para participar do coro do Quarteto Sambacana, que era como se chamava. Aí começamos a ensaiar em casa e o Marcos de Castro foi quem fez os arranjos. Ele era um maestro daqui e era meu vizinho. E nessa época até coloquei o Bituca e o Wagner morando lá na Rua Antonio de Albuquerque, entre a Rua Sergipe e Alagoas. Eles moraram nessa pensão, chamada Dona Maria, por uma temporada, o que facilitou o nosso ensaio. Ensaiamos até o dia em que nós fomos ao Rio de Janeiro para gravar. Fomos em um Sinca Chambord que eu tinha. Acho que o carro era de 1960 e ia enguiçando o tempo todo. Tinha que dar sangria na roda do carro. Aí o Bituca descia lá, soltava, eu batia o pé no acelerador e ele espirrava o óleo – eu levava óleo pra ir pondo. Fizemos isso umas quatro vezes, inclusive dentro de um túnel. Essa viagem demorou umas 8 ou 9 horas. E durante a viagem, o Bituca e o Wagner cantavam minhas músicas, que eles conheciam no plural. Por exemplo, “Estas canções terão poucas durações.” E outra, ao invés de “o vento soprou”, eles falavam: “Os ventos que sopraram.” Foi divertido. Chegando ao Rio fomos ao apartamento que o meu irmão tinha lá, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 1182 – quase na esquina com Sá Ferreira. E nesse período eu cheguei a levar o Bituca na casa do Elmir Deodato. Apresentei: “Ô, Elmir, esse aqui é o Bituca. É um grande cantor lá de Belo Horizonte.” O Elmir gostou demais da voz dele.

PESSOAS
Eumir Deodato / Tito Madi

Nessa época eu pensei em apresentar o Bituca a essas personalidades que eu conhecia. Então um dia eu levei ele lá na casa do Elmir Deodato, que tinha participado do meu primeiro disco tocando piano. Aí fui com o Bituca, que cantou e o Elmir acompanhou no piano. Achou a voz dele muito boa e as composições excelentes. E fez uma porção de promessas pra ele. Depois não sei o que aconteceu sobre isso. Nessa ocasião eu levei o Bituca na casa do Tito Madi. Ele cantou uma música que tinha feito aqui em Belo Horizonte, “A Gente Sonhando.” E o Tito Madi falou: “Vou gravar.” E pediu para o Wagner arrumar uma partitura, mas eles não levaram. O Tito Madi ficou até muito chateado. O Tito era até um cantor muito conhecido.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento) / Elis Regina

E eu também levei o Milton numa festa em Copacabana e lá eu apresentei ele à Elis Regina. A Elis Regina já era conhecida. Ela gostava do disco que a gente tinha gravado, “Coral de Ouro Preto” e que o Ubirajara tinha feito os arranjos. O Ubirajara era um dos maiores pianistas que existiam. Ele até participou do nosso disco, “Sambacana”, tocando piano. E esse coral de Ouro Preto foi considerado o melhor coral do ano no Rio de Janeiro. Depois eu acho que o Milton também cantou umas músicas e ela adorou. Trocaram endereços, telefones. Depois eu vim embora para Belo Horizonte e não soube o que aconteceu.

PESSOAS
Wagner Tiso

No caso do Wagner, eu o havia levado na casa do Laércio Vaz de Melo, que era um pianista que tocava no Copacabana Palace, tocava no Drink. E fomos lá para ver se ele arrumava um lugar para o Wagner tocar. A intenção do Wagner era ficar no Rio e não voltar mais para Belo Horizonte. E aí parece que o Laércio Vaz de Melo deu uma força para ele. Depois ele começou a tocar em um bar na Barra e ficou no Rio. E como o apartamento do meu irmão era a um quarteirão da praia, eu lembro que o Wagner ia com o Bituca e o violão. Ficavam se esgoelando na praia, cantando, com a mão toda suja de areia. Praticamente ninguém ouvia, porque com aquele barulho da praia ninguém toma conhecimento. Cantavam sem microfone, sem nada. E o Wagner até fez uma coisa interessante. Ele queria trazer para a namorada dele a água do mar, num vidrinho que ele tinha arrumado. Então ele pôs a água no vidrinho pra dar pra namorada dele.

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Rio de Janeiro

E no Rio, o Bituca queria conhecer a cidade através das letras de músicas. Então a gente rodava. Ele falava: “Vejo o Corcovado…” aquela música que tinha do Jobim. “Pô, onde é que é o Corcovado? Onde é que é isso? Balanço Zona Sul, Posto Seis, onde é que é?” Ele queria conhecer o Rio, apesar de ter nascido lá. Eu acho que ele foi muito pequeno para Três Pontas. O roteiro turístico era Corcovado, Posto Seis, Ipanema. Essas coisas que ele conhecia das letras de Três Pontas. Ele e o Wagner estavam antenados na Bossa Nova. E as músicas que eles faziam eram todas Bossa Nova. Foi a época que surgiu o João Gilberto, 58, quando eu lancei esse meu disco. Era tipo samba-canção, aquelas músicas do Lúcio Alves, Dick Farney, que estavam em evidência na época. Mas na época que ele entrou no festival, entrou com outro estilo de música.

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Odeon

Aí fomos para o Rio de Janeiro com a data marcada na Odeon. E eles puseram à disposição uma orquestra imensa lá, porque o Marcos fez arranjos usando mais de 40 músicos. E o Milton cantou aquelas músicas todas. Ele era o solista do disco e fazia também a parte vocal. Gravamos primeiro a parte vocal. E eram quatro vozes fazendo os acordes e cantando o tempo todo. Na hora que parava o acompanhamento, ele solava as músicas cantando. Em um determinado momento, o técnico da gravadora, que tinha gostado muito da voz do Bituca, virou pra ele e falou: “Você fica aí.” Ele aproveitou aqueles playbacks do Simonal e colocou o Bituca cantando para ver como ficava a voz dele com aquela grande orquestra. O Simonal estava estourando na época e o Bituca então começou a cantar aquelas músicas com aquele som. Eu acho até que o técnico não podia nem fazer isso, mas ele ficou muito entusiasmado com a voz dele. Isso foi uma coisa que ele fez mais de curiosidade, pra ver como seria o Bituca cantando sozinho, cantando com uma orquestra e cantando uma música conhecida. Essas músicas que eu gravei com o Bituca eram músicas minhas que não eram conhecidas.
Nessa época surgiu a Jovem Guarda e foi o ano que eu me casei. Então não fiz a divulgação que eu tinha feito no primeiro disco. E a Jovem Guarda estava estourando; foi em 1965. Eles surgiram arrasando – a rádio só queria saber de Jovem Guarda. Mas eu gravei esse disco. Agora, no final do ano de 2003, a Odeon escolheu pro Centenário deles uns 40 discos e lançaram esse disco, por incrível que pareça. Parece que foi aquele produtor do RPM que descobriu essa fita lá na Odeon e relançou o disco, agora no final de 2003. Chama-se “Quarteto Sambacana”, em que o Milton canta. Eles fizeram poucas unidades, pois era em homenagem ao Centenário da gravadora. Mas o disco foi relançado em CD, porque até então eu só tinha em long play.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento) / Wagner Tiso

Então foi isso que aconteceu lá no Rio. Depois o Bituca também ficou no Rio de Janeiro. Depois de algum tempo que eu voltei para Belo Horizonte, que nós saímos do apartamento do meu irmão, o Bituca pegou umas duas malas dele e deixou na casa do cantor Luis Cláudio, na Rua Sá Ferreira, que era perto desse apartamento onde eu estava. Aí passou uma semana, 15 dias… E o Luis Cláudio morava em um apartamento que tinha só quarto e sala. E ele disse: “Ô, Pacífico. Seu amigo deixou a mala aqui, falou que vinha pegar e não veio. Já faz mais de 20 dias que ele não vem pegar essa mala aqui. O apartamento é pequeno!” Depois o Bituca foi lá e pegou essa mala. E quando o Wagner ficou no Rio de Janeiro, o Luis Cláudio, (riso) esse mesmo cantor, foi até avalista dele para poder alugar um apartamentozinho no Rio.

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Bar El Rancho

Quando o Bituca esteve aqui em Belo Horizonte, nessa época das serenatas, eu arrumei pra ele tocar em um bar chamado El Rancho, na Rua da Bahia com Álvares Cabral, cujo proprietário era o Razuk. Depois foi pra São Paulo, na época do festival também. Aí só vim a ter notícias dele quando ele já tinha ganho esse Festival Internacional, onde ele ficou entre os três primeiros lugares.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

Outra passagem interessante foi quando eles estavam fazendo o filme do Tostão. Eu fui convidado pelo produtor do filme pra fazer a trilha. E eu tinha feito uma música que o Tostão já conhecia, e que falava: “Vem/ já vem vindo/ Meu time atacando/ jogada surgindo.” Então eu falei assim com ele: “Você chama o Milton Nascimento, que ele é bom para cantar, para fazer isso. As músicas dele também são maravilhosas e ele pode fazer música para o filme.” Então o Bituca gravou esse disco e fez a trilha sonora para “Tostão, a Fera de Ouro.” E gravou essa música minha, que faz parte da trilha sonora: (Cantando) “Já vem vindo meu time atacando/ jogada surgindo com a bola rolando em passos ligeiros/ no campo contrário do adversário/ Cruzaram a pelota da intermediária/ num chute certeiro para a grande área/ Eis que surge então o lance genial do craque Tostão/ Que toma a bola, entra na área/ passa o primeiro, segundo e terceiro/ Vai mais a frente, finta o goleiro e chuta para o gol/ A bola vai entrando no fundo da rede/ O juiz apita: ‘Gol!’/A torcida levanta, solta foguete e pede mais um/ Recomeça o jogo, a charanga tocando, bandeiras acenando na comemoração da vitória do povo que tanto esperou ser campeão.”

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Como eu estava com o Milton Nascimento, então tive muito contato com o Marilton Borges, com o Marcinho Borges. E onde o Bituca ia, levava o Marcinho, levava o Marilton. Eles eram amigos. E a gente ensaiava em um sítio quando estava fazendo um disco, e eles participavam também – o Marilton, o pessoal, alguns lá do Clube da Esquina. Então a participação que eu tive foi por causa do Milton, do Wagner, do Marilton e do Marcinho. Eles também eram os mais velhos do Clube da Esquina. De vez em quando eu ia pegar o Milton lá na casa do Marcinho. E ficava lá um pouquinho. Paralelamente funcionava o grupo do Clube da Esquina e o nosso, que era de Bossa Nova, lá na Savassi.

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“Clube da Esquina”

Eu lembro que nesse dia que eles estavam preparando o disco, o Bituca foi lá em casa com um fotógrafo. Tiraram um retrato meu que está nesse disco do “Clube da Esquina 1”. O Bituca fez questão de ir lá em casa.

PESSOAS
“Bituca”(Milton Nascimento)

Eu sabia que ele ia ser um grande cantor. Disso eu tinha certeza, porque ele tinha uma voz maravilhosa mesmo. Todo mundo adorava a voz dele. Eu não sabia que ia ser tão depressa. Ele também teve um impulso violento. Aí foi um pulo só. Na mesma hora, todo mundo tomou conhecimento. É uma coisa que acontece. Igual, por exemplo, ao Jobim, que teve a sorte do Frank Sinatra ter gravado suas músicas. São coisas que acontecem uma em mil. É gente que merece e que teve a oportunidade…

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Clube da Esquina
Eu acho muito interessante essa iniciativa de preservar a nossa história de Belo Horizonte e, principalmente, do Clube da Esquina. É um movimento que ficou. Nunca ouvi falar de outro movimento de música que não seja esse aqui, em Minas Gerais. Eu acho que esse Museu vai dar certo e que vai ser uma coisa que vai ficar para o resto da vida. Todo mundo vai respeitar, vai admirar esse clube. Todo mundo que gosta de música vai ver o que é que aconteceu nessa história tão bonita que eles fizeram aí no Clube da Esquina, pois foram surgindo cantores, compositores e uma infinidade de gente. E foi muito bom o movimento participativo de todo mundo. Todo mundo está entusiasmado hoje com isso; só pode dar certo.

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2 Mensagens para Pacífico Mascarenhas

  1. alison disse:

    Adorei esses depoimentos !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!1

  2. Muito interessante a entrevista com o Pacífico. Joga luz em muitos acontecimentos da história musical, não somente do Clube da Esquina mas de bons momentos da música brasileira.