Paulo Jobim

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Voltar ao topo Identificação

Nome, data e local de nascimento

Paulo Hermanny Jobim, nasci em 4 de agosto de 1950, no Rio de Janeiro.

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Identificação dos pais e irmãos

Meu pai Antonio Carlos Jobim e Tereza Hermanny Jobim. Somos três irmãos: Paulo, Elizabete e Maria Luisa.

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Cotidiano da casa

Lembrar das primeiras músicas, nossa mãe, aí é difícil! Eu já nasci com o meu pai no piano, ele trabalhava em casa, quer dizer, acho que antes de eu falar, antes de tudo já tinha música lá.
Eu me lembro de eu gostar como criança, gostar quando saiu o disco do João Gilberto, aquelas coisas: “O Pato”, O Trem, blim blom, blim blom. Aquelas coisas assim, eu gostava daquela onda.

Voltar ao topo Infância no Rio de Janeiro

Ipanema

Eu fui criado em Ipanema. Era ótimo! Ainda tinha uns terrenos vazios, baldios, tinha pouco prédio, prédio pequenininho de três, quatro andares, com escada. Depois que começou a virar aqueles prédios de apartamentos que hoje em dia é tudo isso. Eu gostava de brincar acho que era praia e calçada, jogar bola, jogar queimada, jogar vôlei na rua mesmo, solto.

Família
Descrição da atividade do pai

Meu pai acordava meio tarde, era mais ou menos a hora que eu estava voltando do colégio, tipo meio dia, uma hora. E trabalhava o dia inteiro no piano e, de vez em quando, vinham pessoas, sei lá, vinham muitos artistas, João Gilberto, Vinicius – mais de noite. Ary Barroso tem foto dele lá em casa, mas eu acho que eu não me lembro dele. Eu me lembro do Ary Barroso na televisão com o programa de calouros que ele tinha e era muito engraçado.

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Iniciação musical

Eu aprendi um pouco pequenininho, aprendi um pouco de piano, aqueles negócios também de musicalização que toca uns téc téc téc pra aprender ritmo. Toquei numa banda de colégio, chamava Furiosa. Aí toquei saxhorne, depois toquei piston. O cara também quis que eu tocasse trombone, mas como eu era pequenininho não dava pra fazer o pááááá. Então eu fui pro piston, que era o que eu queria porque era o mais exibido, pépérerépé, aquele negócio. E depois com uns 16 anos, assim, ou 15 eu comecei a estudar violão, depois acabei comprando uma flauta de uma tia. Eu encontrava muito com o Danilo Caymmi que tocava flauta. Aí essa tia apareceu: “Você sabe de alguém que queira comprar uma flauta?”. Eu digo: “Eu!”. Fiquei com a flauta e só paguei a ela com uma gravação que eu recebi exatamente o dinheiro da flauta e aí paguei a tia. (RISOS)

Pessoas
Milton Nascimento

O meu pai era amigo de Caymmi, e fez um disco com Danilo, com Dori, e com Nana e isso eu ainda devia ser pequeno, devia ter uns 12 ou 13 anos. Eu comecei a encontrar o Danilo de rapaziada. Também um pouco através de Milton, porque logo que o Milton veio, a gente ia muito a casa do Milton, antes em Copacabana, depois em cima do Rebouças. Capaz de eu ter começado a encontrar o Danilo mais por causa desses encontros na casa do Milton que virou um assunto, tinha uns discos bons de jazz, Klaus Ogerman com Bill Evans, Miles Davis rodava por lá. Era bom essa época. Eu vi ele no festival. Eu vi quando começou aquele festival aí me apresentaram o Milton e eu fiquei assim meio já de, como se diz, de groupie, de fã, andando por trás pelo camarim, acompanhei aquela coisa toda e foi muito legal. Depois tinha show do Milton em Copacabana, depois eu acho que ele foi pro Estados Unidos, nesse tempo eu não vi, ele fez o disco com o Eumir Deodato lá. E depois volta e meia encontrava, não muito mas gravei em várias faixas isoladas do Clube da Esquina 2, de Minas. Volta e meia eu gravava de flauta com o Danilo. E depois acabei excursionando com ele antes do disco Gerais. O disco Gerais já tem uma música minha, tem um arranjo meu. E nessa viagem foi muito bom com o Milton porque era uma época que ele estava muito bom, estava fazendo um sucesso incrível, as músicas eram animadíssimas e a gente rodou o Brasil inteiro assim, com shows muito bons e se divertindo, todo mundo contente e feliz.
A música completamente diferente, as harmonias dele de “Morro Velho” e “Travessia”, assim. A gente ficou aprendendo, pegando com alguém que já sabia. Virou aquela coisa de aprender essas harmonias novas. E outra cabeça, o Milton chegou com uma novidade muito boa, era diferente mesmo.

Formação Musical
Aprendizado

Bom, eles não foram nem muito de empurrar, nem de evitar. Porque eu acho que eles ficaram meio cabreiros de me influenciar muito pra uma coisa ou outra. Foi meio uma coisa que partiu de mim e eu fui estudando por minha conta, depois fui pra Pró-Arte, pra Vilma Graça. Eles não ficaram querendo forçar: “Vai ser músico”, não sei o que, eles deixaram meio assim em aberto pra deixar eu ter lá as minhas dúvidas mesmo da cabeça. Eles pagavam os estudos, na época não tinha “por minha conta”, porque eu não trabalhava. Mas, quer dizer, foi uma vontade que eu tive e fui estudar. E ele de vez em quando, ele dava uns toques assim, mas ele não foi muito de ensinar. O que ele fazia muito é que eu saía querendo tirar as harmonias dos negócios dele, e ele não dizia o nome de acorde nenhum, ficava tocando aquilo, aí quando eu começava a aprender a música num tom eu olhava e ele já tinha mudado de tom, tava tocando em outro tom. Isso é um negócio meio de pianista de boate, da noite, que é um pessoal que tem que acompanhar em qualquer tom. Entra cantora cantando e o cara tem que ir atrás, mas eu não sou muito bom nisso não. (RISOS)

Formação Musical
Clube da Esquina: gravação

Nessa época de festival eu me lembro do Milton, não me lembro praticamente de ninguém. Depois Ronaldo Bastos, já era meu amigo, comecei a fazer letra com ele e logo conheci o Marcinho Borges e o Fernando Brant. E aí depois na época do disco Clube da Esquina eu fui conhecer o Beto Guedes e o Lô Borges, que já estavam gravando o disco lá.
Eu fui a gravação. Eu acho que é capaz de eu ter tocado em alguma faixa do Clube da Esquina ali, tocado flauta, né? Mas eu me lembro de ir nas gravações na Odeon, estúdio antigo assim e bonito pra burro, era um estúdio bom porque era alto assim, hoje em dia os estúdios são menores.
Eu não sei bem, eu não estava totalmente ali dentro o tempo todo, quer dizer, me lembro do Ronaldo pensando mil coisas sobre o disco, inclusive para a capa, as fotos do Cafi, todo mundo cheio de idéias naquela época. E assim, a gravação daquilo era muito legal, que era num estúdio acho que eram quatro canais só, ou dois. E o disco é muito legal, é muito bom e muito bem gravado. E naquela época isso significava uma ginástica de técnicos danada, né? Mas a qualidade daquele disco eu acho impressionante. Eu acho que às vezes tem disco feito com 900 canais que não fica tão bom. Também porque tinha que gravar e tinha que ficar certo, né, ninguém podia errar, não tinha essa onda que depois o sujeito vai lá e grava, diz: “Está bom, mas depois eu vou corrigir um acorde”. Então o baixo diz assim: “Não, toquei a nota errada, depois eu vou corrigir”. Virou essa mania de você gravar e não ter que estar perfeito, porque antigamente não tinha, misturava tudo, então errou uma nota tinha que tocar todo mundo de novo. Isso era bom que dava um certo gás.

Formação Musical
Festival Paraíso

Eu fui nessa excursão antes do disco Clube da Esquina 2, quer dizer, já tinha tido o Minas e o Gerais. E a excursão tinha aquele trenzinho com o morrinho atrás. Teve um show engraçado também, acho que foi depois disso; foi um show lá em Três Pontas, tinha Clementina de Jesus, Chico Buarque, em cima do morro, aquilo foi muito engraçado. Eu não sei, eu fui pra acampar, mas agora eu não sei se eu fiquei acampado ou se depois aparece a casa de alguém pra ficar, fui eu, a minha mulher, eu não sei se mais alguém. E conheci a casa do Milton, a família, não sei o que. Foi legal esse lance. Eu acho que alguém me arrumou um lugar pra ficar que eu acabei não ficando porque era pra acampar num estacionamento meio pra fora da cidade. Mas eu não lembro de armar barraca, tinha barraca no carro mas eu não… eu acho que acabei dormindo em algum lugar.
Eu fui pra tocar, mas era uma coisa que nem estava combinada, quer dizer, como eu tinha tocado nesses shows antes eu fui lá botei a minha flauta no saco e fui pra lá. Aí tinha o show, estava bem doido assim, porque muita gente, eu nem me lembro todo mundo que tinha. A Simone cantava umas músicas nesse show, depois do Minas e do Gerais, eu acho que ela fazia uma parte do show, ela entrava, então ela devia estar lá. Eu me lembro da Clementina, foi coisa assim que mais me impressionou. E eu me lembro tinha o Chico, eu acho que já tinha “O que será que será”, já tinha essa música que os dois fizeram lá.

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Ronaldo Bastos/ Danilo Caymmi, Nelson Ângelo

Eu fiz quase todas as letras com o Ronaldo. E Ronaldo eu conheci muito cedo, não sei se foi através do Milton. Eu conheci o Ronaldo de muito tempo atrás. Lá em casa virou também uma coisa que tinha muita música lá, quer dizer, comigo, com o Danilo. Tinha música em volta do meu pai com as pessoas mais velhas, mas comigo tinha sempre umas coisas Joyce, Naná Vasconcelos, Nelson Ângelo. Nelson Ângelo a gente estudava solfejo e harmonia, não sei o que, juntos. A gente ia pra casa no solar dele que tinha uns passarinhos na parede, e ele ficava estudando aquilo regendo os passarinhos assim, botava o método, que era um método terrível, acho que era o Bona, método do Padre Bona que era um padre, provavelmente, sádico, com umas coisas técaragadi truumm truum bu pu, depois bi bi pu bu pi. Era impossível ler aquilo. E a gente ficava treinando com aquilo que era a aula com a Vilma Graça, que eu acho que o Milton estudou também na mesma época com a Vilma, sendo que o Milton tinha vantagem que ele já sabia todas as notas de cor, ele tem um ouvido absoluto, que é absoluto mesmo, você fala uma nota e ele já não tem a menor dúvida. Eu tenho que pegar pó pi popó, fazer umas contas na cabeça pra tentar descobrir que nota é. Mas isso existe, tem umas pessoas que uma nota é uma nota e não tem a menor dúvida que aquilo é um Lá, acho que o Milton é uma dessas pessoas assim.

Formação Musical
Clube da Esquina 2: gravação

Eu fiquei no estúdio muito porque, sei lá, acabei tocando em outras músicas, toquei no “Canoa, canoa” com o Nelsinho, tinha dois violões ali, depois fizemos arranjos lá pra cellos que eram muito bons, eram quatro cellos assim trããããã. Aquilo era possante. Tem uma foto minha regendo com a mão no bolso, atrás assim… eu digo: “Como é que pode o cara reger com a mão no bolso?” (RISOS)
Tinha bastante gente, mas não era uma bagunça não, era organizado o troço, a coisa andava legal. Eu me lembro da Elis gravando, me lembro da Joyce com o Maurício Maestro. Foi muito bom aquele disco, eu gosto. Eu gosto dos outros também, anteriores, são muito bons.

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Olho d’água

“Olho d’água” nasceu como uma valsa no violão, que meu pai tinha gravado só com cordas lá nos Estados Unidos e eu nem participei, e o Milton já gostava e ela sempre teve um princípio de letra assim. E nessa época o Ronaldo completou uma letra e a gente botou o nome de tudo quanto era cidade possível, então tem as cidades misturadas de Minas com o Rio de Janeiro. Tem um pedaço dela que é só: “Maravilha… não sei o que…”
Então uma salada… Guanabara… Uma salada de cidades ali que todo mundo ia dando palpites: “Bota mais uma!” (RISOS)
Uma coisa que é raro uma pessoa conseguir ter uma orquestra pra poder ter um arranjo pra tocar. Eu já tinha feito arranjo não sei pra que antes. Quer dizer, eu tinha feito um disco que tinha eu e Danilo de flauta, que já tinha uns arranjinhos ali. E talvez no meio de trilha sonora do meu pai eu tenha escrito um pedaço ou outro, que a gente tinha um conjunto de flautas, umas cinco flautas eu acho. Inclusive uma é o Paulo Guimarães que vai estar aqui. E aí nessa viagem com o Milton tinham quatro cordas, quer dizer, tinham dois cellos, duas violas e quatro flautas que era eu, Danilo, Nivaldo e o Paulo, eu acho. E aí eu me lembro quando começou os ensaios, assim, tinha aqueles arranjos, não sei o que, eu vi que tinha umas músicas sem arranjo, eu fui pra casa e fiz e apareci lá com o negócio assim, meio forçando aquela barra pra cima do Milton e o Milton aceitou aquilo muito bem. Eu fiquei felicíssimo, porque é difícil você querer começar a escrever e não tem quem toque, entendeu? Não tem cordas, você não vai lá no ensaio da orquestra mostrar o teu arranjo, pedir pros caras tocarem que eles não vão tocar, eles acabaram de tocar Beethoven, já querem ir pra casa tomar café, não é fácil você poder escrever e ouvir. Então são essas oportunidades assim. O Milton sempre teve bons arranjos, primeiro disco eu não sei se é Luizinho Eça, mas ali nos festivais já é Eumir Deodato. E, aí, ele foi pra Nova Iorque, gravou um disco, o Eumir, que eu estava ouvindo outro dia, que é super bonito. E depois rolava Wagner, Nelsinho, não sei se Toninho também fez arranjos das músicas dele. Eu fiz só aquele da minha e esses do show que andava que era uma música do negócio pro menino que foi assassinado aqui, “Quem cala sob o teu nome Olho d’água. Quem cala morre contigo”. E a outra que eu tinha feito arranjo era a “Ponta de Areia”. Mas eu fiz assim porque eu vi que elas não tinham arranjo, eu e eu disse: “Pô, parece com aquele negócio” e foi legal. (RISOS)

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Avaliação

Eu acho que a inovação é porque era muito boa música, as pessoas eram legais, quer dizer, eu estava no meio de amigos, da minha idade. Inclusive esse trabalho com o Milton, pra mim foi bom pra depois… porque eu fui começar a trabalhar mesmo com o meu pai bem depois disso. Quer dizer, essa coisa com o Milton foi boa pra mostrar logo o quê que é essa vida, sair viajando e fazendo show, isso de uma animação boa, acho que me levou muito pro lado da música. Eu tinha acabado de me formar arquiteto, e aí pimba, saí nessa excursão que era muito bom. E aí depois ainda trabalhei um pouco com arquitetura, que eu gosto, mas depois acabei largando, fiquei só com música. E agora com esse instituto Antonio Carlos Jobim que é um pouco como esse Museu do Clube da Esquina, né? Estava até conversando com o Marcinho pra ver se a gente faz uns links entre uma coisa e outra.

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O Trem Azul

“O Trem Azul” o meu pai foi fazer um filme em Londres e o Ronaldo estava meio exilado em Paris, a barra estava pesada aqui ele foi pra lá e ficou estudando. E aí eu fui de navio com minha mãe e minha irmã pra Londres, e o Ronaldo então saiu de Paris e foi pra Londres e a gente viajou um bocado, andamos, fomos a Amsterdã várias vezes, depois fomos pra Espanha. E nessa de ir pra Amsterdã tinha um trem azul assim, e o Ronaldo estava com essas fitas e estava fazendo essas letras, então… Quer dizer, o meu pai tava ouvindo essas músicas enquanto ele estava fazendo filme, a gente estava tocando. E depois ele cismou de fazer uma letra em inglês. E agora eu tive lá na Holanda, com o negócio de Jobim Sinfônica, tinha aquela orquestra toda, e eles pediram “Trem Azul”, então a gente levou um arranjo do “Trem Azul” também e tinha as moças lá pra cantar, não sei o que. E eu fui contar essa história pra moça que o Trem Azul era um trem da Holanda. (RISOS) Aí a moça virou pra mim e disse assim: “Mas eu nunca vi um trem azul aqui na Holanda!” (RISOS) E ela perguntou: “Quando é que foi isso?” Eu digo “Ah, foi em 1969”. Aí moça devia ter nascido em 1979, sei lá. A moça, assim, já foi maior bandeira, o negócio do trem azul já é um negócio de macróbio (RISOS). Mas tinha, eu juro que tinha um trem todo azul, assim, que era bonita a beça, que inspirou a música.

Formação Musical
Pai

Ele se metia no meio, ouvia, e às vezes ficava lá no canto dele de pai. Tinha uma salinha assim que a minha mãe botou cheia daquele negócio de elcatex, não sei o que, pra ficar a prova de som. Eu achava que aquilo era um estúdio por causa do meu pai, não era, era o contrário, era para me trancar lá dentro pro esporro da gente não sair pra fora. E lá a gente tocava muito, improvisava a noite inteira. Eu, Danilo, Paulo Guimarães, Nelsinho, às vezes aparecia o Naná. Depois o Novelli, também, a gente andou na época dessa viagem, aí tinha muito Nelsinho e Novelli, aquela dupla dinâmica.

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Clube da Esquina: o local

Eu não conheci esquina nenhuma, nem sei se tem esquina esse clube. Eu conheci as pessoas e fui, sei lá, fui na casa do Fernando. Nessa excursão teve show do Milton lá e aí à gente fez o show lá e eu ainda fiquei lá, depois fui pra Diamantina, isso por minha conta. Mas a esquina… eu nunca vi essa esquina. Pra mim é lenda, era qualquer esquina assim.

Clube da Esquina
Avaliação

Eu acho que é uma turma que tem cara de movimento, mas, por exemplo, eu passei a vida dando entrevista pra falar sobre Bossa Nova, o que é Bossa Nova? Bossa Nova não é coisa nenhuma, porque não é um ritmo, é samba, mas tem valsinha também, tem baião, é a maneira de tocar, é meio assim turma. Ou então sei lá, é João Gilberto tocando aquele violão, pode ser visto assim. E o Clube da Esquina acho que é esse grupo de pessoas que, inclusive porque as pessoas mudam, quer dizer, se você pegar a vida toda do meu pai não é tudo igual, não é tudo Bossa Nova. Quando chega Matita Perê, não sei o que, aqueles troços dele com orquestra vira outro negócio, né? O Milton mesmo teve fases bem diferentes. Se eu olhar só a obra do Milton ela já varia muito, se pegar aí Beto Guedes, não sei o que, já é uma onda outra. Mas eu acho que tem esse caráter de um grupo que se encontra e está numa época produtiva e aí aquilo gera uma porção de coisas pelas pessoas estarem vivas. Mas não porque você vai dizer que o Clube da Esquina é uma música que se toca com primeiro dedo, se canto com a segunda boca, não é isso. É uma coisa que aconteceu com várias pessoas e com coisas diferentes. O Beto é uma coisa, o Toninho é outra coisa, o Nelsinho é outra coisa, o Milton é outra coisa, o Lô… cada um é um.

Formação Musical
Show de Beto Guedes

Pois é, era bom demais. Eu me lembro um show do Beto que de repente foi aquela Sarah Vaughan, e aí a gente tocou um negócio dos Beatles, ela entrou aí no meio, cantou tudo improvisado na hora, agora esqueci qual era a música. Cheguei de bicão assim, quer dizer, nesse show eu estava tocando, mas eu nunca toquei com o Beto oficialmente. Eu acho que foi quando a Sarah Vaughan veio aqui que a gente gravou com ela. Tinha eu, o Danilo, o Nelsinho, enfim, as pessoas que tinham vindo dessa excursão com o Milton, gravamos com o Milton. E numa hora dessas tinha um show com o Beto e aí eu apareci no meio do show do Beto, evidentemente de bicão.

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avaliação

Eu acho que foi essa coisa de poder ter feito esses arranjos e a minha música ficou, tem músicas assim muito pro lado de Milton, né? Pensando com aquela cabeça e depois eu fiz muita coisa de trilha, escrevendo pra orquestra, que é meio minha onda, eu gosto de escrever aquelas bolinhas assim, que nem Nelsinho também gosta. E eu acho que foi essa possibilidade que o Milton abriu. Eu acho que eu tenho influência dessa coisa toda, não sei muito bem aonde, em que nota, em que acorde, mas eu acho que essa coisa me influenciou, pelo menos era música de quando eu era jovem… a música era isso, era Beatles, Jimmy Hendrix, Milton, um pouco menos Tropicalismo, eu dava menos bola pro Tropicalismo do que dava pro Milton. O Milton era mais importante pra mim.
Eu não sei, eu acho que Minas, primeiro, tem músicos ótimos, tem pessoas que estudam e que tocam muito bem e que sabem muito de harmonia, essas coisas. E fora isso, Minas tem uma tradição gigantesca por trás de música que muita gente não dá bola e não sabe que existe, mas Minas tem música assim, na rua. Às vezes você chega na porta de uma igreja tá rolando um som assim inteiramente único, que não tem em nenhum outro lugar do Brasil, é meio misterioso Minas assim com isso. E é um ninho de músicos ali, o ninho deles é pra lá. (RISOS)

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Instituto Antônio Carlos Jobim

O Instituto começou, quer dizer, tem o acervo dele que é a coisa mais importante que tem ali, tudo quanto é partitura, arranjo, cadernos em que se escreveram as letras, com coisa escrita pelo Vinícius, escrito pelo Mendonça, muita carta, esse negócio. Mas o Instituto começou mesmo pra fazer um projeto que se chama “O Tom da Mata” que é um projeto de educação ambiental que a gente fez com a Fundação Roberto Marinho, com o patrocínio de Furnas e acho que Eletrobras. Isso depois virou, teve outro, “Tom do Pantanal”. Era uma coisa de educação ambiental, mas misturando música, e cada vez mais começou a haver coisa de cultura, coisa de música, de folclore dessas regiões. A gente fez o “Tom da Mata” que teve pouco. Eu fico com pena porque tem pouca coisa de folclore no “Tom da Mata”. Depois no “Tom do Pantanal” começou a ter, no “Tom da Amazônia” teve mais. E agora eu estou esperando, já tem uma verba, a gente deve fazer o “Tom da Caatinga”, que eu já estou totalmente pensando na música, o nordeste é realmente, assim como Minas, é um pote de ouro em música.

Família
Filhos

Tenho três filhos. Meu filho é músico, toca piano, compõe, canta. Minha filha mais velha, Dora, é mais negócio de vídeo, mas ela está completamente metida com música, quer dizer, vídeo, mas a maioria do que ela filma é música: é Marisa Monte, Monobloco, aquele Pedro Luis e a Parede. E a minha filha menor, assim, andou tocando um pouco de violão, mas está nessa onda: vai pra Lapa ver o samba, é meio ligada também em música, mas talvez não tanto.

Formação musical
Trabalhos atuais

Estou meio parado assim. Eu agora passei um tempo em Nova York, não sei o que… apareceu até uma chance de fazer um disco, eu tenho que acordar de novo e dá vontade de fazer músicas novas, não fazer o que você já fez. Mas eu fiz um trabalho com o Milton, agora recentemente, a gente vai ver se recupera um programa que tem do Milton com o meu pai, de repente eu vou botar umas cordas pra melhorar o som, porque o som é meio ruim. E eu estou pra ir pro Japão pra fazer um segundo disco com aquela Lisa Ono, que vai ser um disco só sobre o meu pai, porque eu fiz um disco com ela, mas era um disco variado, tinha música dela também, tinha música do meu pai, tinha Noel Rosa, tinha Marcos Valle, tinha… É um disco que eu gosto, chama Carioca, fizemos eu e Daniel, a gente produziu pra ela.

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Instituto Antônio Carlos Jobim

Mas o Instituto tem me tomado um tempo gigantesco, eu estou tentando conseguir um tempo pra mim de volta, porque você inventa uma coisa assim, mas você não tem idéia do tamanho do trabalho que aquilo vai dar. É que nem o vatapá, ninguém quer saber o trabalho que dá.
E depois correndo atrás dos patrocínios, tem um projeto de não sei o quê. Agora eu estou correndo atrás dos acervos de Dorival Caymmi, aí você tem que correr, falar com todo mundo que você conhece, eu fico em casa: “E aquela firma ali, conhece alguém? Vamos lá então.”
O Instituto acabou de mudar pra uma casinha dentro do Jardim Botânico. É um lugar lindo que vai ter um teatro. O Jardim Botânico já tinha um lugar pra ser um centro de cultura e eles deram o nome do meu pai pra esse centro de cultura. E a gente chamou de Centro de Cultura e Meio Ambiente pra ter sempre as duas coisas juntas. Tem uma casinha, que a gente chama Casa do Acervo, foi o acervo do meu pai e devem ir outros acervos, pelo menos virtuais assim, quer dizer, não necessariamente objetos. Agora, eu tô tentando fazer o do Caymmi. Enfim, tem milhões de compositores aí, tem projeto com o Chico Buarque também. O acervo do Vinicius de Morais a gente já tentou digitalizar uma vez junto com a Casa Ruy Barbosa; está na Casa de Ruy Barbosa. Mas essa coisa digital assim, você pode levar de um lugar pra outro e de repente ter um centro de referência. Agora, as idéias são boas, mas dão um trabalho danado, que nem o vatapá do Caymmi, ninguém quer saber o trabalho que dá, você começa e daqui a pouco você está totalmente dedicado. E eu quero poder sair um pouco assim, ter os descansos pra poder escrever música, tocar e não ficar só institucionalizado ali.

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Clube da Esquina

Eu achei muito boa a maneira que o Márcio botou de não ser aquele museu muito careta. Porque eu com o Instituto eu tenho um certo medo dele virar museu, tanto que eu nunca pensei em fazer um museu. Eu pensei que existia aquele acervo ótimo, que as pessoas deviam ter acesso a isso, mas eu sempre pensei numa coisa mais simples do que: “Olha aqui o chapéu”, sabe? Bota o chapéu e fica lá guardando aquele chapéu e aquele charuto velho, aquele charuto vai ficar mofado. Quer dizer, a idéia do Márcio é uma coisa mais viva, quer dizer, que tenha show, que aconteçam coisas. Ali no Jardim Botânico tem, quer dizer, a gente, agora, está fazendo um teatro, mas já tinha um toldo, então tem essa coisa de show junto, em frente, que faz com que a coisa fique viva. Porque é bom a coisa viva, não aqueles objetos dentro da geladeira, assim, com pedaço de vidro: “Olha lá o robe de chambre do Beethoven”, aquilo é chato, Museu de cera, bota aquele cara todo assim. É legal uma coisa assim viva. E eu gosto que vai tudo de criança, e passa aqueles troços no vídeo, tem até que batalhar mais com essa coisa, com uma coisa de educação musical e ambiental, porque quando entra criança já melhora o clima, porque eles fazem uma bagunça. Agora, eu estou numa sala que não tem, ficou faltando vidro, pra separar do lugar que entra o público. Outro dia eu cheguei lá tinha uma turma de criança, devia ter uns 20 gritando ali dentro, aí botaram a música mais alto ainda, virou uma loucura aquilo. Mas isso é legal, quer dizer, bacana você ver aquele troço acontecer assim. E eu acho que as crianças que vão poder mudar alguma coisa do mundo, se é que vai dar tempo. Porque essa coisa de meio ambiente você ficar falando pra marmanjo, não adianta nada, porque os caras já estão viciados nesse mundo que a gente vive e daqui a pouquinho quem estará fazendo as besteiras são as crianças. Se você consegue mudar a cabeça delas, daqui a pouquinho elas podem não estar querendo fazer besteira. Eu acho que elas aprendem mais rápido do que você pegar um industrial e dizer que não é pra chaminé soltar fumaça, o cara morre antes de você conseguir convencer ele, às vezes da própria fumaça.

Formação Musical
Clube da Esquina: avaliação

Eu não sei, pra mim o Clube da Esquina foram essas pessoas, foram essas viagens do Cafi procurando nuvem, indo por Minas. É um Clube meio imaginário na minha cabeça, duma época e da cabeça das pessoas que viveram aquilo. Eu não sei muito colocar o Clube da Esquina numa coisa palpável, científica. Eu acho que ele é justamente uma idéia na cabeça das pessoas, uma época que se viveu e que, sei lá, têm um céu de Brasília, umas coisas assim.
Nossa, mas nessa época tinha muita repressão, quer dizer, Ronaldo acabou fugido, o Milton acho que foi chateado, acho que ele foi chateado. Caetano e Gil se mandaram. E essa geração toda tinha pessoas, amigos da gente que daqui a pouco sumiam, ou então tinham que fugir. Teve o Tenório Junior, não sei se ele tava tocando com o Vinícius, foi pra Argentina, sumiu, alguém pegou ele e jogou num buraco, não sei o que fizeram com ele. Tinha o Ricardo que tinha um grupo vocal que acabou sendo mandado numa troca daquela de seqüestro, foi pra lá, foi pra Paris. Ficava anos até poder voltar, e a gente viveu muito perto disso. Todos os amigos tinham algum envolvimento com o negócio e era ruim, foram anos, nesse sentido, ruins. Ainda bem que o pessoal conseguiu tocar bastante e as músicas tem a ver com isso, “San Vicente”, essa música do menino também, né?
Eu acho que mais a coisa de você querer lutar contra, de você estar envocado, quer dizer, isso dava uma força nessa música como uma reação a uma época também. Que esse tempo que eu estou pensando era um tempo muito ruim, que Deus me livre, você tinha medo de polícia em todos os lugares do mundo que andava, quando virava a esquina, a polícia sempre aparecia pra fazer alguma coisa ruim. Inclusive pra ir pra Belo Horizonte o sujeito tinha que passar em Juiz de Fora, que era um antro de polícia ali, eu acho que tinha um quartel do exercito, parava todos os carros, revistava tudo e volta e meia as pessoas quando passavam em Juiz de Fora ficavam com medo de passar em Juiz de Fora. (RISOS)
Eu acho que pra mim foi uma oportunidade ótima ter conhecido essa gente e ter participado, assim, dessa vida nessa época, porque foi uma época criativa, foi uma música criativa, isso me valorizou a vida, pra depois ficar com isso guardado no peito.

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