Robertinho Silva

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome / Local e data de nascimento

Meu nome é Roberto da Silva. Nasci na Rua Princesa Imperial, número 37, fundos, Realengo, Rio de Janeiro, Brasil, em 1941

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Primeiro instrumento

Quando eu era pequenininho, na hora da bóia – bóia é a hora da comida, do jantar ou do almoço – meus irmãos sempre faziam batucada na mesa. Às vezes atrás do guarda-roupa. E eu já colocava dentro de uma latinha de fermento, aquele fermento Royal, milho ou feijão e fazia chocalhinho. Então, como o meu pai era craque em construção civil – todos os móveis de casa foram construídos por ele, mesa, banquinho – no banquinho ele já fazia o som do bongô, porque no Rio de Janeiro, na época, a moda era conjunto de rumba, rumbeira. As pessoas usavam aquela roupa de rumbeiro, cheia de babado, e nas praias da Zona Oeste do Rio de Janeiro as pessoas faziam pic-nic. Hoje em dia eles chamam de farofeiro, mas na época era pic-nic. Eu ficava fascinado de ver as pessoas tocando bongô, então eu, no banquinho, já treinava bongô.
Depois meu primeiro instrumento foi um tambor mesmo. Como o bairro era rodeado de centros espíritas de umbanda, eu sempre fugia pra um centrinho daqueles, pra tocar tambor. A minha mãe também gostava de um terreiro. E um dia eu vi um cidadão chamado Nelson, que tocava muito bem. Eu era pequenininho. Ficava do lado dele. E no dia que ele faltou no centro, eu peguei o atabaque e saí tocando, porque de tanto ouvir já sabia os toques de cor e os pontos para os orixás. E comecei assim, até chegar na bateria. Eu tinha uns 8 anos de idade. Era bem pequeno mesmo. Eu lembro que eu não agüentava passar uma noite inteira. Eu dormia em cima do tambor e, quando acordava, tinha um pires cheio de moedinhas. Eu falava: “Oba!”(Risos)

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação musical

Eu ouvia muito. Eu fui criado numa região do Rio de Janeiro, o Realengo, que tinha um clima bem de interior, de beira de rio, fazendas, sítios. E quando garoto, ouvia muito chorinho. Tinha comunidade nordestina, comunidade portuguesa. Meu pai era pernambucano. E nas festas nas casas das comadres era música ao vivo. Quem tinha um poder aquisitivo maior contratava uma jazz band. Contratava uma banda ou da aeronáutica ou do exército, que tocava no quarto da família. As pessoas dançavam na sala, mas a orquestra tocava no quarto. E eu, garotinho, sempre estava de olho na música, na bateria. Então eu fui o primeiro músico da minha família. Hoje em dia tenho sobrinhos, tenho filhos que também são. Mas eu fui o primeiro. Não sei de onde veio isso aí.
Eu tinha uma curiosidade geral. Eu me meti a tocar trompete também porque fui criado em zona militar, então eu tinha influência das bandas militares, dos rudimentos de caixa. Era uma mistura danada. Eu morava num bairro que é o bairro antes de Padre Miguel, da Mocidade Independente de Padre Miguel. Então eu era cercado de ritmos.

FORMAÇÃO MUSICAL
Profissionalização

Na época tinha muitos grupos no Rio de Janeiro chamados Ases do Ritmo. Uma falta de imaginação danada… E eu conheci um garoto chamado Zé Carlos, que tocava cavaquinho e tinha um vizinho, um padeiro, o seu Mário, que tocava violão muito bem. E a gente montou um trio, chamado Ases do Ritmo. Eu tocava pandeiro, bongô, maraca e cavaquinho. A gente tocava de tudo. Bolero… Não era só chorinho. O negócio era eclético, como se diz hoje em dia. Então foi o primeiro grupinho assim.
A gente tocava em clube; não ganhava nada, só o x-músico – o sanduíche de músico, o pão com mortadela. E tava bom pra caramba, porque a gente queria subir em algum palco. Eu, no cinema, ficava fascinado pelas orquestras americanas, pelos musicais americanos. Falava: “Caramba!” Tinha fascínio total pelas grandes orquestras. E o meu pai tinha uma vila de casas que ele alugava para militares que vinham do interior do Brasil para o curso de oficial do exército, lá em Realengo, na Praça do Canhão. Eu fui criado em frente ao paiol de pólvora (risos) que até deu alguns incêndios. E aí, por ser criado em frente ao quartel do exército, eu descobri que no segundo RE tinha um soldado muito talentoso. Ele era pratilheiro da banda, aquele que toca “tchi, tchi, tchi”. E aí assisti aquele desfile com o treinamento das bandas – era sempre no quartel – e conheci esse cidadão. Ele virou o meu ídolo. E um dia me falaram: “Tem um baterista morando aqui na rua tal” Eu falei: “Caramba!”
Fui lá e ele estava treinando. Era um sábado à tarde. Eu olhei pra ele, ele falou assim: “Você toca bateria?” Eu tive a coragem de responder: “Eu toco.” Olha que ousadia! Ele falou: “Então vem tocar aqui pra mim.” Só que eu, como carioca, ao invés de tocar um samba, sento na bateria e toco um baião, por causa da influência nordestina. “Tan tin tun tun tan tin tun tun.” Então ele falou assim pra mim: “Eu tenho um baile hoje. Você não quer me acompanhar até o baile e me ajudar a carregar a bateria?” Aí cheguei pra mamãe: “Pelo amor de Deus, tem um moço, um soldado aqui, que vem pedir à senhora pra me levar no baile.” Então decidi ficar de olho nele. Nessa época eu já tinha uns 12, 13 anos, mais ou menos. Então a gente pediu à mãe e fui no baile. Ganhei 100 cruzeiros. (Risos) O meu pai ficou besta, falou: “Quanto dinheiro!” Foi o primeiro cachê da minha vida. Aí eu consegui que ele fosse morar em um dos quartos da vila. Ele ia pro quartel e a chave ficava na portaria pra fazer a limpeza. Eu montava a bateria dele prestando bem atenção em todos os detalhes. Ensaiava o dia todo.
Um dia eu pedi pra ele me deixar dar uma canja num baile. Ele falou assim: “Não, você não toca bateria.” Eu falei: “Eu toco bateria, sim” E ele falou assim: “Não, é muita responsabilidade.” Eu falei: “Seu Jair, deixa eu tocar. Deixa eu tocar naquela hora do lanche, que é uma música mais calma.” Aí sentei na bateria, tomei uma batidinha de limão pra dar uma animada (risos) e tomei coragem. Eu lembro que a orquestra inteira olhou pra trás. Nesse dia eu fui contratado pra entrar numa banda que um saxofonista da orquestra estava formando. Um quinteto ou sexteto e pronto. Eu já tinha uma bateria que a minha mãe tinha me dado de presente. Subi nessa bateria aí, onde estou até hoje. (Risos)

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Wagner Tiso

O primeiro músico mineiro que eu conheci foi o Wagner Tiso. Foi em 1965, quando o Wagner chegou no Rio de Janeiro. Eu trabalhava numa boate do Cauby Peixoto, em Copacabana, chamada Boate Drink. E um dia apareceu um cidadão, que a gente até confundiu com o garçom novo. E era o Wagner Tiso. Aí nós ficamos muito amigos. O Wagner me ensinou muito o que era música mineira, as harmonias de Minas Gerais. A gente fazia uma troca de informações. Eu falava dos ritmos, tocava os ritmos que eu conhecia, que já tinha prática. Então foi o Wagner quem me introduziu na música mineira. Wagner Tiso, grande compositor, pianista, arranjador. Somos amigos desde essa época.

FORMAÇÃO MUSICAL
Shows

Então eu entrei no Som Imaginário pelo fato de eu conhecer o Wagner. A gente tocou junto nas casas noturnas. Um dia apareceu um cidadão dizendo pra gente, num bar do Leme, que queria montar um trio, eu, o Wagner Tiso e o Luís Alves, pra tocar música instrumental e acompanhar algum cantor da bossa nova que a gente gostava. Era a música que a gente fazia. Tocava jazz e bossa nova. E esse cidadão chegou pra gente… Estavam montando uma banda pra acompanhar o Milton Nascimento. E a gente não acreditava nele. Ele falou no primeiro dia, falou no segundo, no terceiro. No quarto dia eu falei: “Wagner, acho que isso é verdade”. E foi assim que foi montado o Som Imaginário. Eu, Robertinho Silva, Wagner Tiso, Luís Alves, Tavito, que era um guitarrista de Belo Horizonte, o Zé Rodrix, o Laudir de Oliveira, um percussionista, o Naná Vasconscelos também participou. E assim foi formado o Som Imaginário. A estréia foi numa Sexta-feira da Paixão, abril de 1970. Nasceu aí Milton Nascimento e o Som Imaginário, que foi grande sucesso na época.
Lembro-me perfeitamente dessa noite de estréia. Primeiro botaram uma fantasia na gente. A gente foi fantasiado de Riponga, vamos dizer assim. As irmãs dele, artistas plásticas e tal, figurinistas, tiraram a roupa da gente e colocaram uma calça colorida, colares. Arrepiaram o cabelo de todo mundo. Deixaram a gente descalço. Tinha uma coisa até engraçada na época. A gente, eu e o Luís Alves, contrabaixista, tocava com o Milton no Teatro Opinião, cuja estréia foi com esse figurino. Depois a gente ia pra boate Sucata, tocar com o Chico Buarque com um comportamento completamente diferente. Todo abotoado, sapato engraxado, calça vincada. Ai, que alívio, o pé quentinho! (Risos) Mas a estréia foi assim. Olha a loucura do chamado José Minser, que foi o fundador do Som Imaginário.

FORMAÇÃO MUSICAL
Ensaios/Shows

A gente ensaiava diariamente. Acho que ele tinha arrendado o Teatro na época. E a gente via aquela mudança toda: as irmãs colocando pintura nossa nas paredes, espelhando o teatro todo. Eu falei: “O que será que vai acontecer com isso?” Então na noite de estréia, a mídia foi muito grande, porque na época o Rio de Janeiro estava parado, não estava acontecendo nada devido ao auge da ditadura. Foi em 1970. O couro estava comendo. Então ele teve uma idéia muito interessante. “Como é que vai começar o show?” Ele falou: “Bom, quando o público entrar, o show já começou.”
Ele foi inovador, porque as coisas, na época, tinham um comportamento mais ou menos igual. Então ele revolucionou tudo, mudou a história todinha. Eu lembro que quando abriram a porta do Teatro Opinião, as pessoas caíam no chão, porque tinha uma luz que rodava e um espelho. Ninguém se encontrava, ninguém sabia o que estava acontecendo. Entravam assim. E a gente já estava quase nu, tocando aquela música do Milton. Uma confusão danada. Isso foi uma revolução aqui no Rio de Janeiro. E quando a gente gravou o primeiro disco, o Som Imaginário tocava 24 horas na rádio. E eu lá, no ponto de ônibus, ouvindo aquilo na rádio, o maior sucesso, sem um trocado no bolso pra pegar o ônibus. Quase pedindo carona… (Risos)

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“Bituca” (Milton Nascimento)

Eu lembro que em 1962, se não me falha a memória, eu tinha um amigo, um saxofonista chamado Carlinhos, e o irmão dele era colecionador de disco, bossa nova e jazz. Ele falou assim: “Olha, meu irmão está com um disco novo aí, de uns músicos de Belo Horizonte. Tem o Wagner Tiso, o Nivaldo Ornellas, o Pascoal Meireles de bateria, o Paulo Braga. Enfim, grandes músicos de Belo Horizonte.” E eu falei: “Que caramba! Mas que música interessante! O pessoal toca muito bem.” Tem uma valsa muito linda nesse disco, então quando eu conheci o Wagner falei: “Você que é o Wagner Tiso, o autor daquela valsa?” Ele falou: “Pois é, sou eu mesmo.” Eu lembro que na boate do Cauby Peixoto, a Boate Drink, havia um grande movimento ali, era um point dos músicos da noite de Copacabana. E o Wagner, um dia, à noite, chegou com um rapaz. Eu perguntei: “Esse é quem?” “É um amigo meu lá de Três Pontas, compositor, toca violão.” Eu falei: “Legal, prazer e tchau.” Era o Milton Nascimento. É que ali circulava muito músico, então toda hora a gente era apresentado: “Esse aqui é fulano, chegou do Paraná. Esse aqui é de São Paulo…” E ficava por isso mesmo.

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“Milton”

Então o Wagner foi me dizendo quem era o Milton, que era um compositor que estava morando em São Paulo, que as pessoas já estavam… A Elis Regina tinha gravado “Canção do Sal”. E em 69 eu gravo o primeiro disco com o Milton, no Estúdio Odeon. É um disco chamado “Milton”, que tem uma capa com umas casinhas. Eu não me lembro muito dos detalhes. Então em 1969 gravo esse disco com o Milton e aí a gente não se viu mais.

PESSOAS
“Bituca”(Milton Nascimento)

Eu estava ensaiando com uma banda de baile liberado pelo trombonista Raul de Souza, que está radicado na França, que morou muito tempo nos Estados Unidos. Era conhecido na época da bossa nova como Rauzinho do Trombone. E um dia tocou o telefone, “Brii”. Atenderam e falaram assim: “Tem um tal de Milton aí.” Eu falei: “Milton? Como é que pode?” Eu só tinha um amigo chamado Milton. Falei: “Como é que o Milton vai me descobrir aqui? Não vejo esse cara há muito tempo. Será que aconteceu alguma coisa?” Aí: “Alô!” Ele falou: “Tudo bem? Aqui é o Milton.” Eu falei: “Milton, o Otávio?” Ele respondeu: “Não, aqui é o Milton Nascimento.” Eu falei: “Oi, tudo bem?” Ele continuou: “Estamos trabalhando no Teatro Opinião e precisamos de um baterista. Não quer vim tocar comigo?” Eu disse: “Ih, cara, não posso. Eu estou numa banda de baile aqui, boa prá caramba, com o Raul de Souza, com Rauzinho do trombone. Eu posso até arrumar um baterista pra você, mas não posso não. A banda dele é muito boa.” E contei-lhe o mar.
O engraçado foi que logo depois, quando eu fiz 25 anos de carreira, o jornal O Globo procurou a gente pra fazer uma matéria com o título “25 anos de Travessia.” E o Milton falou assim na matéria: “Pois é, quando convidei ele pra tocar comigo, ele me esnobou dizendo que estava muito bem fazendo baile.” Esnobei não! Falei a verdade. Eu não aceitei o trabalho porque tinha me comprometido com essa banda. Então, foram quase 30 anos desse trabalho meu com o Milton.

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Origem do Clube

E, através da música, eu toquei com todos os compositores de Minas Gerais, toda a safra na época: Beto Guedes, Lô Borges, todos os compositores. Então eu fui premiado. Fui o baterista. Eu vou até dizer de novo, que isso tudo foi através do Wagner. Foi com a convivência com o Wagner que eu conheci o Milton, que gravei a primeira vez com o Milton. Daí veio todo mundo, que caiu de uma vez pra mim. Eu costumo dizer que eu caí de pára-quedas no Clube da Esquina. Foi por acaso. E até hoje sou taxado como mineiro, não só no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo. As pessoas acham que eu moro em Belo Horizonte. E até hoje eu nunca morei em Belo Horizonte.

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Belo Horizonte

Tem uma coisa também: a primeira vez que eu fui a Minas Gerais foi em 1958. A minha cunhada era mineira e o pai dela estava bem mal, doente. E eu fui fazer companhia. A gente foi de trenzinho, aquele trem de terceira classe, aquele caixotinho. Eu achei uma delícia. Quando meu irmão foi me buscar de volta, eu chorei porque não queria sair da cidade, porque apesar de ser do Rio de Janeiro, foi a primeira vez que eu fiquei dentro de uma cidade grande como Belo Horizonte.

DISCOS
“Clube da Esquina”

Nesse momento do movimento em Belo Horizonte, eu estava no Rio. Eu entrei no Clube da Esquina através do disco e também pelo trabalho que eu estava começando a fazer com o Milton. Eu conquistei minha liberdade com a música mineira. Eu já era um músico ritmicamente bem informado. Sempre fui interessado pelos ritmos do Brasil. Então na música brasileira eu tinha liberdade. Eu lembro que a primeira vez que eu toquei com o Milton, fiquei quase uma semana sem sentar na bateria. Porque eu ouvia muita bossa nova, ouvia muito jazz, ouvia música instrumental brasileira, que vinha já dos anos 50. Então a música mineira foi uma música que me pegou de surpresa. Falei assim: “Caramba, que música diferente e bonita!” E eles me davam muita liberdade de criação. Ninguém impunha nada. “Você tem que tocar assim, tem que tocar assado.” Eu falei: “Oba!” Era uma liberdade dessa. Então tudo que eu sabia de ritmo, eu empregava ali. Toda informação que estava embutida aqui, que estava enrustida, eu podia usar. Tinha liberdade de criação. Foi uma conquista assim. As pessoas dizem que eu sou um baterista diferente. Mas foi por causa dessa música que eu me tornei diferente. Adquiri até um estilo através da música mineira.

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento

Eu fiquei uma semana sem sentar na bateria, porque a harmonia da música mineira era diferente das coisas que eu ouvia. Os compassos eram compostos também. Eu não estava acostumado a tocar esse tipo de ritmo, com compasso de cinco, compasso de seis por oito, compasso de sete por oito. Inclusive foi o Wagner quem me orientou sobre como interpretar na bateria um compasso de sete em ritmo de samba, ritmos em três por quatro, e a tocar samba num compasso que foi feito pra tocar valsa. Só conhecia pra tocar valsa. Um, dois, três… um, dois, três. E a música mineira me deu isso de presente também.

FORMAÇÃO MUSICAL
Shows

A primeira vez que eu fui tocar com o Milton em Belo Horizonte, eu fiquei muito emocionado de ver aquele povo todo. O Milton já era, desde essa época, muito querido. O teatro estava lotado. Porque no fundo, no fundo, eu achava que só no Rio ia acontecer isso. Quando a gente foi pra São Paulo, no Teatro Gazeta, na Avenida Paulista, o teatro estava super lotado. Eu estava numa fase de deslumbramento, porque me pegou de surpresa. Em Belo Horizonte, a gente tocou no Teatro Marília, que lotava à tarde, lotava à noite. E eu falei: “Meu Deus do céu!” Era muito pra mim, era muito. Eu lembro que o Márcio Borges foi até um dos diretores, acho que do primeiro show. E ele fez um risco no chão, fez uma roda assim, querendo dirigir. Ninguém aceitava aquilo. Ele ficou bravo pra caramba. Largou tudo pra lá. (Riso)
É que a gente tinha influência do movimento hippie. O que se ouvia na época: “Vamos quebrar as estruturas.” Então tudo era careta. Era careta ter dinheiro no bolso, ter conta em banco, comer feijão com arroz. O negócio era pãozinho integral e cabelo espichado. Tomar muito banho também não era permitido. (Riso) Sapato engraxado… Tudo era proibido. Tudo era considerado careta. Então, nessas alturas dos acontecimentos, fazer um risco no Teatro Marília pra comportar a gente… Ninguém olhava para aquilo. O Marcinho ficou bravo. (Riso)

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Avaliação

Nessa época, do “Clube da Esquina 1”, a crítica podia até não gostar, mas não tinha coragem de escrever, de falar mal. Eu não me recordo de ter havido uma crítica dura. A crítica sempre apoiava, pelo que eu me lembro. Eu tenho bastante coisa guardada da época. Os jornalistas eram, por exemplo, o Nelsinho Mota, o Luís Carlos Cabral. Todos passaram pelo Opinião pra conferir esse movimento do Clube da Esquina. As pessoas ficavam meio sem coragem de criticar, porque é uma música bonita. Vai falar o que de uma musica dessa? Vai falar o quê? Primeiro que o Milton entrou no Festival da Canção, parece, com quatro músicas. No Festival da TV Record entrou com não sei quantas músicas. Então ele já chegou cheio de razão. Vai falar o que de uma música dessa? E os companheiros que foram chegando, os novos compositores, só tinham composições lindas.
O Clube da Esquina pode ser considerado como um movimento dentro da música brasileira pela diferença, porque a gente já estava careca de ouvir bossa nova. Não estava superando a bossa nova, porque ela está aí até hoje. A bossa nova mudou toda a concepção harmônica e rítmica da música brasileira. Tanto que os americanos… Hoje em dia somos iguais, mas antigamente se um americano chegava, todo mundo tremia. O cara nem tocava, porque era americano. Esse negócio acabou quando surgiu a bossa nova. Depois veio essa harmonia linda de Minas Gerais. O Milton fascinou e os outros compositores também. O jeito de tocar viola… Porque vem da influência da música caipira. Vem aquela influência todinha das montanhas de Minas Gerais. Minha maneira de ver, meu olhar. (Pausa) Então eu costumo dizer que eu sou um mineiro sem carteira. (riso) Eu não tenho carteira de Minas Gerais. Se o guarda me pegar na estrada, (riso) eu sou preso. Mas agora, depois da fundação do museu vivo do Clube da Esquina, o guarda não me prende mais, porque eu sou fundador. Eu tenho a identidade do Clube da Esquina, queira ou não. Então é isso aí.

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“Cravo e Canela”

No meu trabalho solo, eu sempre faço uma homenagem pra música de Minas Gerais, pro Milton. O que me toca bastante, até hoje, que pega na veia, é “Cravo e Canela”. “A morena que temperou, o moreno que temperou.” (riso) Gosto muito. Mas são tantas! Mas essa daí, sempre que eu faço meu trabalho, eu toco. Mas nesse mar de harmonia e melodia, é difícil você falar de uma música qualquer, da sua preferida. Todas tocam o nosso coração.

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Clube da Esquina

No dia do lançamento, eu fiquei tão feliz de ver pessoas com as quais a gente convive há 30 anos, mais ou menos. Fiquei feliz pra caramba. E quando eu tive essa notícia, falei assim: “Poxa vida, estamos vivos pra poder falar sobre o Clube da Esquina, sobre essa música que chegou numa hora em que a música brasileira estava fervendo.” Então a música de Minas Gerais veio pra dar um reforço. O movimento da bossa nova estava caindo quando chegou a música de Minas Gerais e jogou pra cima. “Yahoo!” (Riso)

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2 Mensagens para Robertinho Silva

  1. flavioandrade disse:

    Robertinho Silva é um excelente musico .

  2. Tacito Savoya disse:

    Robertinho Silva é um verdadeiro MESTRE!!!