Rubinho Batera

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome / Local e data de nascimento

Meu nome é Rubens Moreira Filho. Nasci no interior de Minas Gerais, em Caeté, no dia 9 de Agosto de 1948.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação musical

Eu era garoto, 7 anos, e lá na minha terra mesmo eu vi um outro garoto tocando bateria. Aquilo me influenciou tanto que eu me fixei nisso e sou baterista até hoje. Alguns anos depois, meu pai se mudou pra Belo Horizonte e lá nós formamos um grupo, sem pretensão nenhuma. Todo mundo era garoto, mas o grupo foi tendo uma formação boa e começamos a fazer bailes em Belo Horizonte. Chegamos até a tocar no Automóvel Clube, no Iate Tênis Clube em Belo Horizonte. Enfim, foi dando um aspecto bom no grupo e eu, inclusive, parei de estudar de tão influenciado que eu fiquei por isso.

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Ponto dos Músicos

Em Belo Horizonte tinha até um lugar chamado Ponto dos Músicos, que era uma rua no centro. A gente ia todo dia encontrar com os músicos. A gente fazia amizade com todo mundo. E minha vida foi assim, com música.

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Marilton Borges / Profissionalização
E teve muito a participação do Marilton Borges, que é irmão do Marcinho. Ficamos nos conhecendo naturalmente. A gente tocava de tudo. Era baile e a gente tocava de tudo mesmo. Eu me lembro que o Lô Borges sempre ia com a gente também. Era o meu irmão, que tocava vibrafone na época, o Eduardo pianista, o Ildeu no contrabaixo, Getúlio no sax, e o Marilton, que era o crooner, mas que tocava piano também. O grupo chamava-se Gemini 7. A gente era bem requisitado pra fazer bailes, formaturas. A gente não parava. Era um baile atrás do outro.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimen
to)
Eu me lembro que numa dessas épocas eu fiquei doente, fiquei de cama, adoentado. Aí apertam a campainha lá em casa, minha mãe abre e é o Milton Nascimento e mais um empresário que trabalhava com ele – não me lembro o nome. Os dois se sentaram na beira da minha cama e perguntaram: “Olha, você quer gravar comigo?” No outro dia eu melhorei. Já estava bom, cheio de alegria.

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“Clube da Esquina”

Eu já conhecia o Milton, porque com grupo de música a gente conhece todos os músicos. A gente inclusive já tinha tocado com o Milton esporadicamente em outros lugares, mas tudo muito na brincadeira, nada profissional. Ele já morava aqui no Rio, já tinha feito sucesso com aquela música no Festival. Então ele me chamou pra gravar o “Clube da Esquina.” Eu me lembro que foi uma alegria tão grande, que no outro dia eu já estava em pé e ótimo.
Aí vim para o Rio. Eu lembro que eu cheguei de avião no Santos Dumont e a gravação era no Odeon. Eu não conhecia o Rio de Janeiro ainda. Era minha primeira vez, eu era garotinho. E daí eu vi uma rapaziada com violão, carregando instrumento, e resolvi perguntar onde era o Odeon. Eles falaram: “Aqui mesmo.” Quando eu fiquei sabendo, era o pessoal dos Mutantes com quem eu tinha conversado. Aquilo tudo pra mim foi uma inovação. Era um incentivo.
Eu me lembro que eu cheguei no estúdio muito acanhado, não conhecia ninguém. Só conhecia o Milton e o Wagner Tiso, que também era meu amigo e já tínhamos gravado juntos. E aí participei do disco.
Moramos juntos em Copacabana. Acho que o Milton tinha alugado um apartamento em Copacabana. Moramos eu, o Milton, o Lô Borges, o Beto Guedes e, se não me engano, o Flávio Venturini também estava. A gente morou durante a gravação. Foi um mês, um mês e pouco. Eu devia ter o uns 20, 21 anos. E quando acabou a gravação, todo mundo falou: “Continua no Rio.” Mas eu não adotei o convívio. Não gostei. Voltei pra Belo Horizonte, voltei para o Gemini 7 pra fazer baile, naturalmente.

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Atividades profissionais

E tinha um amigo meu, um pianista – o Hélvius Villela – que estava em Nova Iorque já há um tempo, e ele tinha voltado de lá com um show armado aqui no Rio com a Marlene, aquela das antigas. A Marlene e a Emilinha Borba. Aí ele veio e me disse: “Olha Rubinho, tem um show lá no hotel Glória. É dois meses. Você quer ir comigo?” Falei: “Vamos embora”. Aí vim com ele e não voltei mais pra Belo Horizonte.

PESSOAS
Edu Lobo / “Bituca”(Milton Nascimento)

As coisas foram acontecendo. Trabalhei muito aqui em casa noturna, em boate. Aí o Edu Lobo me viu tocar, adorou e me chamou pra trabalhar com ele. E trabalhei com o Edu Lobo quase 5 anos. A gente gravou quatro LPs, que ficaram legais. Foi o “Limite das Águas. “ Foi lindo, lindo, lindo, todo mundo gostou muito. Trabalhei com ele um tempão. E as coisas aí foram acontecendo. Fui ficando no Rio, mas eu me encontrava muito com o Milton. Teve uma época lá no Baixo Leblon onde a gente se encontrava muito. Toda noite, todo mundo ia lá. A gente se encontrava muito com o Milton, com o Chico Buarque, com todo mundo. Era uma freqüência muito legal esse barzinho.

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“Clube da Esquina”

Nessa época do “Clube da Esquina 1”, quando eles me chamaram, já estavam com tudo certo pra fazer a gravação. Só me chamaram mesmo pra gravar. Eu me lembro que eu e o Robertinho gravamos a bateria. Mas quando eu não estava na bateria, estava na percussão; e quando eu estava na bateria, ele estava na percussão. Então teve uma música que eu achei esquisito o jeito do Robertinho tocar e falei: “Robertinho, não é assim não.” E ele: “Ih, bicho. Lá em Minas Gerais não toca assim não? Fica calado.” E a gente começou a rir disso. Teve que parar a gravação porque a gente ficou rindo. Uma história interessante.
Aquele disco foi uma glória para o Brasil. Foi um dos melhores discos produzidos aqui. Música boa, músicos bons. Foi uma coisa tão elaborada, tão bem feita, que ficou até hoje. Pra mim, foi uma glória ter participado disso. Foi um prazer, uma honra. Porque o Milton Nascimento já era muito considerado na época. E ser chamado para trabalhar com o Milton Nascimento é uma glória. E esse disco, musicalmente, arrebentou mesmo. E o meio musical até hoje toca, até hoje fala disso. Inclusive, uma opinião minha, poderiam armar uma outra gravação do Clube da Esquina, com todo mundo que participou antes. Acho que daria o maior sucesso com outra formação.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

O Clube da Esquina é um movimento, porque praticamente mudou o modo de você ouvir música. Porque o Milton Nascimento conseguiu passar para as pessoas um modo diferente da música fluir. O negócio foi tão bonito! O Milton propôs um negócio e fez uma coisa diferente de todo mundo. É isso que eu acho que foi a diferença de tudo. A crítica só falava bem. No aspecto de vendagem, eu não sei como é que foi, mas acho que deve ter vendido muito. A crítica sempre elogiou. Sempre falaram muito, muito bem. Elogiavam também o trabalho dos músicos. E foi um negócio tão bem elaborado, que há muito tempo eu não vejo no Brasil.

DISCOS
“Clube da Esquina”

Eu gosto de todas as músicas do disco. Não tem uma específica. Tudo é ótimo ali. Tudo é bem gravado. Eu me lembro que a gente gravava de um jeito que muita gente não fazia. O Milton era muito assim: “Olha, não gostei disso. Então eu acho que a rapaziada tá meio cansada. Hoje eu não vou…” Isso era um cuidado que ele tinha. “Aquilo não ficou bom, vamos deixar pra amanhã, gente?” A gente parava, no dia seguinte a gente fazia e ele gostava. Então foi um trabalho muito bem realizado. E nessa gravação do disco aconteceu muito disso. Acho que isso influiu muito no trabalho do Milton.
Nessa época do apartamento no Rio, a gente só falava de música. A gente ia para o estúdio, depois voltava para o apartamento e só pensava em música: “Amanhã nós vamos gravar essa. É assim.” Era um pensamento levado a isso. Era muito interessante. E todo mundo me gozava muito, porque eu estava a fim de ir embora pra Belo Horizonte. Estava gostando de fazer o trabalho, mas ao mesmo tempo sentia saudades do grupo que eu tocava. Essas coisas bobas de garoto. Então me gozavam muito: “Vamos prender o Rubinho aí no quarto.”

PESSOAS
Família Borges

Eu conheci os Borges no período do nosso grupo de baile. Já conhecia, porque o Marilton Borges trabalhava com a gente. A gente também encontrava o Marcinho Borges. Eu ia muito na casa do Marilton. A mãe, o pai, os irmãos… Tudo aquilo era uma família pra gente. E acho que o Milton morou lá um tempinho. A gente era amigo mesmo. Eu me lembro que teve um aniversário em casa em que foi o Milton, o Marilton.
O Márcio também é muito meu amigo. É um cara legal. Ele também me incentivou muito. O Márcio Borges, o Marilton Borges, a mãe e o pai deles, os irmãos todos, foram muito fortes pra mim. Acho que isso tudo fez a força do Clube. Eu acredito que tudo isso foi o início do Clube da Esquina, que tudo isso fez parte dessa formação. A amizade influiu muito e, claro, o trabalho também. A gente também tinha que saber tocar, porque senão não ia acontecer; mas o importante também foi a amizade, o trabalho que a gente teve junto, a amizade das famílias. A minha família era amiga da família do Marilton, então isso tudo influiu muito. O Milton morava lá e então a gente ficou muito amigo. Aí foi crescendo tudo.
Meu contato com o pessoal do Clube da Esquina já existia há muito tempo. Mas eu só fui trabalhar mesmo quando gravamos o disco. Depois nunca tive mais contato… Tinha assim, de encontrar no bar, de bater papo. Mas nunca mais trabalhei com eles.

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Ponto dos Músicos

Eu me lembro de tanta gente que ia lá. O Marcinho Borges ia muito, o Hélvius, o Nivaldo Ornellas também, que gravou disco e era meu amigo, o Aécio Flávio, que também está aqui no Rio.

FORMAÇÃO MUSICAL
Preferências musicais

Tinha muita sintonia entre a gente. A gente era muito interessado. Eu não vejo isso nesta geração. Eu acho que tem muita gente tocando bem, mas na época a gente era mais bem informado. A gente gostava de tocar jazz, muito jazz. Gostava de aprimorar o instrumento. Eu me lembro que tinha o Valtinho, um baterista, que tocava muito bem. O Paulinho Braga também, que inclusive está em Nova Iorque agora. A gente ia na casa do outro: “Como é que você faz isso?” A gente tinha um interesse com a música, a gente conversava muito a respeito, tocava outras coisas e procurava dar uma aprimorada. Eu não sei se estou certo, mas são coisas que eu não vejo agora na rapaziada que está vindo tocar. Eles fazem a coisa muito bem, mas as outras ficam… Posso estar errado.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

Eu me lembro que na época da bossa nova, o Tom Jobim era fabuloso pra mim. Eu gostei muito do Simonal na época também. Então isso tudo influenciou. E o grupo da gente era tão unido, que quando a gente se encontrava pra trabalhar era uma alegria total. A gente se sentia muito bem em tocar. Me lembro que a gente tocava no Iate Tênis Clube, no Automóvel Clube, toda 6ª e sábado. A gente fazia muito baile no interior. Viajava muito. Aí que veio o incentivo de parar de estudar e apenas tocar. Então estou aqui até hoje.

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Clube da Esquina

Se eu estivesse doente, já melhoria, porque essa idéia do Museu Clube da Esquina é uma idéia genial. Os músicos que gravaram ali – digo isso de coração – são músicos tão importantes… Isso é muito bom pra eles e para o Milton também. O Milton merece isso porque, repetindo, o Clube da Esquina foi um disco que renovou muita coisa na música brasileira. Pra mim está sendo uma honra participar disso e ter participado do disco também. Agradeço muito ao Milton pela confiança em me chamar, pelo carinho comigo. Eu tenho um carinho enorme por ele também. E eu agradeço a Deus por tudo isso.

Fale na Esquina

Uma mensagem para Rubinho Batera

  1. claudio santos neves disse:

    Rubinho Moreira, além de amigo eh um dos maiores bateristas de sua geração.
    Pena que o mercado fonográfico atualmente esteja tão restrito a lixos e músicos do quilate de Rubinho, Paulinho Trompete, Paulo Midosi, Haroldo Cazes, Hamleto Stamato, Ney Conceição, Sérgio Barroso, Erivelton Silva e outros, assim como cantores e compositores como Orlandivo, Sílvio César, Tito Madi e outros, não tenham espaço para mostrar seus trabalhos. Quando aparece um espaço, eles ficam sujeitos a exploração por parte da maioria das casas noturnas.

    Um grande abraço para todos esses grandes músicos e que, se Deus quiser, nós possamos conviver por muito tempo com esses talentosos irmãos.

    Claudio Neves