Ronaldo Bastos

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Nome/Local e data de nascimento

Meu nome é Ronaldo Bastos Ribeiro. Nasci em Niterói – mais precisamente na Praia de Icaraí – em 21 de janeiro de 1948.

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Pais

Meus pais são Vicente Belo Ribeiro e Mariana Bastos Ribeiro. Acredito que não havia ligação direta entre meus pais e a música. Na minha família não tinha nenhum caso de músico, nem poeta. Não tinha essa tradição na família.

FAMÍLIA
Irmãos

Tenho três irmãos: Raimundo, o mais velho; o Roberto – eu sou o terceiro – e o meu irmão mais novo, que é o Vicente.

FAMÍLIA
Tio

Eu tinha um tio mais poeta, que era o meu tio José, mas acho que ele era mais pra maluco do que pra poeta. Maluco no sentido de excêntrico. Era médico, um cara bacana. Eu não sei exatamente o que ele escrevia, mas literariamente não tinha um grande valor.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Lembranças da infância

Eu fui moleque de rua. Morava numa ladeira – quase no centro de Niterói –, mas tudo muito perto ali. Na minha infância, eu lembro que estudava em Icaraí, ia a pé pra escola, jogava bola na rua, vivia uma parte grande do tempo em cima de uma goiabeira. Tive uma infância de moleque. E escutava rádio – acho que aí começa a minha primeira ligação com a música, toda através do rádio.

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Preferências musicais

Nessa época, eu escutava de tudo, especialmente a Rádio Nacional – que era a TV Globo da época. A Rádio Nacional foi uma coisa que ajudou a formar o Brasil tal como a gente conhece hoje em dia. E me formou. Eu me lembro que Caetano já falou muito nesse negócio da Rádio Nacional também, como uma referência. Eu escutava Marlene, Emilinha, as irmãs Batista, Nora Nei E aqueles programas: “Jerônimo, o herói do sertão”, “O Anjo”, os programas do Celso Alencar, todas essas coisas. Eu sei que eu vivia colado no rádio quando eu não estava na rua nem estava na escola.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Lembranças da infância

Nessa época, o rádio estava sempre ligado. Eu não ficava sozinho pra escutar – em alguns momentos eu devo ter escutado rádio sozinho, mas eu não tinha essa. O rádio era uma coisa que ficava ligada nas casas, não sei se em todas as casas, mas eu me lembro disso um pouco, do rádio como uma coisa presente na vida das pessoas. Lembro também das novelas no rádio, mas não sei se eu chegava a acompanhá-las. A coisa que mais vai se escutar neste depoimento é: “Eu não me lembro”, porque a minha memória hoje está um pouco afetada… Eu estava conversando com o Márcio Borges um pouco antes desse depoimento e às vezes a gente não lembra muito dos fatos, lembra mais da sensação. A minha sensação da infância é uma sensação muito feliz, porque sempre se descreve a infância como um país feliz. Para muitas pessoas, infelizmente não é assim, mas pra mim é essa a sensação que eu tenho.

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Rio de Janeiro

A maioria dos meus tios morava no Rio, então eu tinha essa coisa de atravessar a baía muito presente. Tanto que, quando eu vim morar no Rio, eu continuei com o dentista em Niterói, só pra ter isso. E tinha os tios de Niterói, que eu fazia o caminho inverso. Isso já foi quando eu estava no Colégio Pedro II, no Rio.

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Heitor dos Prazeres

Hoje em dia, eu vou muito a shows, porque eu gosto muito de ver o trabalho das pessoas. Sou um cara muito participante – não é nem da política, nem da minha classe só –, sou muito curioso pelo que as pessoas fazem. Mas sou muito ligado às artes plásticas, principalmente à pintura. Eu tenho a impressão de que a primeira coisa que me atraiu foi ter visto o Heitor dos Prazeres numa revista, e ter, de alguma maneira, conseguido chegar a ele – eu não me lembro como. Eu matava aula no Colégio Pedro II e ia para o ateliê dele, que era ali atrás da Central do Brasil, e ficava lá meio de bobeira, matando aula, vendo o Heitor pintar e conversando com ele. Eu devia ter uns 15 anos, mais ou menos. Eu acredito que, fora essa coisa da pintura, o que me atraia também era a coisa do samba. É como aquela frase – não sei se é do Tom Jobim ou do João Gilberto – que diz: “No final, o que eu faço é samba”. Acho que eu era fascinado, na realidade, pelo samba. E o Heitor dos Prazeres foi uma maneira que eu consegui de chegar ali próximo. Felicidade de garoto. Nessa época, você coleciona coisas, e aí você vai atrás. E uma dessas minhas curiosidades era pelo samba.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Composições

Eu acho que a música sempre esteve na minha vida. De alguma maneira misteriosa, porque não tem antecedentes e nunca tive instrumento musical em casa. As minhas tentativas de aprender violão também foram desastrosas. Mas eu, de alguma maneira misteriosa, me sinto mais músico que poeta. Porque tem uma coisa no Brasil que, pelo fato de eu ser um cara branco, de classe média, ter ido à faculdade, essa coisa toda, as pessoas têm uma tendência de chamar de poeta. Eu não me sinto poeta, quer dizer, eu me sinto tão poeta quanto qualquer pessoa que tenha um sentimento poético. Mas não me intitulo poeta, porque acho que poeta é uma pessoa que se dedica a uma coisa que é escrever poemas. E eu não acho isso, não me vejo nessa altura. Na realidade eu sou um compositor popular, mais guiado pela música e pela música das palavras. É claro, eu leio poesia; você vai cultivando esses interesses, não só pela leitura, mas por outras artes. E essa curiosidade, de alguma maneira, influencia. Mas o fato de eu gostar tanto de pintura, de artes plásticas, por exemplo, não me faz um artista plástico. Assim como eu gostar tanto de poesia não faz de mim um poeta. Sinceramente, eu vejo nas letras dos sambas de certos sambistas – como Dona Ivone Lara, como as pessoas do samba, o Luís Carlos da Vila – uma densidade poética muito maior do que as coisas que eu faço. E eu falo isso com a maior sinceridade. E acho que essa coisa do poeta, no meu caso, é muito mais uma coisa de um sentimento que eu tenho com algumas pessoas, um artesanato que eu aprendi, de colocar palavras em músicas, guiado por uma intuição musical não cultivada. Só isso. Então eu sempre fujo dessa questão. Fujo no sentido de não deixar essa coisa pegar em mim, porque eu acho que ela não é justa. Eu sou compositor popular e a música esteve sempre comigo, de alguma forma.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

O meu artesanato, que é fazer letra de música, eu aprendi com outras pessoas, com outras músicas. Na realidade, eu aprendi com as canções – e estou sempre aprendendo. Tem uma coisa que eu falo sempre – outro dia eu vi o Fernando Brant citando isso numa crônica dele – que é assim: “Pra mim, a canção move o mundo; é mais importante que tudo”. Então eu aprendi com as canções, até hoje. Quer dizer, eu faço canções porque eu tenho inveja das canções que os outros fazem. E faço muito canções sobre as canções que eu gosto – contestando ou admirando. Mas no fundo de tudo que eu faço tem uma coisa que eu aprendi e preservo, e que acredito, de alguma maneira, ter conseguido como resultado: eu queria ser compositor quando era garoto lá no colégio, e acho que, de alguma maneira, eu aprendi a fazer isso.

PESSOAS
Dorival Caymmi

Se disserem assim: “Com quem você aprendeu mais?”. Eu respondo: “Foi com Dorival Caymmi”. Acho que eu criei um estilo a partir disso, e que é um estilo de concisão, de cada palavra estar ligada à música da melodia, de nunca forçar isso, de cada frase dizer nela mesma alguma coisa. Por isso eu devo tudo a ele.

PESSOAS
João Gilberto

Eu agora comecei com outra coisa, pra variar… Comecei a dizer que aprendi a fazer letra com o João Gilberto – que é ótimo também como metáfora disso, porque é exatamente o cara que não é letrista, que quando é letrista faz: “É o amor, é oba lalá… oba lalá…”.

FORMAÇÃO MUSICAL
Canto

Eu acho que sou, na realidade, um cantor. E quando eu era garoto, a minha primeira relação com a música era que queria ser cantor. Eu cantava, e achava que cantava bem. Tenho um trauma, porque alguém tinha um gravador, e a primeira vez que ouvi minha voz achei tão horrível que abortei minha carreira de cantor. Mas eu cantava e tentei aprender.

FORMAÇÃO MUSICAL
Instrumento / Acordeom

Nessa época, no Brasil, todo mundo tocava ou aprendia acordeom, por causa daquela academia do Mário Mascarenhas. Então eu tinha uma vizinha um pouco mais velha, Rose, que ensinava acordeom. Tentei aprender acordeom com ela, e já tinha um repertório que eu ia nas festinhas e cantava. Eu cantava “Only you” e uma música do Ivon Cury – bem eclético – chamada “Lavadeiras de Portugal”. Mas eu cantava; inclusive fui na rádio de Friburgo uma vez, cantei e ganhei um prêmio, que era uma garrafa de um vinho chamado Jurubeba – não tinha nem idade pra beber, mas cantava. O vinho devia ser péssimo, mas fiquei todo feliz que a rádio tinha me premiado.

Voltar ao topo INFLUÊNCIAS

Formação Musical

Esse negócio das rádios só é menos importante nessa época que aqueles alto-falantes na praça, que às vezes não era nem uma rádio, era um cara que ficava transmitindo música ali, e as pessoas sentavam na praça para ouvi-las. E, depois, essas músicas, que eram populares no Brasil, eram as músicas de qualidade – as gravadoras tinham grandes orquestras, grandes maestros, grandes arranjos e grandes cantores – e os cantores tinham que cantar realmente, porque era tudo gravado direto, não tinha esse negócio de canal: “Muda o canal, manda para o Protus, essa coisa toda”.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

Então, na realidade, eu sou um compositor que canta as melodias, e vou descobrindo as palavras que estão ali. E eu fico convivendo um tempo tão grande com a melodia, cantando essa melodia, que eu acabo aprendendo a cantar – embora eu me ache desafinado, desentoado, péssimo cantor. Já me peguei ensinando pra alguns parceiros, que são exímios cantores – grandes cantores e grandes cantoras – a cantar certa melodia. Depois, digo: “Poxa, mas eu fiquei cantando uma melodia para a Elis, que absurdo!”. Mas isso é porque o tempo que eu estava ouvindo essa música era muito grande e eu aprendi a cantar aquilo de alguma maneira. Então eu ouço melodia, fico cantarolando e vou colocando as palavras. Vamos dizer que 98% do meu processo de composição é esse. Eu escrevo muito pouco antes, mas não porque tenha dificuldade. Embora eu não escreva poemas, acho que eu poderia escrever mais letras de música antes, ou os poemas, como as pessoas falam, para serem musicados. E eu fiz isso muito pouco, especialmente porque, numa época, eu impliquei com isso. Eu impliquei porque achei que tinha algumas pessoas que estavam fazendo letras que não tinham essa ligação com a música, com a canção, e que não cantavam as músicas; que simplesmente escreviam umas coisas pra serem musicadas porque começaram a achar que isso era uma profissão legal, que dava grana. Aí eu impliquei e empaquei que não ia fazer isso – mas poderia fazer mais isso. Mas o que eu faço é aprender uma melodia, ficar convivendo com ela, e descobrir um pouco o que é que está contido ali. Eu falo disso como de uma escultura, é como se você soubesse o que está contido ali. Quando você tem um bloco de mármore, por exemplo, acho que a primeira coisa a se fazer é ver o que existe ali, tentar entender. Você pode errar, mas antes de começar a esculpir, você tem que sentir um pouco isso, acho que tem um tempo disso entrar. E depois é mãos à obra, é cair dentro. E aí é trabalho. Teve uma época que era muito chata essa questão da inspiração: o que é mais, se é inspiração ou transpiração. E eu achava esse papo muito chato. Porque a inspiração não é uma coisa que você possa controlar, é uma coisa que você não sabe o que é. E a transpiração é a única coisa que você pode fazer, que é partir pra dentro daquilo ali. É igual essa coisa da poesia – sentimento todo mundo tem. O negócio é você, de certa maneira, se expor a cada canção, entregar tudo ali. Eu acho que as músicas que a gente fazia na década de 70 tinham uma coisa que era visceral. Quer dizer, cada música dessas você passava um ano – eu era um cara conhecido por passar um ano fazendo uma música. E também se nesse um ano tivesse mudado tudo, aquela música eu jogava fora. Aquelas músicas tinham essa coisa. Depois de um determinado momento, eu acho que primeiro por necessidade…porque eu não tinha outra profissão, então eu tinha que sobreviver num universo de direitos autorais complicados, de não fazer show, de ser somente um letrista, como existe essa palavra. Tinha que sobreviver nesse universo, então tinha que fazer música. Mas principalmente porque eu acho que essa coisa desse sentimento, esse sentimento da canção, já estava muito arraigada. E eu comecei a descobrir que, por outro lado, a gente complicava um pouco. Quando você vai ver os clássicos da música, principalmente os clássicos da música americana que as grandes cantoras interpretam, todas elas gravam as mesmas músicas e ninguém fica melindrado. Mas aqui no Brasil é diferente. Se não-sei-quem gravou, algumas pessoas dizem: “Não grava mais!”. Por exemplo, uma música que o cara faz que é uma japonesa que está esperando um marinheiro americano, que está atracando no porto. O cara faz uma canção assim e arrasa, ela fica sendo gravada como um clássico – mas na realidade, é a música de um musical, que preenchia a função daquela cena. Na década de 70, se você fosse fazer uma música, você começaria assim: “Mas eu não sou japonesa, imagina se eu vou fazer uma canção esperando um marinheiro americano!”. Então, quando eu descobri um pouco isso – que você poderia escrever canções e que esse sentimento já estava com você –, não precisava mais também, todo dia, você se martirizar. Ali era uma questão de você, em cada música, entregar tudo, mesmo que fossem músicas.

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“Chuva de Prata”

Por exemplo, quando eu fiz “Chuva de Prata”, eu fiz porque me interessava a melodia. E também porque, em primeiro lugar, eu precisava sobreviver. Então me interessou muito a melodia, porque acho que era uma época que as melodias não fluíam muito. Eu fiz e logo depois a música foi um grande sucesso, todas as pessoas gostavam, cantavam, mas tinha essa exigência da crítica. Uma vez eu li no jornal um crítico falando que a música era uma confirmação das teorias bregas-chiques. E eu cunhando aquelas frases, que o Márcio Borges deve conhecer: “Mesmo quando faço prêt-à-porter, alta costura, me interesso mais pelos costureiros franceses do que pelos filósofos gregos”. E aí mandei dizer para o cara, em off, o seguinte: “Eu não entendi por que é que eu fiz uma música para confirmar as teorias bregas-chiques do grande Eduardo Dusek, porque eu não sei o que é brega-chique, só sei o que é chique” – embora eu goste muito de fazer músicas populares.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

Eu faço músicas populares muito bem, eu sei fazer porque sempre faço. Você vê o Michael Sullivan, por exemplo, que era o rei da música popular na época, que estourava todas; ele beijava minha mão e falava assim: “Você é o único cara que faz o que a gente sabe fazer, mas coloca uma outra coisa e a crítica não ousa falar mal de você. Mesmo quando ousa, você manda logo uma resposta”.

Voltar ao topo TRABALHO

Parcerias

Mas eu comecei a gostar mais de fazer música com vários parceiros, com vários estilos. E a desculpa do que eu precisava me deu uma liberdade muito grande de fazer isso. E eu não precisava também passar mais um ano pra ficar fazendo uma música, embora eu não faça uma música em cinco minutos – posso até fazer, mas… E é engraçado que essa descrição toda, no fim, não corresponda a simplicidade “caymmiana”. Então eu acho que isso é que faz meu estilo. É vir de outro lado, passar por outros caminhos e chegar, de alguma maneira, ao Caymmi, intacto ali – pelo menos pra mim.

Voltar ao topo ADOLESCÊNCIA

Como era o Brasil

A minha geração teve a sorte de viver num Brasil em que as coisas uniram a gente – e não há nada de saudosismo, nem meu discurso nem a minha pessoa são saudosistas. O colégio era uma experiência muito rica nesse sentido, porque eram jovens querendo saber das coisas. Eu acredito que em alguns colégios provavelmente ainda é assim. Mas também sei que, na minha época, não era assim a realidade – a gente sempre pinta o passado dessa maneira. Provavelmente também eram poucas turmas ou poucas pessoas, e o resto era uns manés, como hoje provavelmente ainda são. Principalmente na adolescência, que são todos uns manés, inclusive a gente. Mas nós, pelo menos, nos julgávamos menos mané. Então essa turma do Colégio Pedro II, que era uma turma muito bacana, foi à cata das informações – que é o que outras pessoas, se não fazem, deveriam fazer – quer dizer, a luta da informação nos livros, nos discos, essa coisa.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

E eu tinha um parceiro no colégio, chamado Sérgio Rubens Torres, com quem eu fiz minhas primeiras músicas. E era um sucesso na época. Tinha umas músicas que hoje em dia não sei mais cantar, não me lembro, mas não mostraria mais, porque não têm nada que seja relevante. Mas eu gostava muito dessas músicas, eu gostava muito dessa parceria. E comecei a me sentir compositor realmente. E tinha uma música – que hoje em dia deve ser muito ruim – que era o meu grande sucesso. Chamava-se “Joaninha”. Era uma coisa!

PESSOAS
Sérgio Ricardo

Mas eu me arrisquei. Acho que a primeira pessoa que eu conheci fora, depois do Heitor, foram uns vizinhos – mas isso já em Botafogo, no Rio de Janeiro – que eram um casal, onde eu ouvi muito Caymmi, e que ficaram amigos do Sérgio Ricardo. Aí eu fui na casa do Sérgio Ricardo. Eu lia muito, nessa época, um escritor brasileiro que hoje não se lê mais – infelizmente – chamado Aníbal Machado, que tem um conto chamado “A morte da porta-estandarte”. Então eu fiz uma letra, “A morte da porta-bandeira”, lá na casa do Sérgio Ricardo. O primeiro verso era: “Turbilhão de estrelas” – era péssimo! Eu queria que ele musicasse, e ele me falou: “Não. Se eu fizer música com você agora, você vai se achar um compositor fabuloso, porque vai resolver a sua vida, entendeu? Então é melhor você fazer uma música com o pessoal da sua turma, da tua galera”. Isso foi muito legal pra mim, porque aí eu fui procurar a minha turma

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Moradia

Na época do Colégio Pedro II, eu ainda morava em Laranjeiras, que foi o primeiro lugar que eu morei no Rio de Janeiro, em frente ao glorioso clube do Fluminense Futebol Clube. Depois eu me mudei para a Rua Voluntários da Pátria, onde morei um tempo. Eu estava no Colégio Pedro II, no centro, e logo depois eu fui morar em Recife.

CIDADES
Recife

Em Recife, eu já tive um contato muito maior com a coisa da música – também, eu já estava um pouco mais velho. Nessa época, eu conheci algumas pessoas em Recife, que eram da turma do teatro e da música de lá. Há três dias encontrei com o Alceu Valença, que é um artista que eu gosto muito. Estava conversando que eu cruzei com o ele numas festas – essa época mais de festinha –, cruzei com a cantora Teca Calazans, com o hoje produtor musical Túlio Feliciano, com um teórico da música chamado Gilmar Muniz de Brito – que era professor, um grande intelectual de Recife –, com o diretor de teatro Benjamin Santos, e algumas pessoas que faziam na época um espetáculo chamado “Construção”, que foi uma coisa anterior ao espetáculo “Opinião”, no Rio de Janeiro. E tinha muito essa coisa de sair pela rua, de passear na chuva, essas experiências… Muito essa coisa de tocar violão e ouvir música. Então teve essa passagem de Recife.

Voltar ao topo EDUCAÇÃO

Faculdade

Depois, eu voltei para o Rio de Janeiro e fiz vestibular. Fiquei em uns colégios “pagou, passou” pra terminar aquele colegial e fiz vestibular para a Faculdade Nacional de Filosofia, para o curso de História, que comecei a cursar. E foi nesse curso que eu conheci a rapaziada do Clube da Esquina. Eu fiz História acho que até o começo do terceiro ano. Depois me auto-exilei na Europa. Voltei ao Brasil e fui fazer Comunicação, que na realidade foi uma grande época de happenings – eu fui para a escola de Comunicação porque, como eu estava meio perdido da turma, fiz vestibular para aquilo que a Eliane Jobim, mulher do meu amigo Paulo Jobim, estava fazendo. Eu falei: “Vou fazer também”. Fiz, passei, entrei e fiquei ali. Tinha uma turma bacana – já dos poetas, do Chacal, que é um poeta que a gente vai falar mais na frente, com o negócio da Nuvem Cigana. É isso, sou formado em Comunicação Social, coisa que eu nunca exerci. Acho até que dou uns pitacos num monte de coisa, mas não exerci.

TRABALHO
Atividades profissionais

Tive o início de um emprego na área de Comunicação Social, um estágio: eu trabalhei na criação de uma agência de publicidade e depois disso eu acho que eu trabalhei feito um maluco, mas nunca mais trabalhei oficialmente em nada.

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Ditadura Militar

Eu acho que teve uma coisa que marcou muito, o primeiro sentimento de você não se sentir bem, que foi a ditadura, o Golpe Militar. Mesmo assim, isso não impediu que a gente continuasse fazendo tudo que a gente fazia quando era jovem. Eu acho que existia esse Brasil que a gente está nostálgico, do ainda “país da delicadeza”, embora existisse injustiça social, diferença de classes, corrupção – todas essas coisas sempre existiram. Quando a gente fala desse Brasil, parece que não é nada disso, que não existia exploração e tudo. Mas não existia essa pressão que todos nós sentimos hoje em dia. O Rio de Janeiro era uma maravilha – ele ainda é uma maravilha, apesar dos governantes que nós temos hoje em dia, com a falta de tudo, com o descalabro –, era uma maravilha absoluta, era uma juventude livre, poética, sem limites, bacana.

ADOLESCÊNCIA
Adolescência

Na minha adolescência, a gente fazia muita festinha – adoro esse termo “festinha”; tem uma música de um grupo de rock que fala: “Festinha!”. Eu adorava falar assim. Andava pela cidade, fazia muito isso. Saía da festa e andava de Copacabana a Laranjeiras, de madrugada. Gostava de tocar violão na praia, namorar, passear, todas essas coisas que as pessoas faziam.

Voltar ao topo EVENTOS HISTÓRICOS

Ditadura Militar

O efeito da ditadura na minha vida, vendo hoje em dia, não parece que é tão grande, mas para um jovem é como se fosse um pesadelo. Você diz assim: “Nunca mais vai acabar”. A idéia básica nessa época – e que foi a idéia básica principalmente através do Clube da Esquina – era mudar o mundo. Pelo menos nessa época, e eu acredito que seja a idéia básica da juventude, era mudar o mundo. Mas é mudar o mundo pela justiça social. Quer dizer, você começava a sentir que precisávamos mudar o mundo, mas você ainda tem um mundo que é cordial, e você começa a apostar em algumas idéias, alguns caminhos e, de repente, vem um negócio como a ditadura e fecha; é terrível. Eu acho que essa experiência marcou todo mundo. Marcou a arte brasileira de alguma forma – no bom e no mau sentido, porque nem tudo o que se produziu durante a ditadura era bom. Outro dia, o Caetano falou isso – eu acho que um pouco exageradamente – e eu concordo de certa maneira: nem toda arte que se produziu antes da ditadura era boa, mas na época a gente enxergava dessa maneira. Nem toda música com metáforas – exageradamente metafórica – pra fugir da censura era boa. Mas a gente enxergava dessa maneira. Outra idéia sobre essa época que eu discordo era que a ditadura estimulava o artista. Acho que se você tem um obstáculo como esse, você parte pra cima, porque também não tem outro jeito. A não ser que você desista de viver, não tem outro jeito. Você diz: “Pô, vamos à luta!”. Então, quando você tem a ditadura, você tem que também acordar de manhã e dizer: “Vamos à luta!”. Agora, eu não acho que a ditadura estimule. É claro que sou um cara interessado na política, sou um cidadão e tudo, mas eu sou muito mais interessado em problemas estéticos. Acho que esses problemas que a gente vive, que a gente fica discutindo, são muito fáceis de resolver. A humanidade já tem conhecimento e tecnologia pra resolver esses problemas, é só querer e ter vontade política para tanto. Eu já sei o que penso sobre essas coisas, me interesso, leio jornal, mas estou interessado em questões estéticas. E às questões estéticas você tem que se propor tantas dificuldades, que, quando não existem, você tem que criá-las pra não se acostumar com você mesmo e achar que está bacana. É igual você tomar algum tipo de coisa que te tire a consciência e achar que tudo que você está escrevendo ou cantando é legal – mesmo não sendo, naquele momento você acha que é. Então acho que eu já estou tão interessado nessas questões, que não influi a dificuldade da vida, do cara ser duro, por exemplo, aquela coisa: “Ah, o cara era pobre, mas conseguiu escrever um livro de 800 páginas genial!” – eu preferiria que ele não fosse pobre. Minha plataforma política está de acordo com aquele negócio – acho que é do meu grande Luiz Melodia – que diz assim: “Luz para todos!”. Acho que era isso, devia ser luz para todos. Não acho que a dificuldade do tipo: “Ah, porque o cara não tem dinheiro ele foi à luta e conseguiu escrever um grande livro” faça isso. Tomara que ele tivesse dinheiro e conseguisse escrever um grande livro. A dificuldade não faz isso, não faz a obra de arte ser maior. Nem a dificuldade torna maior sua biografia: “Não, aquele cara era pobre…”. Acho que no futuro, como eu imagino, não existirá esse negócio da biografia do cara influenciar sua obra. Nem a posição política: acho que um escritor de direita pode ser um grande escritor. Um compositor de direita pode ser um grande compositor, qual é o problema? Isso porque pra mim interessam questões estéticas. É claro que eu não vou escrever música de direita, porque eu não sou de direita, mas não vou julgar a obra de arte sobre esse ponto de vista.

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento

Na época da faculdade, quando conheci o pessoal do Clube da Esquina, eu era um cara que queria fazer música e procurava melodias. Basicamente isso. E também estava interessado em tudo e em todas as coisas que aconteciam. Eu sabia mais da vida dessas pessoas do que elas propriamente sabiam, porque eu ficava prestando atenção em tudo, ia a todas as coisas.

PESSOAS
Luís Cláudio Ramos

E eu já tinha uns parceiros. Depois daquele parceiro do Colégio Pedro II, foi um cara chamado Luís Cláudio Ramos, que é um grande violinista e arranjador – é o cara que fez o último disco do Chico Buarque, com quem ele toca. É um músico excepcional – e esse foi meu primeiro upgrade, quando eu conheci um cara que tocava realmente bem um violão. Durante um tempo eu fiquei compondo com o Luís Cláudio, e fui conhecendo algumas outras pessoas da música ali do Rio de Janeiro. Conheci o Danilo Caymmi, o Antonio Adolfo, essa turma que estava em torno dessa coisa – e eu ali, querendo fazer e mostrar minhas músicas.

Voltar ao topo LOCALIDADES RIO DE JANEIRO

Teatro Jovem

No Teatro Jovem – que era um teatrinho feito por um cara chamado Cleber Santos – aconteceram muitas coisas no Rio de Janeiro. Ficava no Botafogo, onde tem um viaduto e uma escola do lado, um lugar impossível de chegar hoje em dia. Lá aconteceu “Rosa de Ouro”, vi muitas coisas ali… E tinha umas noites que eram de apresentação dos compositores. Então, por exemplo, eu vi o meu ídolo, Edu Lobo, pela primeira vez, nesse lugar. Vi lá a primeira apresentação do Gilberto Gil – quando ele chegou no Rio e tocou músicas como “Lunik 9”, “Procissão”… Ia para aquelas noitadas, porque eu morava perto, na Voluntários da Pátria. Acho que eu já conhecia o Novelli, porque eu saí de um desses encontros e fui para um botequim onde encontrei com um cara chamado Milton Nascimento.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

Eu tinha estado em Recife e ido para a casa de umas pessoas, de madrugada, e tinha encontrado com meu grande amigo Cafi, que é um fotógrafo, uma pessoa muito importante na minha história e na história do Clube da Esquina. A gente foi para uma noitada numa casa e ficamos escutando o primeiro disco da Elis Regina, que tinha “Canção do Sal”. E eu escutei tanto aquela música que acho que furei o disco do cara; escutei milhares de vezes. E eu ficava muito intrigado com aquilo: “Como é que aquele cara fazia, pô? Mas quem é esse cara que faz essa música desse jeito?”. E isso ficou. Depois, em 67, quando o Milton já tinha classificado três músicas no Festival da Canção e só se falava nisso – pelo menos só se falava nisso entre as pessoas que têm o mesmo interesse que eu –, cheguei no botequim, acho que eu já conhecia o Novelli, e o Milton estava com ele bebendo. Eu cheguei e fui apresentado, mas na hora não vi quem era. Depois que eu saquei quem era; e acho que, no mesmo instante que a gente se viu, ficou amigo. Dali já começamos a andar juntos, já fomos para uma festa, virou o dia, aquelas coisas…

CIDADES
Rio de Janeiro

Era bom antigamente, quando a gente virava mais o dia, amanhecia mais. Eu me lembro do Baixo Leblon. Eu amanhecia, ficava esperando os garçons, depois eu ia para um outro botequim. Era bom ver o sol nascer. Dizem que faz muito bem à saúde ver o sol nascer e ver o pôr-do-sol. E aí eu conheci o Milton, nós ficamos amigos.

Voltar ao topo CLUBE DA ESQUINA

Origem do Clube

Logo depois, fiquei muito doente – o Marcinho Borges conta no livro essa história. Eu costumo dizer que eu conheci o Clube da Esquina na cama. Eu morava com meus irmãos num apartamento grande, na Voluntários da Pátria. Na minha casa, os amigos todos entravam e saiam… E o Bituca se agregou e começou a freqüentar ali. Todo dia ele aparecia com alguém e me apresentava; eu estava na cama e dizia: “Muito prazer…” Fui apresentado ao Marcinho Borges, ao Lô, à rapaziada. Foi assim. Na realidade, eu acho que a gente era alma gêmea em torno de coisas assim, de interesses comuns pelo cinema novo, pela bossa nova, especialmente pela mudança do mundo e pela música, pela poesia, por todas essas coisas. E fomos nos encontrando, fomos nos misturando, de forma que, sem programa, sem teoria, sem nada, a gente foi virando uma coisa só. Num determinado momento, a gente virou uma coisa só. Criou uma estética sem pensar nisso. Éramos jovens e o que realmente queríamos era mudar o mundo.

LOCALIDADES RIO DE JANEIRO
Casa da Praia Mar Azul, Niterói

Eu fui militante integral – provavelmente era um militante 24 horas por dia – do Clube da Esquina. Algumas pessoas faziam outras coisas, eu fazia faculdade, mas estava ali; fui para “Mar Azul” e morei lá. Lembro muito da sensação do período. A gente estava numa casa que mais parecia uma colônia de férias, porque era uma casa com vários quartos e andares, num lugar com uma vista linda, num lugar lindo. Eu fui outro dia lá e hoje tem muitas casas, mas na nossa época não tinha praticamente nada. Você ficava lá um pouco isolado. Você saía da casa e estava na areia, o banho era num lugar cheio de árvores – isso é um pouco minha infância, essa coisa de pé no chão. A gente não tinha hora pra acordar, depois resolvia o que ia comer, quer dizer, era solto. Acho que eu fui o cara que mais conduziu esse processo, porque naquele momento tinha que ser eu. Não é que “eu conduzi”, mas eu estava ali tinha mais esse negócio de: “Então agora vamos não sei o que…” Mas o máximo de programação que tinha nas coisas era isto: eu enchendo o saco. O resto era ficar tocando, ficar conversando, ficar lendo sem programação; a gente sabia que estava fazendo algo.

DISCOS
“Clube da Esquina”

Durante todo o processo do Clube da Esquina, a gente sabia que ia fazer um disco, que era um disco que ia significar alguma coisa. Existiam várias vertentes, a gente ouvia alguns discos, entre eles a gente ouvia o “Tommy”, do The Who. Então tinha essa coisa de fazer uma coisa que significasse.

MÚSICAS
“O Trem Azul”

Uma história engraçada do Clube da Esquina é que uma vez bateu um cara drogado na minha porta, veio lá de não sei aonde, e falou assim: “Não, porque você fez aquela música chamada ‘O Trem Azul’, e agora estou tomando ácido e estou aqui pra viajar…”. Eu falei: “Bicho, não é nada disso. ‘O Trem Azul’ era um trem mesmo, entendeu? Existia mesmo. Não me bote nessa roubada, isso é um problema seu!”.

Voltar ao topo TRABALHO

Atividades profissionais

Num determinado momento, eu já comecei um pouco a exercer essa coisa que é fazer o disco como uma obra de arte – que é uma das poucas coisas que eu acho que sei fazer bem. Eu acho que ali começou essa história de ter noção do negócio da capa, da ordem. E ali eu me coloquei nesse papel de organizar, na medida do possível, a bagunça – fazendo bagunça também. E eu me lembro que um dia, em Belo Horizonte, na casa da família do Fernando Brant, o Bituca falou pra mim: “Agora conduz o processo, você é o cara” – uma coisa assim – “De agora em diante, você dá as cartas”. Aí eu fiquei um pouco mais chato.

Clube da Esquina
Origem do Clube

A gente criou uma intimidade muito grande. Quer dizer, antes de ir a Belo Horizonte. O Clube da Esquina são muitas pessoas, as que fizeram as músicas e gravaram, e também todas as outras. Cada um tem seu Clube da Esquina. E a gente foi criando uma intimidade. Antes de chegar a Belo Horizonte – por conta dessas ziquiziras todas que eu tive – eu já tinha notícia do negócio lá porque o meu irmão tinha ido a Belo Horizonte e sabia do Paulo e do Cláudio, que eram os gêmeos, do Benjamin. Tinha também um grupo de pessoas que já tinham ido a Belo Horizonte passar o réveillon, tomado um porre, não sei… Então criava essa intimidade.

PESSOAS
Família Brant

E quando eu cheguei em Belo Horizonte, ainda convalescendo dessa coisa toda, o primeiro lugar que eu fui foi na Rua Grão Pará, na casa da família Brant – onde moravam 11 irmãos e praticamente todos moravam lá. Tinha uma escadinha, o quarto dos meninos, aquelas camas enfileiradas… E eu ia a Belo Horizonte, primeiro nos Brant, depois nos Borges, depois no Murilo – isso era em épocas sucessivas. Eu passava dois meses morando na casa de um, voltava… Mas isso não era só em Belo Horizonte; a gente pegava um ônibus e dizia: “Vamos pra São Paulo” – e ia para lá. A gente foi criando uma intimidade muito grande. O Clube da Esquina tem muita gente nessa época, muita gente.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

O núcleo do que eu chamo o Clube da Esquina eram jovens compositores, instrumentistas, que se reuniram em torno do amor àquela música, que uniram em torno de uma figura catalisadora, chamada Milton Nascimento. O Bituca, pra quem não conhece, é uma pessoa que, se chegar aqui agora, vai ser impossível não prestar atenção nele. Ele tem uma coisa assim. Quando eu o conheci, nessas noites que eu falei antes, eu fui numa festa com ele em que todo mundo falava dele e ninguém o conhecia. Era uma festa na casa do maestro Erlon Chaves, onde estavam o Dori Caymmi, o Edu Lobo, Francis, várias pessoas da música, todos aqueles caras… Na hora que ele começou a tocar, as pessoas ficaram paradas, porque era uma música que a gente ficava apaixonado por ela. Então, o Clube da Esquina é uma coisa reunida em torno dessa música, desse cara e da força dele. E a partir daí eu acredito que ele também tenha se transformado, porque, com essa intimidade, a gente criou uma coisa que, num determinado momento, foi como se fosse uma coisa só.

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“Clube da Esquina”

Então nessa história de estarmos fazendo o disco, como era uma coisa só, eu já comecei a me permitir organizar os assuntos do disco. O que eu continuei fazendo depois, no disco do Beto Guedes, por exemplo, era dizer: “Não, tem muita palavra ‘coração’ nesse disco. Vamos ver a que está melhor… Muda essa música aí” – quer dizer, interferia, mudava a letra das pessoas ou pedia pra mudar. O Clube da Esquina, como centro, é Milton Nascimento, Márcio Borges, Fernando Brant, eu, Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Robertinho Silva, Nelson Angelo, Danilo Caymmi, Joyce, Nivaldo Ornelas, Novelli, Luíz Alves, o Som Imaginário inteiro, os irmãos Paulo e Cláudio – isso entre os músicos. Tinha também Cafi, Vicente, a família Borges, a família Brant, todos os agregados e tudo. Nessa época tinha o Jacaré também.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Quando chegaram o Lô e o Beto, a gente era um pessoal de música brasileira vindo da bossa nova. A segunda geração – depois da bossa nova – já ouvia Beatles e Rolling Stones, quer dizer, ouvia a música pop da época – agora é cult total – mas ouvia música pop, tinha curiosidade. Fora as coisas que a gente já ouvia antes, que era jazz, as grandes cantoras, toda a música brasileira. A única coisa que eu escrevi – porque eu não escrevo nada – sobre o Clube da Esquina chamou-se “Os Beatles eram Rolling Stones”. Essa segunda geração, essas pessoas que a gente gosta até hoje e sempre gostou, ficaram muito com esse negócio da seriedade da música brasileira, com aquele negócio de que tem que ir de smoking para o Municipal. E a gente era a pedra que rola mesmo, a gente era muito mais Rolling Stones. Quando teve o Clube da Esquina, saiu uma reportagem dizendo assim: “Estes são os Beatles brasileiros”. E tem a ver, porque de certa maneira a gente se comportava um pouco como se fôssemos os Beatles brasileiros. Não tinha grana, mas a gente ficou se comportando no show business brasileiro absolutamente como superstar – mesmo que ninguém soubesse disso, e até hoje é assim. Até hoje eles não sabem que o Clube da Esquina é uma coisa bacana. Até hoje tem um negócio assim: a Bossa Nova, o Tropicalismo, depois tem a geração 80 e acabou. Mas até hoje a gente se comporta como um dos Beatles; eu costumava dizer na época: “Tem o George, o Paul, o Ringo e o Ronaldo. Eu sou o Ronaldo!”. Porque a gente era assim, a gente estava querendo fazer uma outra coisa.

PESSOAS
Lô Borges / Beto Guedes

O Lô e o Beto chegaram já prontinhos no Clube, com uma outra informação; mas eles ficavam ali vendo a gente, então também já estavam fazendo aquele negócio que a gente tinha.

PESSOAS
Caetano Veloso

É engraçado, porque o único cara que fala do Clube da Esquina – fora eu, que fico em todas as entrevistas resgatando e falando disso – de uma maneira apropriada é o Caetano Veloso, que é tropicalista. E fala com argúcia. Eu considero o Caetano Veloso o maior crítico de música popular em atividade, acho insuperável como crítico. Porque tem uma argúcia, tem uma coisa que depois ficou institucionalizada. Parece que o Clube da Esquina era um negócio meio sacralizado, meio não sei o quê. Quando, na realidade, não era. E a gente tinha muita coisa em comum, algumas idéias eram idéias comuns, porque eram idéias comuns de uma juventude que pensava, tanto em Santo Amaro da Purificação como em qualquer outro lugar. Por exemplo, o Caetano me lembrou outro dia que eu o conheci antes de conhecer o Milton. Eu era amigo do Torquato Neto antes de ter conhecido o Clube da Esquina.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

A gente estava na faculdade, fazia política estudantil e tinha umas coisas que eram o seguinte: a gente via que a esquerda era careta e que a direita não dava. Nós estávamos ali, naquele caminho da transformação do mundo. E o Clube da Esquina foi isso. E fez isso com uma música, com uma qualidade musical, até então não vista no movimento ideológico. Ou seja, foi um movimento sem nunca ter sido um movimento; foi uma coisa que teve um programa, sem nunca ter tido um programa. E basicamente nesse momento, sem a gente teorizar muito, mas sabendo um pouco o que estava fazendo, a gente se comportava em relação à música que a gente estava fazendo assim: “Estamos fazendo a melhor música que está se fazendo aqui, agora. E pronto”. Depois vieram o Tavinho, o Murilo, o Flávio Venturini – mas já é uma outra geração.

CIDADES
Paris

Aí eu fui morar em Paris. Teve esse processo de carta pra lá, carta pra cá, outras informações…

PESSOAS
Márcio Borges / Murilo Antunes

Depois, Marcinho se casou, e teve uma época que eu fui para a casa do Marcinho. Ele se casou e eu me mudei para a casa dele – isso é um absurdo, né!? Você vendo hoje em dia, fala: “Pô, que coisa! Que cara chato!”; mas a gente era assim. Depois que o Murilo se casou, eu também passei uma temporada lá.

PESSOAS
Wagner Tiso

O Wagner Tiso eu acho um cara fundamental no negócio do Clube da Esquina, embora não estivesse ali nesses momentos que as pessoas estavam vivendo meio juntas, nessas sucessivas casas do Bituca. Fora as pessoas que estavam permanentemente no tatame – tinha uns tatames que acompanhavam a gente; almoçávamos, jantávamos, dormíamos no tatame. Tinha outras pessoas, como o pessoal do Som Imaginário – mas acho que especialmente o Wagner era uma pessoa central da criação, da sonoridade do Clube da Esquina.

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Tavito

O Tavito, que eu esqueci de falar, também é muito importante; tinha a viola do Tavito. O Zé Rodrix também, na época do Som Imaginário. Já não tanto no Clube da Esquina.

DISCOS
“Clube da Esquina”

Participei da criação da capa do disco Clube da Esquina, mas não assinei a capa. Depois comecei a assinar algumas capas com o Cafi, mesmo porque eu sobrevivi muito tempo fazendo capa de disco – naquela época, eu não tinha minhas músicas gravadas ainda e direito autoral era mais precário do que é hoje. Sabe aquele negócio do Woody Allen, que é um grande cineasta mas sempre quer ser reconhecido como músico? Eu sou um compositor que fica sempre querendo ser reconhecido como capista. Estava vendo umas fotos outro dia e disse para o Cafi, que é um grande fotógrafo: “Não, Cafi, essa não… Você é um grande fotógrafo, mas eu sou um grande capista”. Eu tenho visão do que é uma capa de disco, e sei fazer um negócio que eu chamo de design de produção – esse termo não existia, mas eu acho que é o que eu faço. Eu adoro disco independente, de gente independente; gosto das coisas mambembes. Não tenho nada contra, gosto de pedra que rola. Mas eu sei fazer um disco sem perder o que está dentro dele, e chegar no mercado com cara de mercado, ficar lá na vitrine do lado da Madonna – e pode ser uma banda de Pífanos de Caruaru. Eu sei fazer uma capa pra isso bater junto e não ficar com cara de disco independente. Nada contra o disco independente, pelo contrário – eu sou inclusive da Associação dos Produtores Independentes –, mas disco independente tem cara de disco independente. Disco independente é aquele que o cara agradece a Deus, à mãe, à família inteira, ao cachorro… E a capa tem sempre essa coisa, tem essa cara.
Outra coisa que eu aprendi fazendo foi como me tornei produtor. Quer dizer, a primeira vez que eu entrei num estúdio foi na gravação do primeiro disco do Bituca, logo depois que eu conheci ele; foi aquele disco “Travessia”, que ele gravou com o Tamba Trio, com arranjos do Luiz Eça. Eu fiquei deslumbrado! Mas depois, quando ele foi para a Odeon, que foi a primeira grande gravadora onde ele fez a obra, inclusive o “Clube da Esquina 2”, eu não tinha tanta segurança no estúdio. Todo dia você tem que deixar a carteira de identidade; tinha as pessoas que podiam entrar direto e as que tinham que deixar documento. E aí eu virei o cara que podia entrar, só que aí eu entrava todos os dias – eu virei um funcionário. Trabalhei praticamente dez anos na EMI Odeon sem nunca ter tido um emprego. No fim, quando queria as coisas, pegava um memorando, um documento na sala de alguém que ia levar uma semana, descia as escadas e dizia: “Assina aí”. Aí voltava e dizia: “Tá assinado”. Porque eu queria realizar as coisas, então eu ia fazendo isso. E fui virando produtor porque eu freqüentei muito o estúdio; eu ia para a EMI todos os dias. No fim, acho que eu já dormia lá, já tinha escova de dentes, muda de roupa. Mesmo porque, teve uma época que eu morava em Santa Teresa, e não tinha van, não tinha nada – você tinha que sair de casa e planejar tudo que você ia fazer, inclusive como voltar pra casa nas horas que não dava pra voltar para casa, porque não tinha grana pra pegar táxi, e os táxis também não queriam subir de madrugada. Então eu morava ali. E aí eu virei um produtor.
Eu acho que produtor tem algumas escolas diferentes, mas basicamente tem os caras que são músicos, arranjadores, e tem os outros que são mais ligados à tecnologia, sabem tudo de som. Eu não sou músico, nesse sentido, porque eu não toco absolutamente nada, não conheço música, não tenho educação musical. E também não sei nada de tecnologia, embora totalmente favorável – sou aquariano e favorável à tecnologia, embora ache que tecnologia não dá luz a cego também, não adianta. Mas é bom, é bacana. E eu fiquei ali. Primeiro foi por eliminação; foi meio assim: “Fica aí, segura aí”. E eu acho que tinha uma virtude nesse processo, que é o seguinte: eu sou um cara que deixa as pessoas trabalharem. Consigo estar no estúdio e ter uma presença – o cara entra e sabe que eu sou o produtor – mas ao mesmo tempo não sou aquele produtor que fica apertando o botão e dizendo para o Wagner Tiso, por exemplo: “Olha, Wagner…”. Porque, pô, primeiro que não precisa; segundo, porque se o cara está lá gravando, não sou eu que vou dizer pra ele que o violino está desafinado – ele já sabe! Ele regrava, volta… Então todos faziam tudo, e eu conduzia aquele processo. E me permitia fazer esse negócio que era organizar o objeto de arte; acho que um disco é um objeto de arte que vale, na realidade, tanto quanto um Picasso, um Matisse. Só que a diferença é que um custa 10 milhões de dólares, e o outro custa 10 dólares. Mas, na realidade, se você fizer um disco inteiro, que tudo funcione, é o mesmo valor. E eu fiquei perseguindo a onda perfeita de criar esse negócio, e fui me tornando então produtor de disco. E aprimorando essa coisa de saber fazer a capa e escolhendo os artistas. Então fui deixando as pessoas trabalharem.

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“Clube da Esquina” / Cafi

Sobre a capa do “Clube da Esquina 1”, nessa época eu saí de casa e fui morar com o Cafi, que tinha se casado. A gente começando a vida, não tinha grana nenhuma, na batalha. E a gente envolvido inteiramente com essa história do Clube da Esquina. Então tinha uma coisa que era o seguinte: a gente arranjava um dinheirinho pra comprar filme e fotografava tudo; das imagens que a gente tem dessa época, a maioria são dessas fotos que o Cafi tirou. A gente vivia pra cá e pra lá de fusquinha – a grande importância do Clube da Esquina é o fusca, que é um dos elementos fundamentais dessa época – e ia nos lugares fotografando todas as coisas que estavam acontecendo, em cada uma dessas casas, tudo. E, especialmente, a gente tinha um negócio nessa época que era fotografar a nuvem perfeita – tem até uma foto dessas no “Clube da Esquina”, que depois, no “Clube da Esquina 2”, está no selo. A gente fotografava nuvem perfeita e circo mambembe, porque com circo a gente tinha o projeto um livro – que a gente nunca fez. Então a gente entrava nas estradas atrás de circo e atrás das nuvens. Onde os meus pais moravam, tinha uma fazenda e a galera ia. A gente saia de um lugar: “Vamos pra Friburgo”. E a gente já estava à procura da casa, já estava nesse processo do Clube da Esquina. E aquela foto foi o seguinte: a gente estava no fusquinha, numa estrada dessas, e tinha dois garotos ali parados. Eu parei o carro e falei – não sei se fui eu ou o Cafi que falou: “Fotografa isso”. E fotografou, foi assim da janela, de dentro do fusca; a gente fotografou e foi embora. Era mais uma foto daquelas fotos que a gente fazia – que depois virou a foto da capa. Aí o Cafi chamou o Nogushi, que era um cara que também me foi apresentado pelo Márcio Borges, e que foi uma pessoa fundamental nessa concepção, assim como o Kélio Rodrigues. Eu aprendi muito nessa época na minha concepção de artes gráficas, com os livros, com as coisas que eles faziam. E também na vida. O Cafi chamou o Noguchi pra fazer o letreiro – aquele letreiro “Clube da Esquina” – e ele foi um mestre incrível para a gente.

DISCOS
“Clube da Esquina”

O disco “Clube da Esquina” era algo fora do parâmetro de tudo – inclusive o som. Outro dia o Lenine me falou isso. O Lenine era “audiófilo” em Pernambuco, mas ele só ouvia disco importado, porque os discos nacionais eram muito mal prensados e, geralmente, mal gravados. Se você for pegar, com raríssimas exceções, os discos dessa época, como os discos do início do Tropicalismo, são discos bacanas e tudo, mas o som… E ele disse que a primeira coisa que o aproximou da música brasileira foi o “Clube da Esquina”, porque, quando ele colocou, tinha um som de gravação, em todos os sentidos. Gravava-se muito bem naquela época. Gravava-se, talvez, com a tecnologia da época, melhor do que se grava hoje em dia, para o meu padrão de som. Porque, também, com esse negócio de produtor, virei – sem também ser um especialista – um cara ligado na masterização, no som, na qualidade, nessa coisa toda. E eu tenho feito isso hoje em dia, que é masterizar os discos do passado com um som original, com um som bacana, com toda a tecnologia que tem hoje, mas sem maquiar. Então era uma coisa que tinha um som, que tinha uma música, que era a mistura de tudo que tinha ali. Tinha uma coisa de poesia – nesse sentido de palavras – que era totalmente diferente de tudo que existia e que tinha existido. Quer dizer, tinha uma linguagem própria, tinha palavras próprias, e, além disso, tinha uma capa que não tinha o nome do artista, além de ser um disco duplo. Eu me lembro quando o “Clube da Esquina” foi gravado na EMI, que na época era a gravadora que tinha os grandes artistas brasileiros.

PESSOAS
Milton Miranda

E tinha um cara genial, chamado Milton Miranda, que era o diretor artístico. Um dia, ele me pegou no corredor pra falar algo que estava acontecendo e eu, usando meu poder de sedução, disse: “Meu amor… Acredita, vamos nessa!”. E ele ficou olhando pra mim… Mas foi o jeito. O Bituca não vendia disco ainda. Mas as gravadoras ainda investiam no artista, gravavam os discos. Só que era uma loucura, porque era um disco duplo, a capa eram dois meninos, não tinha o nome do artista – os nomes ficavam atrás do disco, e era o nome do artista e de um outro que ninguém tinha convidado, na realidade, porque não tinha contrato. Então era um disco totalmente fora do padrão. Inclusive o disco não era para se chamar “Clube da Esquina”, e sim “Documento Secreto” – eu acho que fui eu que limei esse nome. Não lembro direito, mas do jeito que eu sou, devo ter dito: “Não, coloca só ‘Clube da Esquina’ que já está bom”. Eu não sei exatamente quem falou o nome “Clube da Esquina”, mas era tão óbvio. Porque existia a música “Clube da Esquina” que tinha que se chamar “Clube da Esquina”, né? Porque significa aquela esquina lá, nessa época que a gente ficava ali, mas significa um monte de outras esquinas, um monte de outros clubes também. Mas foi um negócio feito sem mídia, não teve programa, não tinha empresário, não teve teoria.

PESSOAS
Nivaldo Duarte

O Nivaldo Duarte eu acho que foi um cara importante para o “Clube da Esquina”. Ele era um dos técnicos de gravação, que tinha emprego na gravadora, ganhava salário, e gravava magnificamente bem, porque gravava pelo ouvido e não pelo aparelho. O Nivaldo Duarte, que é esse cara que gravou o “Clube da Esquina”, conta uma história maravilhosa. Ele disse que era assim: a gente chegava, aquele bando de cabeludo, sentava e ficava ensaiando – porque naquela época não tinha muito canal, não tinha esse negócio de 16 canais, então você tinha que gravar quase tudo ao mesmo tempo e depois somar os canais. E enquanto você tocava, o cara começava a entender o que é que ia acontecer e começava a microfonar. Os caras ficavam tocando horas – as gravadoras naquele tempo tinham estúdio. Aí o Nivaldo Duarte dizia: “Bom, então tá. Agora tudo pronto, já microfonei, vamos gravar”, e o pessoal dizia pra ele assim: “Não, mas não é essa música que a gente vai gravar não; a gente estava aqui só compondo essa música. A gente vai gravar outra música” – por essa história, dá pra ver o ambiente da gravação do “Clube da Esquina”…

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

Os shows do Bituca, que duravam três, quatro meses no mesmo teatro – antigamente tinha esse negócio também –, viravam um programa de todos os dias. Você chegava antes, ficava conversando, começava o show, você via o show, e depois você ficava na porta do show pelo menos o dobro da duração do mesmo. E isso todo dia. Agora, a gravação continuou a mesma coisa, porque a gravação virava um grande programa: “O que é que você vai fazer hoje?”. “Vou na gravação lá do ‘Clube da Esquina’.” Então, você tinha – no “Clube da Esquina 1” não era tanto, mas mesmo assim ainda tinha – o que estava acontecendo no estúdio e tudo o que estava acontecendo em volta, as namoradas, os amigos… Era meio que uma festa, na realidade.

DISCOS
“Geraes”

Na gravação do disco “Geraes”, eu me lembro que, depois de termos gravado com o Grupo Água, a gente tirou tudo o que estava dentro do estúdio, encostou nas paredes, e deu uma festa. Ficou dançando a madrugada inteira. O Cafi tem umas fotos das pessoas em movimento, bonito.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

Socorros Costa é um negócio que tem lá em Belo Horizonte, eu não conhecia, mas o Marcinho e o Murilo Antunes me ensinaram depois. Eles criaram esse nome, que era um socorro mesmo, um carro guindaste, já numa época dos discos do Beto Guedes, numa época em que a gente aplicava esse método aos discos do Beto. Éramos eu, Marcinho e Murilo – a gente estava basicamente compondo todas as músicas do disco. Tinha uma coisa do disco ter uma unidade, o que é muito difícil, porque às vezes você pega um disco e tem 30 vezes a palavra “Deus” – aí o cara pensa que é um disco evangélico. Mas não, é porque são letristas diferentes, com as mesmas preocupações, todo mundo numa crise religiosa, aí todo mundo “Deus”, “Deus”… Então a gente, pra evitar isso – eu mais ditatorialmente, porque era produtor dos discos – já começava a interferir logo: “Não, isso aqui não dá”. Mas o Marcinho me lembrou que Socorros Costa surgiu antes do nome, segundo ele, no “Vera Cruz”, que ele tinha feito várias folhas, várias tentativas e não conseguia terminar. Quer dizer, tinha letra demais. E o Bituca pegou, em Belo Horizonte, esse monte de papéis com ele, trouxe para o Rio, me entregou e falou assim: “Dá um jeito nisso aí”. Acho que foi o início, acho que o Bituca que começou com esse negócio. E, geralmente, como eu estava aqui, e o Marcinho e o Fernando em Belo Horizonte, eu virei o encarregado. Ou então porque na época era muito técnico.

PESSOAS
Caetano Veloso / João Donato

Eu virei parceiro do Caetano e do João Donato, totalmente involuntariamente. Eu estava com uma fita do João Donato, que cantava uma letra que o Caetano estava fazendo com ele, e tinha duas frases no meio. Eu, já viciado com esse negócio do Socorros Costa, vinha cantando a música e refiz as duas frases. Aí eu falei para o Caetano: “Cara, tem uma música linda que vocês estão fazendo…”. E cantei pra ele, mas cantei com as duas frases minhas, mas sem intenção. E aí Caetano, com aquele jeito: “Mas a gente se conhece há tantos anos… Vamos ser parceiros, porque eu sou letrista e você também” – aí virei parceiro. Eu digo sempre que não fiz nada nessa música, mas virei parceiro.

TRABALHO
Atividades profissionais

Do Clube da Esquina eu sou fã do Fernando e do Marcinho – especialmente fã do Marcinho, daquela coisa barroca. Como letrista, eu não tenho milhões de idéias; às vezes eu tenho meia idéia e fico ali, “caymmizando” aquilo, até virar uma canção. Então isso acabou criando essa lenda de que sou um cara preciso. Ou talvez por causa daquele negócio: “Resolve isso aí, conserta esse negócio” – apesar de que não tinha nada pra consertar, porque as letras eram geniais e já estavam prontas. Eu, na realidade, organizei porque tinha letra demais para uma melodia que não cabia tudo; cortei dali, tirei dali, não sei se fiz bem.

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“Nada será como antes”

No apartamento que tinha em cima do apartamento do Bituca, dos tais tatames, em cima do túnel Rebouças, a gente via a pedra do Corcovado e ficava ali viajando naquela pedra. Eu tinha que fazer a letra de “Nada será como antes” – porque ia ter alguma coisa, não sei se era a gravação do disco ou se ia ter um festival – e o Beto, especialmente, queria cantar aquela música. Eu sei que tinha um quartinho de empregada pequenininho, e me trancaram ali. Disseram: “Agora faz” – e eu fiquei trancado no quarto de empregada com milhões de coisas, e umas malas velhas. Eu não tinha o que fazer. Abri uma mala e começou a sair letra. E aí eu fui – nesse vício de ficar organizando – organizando aquilo. E tinha a letra de “San Vicente”, do Milton e Fernando Brant. Pra me deixarem sair do quarto, eu disse: “Deixa eu sair do quarto que eu tenho uma letra pronta!” – e saí com a letra de “San Vicente”. Depois voltei de castigo, de novo, pra fazer a letra…

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Quando eu falo que a gente era pedra que rola, a gente era pedra que rola mesmo. Chegou uma época que eu fiquei meio na encruzilhada, porque devido a esse papel no Clube da Esquina, de ser o cara que organiza as coisas, teve uma época que eu falei “Vou virar o chato e o empresário dessa história. Estou fora disso”. Mas ainda participei de algumas tentativas desastrosas de arranjar empresários para o Bituca, que se revelaram tiros pela culatra. Porque era tudo muito mambembe. Mas acho que o lançamento do “Clube da Esquina” foi um show no Teatro Fonte da Saudade – hoje em dia é um teatro que ninguém vai, nem sei se existe. Era um show que tinha um cenário, tinha uma direção – acho que do Ruy Guerra – e foi bacana. A gente era mambembe, mas tinha uma produção. Por exemplo, os shows do Bituca eram tão diferentes de tudo que existia – e de tudo que existe hoje –, que tudo podia acontecer num show. Acho que, basicamente, o que acontecia nessa época era que tudo podia acontecer no show. E o que aconteceu, a partir daí, é que o “Clube da Esquina” foi o primeiro a cair de cabeça na garotada. E o público começou a ser de 14, 15, 16, 17 anos… Foi mudando porque eu acho que eles se identificavam com a coisa da música, da poesia, e com o jeito de ser – o jeito de ser cabeludo… Então, com o Bituca, foi a primeira vez que eu vi no Brasil grandes shows. Quando chegou a geração do rock, a gente já tinha organizado toda a coisa: nego já sabia o que fazer quando chegava na gravadora, já sabia o que fazer quando chegava para publicar música. Mas a gente passou dez anos sem publicar nossas músicas, até entender como era; quando entendeu como é que era, a gente fez a primeira editora de autores do Brasil.

TRABALHO
Avaliação

Como eu sou muito curioso por outras coisas, quando chegaram os meninos, ao contrário da MPB, que virou de costas, a gente foi totalmente aberto, e eu particularmente fui muito aberto com a geração do rock. A geração do rock foi engraçada… os caras chegaram meio chutando o balde, dizendo assim: “MPB… esse Chico Buarque está velho”. Depois, o que eu achei chato foi começar a fazer mea-culpa e dizer: “Não, Herivelto Martins é um gênio”. Depois ficaram muito MPB demais… Mas quando chegou o rock, eu falei: “Quero ver”. Eu me lembro que o Chico Buarque, nessas reuniões de classe, ligava pra mim e dizia: “Você que conhece esse pessoal do rock, traz não sei o quê”. Porque eu conheci o pessoal do rock; fiquei amigo do Renato Russo, do pessoal dos Paralamas. Fui lá: “Quero conhecer esses meninos que estão aí”. Mas quando eles chegaram na EMI, que foi um celeiro disso, o clima para o rock já estava pronto.

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Clube da Esquina: Avaliação

O Clube da Esquina, quando fez 25 anos, não teve muita coisa. O máximo que teve foi um negócio no Jornal do Brasil que dizia assim: “Os Sgt. Pepper’s de Minas Gerais”. Eu falei: “Por que os Sgt. Pepper’s de Minas Gerais? Então toda vez que se falar de Lupicínio Rodrigues, se diz assim ‘O compositor do Rio Grande do Sul?’”. Uma vez eu estava tirando uma foto para a Revista da Folha, falando um pouco disso com a repórter e com a menina que estava na fotografia – que hoje é uma grande fotógrafa em São Paulo, a Rochelle Costi – e ela falou: “É engraçado… As mesmas pessoas que ficam falando essas coisas são as pessoas que antigamente alugavam kombi pra ir no show do Beto Guedes” – porque é a mesma coisa. Era bom, mas fica aquele negócio meio dark de butique, uma coisa assim.

DISCOS
“Cais”

Eu me lembro quando eu lancei o disco “Cais”. Eu dizia: “Como é que eu vou lançar? Porque eu não posso falar ‘Sabe, seu Sílvio, estou vindo aqui agora…’”. Aí eu falei: “Vou chutar o pau da barraca…”. Eu sei que o cara foi me entrevistar, chegou lá, super-repórter, um cara bacana. Chegou às três horas da tarde na minha casa, esperando encontrar o bicho-grilo do Clube da Esquina – nada contra bicho-grilo, adoro os hippies, problema nenhum com nada, está liberado geral – e nós nos largamos às três horas da manhã do outro dia! Porque o cara, quando chegou, falou assim: “O que é o ‘Cais’ pra você?” Eu poderia ter falado para ele: “O ‘Cais’ é o lugar, o precipício onde minha alma se projeta…”. Mas eu falei para ele assim: “O ‘Cais’ é um lugar que eu vou em São Paulo, que abre às três horas da manhã; eu vou com o Cazuza e primeiro a gente vai para o ‘Cais’ e depois para o ‘Vão Improviso’”. O cara falou: “O quê!? Espera aí, reprocessa…”.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação
Tinha os depoimentos do Chico dizendo que eu era uma adorável criatura; do Renato Russo dizendo que o dia que se encontrou comigo se ajoelhou. Eu falei: “Bom, como a gente sempre se comportou assim, a gente continua se comportando…” – como uma majestade, coisa que a gente não pensava na época. Esse é um preconceito em relação ao Clube da Esquina – esse negócio é muito atribuído, e eu discordo disso. Às vezes, o Fernando fala disso, de que a gente não tinha nem organização e nem um programa de mídia. Porque é muito fácil dizer: “Não, isso não aconteceu por causa disso”. Eu acho que é porque a gente fez um negócio assim: primeiro, o Clube da Esquina foi um fenômeno de público – o Bituca e o Clube da Esquina era um grande fenômeno de público para a garotada da época. O Clube da Esquina é que possibilitou o aparecimento de uma geração de roqueiros com todo o comportamento herdado. Tem uma música do Herbert, linda, que a introdução de guitarra é Lô Borges puro, os caras inclusive falam isso.

PESSOAS
Caetano Veloso
O Caetano me falou uma coisa maravilhosa. Ele me falou que um cara escreveu um livro chamado “A decadência bonita do samba” – é uma bichinha que tem na Folha de São Paulo –, um livro inteiro para provar a heterossexualidade épica do Caetano. Aí o Caetano falou assim: “Mas, fulano, você escreveu um livro inteiro pra provar minha heterossexualidade épica do ponto de vista da sua homossexualidade romântica?”. É maravilhoso, porque o cara perde um tempo fodido pra fazer um livro que não interessa a ninguém, e quando chega o Clube da Esquina ele fica lá no alto… “Não, esses caras aí…” Eu digo: “Pô, não entendi nada, cara” – ele está falando com os caras que fizeram provavelmente uma das histórias mais incríveis da música popular nesse país! E, como o Caetano falou recentemente, no Jô: “Não, a gente não fez transformação na música nenhuma; quem fez transformação da música foi o Clube da Esquina”. E, recentemente, quando ele gravou esse disco, ele falou: “As duas únicas coisas da música brasileira que foram fundamentais pra transformar, que de alguma maneira influenciaram a música no mundo, foram a Bossa Nova e o Clube da Esquina”.

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Cinema

Como sou um militante da música, eu exerço um pouco essa coisa da crítica o tempo inteiro, e acho que todo criador exerce isso. E, além disso, a gente é filho especialmente da Nouvelle Vague, de Truffaut, de Godard, desses caras, especialmente do Cinema Novo – no tempo que se fazia cinema no Brasil, que não era esse cinema que está se fazendo, com raras exceções, com dinheiro público e que é um horror.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Acho que a história é como é, porque se a gente tivesse feito um programa, não sei o que ia ter. Porque eu acho que a gente sempre se lixou, eu falo isso nesse artigo – porque a única coisa que eu escrevi sobre o Clube da Esquina foi isso. A gente sempre se lixou para essa história, e eu acho que a gente continua se lixando. Então não ia me preocupar agora, mas têm horas que eu falo porque também não dá pra dizer assim: “Olha, o meu depoimento é o seguinte, a história da música brasileira não é a Bossa Nova, o Tropicalismo e o rock brasileiro; não é assim que se passou, não é dessa maneira”. Quando eu falo que eu era amigo do Torquato, que eu conheci o Caetano antes de conhecer o Milton, é porque essas histórias estão muito ligadas e não era nenhuma descoberta você saber que tinha outras coisas acontecendo, que tinha minissaia, que tinha os Beatles, que tinha o Jimi Hendrix, que tinha todo esse universo que estava acontecendo. Nós éramos jovens e estávamos sabendo disso. Só que nós não tínhamos um programa, não era o nosso programa, por exemplo, identificar preconceitos em relação ao que é brega e ao que não é brega – essas coisas que o Tropicalismo tratou maravilhosamente bem.

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Tropicalismo

Algumas conquistas do Tropicalismo foram ótimas para a gente ali no processo, deu muita liberdade para a gente. Mas, ao ver um programa da TV Globo, com uma cantora – que eu não vou citar o nome, pra não ficar polêmico demais – assassinando uma música do Caetano no palco, e cara da locução dizendo assim: “O Tropicalismo mudou o Brasil”, aí é hora de tomar uma atitude. Que não é uma atitude que eu tenha que tomar, mas eu acho que os tropicalistas têm que tomar – de chegar lá, ver o programa e dizer: “Olha, quero falar… A gente não mudou Brasil nenhum…” – mesmo porque, durou alguns meses. Eu fico muito triste quando os jovens artistas se identificam como filhos do Tropicalismo. Eu ficaria profundamente distante de um jovem artista que se dissesse filho do Clube da Esquina. Não é nossa praia; nossa praia é Bob Dylan – “Don’t look back”. Como naquele francês de quem não fala francês, “sampre an fran”. É o francês do malandro, “sampre an fran”.

PESSOAS
“Chacal” (Charles Peixoto)

Na faculdade de Comunicação, eu conheci algumas pessoas, entre elas o poeta Chacal – o poeta Charles Peixoto. E, na época do Clube da Esquina, a gente era beatlemaníaco no sentido de que a gente pensava também em fazer aquela organização toda – no fim, a gente fez um monte de coisas sem muito essa organização. Mas eu pensava em fazer isso, tinha essa idéia de a gente fazer o “Nuvem Cigana”, que tinha esse nome por causa de uma música do Lô Borges comigo. E, por circunstâncias da vida, numa determinada época, fui morar em Santa Tereza, numa casa com dois arquitetos – o Pedro Cascardo e o Dionísio – e a Lúcia, que era engenheira. Era uma casa grande que eles tinham comprado em ruínas, tinham reformado e a gente vivia nessa.

CIDADES
Rio de Janeiro

Tinha um bloco de carnaval que a gente fazia que é uma das origens desses grupos que têm no Rio, tipo “Simpatia quase Amor”, que era o “Charme do Simpatia”, uma coisa louca, que era fora do carnaval, na contramão da rua, com os carros andando e vestidos de papel crepom. Depois de ter tumultuado, se atirava na praia – era quase um comício relâmpago carnavalesco o que a gente fazia.

FAMÍLIA
Pai / Irmãos

Eu sou um cara que se orgulha muito quando falam que eu sou mineiro. Eu nunca desminto – digo que eu me orgulho e que sou mineiro sim. Mesmo porque, o meu pai era vendedor da Zona da Mata, meus irmãos nasceram em Ubá e eu me sinto mineiro. Mas sou papa-goiaba, sou de Niterói; mas sou muito carioca também, meu jeito é muito carioca.

TRABALHO
Parcerias

Das coisas que eu tenho feito agora com Celso Fonseca, consegui fazer um trilogia em que eu crio um personagem e eu acho que finalmente acertei, que é um cara que tem um pé na malandragem e um pé no grand monde, que é o cara que é elegante mas ao mesmo tempo está na sarjeta, e vê esses mundos e faz isso passar.
Então, nessa época, eu caí um pouco nessa história do futebol, do samba, nessa coisa de Santa Tereza, com esses amigos. Eu não tinha onde morar e fui parar lá. E Marcinho foi morar depois ali em Santa Tereza também. A gente dava festas que duravam três dias, era uma maravilha.

TRABALHO
Atividade de escritor

A gente estava tendo a geração do mimeógrafo, e eu publiquei um que é um negócio chamado “Canção de Búzios”. É um livrinho que eu fiz com as memórias de um tempo que eu passei meio vagabundo, em Búzios, no tempo em que Búzios era Búzios. Eu fui lá um dia desses e falei: “Pô, que horror!”. Fui embora correndo… Mas primeiro tinha sido o Chacal que tinha feito um livro no mimeógrafo, chamado “Muito Prazer, Chacal”. Tinha esse negócio do mimeógrafo, e a “Nuvem Cigana” meio que tinha esse espírito das festas; a gente era meio happening, era o contrário. E nessa época eu estava fragilizado, porque eu estava todo pra dentro. Isso foi uma possibilidade, porque essa galera é uma galera pra fora, do falar alto, do futebol, do não sei o quê, e eu entrei de cabeça, o que foi minha sobrevivência, foi minha volta à vida, foi minha saúde. Então tinha essa coisa da “Nuvem Cigana”, que foi produzir, organizar – era uma esculhambação, reuniões intermináveis –, a pretexto de lançar alguns discos, alguns livros que a gente publicava. Fizemos grandes happenings no Rio de Janeiro; happenings loucos, com encenações, com festas malucas. E, na realidade, o “Nuvem Cigana” tinha tudo… Tinha festa na minha casa que eu saía no meio da festa, viajava pra Friburgo e voltava três dias depois e a festa continuava. Tinha desde o cara do morro até o Tom Jobim. Passaram todas as pessoas por lá. No meio da festa eu ia à praia, e tinha alguém comentando a festa: “Não, porque eu fui a uma festa na casa do Ronaldo Bastos” – só que ninguém sabia quem eu era eu, não era nem minha casa. Eu estava lá, era festa… E aí virou esse coisa, a casa do “Nuvem Cigana”. “Nuvem” por ser uma coisa que se move, está em movimento.

PESSOAS
Tom Jobim

Acho que eu fui mais amigo do Tom Jobim do que parceiro. Eu conheci o Tom Jobim, que já era um mito absoluto para o Brasil e pra mim, apresentado pelo Bituca, que me levou na casa do Tom. E aconteceu que ele gostou de mim e eu comecei a freqüentar a casa dele. E o Tom foi um cara muito importante na minha formação, em todos os sentidos. Ele foi fundamental na minha formação. E tinha esse negócio de fazer música, porque eu era um letrista, parceiro do Milton Nascimento.

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“Wave”

No “Wave”, eu tentei fazer a letra, e, na realidade, o Tom já estava fazendo, ele já tinha várias coisas prontas. Mas um dos meus maiores orgulhos na música popular é de ter colocado a palavra “cais” no “Wave”. Toda vez que disser “O cais é a eternidade”, esse fui eu. Então eu fui parceiro do Tom só nessa palavra que eu coloquei.

PESSOAS
Paulinho Jobim

Mas o Tom teve a sabedoria de forçar uma barra certa vez. O Paulinho estava doente, no andar de cima, com gripe, e ele falou: “Você precisa conhecer meu filho”, aquele jeito dele. Me levou lá para o Paulinho e eu virei parceiro do Paulinho e passei a ser amigo dele; e virou uma coisa meio de família. Quer dizer, eu tive mais esse privilégio na vida, fora a família Borges, a família Brant, a família Caymmi.

PESSOAS
Família Caymmi

Outro dia eu zoei a Nana Caymmi. Eu chamo a Nana Caymmi afetuosamente de “mamãe”, e a Dona Estela, mãe da Nana Caymmi, me chama de “meu irmão”. Aí eu cheguei numa festa e falei: “Nana, se a sua mãe é minha irmã e você é minha mãe, o que afinal você é minha?”.
Eu tive essa sorte de poder conviver tanto com nosso Dorival, como nosso Antonio Carlos.

PESSOAS
Tom Jobim

Mas a parceria com o Tom é uma parceria pequena para o tempo que a gente conviveu, na realidade. Eu tinha feito uma música com o Paulinho, chamada “Maria é dia”, mas a gente nunca tinha feito uma música junto. Aí o Tom foi lá com o Paulinho e fez umas partes, escreveu outras partes da letra. Porque, na realidade, ele queria fazer aquele negócio da parceria que a gente tinha projetado anos antes. Teve uma época que eu morei com o Tom numa casa em Londres; primeiro com ele sozinho e depois com a família. E aí, logo depois disso, a gente se encontrou em Paris. E eu tenho uma música inédita com ele. Ele não gravou. Era uma música que ele gravou instrumentalmente, chamada “Teresa my love”, e que não sei como se chama em português. Depois, ele me chamou pra fazer aquele minissérie da TV Globo, “O Tempo e o Vento”, pra fazer algumas canções com ele, que são as três canções dessa minissérie.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Museu
Eu acho maravilhosa a iniciativa do Museu Clube da Esquina. Acho maravilhoso especialmente resgatar o espírito dessa coisa, de forma que o Clube da Esquina seja para todo mundo. Eu acho que tem que ser um Museu voltado para o futuro, com o olho para a frente. Ele tem que se realizar num espaço imaginário, num tempo imaginário, no futuro; agora, mas para o futuro, para estar aí. E ter uma coisa que as pessoas, fisicamente, possam entrar num lugar que tenha uma cara nova, que tenha uma arquitetura nova – que não seja um prédio que a prefeitura tinha não sei onde, que fique aquela coisa. Eu sei que esse não é o espírito dele, mas eu vejo isso muito claramente, a começar pelo espaço. Tem que ser uma coisa totalmente arrojada. Eu acho que a música da gente está muito ligada com a arquitetura da gente, com o cinema da gente, e especialmente com o povo. Com o povo brasileiro e com os terráqueos, pelo menos enquanto eles não conhecem ainda os marcianos, os venusianos…

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Uma mensagem para Ronaldo Bastos

  1. Izabel Maria disse:

    Oi Ronaldo, meu nome é Izabel, eu moro em Niterói e gostaria de saber se existe no Rio de Janeiro ou em Niterói algum lugar onde as pessoas se reunem para curtir as músicas de Beto Guedes e de todos que formaram o Clube da Esquina.
    Tipo um fã clube.
    Grata,
    Izabel