Samuel Rosa

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome Local e Data de Nascimento

Meu nome é Samuel Rosa de Alvarenga, nasci em 15 de julho de 1966, em Belo Horizonte.

FAMÍLIA
Nome e descrição da atividade dos pais

Meu pai é Wolber de Alvarenga e minha mãe é Susana Rosa de Alvarenga.
Meu pai é psicólogo e minha mãe é dona de casa. Tenho uma irmã.

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Cotidiano

Eu nasci no São Lucas, passei uma boa parte no São Lucas e Funcionários, que era o bairro onde minha avó morava quando ela veio de Itabira, a minha avó materna. E a maior parte da minha vida, até os 15, 16 anos eu fui muito ligado a essa região de Belo Horizonte, apesar de ter morado na Serra.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Iniciação musical

Meu pai é um músico. Eu o considero praticamente um músico, um cara voltado o tempo inteiro para música, curioso, um apreciador de música mesmo, comprador de disco, além de ser um letrista, um cara que escreveu a vida inteira. Até porque a profissão de psicólogo leva muito para isso, leitura, para o hábito de se expressar com a escrita também. Então a vida inteira ele escreveu. Eu cheguei a fazer música com ele, ele fazer letra e eu música. Agora em termos de palco, assim, o que me seduziu mesmo a ponto de querer montar uma banda, além dos Beatles, foi a história de ter um tio que é músico, virou médico, mas esse já era músico antes da profissão de medicina que é o Spencer, que é o meu tio por parte de mãe, e eu até falei essa relação com o bairro dos Funcionários que é onde a minha avó morava e eu freqüentava muito a casa dos meus tios e ali foi a minha iniciação musical, com esse pessoal, na casa da minha avó. E esses tios também tabelavam com o meu pai, então eles ousavam, às vezes, escrever músicas em festivais. Chegaram a ganhar Festival em Ipatinga e tal. Então eu acredito que tenha sido criado num meio musical, apesar de não ter uma pessoa, um músico profissional, mas isso é o de menos, o que valia era a musicalidade da família, essa vocação que a família tinha para ouvir música boa e ousar até produzir, compor. Chegaram até a gravar discos e tal, claro, mais ou menos de forma amadora, mas eu tenho convicção que foi por aí a minha aproximação, por onde eu cheguei. A minha porta de entrada na música foi por aí, na família mesmo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

Na minha primeira infância, como o Lô Borges gosta de falar, eu ouvia muito o disco dos Três Porquinhos, aí eu pulei para o Clube da Esquina (RISOS). Tinha o hábito de consumir música saudável, despertei muito cedo para isso, com oito, nove anos, eu já lembro das primeiras vezes que falei com o meu pai: “Eu juntei aqui um dinheirinho da mesada e gostaria que você me levasse para uma loja de disco porque eu quero comprar um determinado disco e tal!”.
Bom, o meu encanto inicial foi com a música dos Beatles, os discos que tinham na minha casa, o Help, por exemplo, é muito marcante na minha infância, tanto a capa quanto ao que tinha lá dentro, a edição brasileira do Help que nem existe mais, uma diferente da inglesa. Depois o Abbey Road também, é um disco que é um ícone da minha infância. Quando eu lembro das coisas da minha infância me vêm esses álbuns na minha cabeça e o Clube da Esquina também, aquela capa, a minha curiosidade em saber quem eram aqueles dois meninos que estavam na capa. Eu insistia em acreditar que aqueles eram realmente o Milton e o Lô na infância, os caras que cantam agora, quando eles eram meninos. Meu pai falou: “Não, não tenho muita certeza se são eles não!”, e eu falei: “Não pai, são os dois e tal!”. Mas é isso, esses foram os primeiros passos dentro da música, essas referências são as mais marcantes.

FORMAÇÃO MUSICAL
Profissionalização

Comecei a me profissionalizar aos 15 anos, eu montei a minha primeira banda precoce. Porque tinha seis meses que eu sabia que era um Dó maior, eu tinha aprendido o que era um Dó maior, um Ré, primeira coisa que aprendi no violão. Aprendi as primeiras músicas e aí o intuito desde o primeiro momento que eu peguei o violão, logo passei para uma guitarra e quis ter uma banda para tocar no colégio e tal. Então, houve participação em festivais e eu conheci os irmãos Mourão, o Dinho e o Alexandre, como eu, são músicos até hoje e tal e a partir deste momento a gente começou a ter uma regularidade incomum para aquela época e para aquela faixa etária. Eu não me lembro de muita gente em Belo Horizonte da minha idade que tivesse uma banda já formada a ponto de tocar em festinhas de aniversário, em festivais com tão pouca idade. A gente tinha 15, 16 anos. Então aquilo virou uma referência, foi muito bom para a minha auto-estima, para a de todos ali. Adolescente, eu me apaixonei pelo negócio de música, de tocar. Eu lembro que eu andava de ônibus em Belo Horizonte, para qualquer lugar que eu fosse eu sempre imaginava a minha banda tocando naqueles lugares e sempre na oportunidade de poder tocar num lugar e no outro e a partir daí veio a idéia. Quando inauguram em Belo Horizonte o Parque das Mangabeiras, com aquele teatro de arena e eu passeando por lá, talvez com o Dinho que era o meu companheiro de banda, falei: “Poxa, a gente podia tentar tocar aqui, ó! Acho que não precisa de muito equipamento.”. Aí conseguimos chegar até a diretoria do parque recém inaugurado e conseguimos tocar lá várias vezes e aquilo foi o máximo. Foi a primeira vez que a gente saiu daquele universo de escola, de amigos e tal para tocar para um público mesmo. Claro, ali totalmente de forma amadora, sem receber cachê, sem nada, um guaraná e um “PFzinho” no almoço lá e a gente feliz da vida. Só de ter alguém para pagar uma Kombi para carregar os equipamentos, aquilo era uma vitória. Então, a partir daí, a banda foi amadurecendo e a gente começou a ousar em tocar em bares nas noites, com 17, 18 anos a gente já tocava, já comecei a tocar profissionalmente, mas o grande lance ainda era fazer música, compor, gravar e tal. Nunca as ambições se restringiam só ao fato de estar tocando e ganhando um dinheirinho, ia além disso, a gente queria ter uma banda autoral, compor música, fazer música e… Nessa época eu já compunha, desde o primeiro momento a gente já começou compondo. Era uma música dos Beatles, uma dos Stones, uma nossa, já mandava. Aí um pouquinho mais para frente a gente começou a flertar com o pessoal do Clube da Esquina, até porque eram ídolos da nossa juventude, ídolos pop. O Lô, o Beto, os caras, junto com o 14Bis, a Cor do Som, eram as bandas, praticamente os artistas de rock da época. Então natural que a gente, mais cedo ou mais tarde, fosse cair neles, uma harmonia um pouquinho mais complexa. Exigiam um pouco mais de experiência. Quando a gente começou a aprender um pouquinho mais, a gente começou a tocar músicas desses caras e aí a coisa deslanchou, deslanchou, viramos full time, negócio assim de ensaiar quase todos os dias, tocar e tal e sempre tentando algo profissional mesmo. Aí começamos umas arriscadas dentro de estúdio, gravando as primeiras composições e tal. As coisas sempre andavam de forma paralela, nunca restrito só à banda cover, isso que eu acho que era legal, a gente sempre insistia em compor.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

Acho que existia um negócio bacana. O fato de eu gostar de bandas de rock mais pesadas ali, pelos 14, 15 anos, Black Sabbath, Led Zeppelin, não era um empecilho para que eu gostasse de outro tipo de som. Não era uma coisa um contra o outro, coisas antagônicas, caminhavam juntas, não é? E somado a isso, como eu falei, pra mim, esses caras, eram artistas de rock, pop-rock. Então era tudo num mesmo pacote ali, acho que os dois estavam falando para uma juventude, tanto a música desses caras como o Led Zeppelin, o Black Sabbath, que naquela altura já eram bandas bem mais velhas e tal, os Stones, os Beatles. Então para mim era um pacote, não existia um negócio segmentado para dizer: “Eu gosto disso, portanto não devo gostar daquilo, e tal”. Claro que ao longo da minha vida e por ocasião dessa época, eu me aproximava mais desse tipo de música e outros menos. O que eu acho que contribuiu muito para a formação que eu tenho, mais plural, hoje mais eclética, foi o privilégio de ter tido a chance de escutar tanta coisa diferente durante a minha formação musical.

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Lô Borges, Toninho Horta, Beto Guedes

Caras como o Toninho Horta, o 14 Bis, o Lô, o Beto, o Milton, estavam num outro patamar porque nessa ocasião já eram artistas mundialmente consagrados, já tinham um vínculo mais com o Rio de Janeiro. Mas o Clube, essas pessoas que vinham desse movimento, para cena daquela época, para quem estava começando, eles encarnavam a possibilidade real, um modelo para quem estava começando. Ou seja, é possível você nascer em BH, com esse sotaque, com a cultura desse lugar e tal, você fazer uma música que seja interessante aos ouvidos não só do Brasil como do mundo, não é? Não poderia existir uma motivação, um estímulo maior do que esse encarnado nessas pessoas. Quando eu via o Lô, por exemplo, no Bolão, ali, tomando uma cerveja, comendo um macarrão no final de noite, ou cruzava com esses caras, com o Beto, via na rua, eu falava: “Poxa, aí, ó!”, e sabia do sucesso da abrangência da música deles. Eu pensava: “Pô, olha aí, não precisa necessariamente nascer em Liverpool para fazer um troço legal! Os caras aí, ó!”, eles são exemplos vivos dessa possibilidade. E quando você começa na música, você começa a sonhar tanto, a vislumbrar tanta coisa que ter um exemplo real é a melhor coisa, o negócio está ali. É uma ponta de esperança para quem está ali começando a tocar, começando a compor. Então, a primeira relação que eu tive com esses caras foi a de fã dos ídolos. Aí onde tinha o show do Lô eu ia – Praça de Santa Tereza, Palácio das Artes, lançando disco novo, Sonho Real. O Beto lançando disco novo, tava lá.

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Skank

Aí veio o Skank sem, necessariamente, ter passado, num primeiro momento, pelo crivo dessa rapaziada do Clube. Foi uma coisa. Eu gosto de brincar que o Skank era o Exército de Branca Leone, porque a gente não era filiado a nenhum segmento musical, nunca fomos. É uma banda que sempre andou com as suas próprias pernas, eu tenho muito orgulho disso, não é reggae, não é rock, não é Clube da Esquina. O bom é que o Skank pode receber seus louros tranquilamente sem ter que dividir com ninguém, e também as porradas, porque não existe uma legenda, um partido da qual o Skank seja filiado. Então foi tudo com as próprias pernas, com o primeiro disco independente, com os próprios contatos que a gente conseguiu. Finalmente depois de um grande hiato voltávamos a ter uma banda de Minas Gerais com representação nacional, com reconhecimento nacional e, para a nossa surpresa, primeiro vieram declarações do Bituca, assim, bem favoráveis. Nunca poderia imaginar que o Bituca fosse ter algum tipo de simpatia com aquele som que a gente estava fazendo, por pura ingenuidade, por que não? Ingenuidade, da época, aquela coisa de quem está começando e tal, achar que o crivo de quem está lá, do ídolo, sempre é um negócio meio difícil de ser conseguido e tal.

PESSOAS
Lô Borges

Depois tive a notícia que o Lô estaria regravando, queria regravar Te ver, ali por 95, 96. Eu falei: “Pô, aí também não. Aí já é muita areia para o meu caminhãozinho!”. Poxa, isso é um tipo de, não diria que é uma gratificação ou recompensa, mas é um presente mesmo, um cara que te influenciou, que é o seu ídolo, de repente acena gravando uma música sua. Aquilo era uma coisa que eu não poderia nem pensar que pudesse acontecer e, de repente, vi que o Lô estava muito mais próximo do que eu imaginava! Ele começou a tabelar com o Chico Amaral, que era o meu parceiro, até um dia a gente se encontrar na casa do Chico. Aí eu fiquei conhecendo o Lô pessoalmente, e a partir dai começamos a trocar figurinhas até culminar com esse show que foi um encontro meu e dele, a gente tocando músicas do Lô, minhas músicas do Skank e tal, e que está até hoje, até hoje a gente compõe juntos, faz shows, uma coisa que eu não poderia imaginar. Eu falei: “Pô, o fã que toca um violão tem um certo privilégio, ele saiu na frente do outro que não toca, que pode um dia se pegar do lado do ídolo assim no palco!”, foi o que aconteceu comigo. Essa minha aproximação com a música do Lô, que para mim é uma escola de composição, foi determinante na virada que o Skank teve também em termos de estética musical e tal. O que a gente incorporou depois desse encontro, a minha maneira de compor mudou demais e tal. Eu diria que foi um dos grandes aprendizados que eu tive ao longo da minha vida em termos de música foi essa frutífera aproximação, essa tabela com o Lô. É latente a influência do Lô, não é? Eu acho que isso foi muito bacana do Skank, não ter um certo conformismo com a forma de sucesso e tal, não ter se engessado aí, e poder mostrar, mesmo para aqueles mais radicais detratores da musica pop, que é possível você ser inventivo, você ser criativo, ser eclético, não é? Mesmo nesse universo de tantos imperativos ruins como é o da música radiofônica, da música pop e tal. Eu acho que o Skank reiterou isso, mas a gente tem inúmeros outros exemplos, tanto na música brasileira quanto a lá de fora, de um pop criativo, com conteúdo, que passa muitas vezes por uma metamorfose, que incorpora várias linguagens musicais, e tal, e acho que foi bastante ousado naquela época, mas eu diria que foi necessário, primordial para que o Skank sobrevivesse aí, perdurasse aí durante esses anos.
Olha, um poeta já falou que o homem não é uma ilha, então a gente está aberto a várias influencias, e é bom que esteja sempre. Agora, é um outro desafio você criar a sua identidade a partir dessas influências. É o que o Skank tem tentado fazer. Vez ou outra eu acho que a gente é mais referente, vez ou outra eu acho que a gente consegue ser mais autêntico, como qualquer outro artista, não é? Como qualquer outro grupo, como qualquer outro compositor.

PESSOAS
Lô Borges e Beto Guedes

Eu acho que o que prevalece no som do Lô e do Beto, não é só isso que o Chico falou, mas também a veia autoral que eles têm, a necessidade de compor, a necessidade de dizer: “Isso é bom, mas eu posso fazer uma coisa como essa!”. É diferente do cara que quer ser um cover meramente: eu quero tocar igual, eu quero fazer igual! Quando você tem uma veia autoral eu acho que é o determinante para criar uma identidade, para ter uma assinatura. Eu acho que essa veia, tanto do Lô quanto do Beto, dificilmente se renderia a qualquer proposta lá de fora, importada, ao pé da letra, que fosse progressivo, que fosse folk, impossível, não é? Tendo essa jazida de criatividade que eles têm, de coisa bruta, à flor da pele, um negócio violentíssimo, então você conhece no Lô e no Beto uma universalidade de som porque eles tiveram os ouvidos abertos, referências musicais distintas, várias, mas aquilo foi catalisado e saiu naquele formato que tem, tão marcante entre os dois a ponto de mesmo a gente falar que um não se parece com o outro. O que o Lô produz é diferente do que o Beto produz, do Bituca mais ainda, do Flávio. Cada um tem o seu caminho.

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Músicas do Clube

Bem, adoro todas as músicas do Clube da Esquina, seria difícil separar uma da outra porque elas são muito marcantes. Todo o álbum, o álbum inteiro ali foi… mas eu consigo pensar assim algumas coisas do tipo “Viola Violar”, que está no Milagre dos Peixes ao vivo, eu acho que são mais lado B. São coisas assim que eu gosto. “Maria Solidária”, que o Beto interpretou, que eu acho que é do Fernando Brant com o Milton, aquela gravação do Beto eu acho muito legal. “O Sal da Terra” que está no Contos da Lua Vaga, do Beto, e aí, “Girassol da Cor dos seus Cabelos”, tem umas coisas que… “Fé Cega Faca Amolada”, eu podia passar a noite falando! É muita coisa, não é?

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Clube da Esquina

Teve um momento em que eu redescobri o Clube, tive um pouco isso. Quando eu comecei a montar o show com o Lô, eu tive que escutar essas coisas todas de novo, ouvir os discos do Lô e tal, o Via Láctea, que tinha sido um disco da minha adolescência. É engraçado porque eu consigo separar bem o Via Láctea como um disco adolescente para mim que já remete a namoro, coisa de escola, de colégio e o Clube da Esquina que é um negócio mais dentro de casa, mais festa de Natal, encontro de parente, sabe? Eles têm uma conotação bem distinta na minha cabeça, mas eu retomei esses discos todos num determinado período. São discos, para mim, incansáveis. Vez ou outra eu os coloco de novo, assim como algumas coisas do Jorge Ben, como o Beatles, passa um tempo eu volto lá e escuto de novo, não é? Como um livro que se lê de várias formas conforme o passar do tempo.

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Parcerias

A música “Dois Rios” foi composta assim: primeiro veio o esboço da melodia, a parte A, aquele início da música e tal e eu mostrei para o Lô, mostrei um ponto que eu achava que a música ficava meio emperrada ali, não andava, e como a música estava caminhando para ser um pouco mais complexa, em termos de harmonia, eu falei: “Lô, está faltando um C, uma parte C que descanse desse joguinho do A e do B.” Ele, depois de ouvir umas três vezes, pegou o violão, tocou e tal, e fez aquilo que seria uma segunda parte da história que está sendo contada: “O meu lugar é esse ao lado seu no corpo inteiro”, que ficou, assim, perfeito, parecia que ele tinha começado a música junto comigo, foi um negócio assim, um toque de Romário para dentro do gol, depois de uma jogada bem trabalhada, modéstia à parte. Então foi em cima. Depois eu mostrei a melodia para o Nando, completinha, parte A, parte B, e o Lô me ensinou muito sobre isso. Como compor uma música, da introdução até o fim, sem letra nenhuma! Parte A, parte B, aqui vem o solo, canta, e às vezes eu canto um solo, ou de teclado ou de riff de guitarra e tal, e às vezes eu mando para o Chico e ele vai e coloca a letra em cima do solo! Eu falo: “Não, aqui é o solo, cara! Não precisa de letra não!” ele: “Ai, solo essa parte em especial! É, vamos deixar aí para teclado, metais, alguma coisa!. Ah, então beleza!”. E no último disco do Skank o Carrossel, a gente foi ao extremo nesse tipo de composição. A gente chegou a compor 20 músicas, ou seja, quase um álbum duplo, só de melodias, já com a coisa de bateria, baixo, todo mundo tocando. Não sei se a técnica é do Lô! (RISOS) Assim, e o Lô não teve essa pretensão: “Vou te ensinar!”. Eu comecei a ver como o Lô trabalhava, e como ele tratava as melodias de forma muito mais séria do que eu. Como se ele dissesse: “Cara, melodia é meia música, então você precisa cuidar dela! Cantou uma vez, você precisa cantar a segunda igualzinho! A melodia tem que ser certinha!” Porque às vezes eu tinha isso com o Chico, um pouco meio, vamos dizer, no rascunho. Fazia, mostrava uma partezinha para o Chico, aí o Chico botava uma letra , a gente ia fazendo a segunda. E eu vi que o Lô não, ele pegava e fazia uma música inteira, cara! Inteirinha! Eu falei: “Caramba, isso é bacana!” Eu acho que a primeira música que eu fiz assim foi “Resposta”, depois eu vi que esse jeito foi assim o mais clássico de compor, melodia prontinha, o letrista vai, coloca a letra e devolve a música pronta! E eu vi que o Lô trabalhava muito assim. Agora no Carrossel a gente fez 20 músicas, todas, e depois ficamos escolhendo: “Essa aqui vai para o Rodrigo Leão, essa aqui para o Chico Amaral, essa aqui tem mais a cara do Nando.” E funciona, porque a música parece mais redonda. Letra e música ficam mais bem acomodadas, diferente de umas coisas que eu acho que tem belas interpretações, boas letras, mas parece que a letra está sendo vomitada ali, o cara está simplesmente falando alguma coisa cantarolando, não é? e que não é nem o rap, não fica uma coisa nem outra. Parece que está inventando a música na hora! Exatamente, parece que a pessoa pegou ali e começou… Eu acho que esse é um mal que o Skank não sofre, porque a gente compõe hoje muito assim, melodia por letrista.

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avaliação

São inúmeras as inovações trazidas à música brasileira pelo Clube da Esquina. Tudo que eu falar aqui vai ser muito menor do que reconhecer que… foi um dos movimentos mais importantes da música no mundo! Tamanha a peculiaridade, a identidade, o tipo de síntese musical que eles fizeram. É um negócio sem precedentes na música. Mais do que compositores, foram inventores, não é? Não há algo que você possa comparar ao Clube, falar assim, vem dali ou vem daqui, é uma porção de coisas, é um negócio de Minas Gerais tanto da coisa rural, brejeira, ao mesmo tempo cosmopolita na hora que vem as letras do Marcinho e do Fernando Brant, não é? Falam de coisas universais, e tal, e ao mesmo tempo têm algo das escalas meio árabes assim, que pode vir da música da Espanha. Já vi alguém falando sobre esses traços da música espanhola dentro do Clube, o progressivo, o folk. Quem mais poderia fazer essa síntese tão bem no mundo? Não vejo algo que a gente possa comparar em termos de originalidade, de criatividade, muito coerente até fora, até nos bastidores, a conduta da galera do Clube é muito interessante. Porque a maioria… isso dá muita credibilidade na música, aversão ao glamour, eu brinco que o punk não veio dos Estados Unidos nem da Inglaterra nos anos 70, porque o Clube já era punk assim. A experimentação deles, a aversão deles ao negócio mainstream, os caras já tocavam de costas para o púbico antes do John Rotten do Sex Pistols (RISOS). Não tinha essa, uma coisa que é marcante na música pop, muitas vezes dilui ou é um demérito, que é a concessão. O clube não parecia querer, em momento algum, alguém querer fazer concessões extremadas, não é? Se a gente for comparar o que é a música pop hoje, ou mesmo o que era naquela época, acho tudo coerente, assim, muito autêntico. Autenticidade. Esse vínculo forte com a cultura de um lugar. Talvez venha daí a identidade, a originalidade e tal, mas que souberam muito bem preservar isso sem perder contornos de universalidade. Não fosse isso, como é que o cara da Suíça ia entender essa música, não é? Ela seria regional demais e ela não é. O cara quando vê o show do Bituca em Montreal, ou um show do Lô no Japão, sabe que não se trata de uma música regional, como se fosse uma banda daquela música, sei lá, peruana, sabe que é uma coisa que tem contornos mais cosmopolitas, mais universais e tal. Ninguém pode tratar o Clube como: “Ah, isso é uma música regional, de raiz!” Não é, ela é sofisticada. Então os caras foram além. Talvez também pelas influências. Eu acho que foi tudo na medida certa, tanto abrir os ouvidos para a música que estava sendo feita na época, no caso do progressivo, caso do que era feito em termos do jazz, do folk, e conjugar isso com as referências muito do DNA, da genética mineira, que vem da música sacra, o regionalismo e tal, mas não a ponto de ficar… o negócio não desandou, muito bem azeitado.

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Clube da Esquina

Olha, eu acho a idéia do Museu muito válida, mas eu acho que o Clube da Esquina é um movimento que dispensa qualquer tentativa de legitimação póstuma, entendeu? O que foi feito, o que é feito por esses caras já, por si só, eu acho que o Clube é interessante para o fã. O Museu, desculpa, é interessante para o fã, o cara que quer informação, acho sempre válido, mas de forma alguma a gente não pode confundir dizendo que esses artistas geniais poderiam cair no esquecimento se não fosse o Museu. Longe disso. Eu acho que também não é essa a proposta. Agora, o fato de ter um lugar que possa prover informação legítima, é sempre bom. O Skank conta com isso, todos os grupos, enfim, qualquer projeto tem necessariamente, obrigatoriamente que contar com isso. Então nesse aspecto eu acho bom porque, quem sou eu para criticar alguma coisa do Clube ou desse, que foi um movimento tão importante, mas eu acho que até essa aversão ao glamour, esse desapego ao negócio material de marketing, vez ou outra acabou deixando o Clube um pouco sem representatividade em alguns meios. Porque o mundo hoje está lidando o tempo inteiro com o exagero, com o extremo, e como o Clube passa longe disso, às vezes ele deixa de ocupar o lugar que mereceria na grande mídia, de ser lembrado quando mereceria ser lembrado. O Clube sente um pouco dessa… não sei se um porta voz, não sei, mas, como eu falei, a linguagem hoje é muito marketing. O Clube nunca teve nenhum desses…, esse desapego, um projeto como esse, uma iniciativa como essa vem a calhar, acho que é bom pontuar, exaltar a importância do movimento, agora, longe de achar também que essa genialidade vá depender disso. Ela não depende de nada assim. Está ali para quem consegue ver, para quem consegue enxergar. É uma pena que o mundo hoje sofra dessa miopia muito grande, de não enxergar muita coisa além de três palmos à frente do nariz, só o espalhafato, só o exagero, só a presepada. A gente está condicionando muito o nosso olhar para isso e conseqüentemente, não reconhecemos as sutilezas, as metáforas. E o Clube é cheio disso, cara.

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