Salomão Borges

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/Local e data de nascimento

Meu nome completo é Salomão Magalhães Borges. Nasci em Belo Horizonte no dia 12 de fevereiro de 1916. Completei, portanto, 88 anos agora, há dias.

FAMÍLIA
Pais/ Avós

Meu pai, José Joaquim Borges, era português. Nasceu na região mais pobre de Portugal, que é Trás-os-Montes. Nasceu em Ribeira de Penha. Veio para o Brasil cedinho, ainda recém-nascido, e foi registrado em São Gonçalo, no Estado do Rio. Os pais depois voltaram para Portugal e ele ficou em companhia de um amigo dos pais dele aqui no Brasil, que também era português. A minha mãe era natural de Mariana, Minas Gerais. Era filha de mameluco. O pai da minha mãe era filho de negro e índio. Então, o lado do meu pai é todo português, e o lado da minha mãe é negro e índio. É esse o aspecto. Minha mãe era Paulina Raimunda Borges. E meu pai, José Joaquim Borges. Não tenho idéia de como eles se conheceram, mas eu sei que minha mãe se casou, primeiras núpcias, com 14 anos de idade, ficou viúva aos 18, e teve uma filha chamada Maria, Maria da Conceição. Depois conheceu o meu pai e se casou com ele. Meu pai nasceu em 1864, fim do século.

Irmãos

Nós éramos ao todo oito irmãos, alguns dos quais eu não conheci. Eram Henriquinho, Severino, Sertório, que eu não conheci, Maria, que eu não conheci. Eu conheci Maria da Conceição, Hornezindo, Henrico, cujo apelido era Itu, e Romoalda, Aldinha, esses eram os meus irmãos. Éramos oito, mas com os que eu convivi foram poucos. Foram três ou quatro.
O mais velho dos irmãos era Maria, a filha do primeiro matrimônio. O segundo, Hornezindo, tinha apelido de H O, depois vinha o Henrique Kemper, depois eu, e depois a Romoalda.

Pais
O nome Magalhães é o seguinte: meu pai e minha mãe eram pioneiros do espiritismo kardecista aqui em Minas Gerais. Aliás, por isso eles foram muito perseguidos. É bom que se diga isso, que eles sofreram muitas perseguições, porque naquele tempo a intolerância era uma coisa medonha. Mas meu pai foi fundador de um centro espírita que existe até hoje, em condições precárias mas existe. É o Centro Espírita Luz, Amor e Caridade. Meu pai fundou esse centro e, na primeira reunião pública do centro, eles receberam lá um espírito que se ofereceu para ser um diretor, o guia espiritual do centro. O nome desse espírito era Salomão Magalhães, que era o nome de um jovem médico de Bagé, Estado do Rio Grande do Sul. E meu pai, em homenagem a esse médico, me deu esse nome de Salomão Magalhães, além do Borges dele. E teve uma reunião pública muito tumultuada nesse centro espírita. E foi contra vontade de meu pai que essa reunião se efetuou, porque ainda era cedo pra uma reunião pública, pela fluência de maus espíritos em grande quantidade, e foi exatamente o que aconteceu. Então o pau quebrou lá, muita gente foi tomada de espírito mau e começaram a quebrar as coisas, tamboretada. E meu pai descreve isso num livro manuscrito que ele não chegou a publicar. E o Salomão Magalhães, que era o guia espiritual, não conseguiu segurar a barra dos espíritos maus que estavam lá conturbando a sessão. Foi quando apareceu então o Henrique Kemper – um outro irmão que recebeu esse nome de Henrique Kemper –, que tinha sido professor de medicina do Salomão Magalhães. E o Henrique Kemper então debelou a rebelião dos espíritos e acalmou todo mundo. Então meu pai, em homenagem ao Henrique Kemper, deu ao meu irmão o nome de Henrique Kemper Borges.

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Santa Efigênia

Eu nasci e me criei no bairro de Santa Efigênia. Mas essa Santa Efigênia que hoje perdeu a grande parte de seu território, de sua jurisdição, e passou a pertencer ao bairro de São Lucas. Eu nasci exatamente na Rua Domingos Vieira, quase esquina com a Rua Maranhão, em Santa Efigênia. E me criei nesse bairro.

Primeira infância
Eu vou dizer a verdade, a lembrança que eu tenho do bairro Santa Efigênia não é lá muito agradável. A lembrança mais antiga que eu tenho esse bairro é a seguinte: teve uma noite em que eu fui picado por um escorpião na ponta do dedo. Naquele tempo, as casas eram assoalhadas e tinham porões que eram ninhos de escorpiões. No nosso bairro, em Santa Efigênia, era assim, tinha muito escorpião. E quando o tempo estava chuvoso, havia correição de formiga dentro de casa. E as formigas desentocavam os escorpiões, que saiam em procissão. Às vezes, havia formiga carregando escorpião. E aí aconteceu isso. Eu estava dormindo e um escorpião me picou a ponta desse dedo aqui. Então aquilo me envenenou e eu passei um mal de cão. Vomitei bile, evacuei, estive entre a vida e a morte. E naquele tempo não tinha remédio, não tinha antídoto, não tinha soro como tem hoje. Mesmo assim o soro não garante. Dependendo da extensão do envenenamento a pessoa morre. O escorpião é um bicho danado. Eu quase morri.
Minha mãe cultivava… tinha um jardim muito bonito lá em casa e tinha muita dália. E ela sabia que a batata da dália, o tubérculo da dália, não sei se o nome botânico é esse, uma espécie da raiz da dália… Ela pegava aquele tubérculo, cortava em fatias, e depois aplicava sobre a região atingida. Aquilo ficava preto na mesma hora. A batata da dália puxava o veneno. Então ela me tratou com isso. E eu não parava de vomitar. Vomitava verdinho. Vomitava, evacuava, com dor pelo corpo todo. Então é essa lembrança desagradável, pois eu passei um mal de cão. Depois, aos poucos, eu melhorei. Só com a batata de dália que eu escapei dessa. Eu era muito novinho, devia ter uns seis, sete anos. Eu me lembro muito bem disso, pois me marcou muito. E na minha infância eu fui muito doente. Escolhe as doenças infantis que você conhece, eu tive todas elas. Eu tive gripe espanhola, eu tive catapora, sarampo, escarlatina, tive caxumba, febre de tifo, tive um monte de coisa e escapei na infância. Escapei da gripe espanhola. Ela veio da Primeira Grande Guerra, de 14 a 18; eu sou de 16. Ela chegou ao Brasil e matou muita gente. E eu tive a gripe e escapei da espanhola. Então eu era muito doente.

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Brincadeiras de criança/ Cinema

A infância era uma época dourada. Eram os tempos gloriosos da mocidade, da meninada. A gente brincava mais na rua. Brincava de nego fugido, o futebol de rua era uma beleza, muito campo de pelada, e na rua mesmo a gente jogava. Era futebol e pegador, essas coisas que a gente brincava. E tinha muita brincadeira de mau gosto, por exemplo: a gente fingia uma briga, a gente juntava um pau, um porrete com fezes, e simulava uma briga, e um passava: “Eu vou te dar uma porretada!”. O outro falava: “Não faça assim”. “Então segura esse porrete aqui.” Quando o cara segurava o porrete, puxava assim e saía com a mão toda enlameada. [Risos] Mas o divertimento maior da petizada, da infância mesmo, era o cinema.

LAZER
Cinema/Música no cinema

O cinema era um negócio maravilhoso. Maravilhoso mesmo, em preto-e-branco. Cinema mudo em preto-e-branco. Era uma coisa apaixonante, principalmente pela música. As músicas que se ouviam no cinema eram clássicos, eram valsas de Strauss, valsas vienenses executadas ao vivo, peças de câmera, violino, piano, principalmente violino e piano, violoncelo. Era uma beleza. E curioso que tinha uma coisa, eu gosto de lembrar disso, tinha um negro… Esse negro trabalhava no açougue, ele era um pouquinho mais velho do que a gente, assim um ano, dois anos mais velho. Ele trabalhava no açougue e tinha a aparência de um símio. E ele tinha os olhos apertadinhos como de um chinês e exalava um cheiro de gordura animal, porque ele carregava aquilo, quase meio boi nas costas, tinha uma força danada. Agora, a habilidade dele para reproduzir assobiando as valsas de Strauss, aqueles clássicos, muitos clássicos, O Guarani, Carlos Gomes, Beethoven, Chopin… Eles tocavam tudo no cinema. Então eu fui criado, fui embalado por essas músicas maravilhosas tocadas ao vivo. E depois reproduzidas por esse meu amigo, que a gente chamava só de Zé do Açougue. Ele tinha um assobio maravilhoso, reproduzia tudo com habilidade incrível. Se ele hoje fosse vivo, estava bem de vida. Incrível.

LAZER
Cinema

Eu tenho uma lembrança muito viva das matinês no antigo Cinema Avenida, que ficava mais ou menos onde é a Associação Comercial, ali na Avenida Afonso Pena, e era uma beleza. Aquilo ficava assim de menino. E a gente pintava e bordava. No Cinema Avenida, tinha a galeria que era em cima e depois tinha mais uma embaixo. E tinha os pilares, tudo de ferro, tudo à base de ferro. A gente subia e descia [Risos] aquelas escadas, comprava bala, bala bomba, era chamada de bomba, puxa-puxa. Aquela bala puxa, pra fazer guerra. Era muito engraçado. E era guerra de bala antes de começar a sessão.
O programa de matinê se constituía do seguinte: era uma comédia em dois atos. Ato era ato mesmo, interrompia, passava uma parte e depois a segunda parte. Esse Buster Keaton era um dos engraçados, dos cômicos da época. Era uma comédia em dois atos; um drama faroeste, western, em dois atos; e depois o seriado. Tinha também o jornal. Primeiro o jornal, depois a comédia em dois atos, o drama em dois atos, faroeste, e depois vinha o seriado com aquele aviso: “Final”, “Voltem na próxima semana para assistirem à continuação deste eletrizante filme”. [Risos] Não, “desta eletrizante película”. Era muito interessante. E as músicas eram um encanto, uma beleza.

FORMAÇÃO MUSICAL
As influências

O primeiro contato marcante que eu tive teve com a música foi no cinema. E também, naquele tempo, a minha irmã, essa irmã por parte de mãe, cantava muito bem, ela tinha uma voz maravilhosa, forte, e tocava violino. Ela cantava e lá na esquina se ouvia… E era muito comum, naquele tempo, as pessoas, as moças principalmente, tomarem aulas de música em casa, em domicílio. Havia grandes professores, o José Pinto de Souza, Olegário, que era até avô da Maria. Grandes mestres de música. Aliás, os melhores músicos de Minas Gerais naquela época eram da Polícia Militar, e mais exatamente, do Primeiro Batalhão da Polícia Militar.
A base da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, dizem que ainda são, eram os músicos do Primeiro Batalhão. Havia músicos incríveis ali. Inclusive esse meu primo… Tinha um primo meu, primo-irmão meu… Eu filei o leite dele, porque fui criado com leite de cabra. E eu filei do Salvador, que era maestro. Esteve cotado para ser regente, maestro da Sinfônica. Depois, por causa de política, ele não foi, mas era mestre na clarineta. Tocava demais, o Salvador Vieira. E havia músicos ali especiais, o Júlio Benício de Abreu, o João Soares de Souza, que era primo da Maria, o Sebastião Viana, que está vivo. O Sebastião Viana chegou depois a maestro geral da Polícia Militar. Sebastião Viana tocava vários instrumentos. Até hoje é um grande músico. Está vivo ainda. O filho dele é esse menino que trabalha até com a Rede Globo. Como é que é o nome? Marcos Viana. É o filho do Dico. Sebastião Viana é Dico. Ele se parece muito com seu pai. O pai dele era um assombro e cantava bem. O pai dele tocava vários instrumentos, inclusive flauta, flautim, tocava piano e cantava maravilhosamente bem. E até hoje eu guardo de memória uma valsa que ele fez e interpretava. Eram muito comuns os bailes, as festas familiares. E os músicos militares tinham que ter as bandas que tocavam nessas festas. Dico era infalível. Estava sempre nessas festas, tocando e cantando.
Guardei a música de memória até hoje. É uma valsa. Como é que é o negócio? É assim: “Teu lindo olhar/Me domina, me fascina/É um luar/Cuja cor púrpura me domina/Tens no olhar/ Não sei o quê de um amor/ Nasce no luar/ Na serenata de um cantor/ Teus olhos/São mágicos/Melancólicos/E nostálgicos/Só me traz muito/Felicidade/Junto de ti/Na soledade/ Tens neste teu lindo olhar/Um feitiço/Que não chora/E no santuário/Foi tu para amar/Inferno atroz em que tem minh’alma”. Isso é do Dico, que naquele tempo não devia ter 20 anos de idade.

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Como era a cidade

Eu passei a minha adolescência numa época muito conturbada, muito marcada, muito influenciada pelo militarismo. O que havia de bonito e atraente em Belo Horizonte eram as paradas, naquela época. As revoluções, teve a Revolução de 22, teve a de 24, teve a de 30, teve a de 32. Meu pai era capitão da Polícia Militar, foi comandante do Esquadrão de Cavalaria. O meu irmão mais velho era do exército, e o outro sentou praça. Meus irmãos, todos eles, tocavam violão. Meu pai tocava violão e tem uma música… Quer dizer, eu atribuo a autoria a meu pai porque eu não conheço o autor, só vi meu pai. Meu pai e meus irmãos tocavam essa música. A música tem um chorus, é muito engraçada. Mas meu pai é que tocava no violão e cantava. Era a “Música do sapo”: [Cantando] “Eu vivo triste como um sapo na lagoa/E ando solto pelas matas escondido/Eu vivo triste como um sapo na lagoa/E ando solto pelas matas escondido/Vou deixar a maldita serenata/Para ver se dou um jeito à minha vida”. E vinha por aí afora. É muito interessante. Meu pai tocava e cantava. E meus irmãos acompanhavam também, tocavam violão e cantavam. Essa música tem muita influência na minha vida. É uma das coisas mais gratificantes, mais agradáveis, que marcaram mesmo, até hoje. Tem uma orquestra – um tal de André Riet – que toca aquelas valsas de Strauss. E eu não perco. Sempre que há um programa que eu consigo ver, vejo até o fim. André Riet. Aquelas músicas todas tocavam no cinema naquela época.

LAZER
Cinema

Tinha o Cinema Glória, o Cinema Brasil que, quando foi inaugurado, foi um acontecimento, porque era uma coisa chique. Cine Brasil era o Cine Teatro Brasil. Era um cinema muito bem feito, muito bem construído. Era aquele edifício ali da Praça Sete. Internamente ele tinha a forma meio de um anfiteatro. E a acústica, todos esses detalhes eram tecnicamente empregados lá no cinema. Era um cinema moderníssimo naquela época. Ali eles faziam baile de carnaval, lá na entrada do Cine Brasil. Era uma coisa linda. E acabaram com ele há muito tempo. Acabaram com os cinemas todos.

LOCALIDADES BELO HORIZONTE
Ginásio Mineiro/ Mercado Central/ Estádio do América
Eu me fantasiava todo ano. Juntava dinheiro… [Risos] Porque aí é o seguinte: eu fui influenciado pelo militarismo de tal modo que na Revolução de 32 eu me alistei. Com 16 anos de idade eu me alistei. Eu estudava no antigo Ginásio Mineiro, cujo reitor era o José Maria de Alckimin, folclórico político. E o Ginásio, nessa ocasião, era em frente ao Mercado Central. Ah, são muitas minhas recordações. O Mercado Central, por exemplo, pouca gente sabe disso, nesse tempo já era o Mercado Central, no meu tempo de colegial, de estudante, mas antes de ser o Mercado Central era o estádio do América. América Futebol Clube. Era um estádio bonito, gramadinho, todo pintado de verde, arquibancada de madeira. Era tudo no estilo inglês, tudo copiado da Inglaterra. O América tinha um estádio bonito, bonito mesmo. Dali é que depois ele foi pra alameda onde é hoje o Extra, o Supermercado Extra. Ali o América teve um bom estádio.

Voltar ao topo EVENTOS HISTÓRICOS

Revolução de 32

Então eu me alistei. E ali eu fui imediatamente para sargento. Na revolução, eu fui sargento. Mas meu batalhão não seguiu. Foi o primeiro civil, o 26° batalhão. Todos os outros batalhões foram organizados por meu pai. Meu pai já estava na reserva e ele se apresentou. Então deram a incumbência de organizar batalhões patrióticos, batalhões de voluntários. E eu me alistei num desses batalhões escondido dele. Quando ele percebeu, eu estava lá no meio da tropa. [Risos] Com 16 anos. Depois ele ficou danado da vida. Minha mãe chorou muito. Minha mãe não queria de jeito nenhum. Mas eu fui atraído pela influência da época: banda de música, hino nacional, parada militar. Aquelas paradas eram belíssimas: muito soldado marchando, hino nacional, a introdução da bandeira na tropa, aquilo tudo me arrepiava, eu ficava inflamado com aquilo e fui influenciado por isso tudo e acabei achando que tinha vocação pra militar. Então eu me alistei.
Quando acabou a revolução, o batalhão foi dissolvido e eu já tinha abandonado os estudos. Até porque as aulas foram interrompidas em virtude da Revolução de 32. E daí eu me alistei como efetivo na Polícia Militar. Em 1932 mesmo. Aí eu já entrei como soldado raso. Falei: “Daqui a pouco eu vou ser coronel”. Porque eu sabia tudo. Já havia aprendido com meu pai. Administrativamente, eu aprendi tudo de um batalhão. Eu sou capaz até hoje, nas regras e parâmetros antigos, de organizar um batalhão militarmente e administrativamente. Hoje, é tudo modernizado. Naquele tempo, um grupo de combate tinha um sargento, dois cabos, dez soldados, só tinha uma automática, um fuzil-metralhador (que as pessoas chamam de “fuzil metralhadora”, mas não é. É fuzil-metralhador), e tinha alimento: o soldado tinha dois municiadores, dois remuniciadores, tinha os volteadores, que era pra proteger a arma automática. Um grupo era isso. E três grupos formavam um pelotão. E três pelotões formavam uma companhia. Três, quatro companhias formavam um batalhão.
Administrativamente, eu sabia lidar com mapa de tropa, mapa de intendência, mapa de rancho, folhas de pagamento, escalas de serviço. Eu sabia tudo, tudo, tudo. E depois eu fui aproveitando. Isso até me prejudicou, porque eu fui aproveitado como militar na administração. Eu passei pela escola de recrutas, mas já sabia tudo, pois eu já tinha feito a escola de recrutas como voluntário, no tempo de voluntariado. Então, como eu já sabia aquela coisa toda, fui trabalhar na administração da companhia. E aí, o sargento chefe – era um primeiro sargento, coitado, semi-analfabeto – não sabia nada, e eu era ginasiano, pois estava quase me formando no ginásio. E o ginásio, naquela época, era uma coisa muito puxada. Pra ter uma idéia, no segundo ano ginasial, nós estudávamos, só de línguas, português, inglês, francês, latim e alemão! [Risos] Não era brincadeira. E a gente saía do ginásio e ia direto pra faculdade. Mas eu me entusiasmei com negócio de militarismo. Abandonei tudo e achei que ia fazer carreira, mas minha carreira militar foi um fracasso. Eu acabei fazendo um concurso de serviço público federal depois de 12 anos de frustrações. Perseguições… Briguei lá com um coronel. Ele falou: “Enquanto eu for comandante aqui você não entra no D.I., Departamento de Instrução, na Academia”. Eu fui pra Academia em 35, quando a fundaram. Passei em segundo lugar. Era pra ter feito uma carreira brilhante, chegado a coronel. Mas tive um desentendimento com ele e ele falou: “Enquanto eu for comandante você não entra aqui”. E ele cumpriu a palavra. Mesmo depois que saiu, ele influenciou de tal modo que me perseguiram, cortaram minha carreira e eu saí, caí fora. Fiz um concurso do serviço público federal. Fui ser escriturário do serviço público, entrei pro correio. Do correio, arrumei o serviço no jornal e a vida foi tomando outro rumo. O que eu lamento é que eu tive que parar de estudar. Parei de estudar. Porque eu fui estudar na caserna, fui estudar as matérias que constituíam a admissão pra Academia. Os exames internos pra sargento, eu fiz todos. Mas depois, quando criaram a Academia, eu tive que fazer curso. Então eu me dediquei a estudar as matérias pra fazer os cursos. Chegava lá, passava, mas o comandante brigava comigo, não deixava eu me matricular. Então não teve jeito, eu larguei aquilo tudo.

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Atividades profissionais

Fui um autodidata. Estudava muito porque eu tinha que me preparar para os exames de admissão, que não eram fáceis. Os exames era bem puxados lá na Academia. Sempre estudei sozinho, sem professor. Depois eu fiz um concurso… Era funcionário havia muito tempo. Já estava quase no fim de carreira, e eu era redator do serviço público federal. Mas eu queria um emprego com um cargo melhor remunerado. No caso, a melhor remuneração naquele tempo era, até hoje é, pra Auditor da Receita Federal. Naquele tempo era Agente Fiscal do Imposto de Consumo, Agente Fiscal do Imposto de Renda, e depois o Jânio Quadros criou Agente Fiscal do Imposto Aduaneiro. Um concurso dificílimo. Eu fiz esse concurso e passei, graças a Deus. Fui nomeado e me mandaram pra Areia Branca, no Rio de Janeiro. E eu acabei ficando. Burro, bobo, né? Devia ter ido. Ganham muito dinheiro lá no Norte.
Areia Branca é um porto salino. Um cara depois esteve lá e me falou: “Você ficava rico lá. Dá cãibra de tanto assinar guia de exportação”. Cada guia de exportação de sal que o agente assinava – o agente, naquela época, era o Inspetor de Alfândega –, ele ganhava não sei quantos cruzeiros. Igual a tabelião. E eu sempre pensei: “Podia ter ido”. Mas como é que eu ia sair daqui deixando 11 filhos menores, deixando o jornal? Já trabalhava no jornal e tudo. Eu pesei e medi: “Ah, não vou, não”. Pedi pra tornar sem efeito minha nomeação e o presidente da república despachou favoravelmente para posterior aproveitamento. Só que após um ano eu estudei novamente a situação e falei: “Eu vou pegar esse emprego. Eu estou arruinando a minha carreira de funcionário público. Eu vou pegar isso”. Mas quando eu requeri novamente, não me deram satisfação. Recebi um memorandozinho do Ministério da Fazenda dizendo que as nomeações estavam suspensas e que eu aguardasse melhor oportunidade. Estou aguardando até hoje. [Risos] Não cumpriram nem o despacho do presidente da república nos termos da petição, que era pra posterior aproveitamento. Aproveitamento nada. Aí a vida evoluiu num outro sentido.

FORMAÇÃO MUSICAL
Preferências musicais

Eu tinha três ou quatro paixões: música, mas a música sempre associada ao cinema, então cinema e música, futebol e carnaval. Ficava louco com o carnaval. Mas o carnaval não era como o de hoje. Naquele tempo, as famílias participavam do carnaval. Havia um corso de carros abertos na Avenida Afonso Pena. Naquele tempo, os carros eram abertos, com capota. E as famílias se organizavam em blocos. Todo ano eu ia pra avenida passear de corso. Serpentina a valer, confete, um monte… E a condição essencial: quem se metesse a folião tinha que saber cantar as músicas todas. Eu sei as músicas todas do carnaval daquela época. Eu cantava as músicas… Tinha entusiasmo com o carnaval. O carnaval era uma coisa lírica, bonita, linda. A gente brincava ao som das músicas. As músicas de carnaval do Lamartine Babo, do Ary Barroso, Mário Lago. Eram músicas belíssimas de carnaval. Então minha paixão eram futebol, cinema com música e carnaval.
Eu sou de um tempo muito antigo. Tem uma música que tocam até hoje, “Taí”. [Cantando] “Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim.” Foi a primeira gravação de Carmem Miranda, essa música. Eu gostava mesmo das músicas. “Jardineira”. “Ô, Jardineira, por que estás tão triste?” “A vitória há de ser tua, tua, tua, moreninha prosa.” E muitas outras…
O cinema tinha uma influência muito grande nas fantasias. Então eu me lembro que uma vez nós nos fantasiamos de aviadores, os Dragões da Morte. Teve um outro ano que nós nos fantasiamos de, como é que chama, lanceiros da Índia. A gente economizava dinheiro. Eu já estava na Polícia Militar ganhando meu dinheiro e economizava pra gastar no carnaval. Teve até um ano, muito engraçado, que eu, com medo de gastar dinheiro, pedi a um amigo meu, o Edimar, coitado, que Deus o tenha: “Você guarda o dinheiro pra mim e no carnaval você me dá”. Eu dei o dinheiro todo mês, ele meteu o pau no dinheiro e me deixou na mão no carnaval. [Risos] E eu fiquei sem fantasia. Mas eu fui. Arranjei uma camisa qualquer como fantasia. Era muito bom o carnaval. Tinha Original Choro… Os choros naquela época eram os precursores das escolas de samba. Só que prevaleciam os instrumentos de sopro, os metais. E eles tocavam todas músicas no carnaval. O choro na frente, às vezes, era uma banda de música inteira, que os próprios músicos militares participavam. O Original Choro era curiosamente formado quase que todo por componentes negros ou mulatos, de pessoas de cor. Isso numa época mais interessante do carnaval. Teve o Infernal’s Choro, que era o pessoal da Savassi hoje. Coincidentemente era o pessoal da Savassi, todo mundo fantasiado de demônio, e também com uma banda espetacular. E tinha também ainda o Mataquins, que era um clube de carros alegóricos, dirigido pelo senhor João Albano. João Albano acho que é avô dessa menina, da Celina Albano. João Albano era funcionário dos correios. Então, quando esses dois clubes se encontravam nos choros, chamavam de choro, se encontravam na avenida, saía até fogo, um querendo ultrapassar o outro. Mas era muito bonito. Tinha também Os Rouxinóis do Décimo. Eram conjuntos com 500, 600 figurantes, muita gente, muita gente mesmo. E o povo não ia ver carnaval, o povo participava de carnaval. O povo que se postava, que não podia ver carnaval, ou por falta de dinheiro ou por questão de idade, se postava ao longo da Avenida Afonso Pena, exigia que o pessoal cantasse. Se não cantasse, o pessoal gritava: “Ei! Tá muito mole isso aí!”. Vaiava. Era um negócio muito engraçado.

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As influências

Os choros passavam no meio da avenida. Não passavam no corso, porque o corso ia até uma certa hora, depois acabava. Porque o corso também custava dinheiro, pois os automóveis eram pagos por hora. E daí ficava o carnaval de rua. Mas o carnaval de rua ia praticamente da Afonso Pena, lá em cima, até, nos tempos mais antigos, a Praça da Rodoviária. Pouca gente sabe que ali foi um mercado. Foi o Mercado de Belo Horizonte, ali na Praça da Rodoviária. Depois, foi a Feira de Amostras, a Rádio Inconfidência. Ali era uma área muito buliçosa, quase que de meretrício, mas de muito divertimento. Tinha o Paissandu, onde se realizavam grandes jogos de basquetebol e grandes exibições de artistas, como a Laura Massi, cantora internacional, lírica. Ela veio a Belo Horizonte e deu um espetáculo no Paissandu. Eu paguei e fui ver. Era uma atriz de cinema também. Espetáculo de carnaval no gelo, bonito. Foi uma coisa bonita ali. A Rádio Inconfidência atraía também. Tinha muitos bons atores, bons artistas. E tinha uma feira, mas antes disso tudo havia o mercado. O mercado era da minha infância.

ADOLESCÊNCIA
Namoro

Eu conheço a dona Maria há muitos, muitos anos. Muito antes de a gente começar a namorar, eu já a conhecia porque ela era vizinha e colega da minha irmã. Estudavam ambas no Instituto de Educação. Nessa época, eu já era da Polícia Militar, soldado ou cabo, não me lembro bem. Mas ela ia muito lá em casa pra estudar junto com minha irmã. No começo só cumprimentava: “Bom dia”, “Boa tarde”. Não tinha maior interesse. Um dia, eu saí pra rua e quando eu voltei, por volta das nove horas, estava acontecendo uma festinha lá em casa. Era aniversário de uma sobrinha minha. Botaram a vitrola e iam tocando aquelas músicas e o povo ia dançando. Naquela área tinha muito estudante de medicina e eles eram todos conhecidos da gente. Eles moravam naquelas pensões na Praça Silvio Werneck. Então estava o pessoal lá dançando, os estudantes, aquela coisa. Eu cheguei, olhei assim e vi minha mãe do outro lado da sala, num quarto, e ela fez sinal pra mim. Eu cheguei lá, atravessei, cumprimentei o pessoal, e minha mãe falou pra eu dançar com a Conceição. Conceição é Maria. “A Conceição não quer dançar com ninguém. Mas com você ela vai dançar.” Eu: “Uai, vamos dançar”. Aí eu comecei a dançar com ela. Engraçado, eu nunca tinha parado pra conversar com ela. Começamos a dançar e eu comecei a conversar com ela. E ela me falou assim: “Sua namorada está me olhando com uma cara muito feia”. Era uma menina que eu tinha namorado e tinha acabado com ela. Eu tinha acabado com ela, mas ela não tinha acabado comigo. Eu falei: “Não, isso é impressão sua”. Aí começamos a conversar e a partir daquele momento eu adquiri a convicção de que tinha que casar com ela. Engraçado isso. E ela também. E minha mãe sempre me falava assim: “Quando você tiver de casar, você casa com uma moça igual à Conceição, que é uma moça humilde, uma moça trabalhadora, uma moça honesta, uma moça decente, direita, filha de uma família humilde, de pessoas muito boas”. E eu cheguei perto da minha mãe e falei: “Mãe, a senhora não falou que eu tinha que casar com uma moça igual à Conceição?”. “Claro, meu filho, quando você pensar nisso…” “Eu já estou pensando. Vou casar com a própria Conceição.” E a Conceição mesmo não sabia disso. [Risos]
Foi rápido. Nós namoramos uns dois meses, já ficamos noivos e daí a pouco casamos. Ela abandonou os estudos. O pai dela era muito implicante: “Não, dois presuntos não cabem num saco só. Ou casa ou estuda”. E eu digo: “Então vou casar”. Casamos. Aí esperei uns cinco anos pelo primeiro filho. Ela tinha 18 anos e eu tinha 22. E ela era pouco desenvolvida.
O namoro naquela época era um negócio complicado. Tinha uns namoros mais avançados e eu também participei de alguns desses namoros nas minhas andanças. [Risos] Eu também tive minhas namoradas e até namoradas bonitas. Eu aprendi o seguinte nesse trato com mulher: as mulheres mais bonitas, sejam moças ou sejam prostitutas, são as mais procuradas. [Risos] E são as mais perigosas. E eu tinha um medo danado de doença venérea, então até pra namorar eu era cauteloso. E eu tinha umas namoradas muito bonitas, mas eu tinha medo delas. Elas falavam: “Vem pra casar comigo”. Eu falava: “Não, nada disso”. Eu tinha uma namorada, tadinha, bonita pra burro, cheirosa, tal de Iracema. E aparentemente era doida comigo, mas eu não acreditei nisso. Ela namorou o time do Atlético quase todo. [Risos] Inclusive o Bazoni. Antes ela namorou o Cafunga, mas primeiro ela me namorou. Antes disso ela teve outros namorados, muitos. Ela era atleticana. Então no meu tempo era assim. Eu ia pra casa da noiva logo depois do jantar, às sete horas chegava lá. Às nove horas a corneta tocava no quartel e elas iam dormir. E nem me convidavam pra sair. Eu já sabia que era hora de sair. Quando dava nove horas eu saía. O máximo que a gente conseguia era um beijinho no portão, na saída, de despedida. E era assim escondido. Era um negócio muito sério. Quando eu saía tinha que ter um sentinela à vista, uma patrulha. Era um patrulhamento danado, tinha sempre que ter uma companhia, de pessoa adulta. Um negócio muito sério.

LAZER
Cinema

A gente ia muito ao cinema. A gente gostava muito de filme do Nelson Ed. É Nelson Ed, grande cantor, grande barítono. Eu gostava muito de música e ela também gostava muito. Nelson Ed e Janet McDowell. Dois cantores primorosos, que só faziam filmes de música. E ela fazia muito dueto, com músicas de cinema, com músicas de carnaval. Duetos dentro de casa. Nós dois cantando as músicas.
Eu me lembro de “Rosemarie”, “Rosa Maria”… Eu não lembro. Era uma música do Nelson Ed, que era muito boa, com Janet McDowell. Nós assistimos ao filme, eu e ela, e fazíamos o dueto em casa, imitando os atores. [Cantando] “Minha vida que parece muito boa/Tem segredos que não posso revelar/Escondidos bem no fundo de minh’alma/ Ra-ra-ra-ra…”. Eu não lembro bem.
“Vive sempre a consertar.” “Vive sempre a conversar a sós comigo/Uma voz que eu escuto com calor!/Escolheu meu coração pra seu abrigo/E dele fez um roseiral em flor.” E a gente cantava isso em dueto, eu e ela. Cantava isso e outras músicas. Do Orlando Silva, então, nós éramos fãs incondicionais. Na minha opinião, o melhor cantor popular que o Brasil já teve foi o Orlando Silva. Orlando Silva era um assombro. E eu fui até muito infeliz. Eu fiquei conhecendo o Orlando Silva quando eu já estava no jornal. Ele era muito amigo do Tibúrcio, um amigo do jornal. E o Tibúrcio me apresentou o Orlando e eu fiquei entusiasmado em conhecer Orlando pessoalmente. Mas o Orlando já estava meio veterano e eu fui cair na bobagem de falar com ele assim: “Orlando, mas que coisa maravilhosa. Como você cantava bem. Que voz bonita que você tinha”. [Risos] Eu fui de uma inabilidade incrível. Ele falou: “O que é isso, Salomão? Eu sou um brilhante cantor. Eu ainda sou. Minha voz hoje é muito melhor. Naquele tempo minha voz era juvenil, hoje minha voz é varonil”. Eu falei: “Orlando, você não recordou isso, aquele tempo você cantava melhor”. Ele ficou danado da vida comigo. Mas Orlando é o melhor cantor que eu conheci.

LOCALIDADES BELO HORIZONTE
Igreja Santa Efigênia

Eu me casei na Igreja Santa Efigênia, onde eu me batizei. Apesar de meus pais serem espíritas, eles nunca impuseram a ninguém a sua fé. E a gente tinha que casar mesmo na igreja. Não tinha outro lugar onde casar. E eu casei na igreja. Casei na igreja e fui batizado na Igreja de Santa Efigênia. Nessa mesma igreja que está lá.

TRABALHO
Cotidiano de trabalho

Morar era um problema. Porque no início do casamento eu fui morar num barracão na casa de meus pais. Eu ganhava muito pouco, pois era soldado, cabo, sargento. Morei muitas vezes com meus pais, no barracão na casa deles. A minha vida melhorou mesmo a partir do momento que eu construí esta casa aqui. Enquanto eu paguei aluguel, eu sofri. A família era muito grande e eu tive uma enorme dificuldade pra criar. Nesse tempo, eu era escriturário no correio, trabalhava no Diário da Tarde, de manhã cedo. Marilton, meu filho mais velho, saía daqui e ia levar meu almoço na redação. Primeiro eu trabalhava cedo no jornal, Diário da Tarde. Entrava ali pela rua Goiás e fechava o jornal. O jornal era quente, não tinha esse negócio de preparar matéria de véspera. Era tudo redigido na hora e era um sufoco. Às dez horas a gente tinha o jornal pronto, já na oficina pra ser impresso, pra rodar o jornal. Onze horas, onze e meia, meio-dia e o jornal rodando. Era um sufoco, o Diário da Tarde. E naquele tempo eu estava no esporte.
A coisa era tão apertada, que um dia, um presidente do Cruzeiro (isso já foi numa época anterior à minha), o editor de esportes estava sem manchete e ele estava desesperado por causa disso. Então ele ficou sabendo que o presidente do Cruzeiro, o Mário Grosso, tinha ido passear no Rio. E ele botou na manchete: “Missão Secreta de Mário Grosso no Rio”. [Risos] Era muita bobagem. E tinha um outro editor, que foi o meu antecessor, o Juliano. O Juliano era veterano. Foi diretor do Departamento de Hábitos. O Juliano era muito engraçado. Quando não tinha manchete nenhuma, o Juliano olhava pra nossa cara assim: “Vai mal a Aquática Mineira”. Essa manchete saiu umas mil vezes. O jornal era muito de crítica naquela época. Era muito engraçado. E eu então trabalhava no Jornal Diário da Tarde, no correio, depois saía do correio e entrava no Estado de Minas. E teve uma fase que antes de eu ir pro Estado de Minas eu ia pra Rádio da Inconfidência. Da Rádio Inconfidência eu pulava pro Estado de Minas, e saía do Estado de Minas à meia-noite, uma hora da manhã. Eu saía de casa às sete horas e não via meus filhos.
Então a convivência com a família foi mais difícil, porque eu não via meus filhos a não ser no fim de semana, quando eu tinha mais folga. Mas eu saía de manhã cedo, às seis e meia, sete horas, chegava à meia-noite, uma, duas horas. Trabalhei demais. E nunca fui poupado. Olha, até hoje eu desafio – falo isso com certo orgulho, porque eu era trabalhador mesmo – quem tivesse ou quem tenha de memória mais serviços especiais do que eu no correio. Eu era quase que um presidente permanente da Comissão de Balanço da Tesouraria, da Comissão de Balanço do Almoxarifado, dos inquéritos administrativos mais encrencados. Quem é que era o Cristo pra presidir? Era eu. O Francileno Pereira, um advogado brilhante, impetrou um mandado de segurança contra mim. No processo administrativo a gente admite um advogado, mas não é pra ele achar que pode tomar conta e ele achou que, por ser advogado, podia tomar conta do processo. Então comecei a indeferir uma porção de petição dele. Quando ele vinha com as petições malcriadas, alegando cerceamento de defesa e outras coisas, e eu achava que era ofensivo, eu colocava: “Indeferido. Volte em termos”. Despachava o processo pra ele no mesmo dia. E ele começou a ficar com raiva de mim. Ele estava pensando que eu estava ali brincando.

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Marilton Borges

O Marilton foi o primeiro filho. O Marilton sempre foi muito inteligente, muito voluntarioso e com vocação extraordinária pra música. O Marilton nasceu em plena guerra. Ele nasceu em 43. A guerra terminou em 9 de maio de 45. Ele tinha um ano de idade e, no primeiro aniversário dele, minha irmã, que era Auditora da Receita Federal, fez uma festa em casa e a encheu de colegas dela. Então o Marilton ganhou muitos presentes. Mas o importante é que ele cantou, pra todo mundo ouvir, com um ano de idade, a “Canção do Expedicionário”. Com um ano de idade, com aquela língua de menino, aprendendo a falar: “Por mais terra pa-pa-pa. [Cantando] Por mais terra que eu percorra/Não permita, Deus, que eu morra/Sem que volte para lá”. “Canção do Expedicionário Brasileiro”. Ele sabia aquilo de cor. Isso dá uma idéia do que era o Marilton. Ele sentou num piano uma vez e começou a tocar. Não quero dizer que ele tocou primorosamente, mas tocou. Ele era pequenininho.
Quando o Lô era pequenininho, foi antes ainda do Milton Nascimento, essa coisa toda, o Marilton tinha umas 10, quinze composições feitas por ele. E ele cantava. Ele cantou no Clube dos Artistas, TV Itacolomi. Na ocasião estava o Agnaldo Timóteo e uma porção de cantores do Rio, de São Paulo. A estréia foi ele. Cantando uma música dele, composta por ele e tocando violão. Tinha pouco mais de 10 anos. Ele era uma coisa impressionante e foi ele que influenciou esse pessoal todo pra música: o Bituca, Milton Nascimento… O Marilton tinha um conjunto chamado Gemini 7, que tocava no Círculo Militar, tocava no Iate. E o Bituca era crooner. Muitas vezes, o Marilton dividiu o cachê dele com o Bituca. Ele levava o Bituca com ele, ele cantava uma parte e o Bituca cantava a outra, como crooner, lá no Gemini 7. Mas o Marilton que era o crooner do conjunto. Ele tinha uma vocação extraordinária pra música e tem até hoje. Até hoje ele vive de música. Toca em bar, esses negócios. Não falta serviço pra ele. Agora está mexendo mais com música eletrônica. Mas ele toca pra burro. O que o caracterizava mais era a vocação pra música e ele era muito inteligente. Uma vez, ele fez alguma coisa errada, eu dei uns tapas nele e falei: “Você sabe por que você apanhou, moleque?”, “Eu sei sim, senhor.” Eu falei: “Por que foi? Por que você apanhou?”. “Porque o senhor é maior do que eu.” Ele jogou essa na minha cara.

<strongMárcio Borges
O Marcinho sempre foi miudinho, ranheta, genioso, bravo. O Marcinho já nasceu bravo. Ali na trova dele está contando como ele era bravo. Ele nasceu com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Quase morreu sufocado. Eu assisti ao parto de quase todos os meninos aqui de casa. Eu só faltei ter menino também, porque eu ajudava mesmo. E quando ele conseguiu se livrar, protestou, chorou, mas aquele choro de raiva. Ele nasceu e chorou de raiva. Esperneou. O Marcinho sempre foi muito genioso, mas danado de inteligente. Eu me lembro que a gente já morava no Levy, mas o Marcinho era terrível. Eu sei que ele era bem novinho, mais novo que o Bituca, e o Marilton me chamou a atenção: “Pai, o senhor precisa ver uma maleta que o Marcinho tem aqui debaixo da cama, tem coisas muito estranhas”. Eu falei: “O que é? Me fala o que é. O que está acontecendo aí?”. Ele disse: “Nada, ninguém pode mexer nessa maleta aí porque ele não gosta”. Eu falei: “Eu vou abrir essa maleta”. Tirei a maleta debaixo da cama dele. E abri a maleta. Era uma porção de papel dobrado, e aquela letrinha dele esquisita, porque ele é canhoto. E quando eu li as coisas dele eu me arrepiei. Eu falei: “Não é possível que esse menino está escrevendo assim”. Coisas belíssimas. E eu me lembro dele escrevendo um negócio dum valentão. E ele usando expressões assim: “Surge um valentão provinciano”. “Gestos medidos, andando macio, latindo gírias – uma besta.” Vê se isso é linguagem dum… Quando eu li aquilo, ele descrevendo o tipo do valentão, eu falei: “Peraí”. O Roberto Drummond nesse tempo era redator chefe de uma revista. Então eu levei lá pro Roberto e falei: “Olha o que o meu filho anda escrevendo”. E o Roberto leu e falou: “Salomão, não vem com essa, não. Você está escrevendo as coisas pro seu filho falando que é ele”. Eu falei: “É ele, rapaz, deixa de ser bobo. Você acha que eu vou… Você está me insultando. Eu vou escrever coisa pra falar que é do meu filho? Roberto, meu filho está começando por onde eu não cheguei ainda”. Então o Marcinho é cabeça, danado. Também ele é mais autodidata do que tudo. Começou a fazer faculdade, depois abandonou. Ele não tinha paciência pra isso e não tem mesmo. Estudioso, tem uns três ou quatro livros publicados. Marcinho é danado.

Sandra
A Sandra é muito inteligente também e muito bem-humorada. Eu guardo muito a imagem deles quando eles nasceram. A Sandra, por exemplo, nasceu com os olhos abertos. Uma coisa muito estranha. Eu, que estava acostumado com menino nascendo… Menino nasce de olho fechado e tem até aquela piada do japonês, a piada do sujeito que o menino dele nasceu com o olho fechadinho. E ele ficou preocupado porque o menino não abria os olhos. Ele levou no médico e falou: “Doutor, eu estou preocupado com esse menino aqui. É meu filho, né? Ele não abre os olhos de jeito nenhum”. E o médico falou: “Quem tem que abrir os olhos é o senhor, esse menino é japonês”. Mas a Sandra nasceu com os olhinhos estatelados, encarando todo mundo. Encarando assim: “Qual é que é?”. [Risos] A Sandra é muito bem-humorada, ri à toa. É muito boa, mas também de estopim curto. Ela é uma pessoa de atitude. Ela é danada.

Sônia
A Sônia é a filha mais enrustida que eu tenho, a mais calada. Não sei se ela guarda algum complexo, porque a Sônia nasceu de face. E ela chorou… Eu estou reproduzindo a cena que eu vi. Assim. Aqui, a saída, e ela aqui, respirando e chorando, antes de nascer, com a metade do rostinho, a boca e o nariz de fora. Respirando e chorando antes da hora, até a parteira conseguir tirar. Então deve trazer algum trauma psicológico, sei lá. E além do mais ela foi estrábica durante grande parte da vida dela. Um estrabismo convergente horroroso. Ela era uma menina feia. Hoje ela está mocinha bonita. Mocinha não, está velha também. Está todo mundo velho aqui. Essa aqui é a família dos macróbios, todo mundo é velho aqui. Eu sou o mais velho, mas todo mundo é velho. Então ela fez uma cirurgia milagrosa, que corrigiu o estrabismo dela. Ela era muito complexada com aqueles óculos, rasgava os retratos. Usava óculos grossos. Era muito complexada. Então, em sinal de gratidão pelo resultado da cirurgia, eu e Antonio Tibúrcio Henriques, jornalista, de Santa Luzia, o tal amigo meu que conhecia o Orlando Silva, nesse dia nós saímos do jornal à meia-noite e ele já tinha combinado comigo: “Você quer ir até Santa Luzia?”. “Eu tenho motivo pra ir. Em sinal de gratidão a Santa Luzia, que é a padroeira dos cegos, aquela coisa toda. E curou a minha filha, ela fez a cirurgia.” “Então vamos.” Então eu fui a pé pra Santa Luzia com o Tibúrcio. Nós saímos à meia-noite do jornal sem beber nem água. O sacrifício era esse, não beber nada. Gastamos seis horas. Chegamos lá às seis horas da manhã. O Tibúrcio foi pra casa dos parentes dele e eu fui pra igreja. A minha mulher já estava me esperando lá, porque ela sabia que eu estava indo. E eu cheguei na igreja e comecei a desfalecer de sede. Aí entramos num bar lá, cambaleando, meio tonto, meio tudo, tomei uma garrafa de guaraná e me refiz. Mas foi um sacrifício que eu fiz por causa da Sônia. A Sônia é muito inteligente, mas é muito fechada. E ela sofreu também depois um trauma; ela perdeu um filho. O menino morreu com um tumor canceroso no cérebro. Ela é professora também. Eu a acho muito triste, muito fechada.

Sheila
A Sheila, coitada, está sofrendo feito não sei o quê. Ela tá no hospital. Ela foi operada ontem, uma cirurgia brava de coluna. Tiveram que fazer um enxerto na coluna dela. A notícia que eu tive lá do hospital é que ela não podia estar recebendo visita. Já está no quarto, mas está morrendo de dor e não estão deixando entrar ninguém. Está recebendo transfusão de sangue. A Sheila é uma menina muito meiga, muito boazinha, muito corajosa. Ela levou uma queda e teve fratura exposta. Teve que chamar o bombeiro pra pegá-la. Ela morava naquele sobrado ali. Aquela casa era dela e do marido, depois ela vendeu. Ela não sabe explicar como caiu. Caiu de uma altura assim… e a perna dela ficou dependurada, quase separado o pé. Aquela fratura horrorosa e ainda quebrou a espinha. Então ela se curou da perna. Vamos botar uma cama aqui pra ela, quando vier pra cá. Vai recuperar aqui também. Eu não queria que ele fizesse essa cirurgia, mas ela estava ameaçada de ter paralisia com a vértebra quebrada. Ela sentia muita dor, então o médico achou que era melhor fazer a cirurgia, que é uma cirurgia pesada, difícil, oito horas de cirurgia. Perde muito sangue.

Lô Borges
O Lô é um outro casmurro. Muito parecido com meu irmão Henrique. Calado, muito calado, muito fechado, não sei como é que ele virou artista. É porque ele tem talento mesmo, gosta de música, é doido com música. Sofreu uma influência muito grande dos Beatles. Mas o Lô tinha umas coisas muito engraçadas. Nós mudamos pra cá quando o Lô nasceu. Dias depois que ele nasceu, eu tinha acabado de construir a casa. E eu, naquele tempo, tomava um aperitivozinho. Eu gostava muito dum rum. Eu nunca tive hábito de beber, mas de vez em quando bebia. Botei lá pra eu tomar um tanto assim, ele pegou e virou de uma vez só. Os olhos dele até lacrimejaram. E eu: “Menino, você tá doido?”. Da outra vez, ele pegou um parafuso, não sei por que o parafuso estava lá em cima da mesa, ele pegou o parafuso, botou na boca e engoliu. Engoliu, e ainda falou pra mim: “Engoli”. Um parafuso desse tamanho, sem exagero. Fiquei apavorado, mas aí no outro dia saiu nas fezes. Deu sorte de sair. Um parafuso enorme. Teimosia, porque eu corrigia a tempo: “Menino, me dá isso aqui”. Nada.
Quase matei o Lô numa ocasião, num acidente doméstico aqui. Gravidez de Maria era sempre complicada, tinha que tomar muita injeção, daquelas grandes, e eu fazia de enfermeiro. Um dia os meninos foram atacados de suspeita de raiva. Tinha um cachorro aqui, o cachorro endoidou, então todo mundo teve que tomar o soro. A anti-rábica. E eu é que fiz. Quando eu falei com o médico lá no posto de saúde que era muita gente… “Ah, o senhor tem uma pessoa pra fazer?” Eu disse: “Eu mesmo faço”. Foram umas 15 ampolas mais ou menos. Eu fui numa fila e eu também tomei porque o cachorro mordeu. Eu fazia as injeções e um dia a Maria estava com o Lô no colo. Ele devia Ter uns dois, três anos. Estava começando a andar. Estava no colo, lá no quartinho onde se passava roupa. E eu estava fazendo injeção nela. Acabei de fazer injeção nela e, no que eu fervi a seringa – naquele tempo a seringa tinha que ferver – acabou o fogo. Eu falei: “Vou ferver mais um pouco”. E virei o álcool na cubazinha. Quando eu virei, tinha uma chamazinha e eu não vi. E foi o mesmo que um lança-chamas no rosto do Lô. Ela desse tamanho e com o Lô no colo e um dentro da barriga. Então o Lô ficou em chamas. A Maria, naquele instinto, pegou um cobertor que estava lá e jogou igual a um toureiro e o cobertor caiu em cima dele. Quando ele passou por mim eu abracei ele, com chama saindo de todo lado – até me queimou o braço aqui. Abracei ele e apaguei o fogo. Mas aí ele estava todo queimado, o rosto, sobrancelha, tudo queimado. Eu era muito prevenido contra esses acidentes assim. Eu tinha aquele ungüento, picrato de butesin, e espalhei pelo rosto dele e levei pro pronto-socorro. Cheguei lá e eles falaram: “O que tinha que fazer o senhor já fez. É isso mesmo”. Aí amarram a mãozinha dele. Ele teve que dormir com a mão amarrada. Botaram umas gazes. Mas ele quase morreu. É porque não chegou a pegar fogo nele. No momento em que começou a pegar fogo, aquela tocha humana, ela jogou o cobertor e caiu em cima dele por inteiro, e quando ele passou por mim, que a tendência é sair correndo, saí correndo… Já li isso no jornal. Teve um acidente uma vez em que explodiu um bujão de gasolina e um companheiro nosso saiu correndo igual a uma tocha humana. Ele foi pego tarde demais. Morreu. Não pode deixar de correr. O Lô é isso. Muito fechado. Dava tempo de ele tirar o parafuso, mas ele engoliu. O negócio que ele bebeu também. Eu falei: “Não bebe não!”. Ele: “Glu, glu”. Bebeu. Teimosinho pra burro.


O que caracterizou o Yé é que ele foi um menino muito doente, como eu fui. O Yé teve até paralisia infantil. Passou muito tempo fazendo massagem, fazendo hidroterapia, fazendo fisioterapia com a mãe dele. Ela fazia massagem uma meia hora, duas horas por dia. Tinha umas perninhas fininhas. Hoje está aí, um mocetão, um rapagão. Quando ele era pequenininho, teve uma empregada aqui em casa que não regulava muito. Ela foi dar a ele a mamadeira, mas não a esfriou, não esfriou o mingau, o mingau desceu e ele meteu as unhas, arranhou, de ferir, com a dor que ele estava sentindo com o mingau fervendo. Ele era um menino muito doentinho, muito sujeito a pequenos acidentes. De temperamento ele era uma docilidade. E hoje admito que haja pessoa tão bondosa quanto o Yé, tão prestimosa como ele, mas mais do que ele eu não conheço, O Yé, se você falar com ele: “Yé, não te conheço direito, mas eu estou precisando, você me leva agora a Sete Lagoas que eu estou com um problema lá sério”. Ele fala: “Pois não”. Ele pega o carro e te leva. É desse jeito. É assim uma pessoa que não nega fogo. Uma pessoa impressionante, o Yé.

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Relações familiares

Aqui em casa, em matéria de religião, aqui é uma espécie de democracia também. O Yé, por exemplo, é evangélico. A Solange é daimista, o Marcinho é daimista, eu sou ecumênico. [Risos] Eu sou ecumênico, eu sou mineirão, eu estou em cima do muro. Eu não quero é encrenca com ninguém. E eu acho que Deus é um só. Esse negócio de ficar brigando pela forma de culto a Deus é bobagem. Deus é um só. A religião é monoteísta e é cristã? Então é comigo mesmo, não quero saber o que é. Ficar brigando, armando outra inquisição aí pra acabar com quem não é cristão e não é católico, não, isso não. Não é espírita. E eu tenho formação espírita kardecista. E não tem nada a ver uma coisa com a outra. A minha mulher, Maria, é supercatólica. E eu admiro muito, gosto demais que ela seja católica. Ela não está podendo ir à igreja agora, mas todo domingo vem uma senhora aqui trazer a comunhão pra ela. De maneira que é isso. O Yé é músico também. Mas não está mexendo com música, está trabalhando na Câmara Municipal. É vendedor também. O Yé é um vendedor tão bom que ele vende geladeira no Pólo Norte. Ele é danado pra vender. Tem uma porção de filho. Tem dois filhos do primeiro casamento e tem sete do segundo. Um monte de filho. Mas ele trabalha feito um danado. Ele não arrepia carreira, não, é corajoso.

Solange
A Solange é a filha mais bonita que eu tive. A Solange, quando era menina e mocinha, era de uma beleza fora de série. Ela era muito bonita. Depois, ela descuidou. Outra coisa, ela tem uma das vozes mais bonitas que já ouvi na minha vida. Ela canta. Tem uma voz linda, mas agora parou. Gravou um disco, mas parou. Parou mesmo da música. É daimista, mexe com Santo Daime. Uma pessoa muito caridosa. Ela que calça o meu sapato, calça minhas meias, me dá remédio toda hora. É capaz de entrar aqui e trazer um copo d’água com remédio, sem eu pedir nada. Ela tem tudo anotado o que o pai e a mãe precisam. É desse jeito. E ela era uma pessoa muito desleixada, não ligava pra nada, assim meio perdida… Aí encontrou esse negócio do Daime e agora virou outra pessoa. Então como é que eu vou brigar com ela por causa dessa ou daquela religião? Os evangélicos fizeram isso com o Yé. O Yé é espetacular. É bom mesmo. A Solange virou essa pessoa também. E não tem jeito. E pra pai e mãe, filho não tem defeito. Não tem mesmo.

Sueli
A Sueli é muito engraçada. O nascimento dela foi muito complicado, porque antes dela nascer nós perdemos um filho. Ela perdeu o filho e ficou com o menino morto algum tempo na barriga. Depois, conseguiu tirar o menino no hospital com o médico, que ainda me avisou: “Esse menino vai sair aos pedaços”. Nada. O menino saiu inteiro. A cara do Lô, igualzinho ao Lô. Mas morreu. Ela teve sepcemia e pneumonia e o menino morreu. E o médico avisou: “Não vai ter mais filho. A senhora pode descansar”. Ele ia receitar qualquer coisa pra evitar filho. “Mas não vou prescrever nada porque a senhora não tem condições mais de procriar.” Conversa fiada. Daí a pouquinho veio a Sueli. Em questão de um ano e pouco veio a Sueli. E pra confirmar a gravidez, foi preciso fazer vários exames e todos os exames deram negativo. Não estava grávida. Aí eu tinha um amigo, que Deus o tenha, o Zé Tomás, amigo e compadre, que passou aqui em casa e nós conversamos sobre o estado da Maria. “Nós estamos aqui numa aflição danada, acho que Maria está grávida, acho que não está. Os exames dão negativo, mas ela está com os sinais positivos.” O exame naquele tempo era reação de Galli-Mainini. Consistia em extrair a urina da mulher e injetar num sapo. Sapo sadio. Se o sapo começasse a ejacular… Então ele disse: “Eles pegam um sapo velho aí, um sapo que não vale nada, esses exames de laboratório não são confiáveis. Deixa que eu faço isso”. Ele era laboratorista lá na faculdade de medicina e sabia mais do que o catedrático. Ele disse: “Prepara aí, eu vou arranjar um sapo”. Ele mesmo pegou o sapo num brejo perto da casa dele. Sapão grande, sadio. E eu levei a urina lá pra ele. Levei até a escola de medicina, pois ele trabalhava lá. Ele falou: “Compadre, eu vou fazer a reação aqui, depois eu te aviso”. Eu estava no correio e pouco depois ele ligou pra mim: “Compadre, está dando positivo há muito tempo. Você quer vim ver? Vem cá. Você pode sair aí?”. “Eu vou agora.” Corri, tomei um táxi até o laboratório de medicina e ele ainda estava lá. O sapo ainda estava soltando. “É mais do que positivo.” Foi assim que ele confirmou a gravidez da Maria em relação à Sueli. Então, a Sueli é a pessoa muito prestimosa também. Ela é enfermeira, é outra pessoa que cuida da mãe dela zelosamente. As duas filhas que estão dentro de casa não têm vida própria. Vivem por conta da mãe e por minha conta. Só cuidando da gente o tempo todo. A Sueli e a Solange. É professora também, é formada. Todas elas são formadas.

Telo
O Telo é uma pessoa muito engraçada, muito brincalhona, muito alegre. E um músico… Ele ganhou um Grammy. Ganhou com o Milton Nascimento com a música “Tristece”. O Telo é uma pessoa extraordinária também. Eu não tenho filho assim, genioso, bravo, insubordinado, respondão, não tenho mesmo, são todos muito dóceis. E o Telo não foge à regra. E o Telo tem a mesma vocação pra música. É doido por música. Desde pequeno. Aquela música “Milagre dos peixes”, do Bituca, quem canta naquela música, pequenininho ainda, é o Telo e o Nico, os dois. A única parte cantada é do Telo e do Nico. Os dois é que cantam. O Bituca é doido por ele. Mas ele é um menino muito bom. Eu falo menino, mas está com quarenta e não sei quantos anos. Então é menino, pra mim é tudo menino. O Telo é uma pessoa muito boa, muito dócil.

Mauro
O Mauro é um bom menino também, mas é meio bobão. É meio bobão por ser o caçula. Acho que foi muito mimado. É difícil definir o Mauro, porque ele é uma pessoa boníssima, de ouro. Bom também. Basta dizer que agora ele está com o cunhado lá dentro da casa dele. O cunhado dele está com leucemia e quem está olhando o cunhado dele é ele. E ele é sempre muito bom, muito prestativo e muito alegre também. Ele é músico também. É compositor. O Nico é compositor. Telo também é compositor. O Yé é compositor. Tudo músico. Todos arranham, tocam um violão, tocam piano, tocam um cavaquinho, essas coisas. Eles tocam os instrumentos.

Gravidez

Eu fiz umas trovas… É um relato poético, digamos assim, das circunstâncias do nascimento de cada filho meu. E há um prólogo aqui em que eu falo da minha mulher. Eu digo assim: “Minha esposa que Deus deu/É a mesma que eu quis ter/Sem que houvesse valor meu/Para tanto merecer/Foram muitos desenganos/Para quem tanto se amava/Esperando cinco anos/Por um filho que faltava”. E faltou mesmo. Foram cinco anos de frustrações, pois ela era doida pra ter filho. E às vezes a gente discutia: “Não, eu não vou ter mais filho meu. Sei que não nasci pra isso”. E eu falava: “Deixa de ser boba, mulher, nós vamos ter no mínimo oito”. Sempre falei. “Você é doido, você é dono da verdade.” “Então eu sou o dono da verdade, nós vamos ter no mínimo oito.” Não deu outra, felizmente deu isso. Mas aqui: “Certo dia, afinal/Marilton veio à luz/Alegria sem igual/Pela graça de Jesus”. Quando Marilton nasceu foi uma festa. Eu chorei acho que mais que o Marilton. “Começavam de mansinho/Tantas bênçãos do bom pai/Mas chegou bravo Marcinho/Já sem fôlego, uai!” Por causa do negócio do cordão, tem que explicar que ele estava sem fôlego. “Sandra, mais do que matreira/Veio de cabeça em pé/A fitar mãe e parteira/E a dizer: ‘Como é que é?’ ”. Foi mesmo. O ar dela era de quem estava perguntando: ”Qual é que é?”. “Sônia já veio magoada/Respirou, até chorou/Ela estava engastalhada/Finalmente se livrou”. Custou a nascer também. “Sheila” — essa que está no hospital — “Sheila, certa do caminho/Não pensou em complicar/E sugando um dedinho/Já treinava pra mamar”. Ela nasceu chupando o dedinho. “Bem de acordo com seu nome” – é o filho da paz. Salomão quer dizer filho da paz – “Salomão não se apressou/E chegou morto de fome/Quando o dia despontou”. O Lô foi um negócio muito engraçado, pois ele nasceu às seis horas da manhã mais ou menos, e na madrugada desse dia, quando eu fui chamar a parteira, eu sofri um acidente, arrebentei a cara, o carro arrebentou um poste. Eu cheguei em casa com dificuldade, diplomaticamente, sem assustar a Maria. E a polícia na porta, querendo me levar para o pronto-socorro. E eu sem querer ir. Foi um drama. Mas no fim deu tudo certo, o menino nasceu. Depois vem este: “Yé teve um lance mau/Mas enfim soube vencer/Teve que subir degrau/Bem na hora de nascer”. Aconteceu o seguinte: O Yé nasceu 13 dias mais ou menos depois da morte de meu pai. E o enterro saiu da casa do meu irmão, Armezinho. Ele morava na Rua Brito Melo e tinha uma escadaria na porta. A Maria escorregou e caiu. Caiu de bunda, caiu sentada no degrau. O menino, que já estava perto de nascer, desceu. Se a cabeça estava aqui pra nascer, baixou e forçou um pouco o osso da bacia, de tal maneira que, quando o menino começou a nascer, tinha que passar num ressalto do osso da bacia, que baixou. A musculatura relaxou com a queda. Então a parteira falou: “Ele tem que subir um degrau aqui pra nascer”. E finalmente ela conseguiu meter o dedo e puxar e tirar.
“A Solange, quem diria/Chegou calma e valente/Revelou sabedoria/Ao mostrar-se paciente.” A Solange não deu trabalho nenhum, nasceu aquela meninona, com mais de 5 quilos. E não deu problema nenhum. “Sueli negaceava/Evitando aparecer/Quando menos se esperava/Resolveu ela nascer.” Porque também pra nascer foi complicado. Nasce, não nasce, nasce, não nasce, de repente ela nasceu. Ó o Telo: “Telo, muito desligado/Respirou antes da hora/Ficou dias internado/Até ser mandado embora”. Ele aspirou o líquido amniótico pelo nariz e teve pneumonia por aspiração. Então teve que ficar internado, pra puxarem o líquido de dentro do pulmãozinho dele até que ele melhorou. Respirou antes da hora. “Vir de bunda é má nota/Mas é também sinal de sorte/Pois o Nico e a Maricota/Escaparam bem da morte.” O nascimento do Nico foi uma tragédia. Tragédia grega. Ele veio de face, ele veio de bunda, pesando mais de 5 quilos. O médico só descobriu que era um menino na hora do parto. O que ele tomava por dois meninos, duas cabeças, eram as nádegas do Nico que estavam fora de lugar. E naquele tempo não se fazia radiografia de mulher grávida. E já tinha sido induzido o parto. A pressão da Maria estava sete, oito por cinco. E não havia como fazer cesariana. Então, o que aconteceu? Teve que nascer mesmo naturalmente e ele veio arrebentando tudo. De nádega. Arrebentou tudo. O útero, o colo do útero da Maria virou uma renda, toda dependurada, tudo estraçalhado. Lacerou totalmente o útero dela, arrebentou tudo. Então ele nasceu e ela quase morreu porque ela perdeu muito sangue, teve que fazer muita transfusão de sangue, teve que fazer tamponamento, o diabo a quarto pra poder parar a hemorragia. Ela quase morreu e ele também. Custou a nascer. De bunda, como é que pode? Então foi assim. Agora tem umas trovas aqui dedicadas ao Bituca: “Nesta árvore pousou/Vindo lá do sul de Minas/Negra ave que dá show/Quase em todas as esquinas”. “Em família tão maluca/O seu número é doze/É a palavra do Bituca/Contestá-la, ninguém ouse.” “Graças demos ao Senhor/Natureza generosa/Que nos deu com tanto amor/Essa árvore frondosa.” Então está aí explicado. Cada um tem um lancezinho. E eu fui testemunha ocular, eu presenciei tudo.

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Problemas de saúde

Pra cuidar de uma casa com tanta gente, tem que fazer mutirão. Quem pode trabalhar, tem que trabalhar. Aos sábados, por exemplo, quando eu tinha mais folga, era o dia da limpeza. Eu que dava banho nos meninos todos. Punha eles na fila. As meninas já estavam menininhas, de calcinha. Então eu ensaboava eles todos e dava banho. Encerava a casa, ajudava a mulher na cozinha. Sem falar que eu era enfermeiro de todos aqui. Quando eu tinha folga, levava todos pra escola. Mas não é fácil. Fazia um mutirão. A gente ajudava da melhor maneira possível. Mas era uma dificuldade pra criar tudo. Mesmo trabalhando no jornal, no correio, essa coisa toda, o salário não dava. E eu não queria que faltasse nada em casa. Eu sempre fui doador de sangue, de sangue universal. Doava sangue pra todo mundo. E a partir de uma certa época, lá no Hospital de São Lucas, eles começaram a me pagar. Não sei se foi algum convênio que fizeram com o banco de sangue, mas começaram a me pagar. Me chamavam a qualquer hora do dia e da noite e eu ia. E naquele tempo, o que se usava era direto o aparelho Jubê. O aparelho Jubê é uma bomba aspirante premente que ficava entre o braço do paciente e o braço do doador. E o médico ia manejando aquilo. Levantava o êmbolo, levantava a bomba, o pistão puxava aquilo. Ia devagarinho, porque dava muito choque, paciente costumava ter muito choque com isso. Então eu doava feito um danado, porque eu doava não só pra quem me pedia, mas também para o banco de sangue. Às vezes, falavam: “Você está esgotado, Salomão”. E eu dizia: “Não tô”. Tinha mês que eu doava mais de dois litros de sangue. Ainda, pra completar, tive uma hemorragia gástrica. Quase morri. Passei um mal danado. Mas por quê? Porque isso foi antes de eu entrar para o jornal. Quando eu entrei para o jornal, o salário correspondia mais ou menos ao que eu ganhava com a doação de sangue. Então parei de receber dinheiro da doação, passei a doar sangue só pra quem me pedisse.

TRABALHO/ LAZER
Atividades profissionais/ Futebol

Eu entrei no Diário da Tarde em 49, depois, acho que foi em 52, passei para o Estado de Minas. Pedi transferência pro Estado de Minas. Eu fui editor de esportes do Diário da Tarde, e editor de esportes também do Estado de Minas, fui editor de polícia no Estado de Minas, e, no fim, eu era editorialista, só fazia editoriais. Aí eu pedi pra sair, mas não briguei com ninguém. Vi que não dava mais pra continuar lá no jornal. No Estado de Minas eu trabalhei 28, quase 30 anos. Eu trabalhei até 1977, princípio de 78. Em 78, eu saí. De 49 a 78. Depois, fiquei dois anos praticamente inativo. Eu fiquei em São Paulo. Eu passei na rua do Estádio, fui pra Guarapari, depois fui pra São Paulo. Quando eu voltei, trabalhei mais 4 ou 5 anos no Jornal de Minas. Nem pagavam nada. Fui secretário de redação lá no Estado de Minas só pra não ficar à toa. E atender ao convite do meu amigo Adivaldo Coelho de Araújo. O Adivaldo está velhinho também, coitado, trabalha até hoje em jornal, em jornal da faculdade. Ele é advogado e foi secretário da Faculdade de Direito, Escola de Direito. Então trabalhei com Adivaldo. Ele era o chefe de redação. Me pediu ajuda e eu aceitei. Trabalhei uns tempos lá e depois larguei. O último artigo que eu escrevi lá foi o editorial sobre a morte do Tancredo. Até botei um título assim: “O céu não podia esperar”, porque teve um filme.

LAZER
Futebol

Antigamente, a gente tinha o futebol do pessoal de redação, só dos amigos. E nosso time de jornalistas foi jogar em Santa Luzia, porque era a terra do Tibúrcio, prefeito amigo. E nós fomos lá em Santa Luzia jogar contra o Juvenil, um time lá do Santa Cruz, veterano do Santa Cruz. E, tinha um revisor chamado Zé Ribamar. O Ribamar era ponta-esquerda. Chegamos lá e tinha um lauto almoço. E como todo mundo estava com fome, todo mundo preferiu comer antes de jogar, então muita gente começou a se sentir mal do estômago. E o Ribamar começou a passar mal dentro do campo. Ele pegou uma bola, escapou pela esquerda, e quando ele ia fazer o gol, vomitou na bola. [Risos] E não fez o gol. Teve uma outra vez, lá em Santa Luzia também, que nós fomos jogar um futebol, só que nesse dia o prefeito falou: “Gente, vamos fazer o seguinte. Tem muito almoço aí, mas vamos deixar pra depois do jogo. Depois nós voltamos e fazemos nosso banquete”. E fomos jogar futebol com fome. Então, bola pra lá, bola pra cá, dali a pouco o Oscar Nonato caiu. Todo mundo: “Epa, o Oscar machucou! Chama o massagista!”. Tinha o massagista do Santa Cruz. O bicho estava assim, quase desmaiando. Aí o massagista gritou: “Traz o éter!” E o Oscar abriu os olhos e falou: “Não traz o éter, não, traz um pastel”. [Risos]
Eu era Armandinho, meio de campo, fazendo uns golzinhos. Só jogava ali. Eu fui até goleiro. Um dia teve um negócio muito engraçado. Isso aconteceu comigo, no antigo campo do Atlético. Antigamente, os jornalistas que torciam pro América e pro Cruzeiro eram a coligação. Coligação América e Cruzeiro. A gente contra os atleticanos, e eles eram a maioria. E nós fomos jogar lá contra os atleticanos. E fazia anos e anos que eu não botava um pé numa bola. Aí peguei uma bola e dei um drible. Joguei o corpo pra cá e o 19, o Edson, caiu sentado. [Risos] Esse Edson, 19, era atleticano mesmo. Quase mijaram de rir. Achavam engraçado, eu pançudinho, gordinho e driblando. Eu peguei a bola e fui driblando, driblando, driblando, driblando, driblando. Eu gostava muito de cair pra esquerda, controlando a bola com o pé direito. E fui pela esquerda e cortava um, cortava o outro, fui cortando, cortei o time todo dos atleticanos. Quando cheguei dentro do gol, cortei o goleiro, o goleiro caiu nos meus pés, eu desviei do goleiro, aí me deu aquela bambeza nas pernas. Eu não tinha mais perna. Não senti dor, nem cansaço, nem nada: bambeza. Perdi o jogo das pernas. Então fui ajoelhando, o pessoal morreu de rir. Não fiz o gol. E meus filhos invadiram o campo. “Pai, o senhor está sentindo alguma coisa?” “Não, é só moleza nas pernas.” Não tive perna. Uma coisa muito engraçada.
Uma vez eu fui na posse da Diretoria do Sindicato, na primeira eleição do Gegê de Castro. E eu era da diretoria, muito chegado a esse grupo do sindicato. Eu era sindicalista mesmo. Fui tesoureiro, depois fui presidente do sindicato. Era sindicalista. Então, na posse do Gegê nós fizemos uma solenidade muito bonita na Assembléia Legislativa. Da solenidade, todo mundo resolveu baixar no Montanhês. [Risos] E a diretoria toda lá e eu fui também. Já casado e tudo, mas vamos lá, tomar uma cerveja no Montanhês, ver o pessoal dançar e tal. Então, o Fagundes Murta começou a olhar muito pra uma moça. Tinha umas moças muito bonitas dançando lá. Aí o Fagundes olhou pra moça e falou: “Ela está me olhando, sabe? Eu vou dançar com ela. O que vocês acham?”. Aí nós encorajamos: “Vai lá, vai lá, Murta, vai dançar com a moça, com a mulher, está te olhando, dando uma sopa, está querendo dançar com você, vai lá”. Ele foi. Aí dançando e tal e coisa e conversando com ela, e de repente ele se assustou, parou de dançar. Olhou ela, cumprimentou ela, deixou ela no meio do salão e foi embora. “O que houve, Fagundes?” “Que nada, sô, aquilo é homem e é meu primo.” [Risos] Era uma festa de gay que estava havendo. Por isso é que o cara estava encarando ele. Coisa muito engraçada. E a diretoria toda lá, mal sabendo. Por que quem ia em festa de gay? É porque todo mundo já tinha tomado umas e outras. Então, “Vamos lá no Montanhês?” Muita gente nem conhecia o Montanhês. Eu já conhecia do meu tempo de solteiro. Então nós fomos lá. No jornal tinha muita coisa engraçada.

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Origem do clube

Antes do Edifício Levy, o pessoal já tocava violão e cantava aqui. Um pouco antes já era um ponto de reunião da rapaziada, dos meninos, dos adolescentes aqui do bairro, nessa esquina aqui. Paraisópolis com Divinópolis. Mas ainda não tinha essa denominação de Clube da Esquina. O negócio de Clube da Esquina começou quando nós voltamos do Edifício Levy, quando conhecemos o Milton Nascimento. O Bituca morava numa pensão, num dos andares. Nós morávamos no décimo sétimo e último andar do edifício, e o Bituca morava numa pensão lá. E eles se irmanaram. Ele e os meus filhos ficaram como irmãos, principalmente o Marcinho e o Lô. O Lô era muito pequeno, mas o Marcinho e o Marilton eram os que mais lidavam com o Bituca musicalmente. E o Bituca passou a freqüentar nossa casa, às vezes dormia lá. E tinha uns episódios engraçados. De vez em quando ele tomava umas pingas, ficava bêbado. Um dia estava lá escorando o edifício e a Maria chegou. A Maria dava aula, eu ficava fora de casa, trabalhando no Jornal. Ela chegou, encontrou ele na porta do edifício, segurando o edifício. Então ela ajudou ele a segurar o edifício e ele falou: “Tá caindo, Maricota, tá caindo o edifício”. E ela agüentou “Tá mesmo, nossa”, segurou, segurou: “Acho que firmou agora, vamos pra dentro que acho que agora o edifício está firme”. De vez em quando a gente tinha que dar um banho nele pra ele melhorar das cachaçadas. Mas não era só ele que bebia. Os outros também bebiam.
O Marilton tinha um tal de Gemini 7, que era um conjunto muito bom, um conjunto de dança, e o Marilton era o crooner. Muitas vezes ele dividia o cachê dele com o Milton. Tocaram juntos lá no Evolussamba e outros conjuntos musicais lá do Edifício Maleta. Era um edifício que tinha uma movimentação muito grande de músicas, barzinhos. Mas aí, quando nós voltamos pra cá… A Maria tinha a escolinha e acabou com a escolinha. A gente tinha mudado para o Edifício Levy pra dar lugar à escolinha. Maria cismou de fazer a escolinha. Era o sonho dourado dela ter uma escola própria. Mas aí nós voltamos aqui pra Santa Tereza e aquele movimento de músicos na esquina aumentou, por causa da influência do Bituca e do próprio Marilton. E já, muito tempo antes de se falar em Clube da Esquina, aquilo era um chiste familiar, esse negócio de Clube da Esquina era uma brincadeira familiar. Às vezes Maria ficava nervosa. “Cadê o Lô? O Lô sumiu. E o Marcinho?”. Eu falava: “Não, Maria. Estão ali na esquina. Aquilo lá era um clube”. “Ah, já sei! Esse maldito clube da esquina.” Foi Maria que arranjou essa expressão. Então eles ficavam tocando, até que um dia, o Bituca estava aqui em casa, e o Lô foi mostrar a ele uma musiquinha que ele tinha feito ali na esquina, no violão, o chamado “Clube da Esquina 1”. O Bituca se encantou, burilou a música, e melhorou a música. O Marcinho também estava aqui entusiasmado e completou a música. Começaram a tocar e a solfejar, e aí o Marcinho: “Espera aí, nós vamos botar uma letra nisso aí”. E com a mão esquerda num pedaço de papel ele começou a escrever um poema que é aquele mesmo poema que está lá na esquina. E escreveu aquilo às pressas. Houve um detalhe até: a luz apagou, acabou a energia elétrica, então tiveram que acender uma vela e alguém segurou a vela e o Marcinho acabou de escrever à luz de vela. A Maria segurava a vela. Então foi assim que surgiu o negócio do Clube da Esquina. Aí na hora mesmo eles botaram o nome, Clube da Esquina. Foi assim que surgiu essa brincadeira. Era uma brincadeira, um chiste, uma brincadeira familiar.
“Clube da esquina” era um negócio assim: [Cantando] “Noite chegou outra vez/Os homens de novo na rua estão/Todos se sentem mortais/Dividem à noite a lua com a solidão/Nessa esquina a gente cantava“. Não lembro como é que é.
Eu achei uma maravilha essa música. Eu sempre fui um fã de carteirinha dos meninos aqui, do Bituca… O Bituca ainda não tinha a fama que tem hoje, uma vez sentou aqui nesse piano e começou – porque é assim, as músicas vão amadurecendo – e começou a tocar uma seqüência muito bonita, que depois ele incorporou a uma música dele. Quando ele acabou de tocar aquilo, eu falei: “Oh, Bituca, isso aí é um clássico, sô. Você está abrindo uma clareira de erudição na música popular brasileira. Isso é bonito demais”. Ele perguntou: “Você acha?”. Eu falei: “Ah, se acho. Acho sim, acho lindo isso. Isso é música… Isso é clássico”. Então o Bituca sempre estava aqui, volta e meia ele estava aqui tocando, brincando com os meninos, rindo. Porque o Bituca é muito alegre, ele é um folgazão, alegre e gozador, brincalhão. Ele brincava com a Sueli -o apelido dela é Dodoti-, mandava ela cantar aquela música: “Índia”. Então ele mandava e ela ia subindo o tom, e no fim ela se esgoelava e não saía mais nada. E ele morria de rir. Ele fazia de maldade, ia subindo o tom.

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“Trem azul”/ “Clube da esquina”/ “Girassol”

Das músicas, eu gosto muito do “Clube da Esquina” e eu me lembro bem, mas eu não canto. “Trem Azul” é uma música que tem uma letra até pequena. “O Trem Azul”, “O Girassol” são as músicas mais bonitas deles. O Lô tem umas músicas muito bonitas nesse novo disco. “Isso quer dizer amor”.
Eu perdi muito contato com música. A idade vai chegando e a gente vai perdendo o rebolado. Mas eu gostava muito das músicas. Você sabe, eu vou te revelar uma faceta: eu fiz uma música pra Maricota, em homenagem à nossa vida. É uma musiquinha pequenininha com um poemeto em homenagem a ela. No dia do aniversário dela eu fiz. É assim, deixa eu ver se eu lembro: [Cantando] “Uma estrela brilhou/No escuro céu/De minha vida/É um claro sinal/Nosso amor/Minha querida/Luz que ilumina/Nossa lida/Nossa trilha/Luz que ameniza/Qualquer dor/Qualquer ferida/Luz que se ampliou/E se espalhou/Pelo tempo afora/Novas gerações/Mil emoções/Eterna aurora/Uma estrela brilhou”. Essa musiquinha eu fiz pra ela há uns quatro, cinco anos. Acho que foi quando ela fez 80 anos. Não tenho certeza. Ela gostou demais. E os meninos gostam, tocam isso no piano, cantam. O Telo é o que gosta mais. Outro dia nós fomos lá pra Guarapari, eu tenho uma casinha lá em Guarapari, e o Telo costuma levar o tecladinho dele lá. Diz que essa música é o hino de Guarapari.


Clube da esquina: Avaliação

Eu sempre fui muito desconfiado com esse negócio de música. Eu acho que é uma carreira muito bonita, a pessoa tem que seguir a sua vocação, a pessoa tem que ser fiel às suas origens e aos seus ideais. Então eu entendia assim, já que eles gostam de música, e estão fazendo sucesso, um relativo sucesso, está bom. Mas eu sempre tive muito presente comigo o seguinte: o público brasileiro, em termos gerais, ainda não está muito preparado pra boa música. Ele é mais chegado a essas músicas modernas que tem aí. A pessoa começa a gritar, falar, e diz que é música. Não tem nada a ver. Agora, há exceções. Quando as músicas são realmente fora de série, muito boas, da MPB, o público gosta. Músicas de Caetano, Gil, esse pessoal todo assim, Roberto Carlos. Roberto Carlos é um Martinho da Vila mais romântico. As músicas dele são sempre parecidas umas com as outras. Martinho da Vila é a mesma coisa, são todas parecidas, mas ele é especialista em samba. Acho o Martinho um colosso, como acho o Roberto também.

Toninho Horta
Nas gravações, por exemplo, não podia faltar nunca um Toninho Horta. Teve um festival, antes desse negócio do Clube da Esquina, organizado por uma empresa jornalística de televisão e rádio. E eles fizeram muito escarcéu com aquilo, muita propaganda e veio muita gente do Rio, de São Paulo, cantar aqui, participar desse concurso, desse festival. E foi um negócio muito interessante. O Marilton inclusive, naquele tempo, cantava mais do que tocava. E o Marilton tirou primeiro lugar como melhor intérprete, cantando exatamente “Clube da Esquina”. Quem canta melhor “Clube da Esquina” é o Marilton. Cantou também “Como vai minha aldeia”, de Otávio Moura. Então, com esse negócio, essa coisa de Clube da Esquina começou a engrossar. Muitos já tocavam aqui na esquina. Toninho Horta, Bituca mesmo tocou aí, andou aí pela esquina tocando sentado na calçada. E o pessoal começou a ir chegando. É que um gambá cheira outro. Quando foi gravado o álbum “Clube da Esquina”, não sei se foi antes ou se foi na ocasião, me aparece um tal de Ronaldo Bastos, que é um tremendo poeta, é um cara espetacular. E ele também é um dos pioneiros do Clube da Esquina. E ele é carioca. Depois, essa coisa de Clube da Esquina foi se alastrando. Mesmo quem não era propriamente da origem do Clube já se integrou. Porque o Clube não pretende ser um clube fechado. É uma coisa que surgiu espontaneamente, e espontaneamente foi se desenvolvendo. Por extensão do sentido, Clube da Esquina é uma esquina de qualquer lugar do mundo. Tanto que o Lô, de uns tempos pra cá, começou a se ligar mais. Ele estabeleceu uma parceria muito boa, uma ligação muito boa com esse menino do Skank, o Samuel Rosa. Tem que ser assim. Música tem que ter intercâmbio. Pra aprimorar, pra melhorar cada vez mais a música.

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“Os Borges”

Eu estava assistindo à gravação e o pessoal falou: “Vamos cantar”. “Então vamos cantar.” Cantei lá com o pessoal todo, com todos os meninos. E tinha uma música do meu pai, do sapo, que o pessoal resolveu cantar, botar aquilo no disco. E nós todos cantamos o sapo. [Cantando] “Eu vivo triste como o sapo na lagoa…” Uma música jocosa, uma brincadeira. E eu participei, cantei. Foi a primeira vez que eu entrei num estúdio. Elis Regina também acabou participando também da gravação, pois ela estava gravando no estúdio ao lado. Ela chegou e falou: “Que confusão é essa aqui?”. Falaram: “É uma família aqui”. Aí ela já viu o Marcinho, já viu o Lô: “Mas vocês que estão aqui!”. E logo já se estabeleceu. Ela cantou a música do Marcinho e do Marilton chamada “Novo Cais”, uma música que o Marilton fez em homenagem ao Bituca. E quem canta é Elis Regina. Ela cantou essa música. Foi uma época muito boa. E ela se encantou com a Maria. Ela depois esteve aqui em Belo Horizonte, um pouco antes de ela morrer, pra fazer show no Palácio das Artes. Nós fomos lá ver o show, estivemos no camarim com ela. Ela chorou, estava muito nervosa, muito triste porque a mãe estava doente, tinha feito uma cirurgia, acho que o negócio não estava dando certo. E eu fiquei com tanta pena da Elis, nessa ocasião. Eu achei ela tão fragilzinha. Pouco tempo depois ela morreu. Era uma menina muito boa, a Elis Regina.

Clube da esquina: Avaliação
Não achava que eles fossem chegar tão longe. Eu sempre achei as músicas deles muito bonitas. “O Vento de maio” é uma música linda, do Telo. O Telo tem cada música bonita. Na música “Tristesse”, o Telo trabalhou mais foi a harmonia. A harmonia é uma beleza, a música é de uma beleza sem par. A harmonia e a música. Aí o Bituca acompanhou a harmonia e meteu a melodia e a letra. O Telo tem uma música chamada “Ainda” que é uma beleza. Não sei por que ele não canta ela, não toca. Tem “Ainda”, tem “Vento de maio”. “Vento de maio” é a melhor música dele, e “Tristesse” ganhou esse prêmio, o Grammy.

Grammy
Eu não sei exatamente como é que foi a notícia do recebimento do prêmio. Acho que foi o próprio Telo que deu a notícia aqui. Nós ficamos muito orgulhosos, muito felizes. Porque o Telo faz músicas assim, ele senta nesse piano e daí a pouco começa a sair uma coisa bonita. Você pergunta: “Que música é essa?”. Ele responde: “Eu não sei, essa eu estou fazendo aqui agora.” Assim. A música dele sai espontaneamente. Ele até brinca com isso, porque tem uma música que ele não terminou. E o Orlando Pacheco resolveu botar uma letra. Ele falou: “Ô, Orlando, você está muito possessivo”. Porque o Orlando começou a cantar: “Minha, somente minha”. Eles podem não estar fazendo muito sucesso, mas eles são felizes, eles gostam disso, eles adoram isso. O negócio deles é música. Eu me assustei com isso dentro de casa, porque eu sempre gostei muito de música, mas eu sou uma negação pra música. E de repente eu vi todo mundo cantando, tocando aqui, eu fiquei bobo de ver. Sei que esse pessoal não quer saber de outra coisa a não ser fazer música. Com exceção da Solange, da Sheila, da Sônia e da Sandra, que adoram música, são boas ouvintes, mas não tocam nada também. Os outros são todos encantados por música, gostam demais de música. Eu não posso dizer nada porque a minha adolescência foi ao som “ro-ro-ro-ro”. Quando soldado, eu adorava as músicas da Orquestra Sinfônica. Todo sábado… O Sebastião Viana ainda não era maestro nessa época. Cantava muito bem e tocava muito bem. Havia audições da Orquestra Sinfônica transmitidas pro mundo inteiro pela Rádio Inconfidência. Só clássicos. E eu ficava lá apreciando. Sempre gostei demais. Engraçado, eu costumava brincar com o Salvador, meu primo, que quando a gente era menino, eu achava que tinha mais vocação pra música do que ele. E ele virou maestro mas eu não mexi com música. A verdade é que eu não tive tempo pra mexer com música.

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Estado Novo

Vou fazer um resumo dos meus 88 anos. Eu tenho algumas coisas a dizer sobre isso. Primeiro: eu me lembro de um conceito de um amigo meu, já falecido, que dizia: “Salomão, a gente só aprende a viver quando está perto de morrer”. E minha mãe também dizia assim: “Viver é fácil, saber viver é que é difícil”. Mas, das minhas experiências de vida nesses 88 anos, o grande equívoco foi a Polícia Militar. Foi a minha falsa vocação para o militarismo, influência da época e da família também. A época foi belicosa, época de guerras, de revoluções, de tudo. Isso me influenciou muito. E foi aí que eu percebi que foi um grande equívoco. Eu jamais pensei em dar um tiro em alguém. [Risos] Como é que eu posso ser um guerreiro, um soldado? Quer dizer, começa por aí a minha falta de vocação. No militarismo, tem que ser guerreiro. Ou então não é militar. Então isso talvez tenha me atrapalhado. Eu mandava serviço de quadro, fazia prontidão, de vez em quando a gente entrava de prontidão, eu trabalhava mais na administração na parte de escrituração, na parte mais intelectual. Serviço de guarda não fazia, mas nas épocas excepcionais todo mundo ia pra dança, ia fazer serviço de guarda e tudo. E tinha as prontidões.
Uma noite, eu estava de prontidão no quartel e aí requisitaram a tropa pra policiar uma greve de padeiros. Os padeiros estavam em greve em Belo Horizonte. E os padeiros estavam indóceis, já tinham jogado um soldado dentro do Rio Agulhas, aquela coisa toda. Então todo mundo falava assim: “Ditadura de Vargas”. E eu nunca saia à rua pra fazer policiamento, ou de campo de futebol, ou de greve com o fuzil carregado, ou bala de festim, sem bala nenhuma. Aquilo era só a força da autoridade, não a autoridade da força. Isso ficou comprovado nessa noite que eu estava de plantão, de prontidão. Então me levaram com dois soldados, por sinal, dois companheiros meus de futebol, do time do batalhão, e dois tamboristas. Tamborista corneteiro é o bicho mais safado que tem dentro do quartel. É um bicho malandro, não quer saber de nada, só quer saber de tocar tambor e corneta. O Moisés era goleiro do nosso time e o Raimundo Nonato era zagueiro. Os dois soldados e eu cabo. Fui guarnecer uma padaria ali na Rua Paraíba, uns três quarteirões depois da Avenida Afonso Pena, rua Paraíba. Tinha uma padaria na esquina, a Padaria Hispano-brasileira. De madrugada, um frio danado, eu vesti meu capote, cinturão, cartucheira, fuzil, tudo vazio. Aí os caras passaram e me chamaram de Chola, meu apelido de futebol (meu jogo era parecido com o de um jogador de siderúrgica, um argentino, então eles me chamavam de Chola). “Ô, Chola, nós vamos dormir.” “Vocês vão dormir o quê, gente? Nós estamos de prontidão aqui, nós estamos guarnecendo a padaria. Vocês querem que os padeiros cheguem aqui, quebram tudo e nós dormindo? Não vamos dormir, não, sô. Deixa de ser malandro.” “Não, nós vamos dormir. Se ocê quiser, ocê que vigia” E então xinguei: “Seus filhos-da-puta”. Xinguei mesmo. “Seus bandidos, seus vagabundos, vocês podem dormir que eu vou vigiar. Não durmo, não. Quem tem inimigo não dorme.” E eles foram dormir. Encostaram numa parede que é a parede do forno da padaria, do lado de fora. Encostaram, enrolaram os capotes e dormiram. E eu fui pra esquina da rua.
A padaria ficava na esquina. Fiquei em pé ali com o meu fuzil, um mosquetão. Dali a pouco eu ouvi aquele clamor, aquele ruído, aquela confusão. Eram os padeiros, uma multidão de padeiros brotando lá da Avenida Afonso Pena e subindo a Rua Paraíba. Eu falei: “E eu, o que eu vou fazer agora? O que eu vou fazer sozinho com esse fuzil aqui?”. Parei na esquina e quando eles foram se aproximando, no meio da rua, manobrei o fuzil como se fosse atirar e gritei: “Passem de largo! Não quero ninguém no passeio, não. Todo mundo no meio da rua”. Já num tom gritado, berrado. A gente aprende essas coisas também. Aí eles passaram resmungando, ensaiaram uma vaia, mas passaram. Eles iam direto pra padaria. E eu na esquina, com o fuzil embalado e apontando. Embalado coisa nenhuma, não tinha nem cartucho de festim. E eu ali fazendo fita. Aí, um padeiro que me servia leite na Padaria Santa Efigênia – a padaria está lá até hoje, esquina de Álvares Maciel com a Avenida Brasil – o Oromar , que me servia leite todo dia – ele era padeiro também mas atendia no balcão algumas vezes – eu tomava muito leite, eu tomava um litro, dois litros de leite toda noite, em frente ao quartel e ele era muito amigo da gente – e ele falou: “Esse aí é amigo da gente, esse aí é liga”. E ainda gritou: “Aê, Salomão, tá bancando o valente”. [Risos] E eu respondi: “Aê, resmungão. Não vão mexer com esse pessoal aqui, não. Vão embora, vão procurar outro lugar”. E ele mesmo encaminhou o pessoal. Eu passei o maior aperto da minha vida, com um fuzilzinho vazio e manobrando o fuzil pra assustar os outros. Mas o sujeito tinha medo. Como é que ia adivinhar que não tinha bala? Só nós que sabíamos disso. Então, em plena ditadura de Getúlio Vargas, com guerra, nunca saí com um tiro de fuzil, uma bala no cartucho. Teve muito folclore nessa coisa de repressão, de ditadura de Getúlio. Getúlio, na minha opinião, foi o maior estadista que o Brasil já teve. Um dos quatro únicos estadistas que o Brasil já teve. Teve primeiro o José Bonifácio de Andrade, na minha opinião. E tem gente muito boa que compartilha da minha opinião.

Getúlio Vargas
O José Bonifácio de Andrade e Silva foi o patriarca da Independência. Depois, teve o Marechal Floriano Peixoto, patriota também, o imperador D. Pedro II e Getúlio Vargas. Mais nenhum outro grande estadista teve o Brasil. Esses quatro se preocuparam realmente com o Brasil e com o povo brasileiro. Teve uma revolta da Marinha no governo do Marechal Floriano e a Inglaterra na época exercia muita influência. Um ministro inglês pediu uma audiência ao Floriano e foi lá conversar com ele. “Presidente, eu vim aqui em nome do governo, de sua majestade, do meu país, saber como o governo de Vossa Excelência receberia tropas inglesas que eventualmente viessem ao Brasil para garantir os interesses britânicos no Brasil.” Ele falou: “À bala, senhor ministro. Está encerrada a audiência”. [Risos]

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Museu
Eu acho uma idéia muito interessante essa de criar o Museu. Pelo menos é uma manifestação que o povo – porque essa idéia é encorajada também por boa parcela do povo – está apoiando. O povo quer uma coisa que lembre a cultura musical. Minas Gerais tem uma cultura musical muito boa, só que não é muito apregoada. Muitos dos melhores, dos maiores músicos do Brasil estiveram aqui. Estiveram e ainda estão aqui em Minas Gerais. Tem muitos músicos fabulosos por aí. Então é preciso que surja uma organização como um museu desses pra chamar mais atenção para o aspecto da cultura musical de Minas Gerais e Belo Horizonte. Acho muito bom isso.

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