Paulo Santos

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento.

Meu nome é Paulo Sérgio dos Santos. Nasci em 10 de abril de 1954, em Belo Horizonte.

Família
Pais

Valdir dos Santos, falecido, e Leonicia Jorge dos Santos. Meu avô por parte de pai – pelo que me dizem, eu não tive um grande contato – era ator e músico. Meu avô por parte de mãe também tocava algum instrumento. Então tem na família vários contatos. Meu pai era músico, compositor de caixinha de fósforo, compositor de samba, então minha família tem uma verve musical. Meu pai era da época que compunha samba na caixa de fósforo, sambas da época de Pixinguinha. Meu pai era dessa data. Gostava de samba, ia para o Rio de Janeiro, era boêmio daqui de Belo Horizonte e compunha alguns sambas, fez uns sambas bem bons.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Lembranças de infância

Meu pai era mais compositor boêmio. Eu conheci algumas coisas do meu pai mais tarde, mais pra lá de adolescente. Na época de infância eu não conheci, música eram só lembranças. Sempre na minha casa teve muita música. Como antigamente em Belo Horizonte era muito mais fácil a coisa da música! Você sempre tinha quintais onde as pessoas se reuniam e tocavam. Tinha reuniões normais de tocar samba, papai cantando, minha mãe cantando. Minha mãe também declamava grandes poesias. Família mineira bem tradicional: o marido tocava, a mulher declamava poesia em fim de tarde, cerveja no domingo.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Iniciação musical

O meu pai me deu muita força em relação à coisa da música. Eu estudava História na UNB em Brasília. E ele me deu muita força quando eu quis trocar a história para fazer música. Eu estava bem no meu curso, estava quase terminando, mas eu queria tocar. Aí já fui mudando pra música e ele foi uma das pessoas que falaram: “Poxa, claro. Pára com tudo e faz música”. Aí foi quando eu vim para Belo Horizonte e conheci o Uakti. Quando eu saí daqui para estudar em Brasília, na UNB, meu sonho era continuar, me tornar historiador e percorrer meu caminho acadêmico. Mas a música foi me atraindo para um outro lado, mesmo lá em Brasília, e o meu pai foi muito importante. Eu queria vir para Belo Horizonte para a Fundação de Educação Artística e ele falou: “Faz mesmo, larga tudo, tudo bem. Fazer o quê? Você gosta de música”. Foi uma coisa muito forte no momento.

Formação Musical
Influências

Tem a ver com o Clube da Esquina, claro. Porque o Clube da Esquina é como uma fonte. Pra mim veio de um disco do meu irmão Túlio Jorge, que é astrofísico. Eu estudava em Brasília, ainda não tocava nada, estava começando lá na História, e ele me mostrou o disco do Lô, aquele do tênis. Foram dois discos, esse e o do Naná Vasconcelos, quando ele começou a gravar com o Milton. E esse disco (do tênis) foi um disco que me marcou, mudou. Ali eu falei: “Puxa, é Minas Gerais”. Teve mais aquele disco do Beto e também o do Milton que a gente ouvia muito, o “Milagre dos Peixes”, na época de universitário. Foi um disco que teve as letras censuradas e ele teve que cantar tudo só com vocalise. Foi uma coisa importante. Então aquele foi um marco na minha vida, porque eu queria mesmo a música, eu queria tocar, arrasar, tocar com aqueles caras, esse sonho todo que às vezes dá certo. No meu caso deu supercerto, acabou que eu toco com todos eles. Eu tinha um grupo de teatro na Universidade, que era teatro e música, no qual eu tocava alguma coisa de percussão, mas eu era mais ator. Nessa época, eu achava também que eu estava entre História e ser ator – eu tinha um negócio com teatro muito forte e acabei na música, essas coisas são assim. Eu nunca pensei sobre isso, onde tinha sido o marco. Mas eu lembro que esses discos, o do tênis, o “Milagre dos Peixes” e esse do Naná Vasconcelos, o “Amazonas”, foram um caminho: “Vou voltar para Minas”. Deu saudade.

Formação Musical
Iniciação musical

A partir daí eu saí de Brasília. Estava terminando o curso de História, mas larguei. Também era um momento político conturbado. Vim para Belo Horizonte e comecei a estudar na Fundação de Educação Artística. Fiz um festival de inverno em que eu conheci o Rufo Ferreira, que é um compositor argentino, que mora em Belo Horizonte, professor de música na Fundação de Educação Artística. Aí eu conheci o Rufo e comecei a participar da Oficina Multimídia. Era teatro, musica, dança… multimeios. E esse pessoal da Multimídia usava os instrumentos do Marco Antônio Guimarães, que tinha vindo da Bahia, e eu comecei a tocar com eles em 1977. Quando eu voltei para Belo Horizonte e comecei a fazer parte desse grupo, formamos em 1978 o Uakti. Aí entrei para a orquestra, porque eu queria mesmo ser músico, e comecei a estudar primeiro clarinete. Estudei um tempo de clarinete, eu era até bom clarinetista na época. Queria tocar na orquestra. Mas aí eu fui para a percussão e comecei a tocar na orquestra convidado pelo Décio Ramos, o Décio que toca com a gente. Ele era o primeiro percussionista da orquestra, mas como ele foi para o Uakti, eu entrei no lugar dele para tocar em alguns concertos. Durou dez anos isso. Foi minha ida para a música. Em 1978, nasceu o Uakti, mesmo.

Voltar ao topo PESSOAS

Milton Nascimento, Tavinho Moura

Na música, na arte, sempre tem uma magia muito grande, um lado de sensações mágicas. Foi mágico porque era o sonho. Eu sempre quis tocar, ainda que ouvisse muito. Então, o Tavinho Moura, que conhecia o trabalho do Uakti e já tinha trabalhado com o Marco, nos apresentou ao Milton Nascimento. E a gente foi convidado a fazer a primeira participação com o Milton. O Uakti estava começando mesmo. Aí o Milton nos convidou a fazer parte do disco “Sentinela”. E aí foi mágico porque depois deu tudo muito certo. A gente não tinha nenhum disco, a gente começou em 1978. Em 1979 a gente conheceu o Tavinho, em 1980 ele apresentou a gente para o Milton e em 1981 a gente gravou o “Sentinela”. Foram três anos muito próximos, e muito rápidos também. Então o primeiro contato com o Milton foi esse, através do Tavinho, e a gente tocou três faixas nesse disco, “Sentinela”. O Milton é uma pessoa supergenerosa, não precisa nem falar isso mais, porque já é muito claro, então ele nos convidou para produzir três discos do Uakti. O primeiro foi em 1981, “Uakti – Oficina Instrumental”, o segundo foi em 1982, o “Uakti 2”, e depois, em 1984, o “Tudo e Todas as Coisas”. E foi uma coisa muito incrível, porque a gente estava começando, não tinha nem repertório ainda, mas já tinha um contrato de três anos com uma gravadora grande, a Ariola, que na época era um selo dentro da Polygram, em que Milton estava começando. Então pra gente foi muito rápido e muito mágico, porque foi um encontro muito forte logo de cara com o Milton, que era um cara que a gente ouvia. É claro que o Milton já conhecia o Marco Antônio Guimarães porque o Marco tocava violão muito bem – ainda toca violão – e conhecia o Milton de época de bares aqui em Belo Horizonte, de outros momentos que eu não saberia dizer porque são momentos deles. Mas eles se conheciam e já tocaram juntos em uma época anterior. E o meu contato foi esse, daí gravei com ele uma música do Tavinho. Estava o Milton, estava o Toninho Horta, estava todo mundo, foi um passo.

Formação Musical
Uakti

Como os instrumentos são todos diferentes, só a gente mesmo que domina. Não tinha a menor interferência da coisa musical. A interferência do Milton era na produção, ele era o produtor, de estar ali no estúdio, de ir ouvindo, aquela coisa. Mas na coisa musical ele não influenciou. Isso é uma coisa que o Uakti sempre preservou muito e sempre foi assim, talvez pela característica dos instrumentos que só a gente domina. Não tem um arranjador que arranja para aqueles instrumentos. Pode até tentar e pode até dar certo, mas geralmente a gente tem um contato muito maior. Eles são muito específicos, cada um tem a sua limitação.

Voltar ao topo DISCO

Clube da Esquina: 1972

Eu lembro – já não era nenhum menino em 1972 – do lançamento, muito. Lembro como foi na época. Era uma época da música mesmo, teve uma mudança musical muito grande, de estrutura, de forma. Aquele disco mudou estruturalmente a forma da músicas, de como cantar, da melodia, da harmonia. Até então estava tudo baseado na bossa nova, que era o centro da harmonia. Ou então no rock’n’roll, que era aquela harmonia programada. E o Clube da Esquina veio meio que mudando essa coisa com uma mistura muito grande do rock com uma coisa barroca, essa influência toda do canto gregoriano, da harmonia complexa. Essa coisa harmônica do Clube da Esquina é uma coisa peculiar de todos, e o próprio Tom Jobim, que é o rei da harmonia, disse que a melhor música que tem é “Trem Azul”, do Lô Borges, que é mesmo fantástica, uma harmonia mais que perfeita, tem um caráter harmônico de perfeição das notas e da melodia se encaixando. Eu acho que foi muito forte essa mudança de poder ver que a música brasileira estava um pouco, digamos, mais harmônica, com o canto preciso, com harmonia, com melodia, com coisas mais profundas, uma profundidade maior, talvez isso. Nessa época, eu não era tão formador de opinião – talvez hoje eu seja um pouco mais. Mas eu lembro que, na época, todo mundo tinha que ter aquilo em casa, e existia uma cobrança intelectual. A patrulha intelectual naquela época era muito mais séria, o cara tinha que provar, tinha que ter em casa aquele disco do Chico e aquele do Geraldo Vandré. Isso foi marcante. A gente só ouvia isso na Universidade. Na minha época em Brasília a gente só ouvia Milton, eu era de Minas e só ouvia Minas. Hoje em dia isso está voltando, a menina hoje está mais interessada nisso, em como é que aconteceu o Clube da Esquina, mesmo com todo mundo tentando abafar.

Voltar ao topo CLUBE DA ESQUINA

avaliação

Eu acho que sim, foi um movimento. Guardando a forma da Tropicália, que foi uma coisa mais dos baianos, que teve lá o momento deles, o Clube da Esquina foi outro movimento, um movimento harmônico que não teve a pretensão de mídia. Mas eu acho que é um movimento, porque existem pessoas que continuam vendo, ouvindo e tirando músicas de songbook e todo mundo quer saber como é que o cara fazia aquelas músicas. A Tropicália teve um movimento mais visual e eu acho que Clube da Esquina não teve essa visualidade toda, digamos, de mídia, mas com certeza foi um movimento, porque as músicas estão aí. Cada vez que as pessoas ouvem, falam: “Puxa, esses caras fizeram isso em 1972, que caras loucos”. Então essa coisa fica. Eu acho mais que um movimento, eu acho que é uma coisa que fica mais.

Pessoas
Lô Borges

Eu fiz com o Lô muito tempo, inclusive eu sou da banda do Lô. Tem um trabalho com o Lô e o Samuel Rosa, do Skank, em que eu sou o percussionista da banda. Eu gravei vários discos com o Lô e ele é o cara. O Lô tem mesmo uma forma diferente de ver a música. É uma peça muito rara, um cara com quem eu tenho mais contato, porque o Milton mora no Rio. E você vê que o Lô é um cara que é atual, que está aí presente, fazendo música com o Samuel, com o Chico Amaral e com gente nova. O Lô é um cara fantástico, tem um centro harmônico muito interessante. A música é muito fácil pra ele e eu admiro muito isso no Lô. É um material que ele domina muito fácil, o violão, a harmonia, as notas, ele tem uma resolução muito forte, eu gosto muito do Lô.

Formação Musical
Uakti

No Uakti, como a gente tem vários repertórios, a gente sempre está levando alguma coisa ou do Milton ou de alguém. Mas a gente não centra. Como a gente tem vários repertórios que vem fazendo, a gente não diz: “Vamos fazer alguma coisa do Clube da Esquina”. A gente não tem esse tipo de preocupação com ninguém. A gente meio que não centra no repertório que a gente quer produzir. Ou é trilha de balé, ou é tocar com alguém, ou é musica com o Philip Glass, ou é com o Milton mesmo. A gente fez o Heineken Concert com o Lô, o Flávio Venturini, o Milton. Então a gente não centra: “Vamos fazer isso”, nunca fizemos. A gente tem no repertório, na agulha, sempre está tocando, sempre grava, sempre tem alguma coisa do Milton – talvez por ser o cara mais próximo desde lá de trás e por o Marco ter uma relação muito forte com ele. E o Milton deu umas músicas muito boas para nós. A gente fez agora “Cravo e Canela”, que ficou muito boa com o Samuel cantando no disco “Oiapok Xui”, muito legal. Então a gente está sempre gravando o Milton, sempre meio na beirada da fonte do Clube da Esquina.

Voltar ao topo AVALIAÇÃO

Clube da Esquina

Eu não sei te dizer onde, mas sei que muita gente foge disso. Outros acham que são o próprio Clube da Esquina. Eu acho que o Clube da Esquina é uma fonte que está ali, que jorra, jorrou e continua jorrando, porque o Milton ainda está fazendo, todo mundo está fazendo, tocando, compondo. É uma fonte que está ali, dinâmica, e algumas pessoas vão lá e bebem mesmo. Outras têm influência daquilo porque não tem como, momento em que você ouve uma música do Beto Guedes, do Milton e do Lô… “Trem Azul”, do Lô, foi a única música de outro compositor que o Tom Jobim gravou na vida. Tem um valor que só que não quer ver não vê. Então eu acho que é isso aí, uma fonte que às vezes o cara fala: “Nunca bebi”, mas quando ele toca algo, você fala: “Mas esse acorde, essa coisa toda… você já ouviu esse disco do Lô? É isso aí que você está tocando. Já ouviu isso aqui do Milton? É isso aí que você está tocando”. Então influências existem, as pessoas às vezes não querem ver, às vezes vêem demais.

Formação Musical
Uakti

O que aconteceu entre o Uakti e o Milton, em termos de instrumento, é que o Marco adaptou todos os instrumentos dele para essa gravação que a gente fez em 1981. Isso foi inclusive um marco no trabalho do Uakti, porque os instrumentos eram todos, digamos, com a escala natural. Quando você corta um tubo, não tinha a preocupação de que ele fosse afinado para tocar com violão, com piano. E quando houve contato com o Milton e ele nos chamou pra tocar com ele, com outros instrumentos, com a banda dele, houve a necessidade de afinar esses instrumentos. Então o Marco fez esse trabalho inteiro, e foi como fazer outros instrumentos, como se o Uakti renascesse naquele momento. Aí o Uakti pôde tocar música com os outros instrumentos. Foi uma coisa que mudou o trabalho do Uakti. A gente fazia música experimental na época e aí o Uakti começou a tocar com outras bandas, com outras pessoas e foi trabalho instrumental mais popular que a gente trilhou. Eu acho que foi uma porta que o Milton abriu, na verdade, e todos os instrumentos se transformaram para fazer o trabalho com o Milton.

Voltar ao topo MUSEU

Clube da Esquina

Eu acho que já deveria se ter, porque em Minas às vezes a gente é um pouco interior demais para botar as coisas pra fora e falar: “Aquilo era um movimento”. Como eu falei, o Clube da Esquina é uma fonte imensa que brotou aqui em Minas, e as pessoas até hoje bebem dessa fonte, se alimentam daquilo, consciente ou inconscientemente, e eu acho que preservar isso é como preservar a água. A gente está nessa batalha toda para preservar a água, e eu acho que é mais uma coisa desse tipo. É uma coisa que nasceu, tem uma forma, deu frutos, gerou coisas, várias pessoas estão trabalhando. Então é uma fonte de água que tem ser preservada, eu acho que é por aí. Ou na forma de Museu, não sei, isso depende. Para a gente, como músico, é bom que continuem fazendo e influenciando outras e que isso continue gerando mais.

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Uma mensagem para Paulo Santos

  1. Marli Silva Avancini disse:

    O Clube da Esquina foi um dos maiores movimentos musicais do nosso país. Que seja da competência do Estado criar um Museu dos músicos de Minas Geraes, para que seja preservada a memória destes músicos.
    Quanto a influência Paulo, não tem como ser negada, ela já é história portanto é uma influência.rsrsrs É a mesma coisa que dizer que não se conhece Villa lobos!