Solange Borges

| | |

« « Retornar a página anterior

Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, local e data de nascimento

Meu nome é Solange Maria de Fátima Fragoso Borges. Nasci em 1º de maio de 1954, na Rua Divinópolis, 136, Santa Tereza, Belo Horizonte, no meu quarto! Onde haverei de morrer e ser enterrada debaixo da cama! (RISOS).

FAMÍLIA
Pais

Meu pai é Salomão Magalhães Borges e mamãe Maria Fragoso Borges. Papai trabalhava, ele era juiz da Justiça do Trabalho e jornalista. Acostumei muitos anos da minha vida: só via papai de terno. E mamãe professora, diretora e o que mais ela inventasse pra ser (RISOS). Mamãe assim, correndo atrás, na luta. Então os dois trabalhavam. Mas eu acho que eles trabalhavam mesmo pra lidar com a gente. (RISOS) Acho que era a criação da gente que era o motivo da luta deles, não é?

FAMÍLIA
Irmãos

Bom, eu devo ser a oitava dos 11 irmãos. Eu não sei de cima pra baixo. De baixo pra cima é mais fácil! Nico, Telo; Eu vou dos mais… dos últimos. Nico, Telo, Dodote, Solange. Eu sou a quarta, invertida. (RISOS) Invertida, que seria a sétima.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Cotidiano

Quando eu nasci a gente morava em Santa Tereza. Depois, uns anos depois, mamãe resolveu transformar nossa casa em escola. Ela nos transferiu lá pro último andar do Edifício Levy, onde nós só faltamos derrubar o prédio. Porque, pensa: papai e mamãe trabalhando, Marilton tomando conta da gente. Marilton ensaiava no Gemini Sete; tinha um conjunto. Quero dizer, ele não tomava conta da gente. Ele colocava cada um de castigo no seu quarto. (RISOS) E ia ensaiar. E a gente ficava. Então, a nossa brincadeira de tarde era atrapalhar o ensaio do Marilton. Basicamente é isso. E depois de noite a gente brincava de Marilton. Brincava de Marilton era cada um pegava o microfone, outro pegava o violão. “Vamos brincar de Marilton?” Então, da minha infância eu lembro pouca coisa, sabe? Desse tipo de coisa assim. E depois, mais pra frente, adolescência, veio o Bituca pra casa. Aí minha função era fazer limonada pro Bituca, laranjada pro Bituca. Aquelas coisas. Arrumar lápis pro Bituca, caneta pro Bituca. E essas coisas. Eu fazia mais a contra-regra. Quero dizer, no Clube da Esquina era o sapo. Como eu adorava ficar entre os homens. Porque eu nunca quis boneca na verdade, eu sempre gostei de uma flautinha. No Natal, Dodote queria boneca, carrinho de boneca, não sei o quê de boneca. Eu não queria nada de boneca! Eu sempre gostei de um joguinho de dama, ou de um instrumentinho, da violinha, do piano, sabe? Mamãe sempre me dava pianinho, contra-baixo, essas coisas. Desde pequena, entendeu? Porque eu já sabia que eu não ia… Boneca, carrinho de boneca, essas coisas. Não ia dar certo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação Musical

Eu não sei quantos anos eu tinha na época que comecei a me interessar por música. Mas foi quando o Lô me chamou pra gravar o… Eu já gravava alguns jingles com o Marilton. Propaganda assim e tal. Ele sempre me chamava pra gravar. Eu tinha uns 15 anos, 16. O Bituca adorava me ver cantando “Julia”, não é? Você lembra? Lá em casa, dos Beatles e tal. E eu ficava cantando mais pra agradar o Bituca. (RISOS) Assim, porque ele adorava me ver cantando. Quando o Lô fez o Via-Láctea eles me chamaram pra gravar “Vento de Maio”, que no início seria só o “Vento de Maio”, não é? Depois o Bituca falou: “Vai ter que gravar o Clube II, também!” E de repente foram as músicas mais tocadas do disco e são até hoje.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Influências

Eu gostava da Elis Regina. Desde que eu me entendia por gente eu gostava da Elis Regina. Tanto que quando eu engordava uns quilinhos eles vinham perguntar: “Você fez Elis regime?” (RISOS) É… entendeu?, lá em casa rolava isso. “Ela fez Elis regime.” Então: fanática com Elis, todos os discos, nunca perdi um show dela, graças a Deus. Tive essa honra de ter… Os primeiros eu lutava, brigava pra conseguir ingresso. Já fui à casa de uma cozinheira lá “donde o Judas perdeu a meia”, porque a bota ele perdeu bem antes, só pra poder colocar, buscar um ingresso de uma cozinheira; Sabe? Um show fechado que ia ter da Elis aqui no Palácio das Artes, eu fui lá e comprei o ingresso na mão da cozinheira do lugar, sabe? E era assim com a Elis. E o Guilherme Arantes foi assim; eu persegui ele também. Achava um cara que fazia um som muito bom. E além de ser fã do Lô, cara. Do Lô, sempre gostei das músicas do Lô. Dos meninos lá de casa, eu acho… Não é pra falar, não, mas eu acho que eles compõem as músicas mais bonitas mesmo. Sinceramente, eu penso assim, sabe? Então eu sempre gostei muito das músicas deles. Foram as músicas do O Terço, que eu ouço pra caramba até hoje; o 14 Bis, é o pessoal que a gente gosta mesmo, não é? Que você vê. Então é esse tipo de música que eu sempre curti. E Beatles. Beatles; Simon & Garfunkel, que eu tenho tudo. Aí tem o Supertramp, sabe? O The Who, essas coisas que eu… As músicas que eu gostava antigamente são as mesmas que eu gosto hoje, entendeu? O pessoal não mudou muito, não.

FORMAÇÃO MUSICAL
Instrumento

Eu sempre gostei de violão. A maioria das vezes, eles acabavam de tocar eu pegava o violão pra poder ficar pescoçando. O Lô quando estava fazendo aquele disco do Tênis – eu já tocava uma musiquinhas do Roberto Carlos, já tinha um violãozinho, um Tonante. (RISOS) –o Lô, ele estava compondo aquela música: “Meus irmãos, eu sou como vo…” Aí ele me fazia ficar a tarde inteira. A tarde inteira, mas é literalmente inteira mesmo, sabe? Depois do almoço, até cinco horas da tarde, estou fazendo isso: tan-tchiten-com-tchin-tem-tem, tan-tchin-tem-com-tum. Ficava só preso na corda do violão e o Lô desatinado no bandolim: é-tu-tu-ti-tim. E eu assim: “Posso parar Lô?” (RISOS) Então eram umas funções. Outra hora o Bituca me mandava ficar só fazendo um baixo no piano: tan-ton, tan-ton. “Faça isso aqui pra mim!” Tan-ton. Aí ele ia, entendeu? Eu ajudava nessas coisas, sabe? (RISOS) Era um vocalzinho aí, outro ali. Eu gostei, não é? Fiz o Projeto Pixinguinha com o Lô, do Via-Láctea e tal.

Voltar ao topo PESSOAS

Elis Regina

Aí veio o disco d’Os Borges. Aí a gente gravou um pouco. Conheci a Elis Regina que era o meu ídolo. Morria de vergonha. Nossa Senhora! Foi, foi um negócio assim impressionante. Eu não conseguia nem chegar perto dela! Na hora que eu a vi: o Bituca… Eu, eu estava gravando uma música e o Bituca apertou assim, estava gravando é “Voa Bicho”, uma coisa assim. Eu ouvi: “Sol! Canta o melhor que você sabe, porque tem alguém aqui.” Aí eu falei assim: “Ô Bituca, não vem com sacanagem, não!” (RISOS) Falei: “Bituca, não vem com sacanagem, não.” Ele disse: “É ela!” Eu falei: “Ai.” (RISOS) Falei: “Ah, Pôxa, aí é sacanagem mesmo!” (RISOS) Saca, falei assim: “como é que eles me fazem conhecer a pessoa que eu mais persegui na vida, desse jeito, através de um vidro e me vendo cantar. Eu vou morrer aqui!” E ela: cá-cá-cá-cá (risos). Aí eu gravei. Ela falou assim: “Então esquece quem está aqui.” Falei: “Não, apaga a luz pra eu esquecer.” (RISOS) Gravei as músicas do Os Borges com ela assistindo algumas faixas. Tanto que ela gravou o “Vento de Maio”, aí ela falou pra mim: “Pôxa, eu tentei fazer parecido com você, mas eu não sei se eu consegui.” (RISOS) “Nisso eu escuto no rádio…” “Aquilo é muito alto, não é?” Falei: “É.” “Aquilo é só vovó pela greta.” (RISOS)

Voltar ao topo CLUBE DA ESQUINA

Movimento

Mamãe falava assim: “Eu não sei por que ela… Ela persegue os rapazes. Ao invés de perseguir as moças, ela persegue os rapazes.” Eu falei: “Pô, mãe! Vou perseguir os rapazes mesmo” Assim, de preferência… (RISOS) Melhor, não é? Então eu sempre fui a “bendita é a fruta entre os homens”. Até quando eu morei no Canadá, eu era. Porque eu morava com Dona Flor e seus nove maridos. Moravam nove brasileiros comigo. Inclusive o cara que já tinha sido meu produtor, o Gérdson do disco. Foi, então, o da foto que ela perguntou quem era… aquele de barba. O Gérdson. Aquele ali era o meu produtor e ele andava atrás de mim.

PESSOAS
Milton Nascimento

Eu vi o Bituca a primeira vez já em casa, dormindo numa cama lá com os meninos. Tinha um beliche lá. Eu abri porque a gente tinha que arrumar, então tinha que ver a hora de arrumar. Porque tinha que arrumar antes que mamãe voltasse do trabalho (RISOS). Aí, desci e vi o cara lá, dormindo, igual já encontramos Marilton dormindo com o Nélson Ned. O Bituca estava dormindo com um dos meninos. Eu só olhei assim pelo pé, tal, pelo sapato, ou pelo cabelo a gente já sabia quem era. O outro falou: “Aqui tem um negão.” (RISOS) “Deixa eu ver.” (RISOS). Nesse dia ele amanheceu… o Marilton apresentou ele pra gente: “Esse aqui é um amigo meu e tal.” O Bituca ficou sendo lá de casa. Mas mamãe não gostava, mamãe não queria; Porque é aquele negócio: “Tem que estudar.” Não sei o quê. Aí mamãe ficava xingando. Até tinha época que a gente escondia o Bituca quando a mamãe chegava. No final falou assim: “Quer saber, rapaz? Você vem pra cá e fica aqui, mora aqui e pronto e não me enche mais o saco. (RISOS) Você acaba seus dias aqui. Você ganhou! Já que toda vez que eu chegar em casa você vai estar aqui, então pronto, não vou estranhar mais.” Ela foi deixando e ele acabou ficando, ficando. E aí era bom, viu? Porque a gente morria de rir aquela época. A gente ria o dia inteiro porque o Bituca fazia bobagem; falava bobagem com a gente. Era muito bom.

FAMÍLIA
Cotidiano

Tinha muita gente, entra e sai. Também não tinha essa coisa de trancar casa igual tem hoje. Então a nossa porta ficava aberta, era um entra e sai o tempo todo de gente, de coisa. Na mesma hora eles estavam lá no Clube da Esquina. O seu Salomão, que era um cara que morava na esquina, ele jogava água nos meninos, sabe? Quando ele enchia o saco, ele dava umas mangueiradas. Aí corria tudo lá pra casa. Mamãe, dependendo do humor dela quando ela chegasse, ela também corria com todo mundo. Ia todo mundo pro murinho ali (RISOS) do lado. Mas sempre voltavam. De repente chegava até polícia, não é? Que naquela época tinha negócio de Ditadura, repressão, não sei. Chegava polícia, entrava todo mundo lá pra dentro de casa. Aí não tinha mais jeito. (RISOS) Era lá em casa mesmo que acabava dormindo, ficando o povo. E assim que eu me interessei pela música. Porque não tinha outra coisa acontecendo dentro de casa. Não tinha outro interesse, pelo menos. Cercado de músico por todo lado, eu ia me interessar por que, não é? Mamãe tinha o negócio da escolinha. Mamãe não me botava pra trabalhar na escolinha. Porque ela me conhecia, ela fazia assim: “Ah, essa daí não leva jeito pra escolinha pra menino.” Porque ela já até tentou uma vez – eu lembro – ela me botou pra dar aula pro Jardim, na hora do recreio eu estava deitada no chão com os meninos todos em cima de mim. Ela falou: “Ih, não leva jeito mesmo (RISOS)” Ela chegou lá, eu estava fugindo; na hora do recreio eu entrei na brincadeira e… (RISOS). Aí o repouso, eu repousei com os meninos. Mamãe falou: “Nossa, não é nada disso.” Me tirou da escolinha. Aí, eu falei: “Então, vou fazer outra coisa.” (RISOS) Eu fui gravar um disco e tal. Depois desisti. Eu nunca soube o que eu quis exatamente, não. Cada hora estou fazendo uma coisa diferente.

Voltar ao topo LOCALIDADES BELO HORIZONTE

Esquina

Eu freqüentava a esquina. Eles deixavam. Mas ali era clube do Bolinha e tinha hora que era clube da Luluzinha e tinha hora que era um clube misto, unissex. Dependendo do evento. Por exemplo, quando eles estavam ali na esquina com violão, não sei o quê, tá-tá-tá, eram os meninos lá de casa. Quando eles estavam trabalhando nos discos do Clube da Esquina que eles ficavam lá e cá, não é? Outra hora tinha o negócio do futebol, de o “Spartak contra o Real Madrid.” O Spartak era o pessoal; o Jabour, o pessoal ali da clínica, e o Real era aqui, Amauri, João Luís, Lô, não sei o quê. Então nessa época os gatinhos ficavam tudo ali, os jogadores. E a meninada, a moçada ia paquerar ali, também, não é? Então aquele Clube ali também era um lugarzinho de ser, de encontro e tal. Você ia ali no dia do jogo; Eu, por exemplo, no dia dos jogos que tinham, eu ia lá na casa do Dunga. (RISOS) Ficava lá, aquelas coisas. Depois a gente foi ficando lá pra tocar. Veio eclipse, aí foi ver o sol nascer. Porque ali é um barato aquela visão, você vai, vai deitando ali, cansei de amanhecer o dia ali. Principalmente quando mamãe viajava. Porque aí a gente tinha mais liberdade de amanhecer o dia. É que lá em casa era pesado, papai e mamãe não deixavam a gente muito a vontade, não. Mas era bom, era bom, dava muita saudade.

FAMÍLIA
Cotidiano

Mamãe não deixava eu ficar atrás dos meninos. Ela chegava na porta assim e falava: “Quer ver eu chamar esses meninos?” Geralmente lá em casa nunca foi um só. Então, por exemplo, se o Lô fizesse uma coisa, era o Lô e Yé que apanhavam. Porque era a dupla, entendeu? (RISOS) “Eu não agüento mais Solange e Sueli.” Sabe? Nenhum era culpado sozinho. Embora o delito tivesse sido só de um. (RISOS) Mas assim, então era tudo na dupla, as broncas. Então ela não deixava, mas ela falava assim: “Quer ver como é que eu faço pra achar esses meninos aqui de casa? Eu chego no meio da rua, elas vão sair de qualquer porta, menos da nossa. Eu grito: Solange, Sueli, Marcelo, Mauro eles saem de qualquer canto, menos de dentro de casa.” E isso que ela fazia. Ela saía, gritava e ia surgindo dum canto. (RISOS). E do Clube da Esquina. Aí depois ela: “Já falei que não quero moça lá, que lá não é lugar de moça!” Foi a hora que a gente começava dançar. Ficava no Clube da esquina escondido. Depois passou mesmo a ser um clube da Luluzinha, porque as meninas ficavam sempre lá. E mamãe sempre falando esse negócio: “Onde tem muito homem a gente deve afastar.” A gente achava o contrário, não é? (RISOS). Ali que a gente devia estar. Mas mamãe assim… Ela sempre; mas ela não deixava, não. Eles eram bem rigorosos, não é? E ainda são até hoje. Porque mamãe – eu não consigo falar nela em “era”, sabe? – Eu não consigo falar: “mamãe era”. É. Rigorosa demais da conta (RISOS). E papai, papai sempre foi mais lerdinho, mas rigoroso também. Porque na verdade ele buchichava na orelha dela: “Oh, fulano tá chegando tarde.” “Oh, essa menina fica o dia inteiro deitada tocando.” “Fica o dia inteiro por conta do violão, dos abalos lá, não sei o que” Ele entregava pra ela xingar, entendeu? Porque ela que tinha moral pra chegar: “Pô, pá, e tal.” E era assim que aconteciam as coisas (RISOS).

Voltar ao topo EDUACAÇÃO

Cotidiano Escolar

Nossa senhora! Estudei em escola demais. Tanto que eu nem sei pra que eu formei na verdade. Porque eu fiz o primeiro ano num curso, segundo ano de outro, terceiro de outro, me deram um diploma (RISOS). É, não é? Porque eu estudei no Imaco; estudei no Nossa Senhora da Piedade; estudei no Batista. Eu estudei no Nossa Senhora de Fátima. Eu estudei em muito lugar. O engraçado é que eu nunca tomei uma bomba. É, porque meu comportamento nunca era excelente, assim na verdade. Então, eu sempre era a mais bagunceira da sala, eu falava bobagem no colégio de freira. Uma vez eu cismei que as freiras eram carecas, “olha pra você ver?” Eu tinha uma tia que era freira. E eu tinha na minha cabeça que elas usavam aquele trem porque não tinham cabelo. Aí, eu no Nossa Senhora da Piedade fazendo uma graça assim, perguntei a irmã se ela tinha cabelo, ali diante de todo mundo. “A senhora não incomoda, não?” Ela pegou, incomodou. Tanto incomodou que me botou de castigo lá na frente do quadro escrevendo uma frase: “Não devo fazer não sei o quê”. E eu fiquei assim, de costas pra turma e ela continuando dando aula. Na hora que ela virou pro quadro, também pra mim: “Continua escrevendo aí nesse quadro negro.” Na hora que a freira virou assim, eu peguei puxei o véu dela pra ver. Fiquei lá enclausurada um tempo (RISOS), sob júdice, no julgamento lá. Eles me convidaram a sair daquele colégio. Nesse colégio de freira eu fugia, ia pra clausura, entrava naqueles lugares secretos das freiras. A gente entrava no pomar, depois Dodote até me ajudava. A gente entrava no pomar, roubava as frutas, aquelas coisas de menina levada da escola. Mas, engraçado, nunca tomei uma bomba. Eu formei porque mamãe queria que fizesse curso Normal. Igual todas na época: “Você vai formar é professora. Igual todas aqui!”. E ela queria e eu não sabia o que eu queria, pra mim tanto fazia, não é verdade? Porque eu queria era mexer com música, sabe com essas coisas. Eu queria era ficar perseguindo os meninos! Entendeu? Eu não queria mais nada. Eu queria tirar aquele segundo grau das minhas costas (RISOS). Tirar o segundo grau e colocava. Depois é que… Porque eu sempre estudei muito, cara, sempre li muito, entendeu? Eu nunca parei de estudar, sabe? Estudo matemática… Quando não tem nada pra fazer eu vou estudar alguma coisa, entendeu? Eu gosto de estudar, mas não gosto de professor, de ter que ir pra escola, sabe? De chamada: “presente!” Essas coisas não gostava, nunca gostei.

Voltar ao topo DISCOS/LOCALIDADES

Clube da Esquina/Mar Azul

O Lô, quando grava o Clube da Esquina, a gente foi pra Mar Azul, em Niterói. Teve uma época que foi a família toda lá pra Mar Azul. Nós ficamos lá num castelo mal-assombrado. Todo mundo do Clube da Esquina, foi gravar o Clube da Esquina lá no Mar Azul. Aí, chegou mamãe… quero dizer, o Bituca esperava tudo, menos chegar mamãe de Marilton, de Kombi. Ele falou assim: “Eu não acredito!” (RISOS) “Viemos pro fim do mundo pra trabalhar e vem Maricota com tudo. Chegou Maricota com todo mundo.” E mamãe falou assim: “E cê acha que eu vou deixar você se embebedar aí, rapaz (RISOS), sozinho?” Aí era legal demais, nós passamos assim, era um castelo super mal-assombrado, sabe? Uma vez a cozinheira… Tinha uma criança no final que chorava a noite inteira ninguém sabia por quê. Lá em cima do morrão. E aquele castelo; só no banheiro cabia a minha casa. (RISOS) No banheiro cabia uma casa dentro, entendeu? Então, ninguém ficava em nenhum cômodo sozinho, onde estivesse um estava todo mundo. Puff. E assim, o piano tocava sozinho. O quadro, o quadro virava. De manhã cedo a gente botava o quadro de novo. Tinha um quadro de um homem lá. A gente vinha de manhã cedo encontrava ele de cabeça pra baixo. Uma vez a mulher fez um cabrito, nós entramos e tal, todo mundo correndo na hora que ela preparou a janta. A gente chegou assim na copa, na cozinha, estava parecendo que ela pegou o bicho, matou e tostou na hora. Igual naquela época de Cristo… eles tostavam aqueles cabritos, faziam aqueles sacrifícios. O bicho estava assim: ééé. Sabe? Com o dente, não sei o quê. Saiu todo mundo correndo de medo, gritando do cabrito que a dona tinha preparado pra gente jantar. Falei: “Nossa, ele tá vivo?!” (RISOS) Sabe aquele negócio, quero dizer, impressão que dava é que ele tinha sofrido bastante mesmo, que ele foi, que ele foi judiado pra poder ir pra mesa. E com a cabeça e tudo.
Lá Niterói, quem é que estava? Estavam o Lô, Beto Guedes, Ronaldo Bastos, Cáritas, não sei quem, todo mundo, esses todos do Clube aí, uai. Nivaldo Ornelas, Naná Vasconcelos, sei, é todo mundo, Fredera. Nós ficamos hospedados no mesmo casarão, mas cabia. Tanto que a gente ficava hospedado no mesmo quarto. A gente ficava o dia inteiro no mesmo quarto. (RISOS). Aonde ia um, ia tudo mundo, não é? O Beto, demais, ficou assim… tinha que descer uma escada da casa pra ficar num dos… tinha um monte de apartamento luxuoso embaixo. O Beto ia ficar com um desses. O Beto subindo pra almoçar era demais: ele olhava pra um lado, olhava pra outro, saía correndo. (RISOS) A casa era mal-assombrada. Sabe aquela praia abandonada assim no Rio? Aí tinha; a gente de manhã encontrava assim oh: uma vez eu e Dodote fomos dar uma voltinha na praia; era perigosíssimo! Nós não encontramos dois caras de brancões assim, sabe? Com umas donas baianas assim… Nós vamos catar umas pedras, os outros vão lá pescoçar. Chegamos lá tinha uma boneca preta, com uma grana na mão dela. Falei: “Dodote vamos roubar a grana dela?.” (Risos) Falei: “Levar aquela merreca lá.” Aí a gente pensou se a gente roubava ou não a grana da boneca. Os copos de vinho, aquela “macumbona” feia, falei: “Não vou, não Dodote.” No dia seguinte aparece uma criança esquartejada na praia. Era barra pesada. O negócio assim era de dar medo. Já pensou ficar assoviando assim de noite: fiiiu-fiiiu. Lá embaixo você olhava, não via ninguém, cara. Era um lugar assim que dava medo. No lugar de dia, era quatro horas da tarde já ficava esquisito. Quatro horas da tarde já estava todo mundo dentro do mesmo cômodo. Tanto que o Bituca fazia: tan-tan-tum-tan-tan-tum-tem-tan-tan-tan. É: ana-na-na-na-tan-ni. – Eu lembro desse arranjo que ele fez, que a gente cantava isso o dia inteirinho. Oh yeah tan-na-na-na-na-na. Cada um fazia uma voz diferente. Na-na-na-na. A gente curtia com essa música e tocava ela. Mamãe ficava: “Vocês não tem outra? Não existe outra música, não? Vocês vão continuar nessa mesma o dia inteiro?” (RISOS) A gente viajava naquelas músicas dos Beatles, sabe? O Bituca no violão e todo mundo tocando. E todo mundo morrendo de medo da casa. Então a gente ficava no mesmo cômodo. (RISOS) “Fulano, vamos no banheiro comigo?” (RISOS) Ninguém ia sozinho em lugar nenhum. (RISOS).

DISCOS
Clube da Esquina I

Parece que nós escutamos o Clube da Esquina em Santa Tereza. Foi emocionante demais. Porque a gente ouviu aquela vozinha do Lô, aquela vozinha de menino e tal. Foi muito legal! Primeiro o disco chegou, provavelmente, lá em casa. Pelo menos eu o vi a primeira vez foi lá em casa, não sei de quem que era o disco. Sei que foi aquele negócio assim, igual a gente abria o novo disco dos Beatles, “Sgt. Pepper’s”, aí abria todo feliz. Dizia: “Pô. Não é? Fizeram também.” Entra o maior orgulho. Então quando saiu o primeiro disco do Lô foi uma festa nossa assim. Uma festa particular da família. Porque… “Pô, o disco do Lô, Lô Borges, “Tênis” e tal.”

DISCOS
Tênis

Eu participei do “Tênis” só na retaguarda, naquele negócio. Porque o Lô compunha as músicas e nos colocava pra poder fazer os acordes pra ele, pra ele poder inventar o solo, os negócios. E eu que ficava lá, não é? Porque eu que tinha jeito pra violão. Ele não tinha ninguém, então eu ficava: tan-tan-tchim-tum- tan-tan-tchim-tum-tan. Entendeu? Falei: “Nossa!” Não mudava. Outra hora era fazendo no baixo assim: tun-tun-tun-tum-tum, tun-tun-tun-tum-tum. Infinitas vezes, até o Lô resolver o que ele ia fazer com aquilo. (RISOS) Era, eu ficava, eu gostava de ficar ali, sabe? De ficar ali e tal.

DISCOS
Os Borges

A Duca, minha ex-cunhada, ela surgiu com essa idéia, já que estava todo mundo. O disco do Lô tinha estourado, o Via-Láctea, estava tudo dando certo pra caramba. Então ela, ela fez o disco. E o disco foi muito bonito. O disco traz as participações dos ícones da época, da música popular da época. Todo mundo coincidiu, porque a Elis estava gravando no estúdio dois, a gente gravando no estúdio um. Aí o Gonzaguinha já entrou, sabe? Um monte de gente assim. O Guilherme Arantes veio, fez um monte de arranjos, cantou. Eu tinha o maior orgulho de ter feito vocal com o Guilherme. Ainda por cima, também… Aquela coisa. E foi muito legal daquele disco. Mas, agora, a gente não era um conjunto, um Jackson’s Five, uma coisa assim. A gente era uma família que gostava de música. E no momento a gravadora poderia ter dado muito certo, até assim, sabe? Em termos de carreira. Mas no momento a gravadora queria isso: uma coisa profissional. E isso a gente não era, a gente era uma família que gostava de música! Então a gente fez um show em São Paulo que empapuçou, teve um monte de furo. Mas não acho que tenha queimado o filme, não. Porque eu mesma fui fazer… Depois que eu fiz o meu disco, fui fazer um show em São Paulo e sobrou gente pelo ladrão, foi o maior barato. Do lançamento do meu disco, entendeu? Mas na ocasião para Os Borges aquilo queimou um pouco, não é? Aquela confusão dos shows lá, aquela falta de organização, briga. Tinha aquelas coisas da família mesmo. Um: “Pô, esse tom tá alto!” – “Não está não.” – “Então… Então, vai tomar… Não sei o quê.” – “Então, não vou tocar mais não.” Não sei o quê. “Merda, essa corda Mi nunca que tem? Esse tom está baixo pra mim!” Sabe, aquelas coisas? E nos ensaios ninguém chegava. Cada hora chegava um de um lado, não é? O Lô ficou puto porque colocaram ele: “Participação especial do Lô.” Que eu concordo com ele, porque ele não era participação especial. Se o show é dos Borges, ele é da família. Ele ficou invocado com isso. Participação especial, por quê? (RISOS) Eu fazendo o disco, sou Borges, tô na capa, então sabe? A minha participação é de Lô, ué? Normal. E eu concordava com ele. Mas foi furo lá das produções, dos negócios. E eles queriam uma coisa profissional. Nós não éramos profissionais naquela época. Não éramos mesmo! Era aquela família doida que ficava tocando. Só que ali tinha uma maravilha, um arsenal de pérolas dentro da família. Hoje a gente vê tanta gente, sem brincadeira, se dando bem, ganhando dinheiro com as nossas idéias… Eu vejo muita coisa. Falei “pô, esse Clube da Esquina…”, só o que o cara da Esquina já ganhou de dinheiro fazendo show ali naquela placa, não sei o quê. Aí papai fica assim: “Vocês mesmo não fazem nada. Vocês mesmos não produzem nada pra poder… Nada para o povo…” Tudo que tem em Santa Tereza, qualquer escola é Trem Azul, Trenzinho Azul, Azulzinho Dentro do Trem, sabe? Mas tudo é assim, não é? É Clube, é Esquina II, já reparou? Todo mundo explora as marcas, o fato, a família, e fazem. E a gente mesmo continua sendo não-profissional, não pensa nisso dessa maneira. Agora, os que pensam mesmo é o Telo, não é? Eu já pensei… já desisti. O Telo, o Lô, Marilton que – acho que o único cara em Belo Horizonte que consegue ganhar dinheiro com música é Marilton. (RISOS) Não é o único?

DISCOS
Via Láctea

No Via Láctea eu estava preparada pra ir pra… O negócio é o seguinte: eles me apresentaram uma música no momento da gravação. Eu não sabia nada como era a música. Nunca tinha ouvido tocar “Vento de Maio”, nem nada. Foi o seguinte: eu cheguei e o Bituca falou assim: “Você vai aprender cantar isso aqui.” Eu fui aprender a música. Aprendi a música. Aprendia com uma certa facilidade. Aí: “Você vai cantar assim esse pedaço aqui e tal.” Foi tranqüilo. Nós passamos uma, duas, três vezes. Eu errava a letra, outra hora eu errava a melodia, que eu tinha acabado de aprender. Mas não foi muito demorado, não! Tanto que na hora que falou – “Gravando” – A primeira foi a boa. O Bituca, que estava produzindo falou assim: “Matou a pau, Sô!”. Aí eu falei: “Então, tá bom a participação, não é gente? O “Vento”, isso e tal.” (RISOS) Eu queria voltar pra Belo Horizonte. O Bituca falou: “Não, acabou não, você vai gravar a “Clube II”, também.” Aí a “Clube II”, foi mais demorado. Porque aí foi uma coisa que o Bituca ficou fazendo questão disso, fazendo questão daquilo, sabe? E aquela coisa “chatiiinha”, não é? Aquela coisinha só dele mesmo e tal. Chatinha não, perfeccionista. E essa daí demorou mais. Mesmo assim ficou legal. Nós gravamos. Gostei muito de ter gravado. Gostei muito dos poucos shows que eu fiz com o Lô nesse Projeto Pixinguinha. O Lô sempre que ele tinha oportunidade, quando estava fazendo o show desse disco, ele sempre me levava, me chamava pra poder cantar o “Vento de Maio”, e o “Clube”. Mas depois eles me aposentaram dessas músicas. (RISOS) Começaram a chamar outras pessoas para cantá-las. Mas eu sei que as músicas continuam tocando por aí.

Voltar ao topo PESSOAS/DISCOS

Elis Regina/Bom Dia Universo

Eu não queria uma carreira solo na verdade. Eu queria apenas homenagear a Elis Regina. Porque a Elis ia gravar… Nesse disco que eu gravei, o “Bom Dia Universo”, eu tenho uma carta, não sei se está como bilhete. Eu tinha uma carta dela, mas a carta sumiu. Tem também a carta do Museu, eu sei… Mas tinha uma outra carta que eu perdi antes de existir o Museu, entendeu? Ela fala que ela ia gravar duas músicas minhas. Ia gravar “Os loucos” e “O convite”. Porque ela tinha gostado pra caramba. Tanto que ela dá uma bronca: “Vocês gravam direito, porque não sei o quê. Grava a voz na frente. Que eu não estou entendendo é nada. E eu quero essa música e tal.” Aí ela morreu. Aí eu fiquei famosa. Pelo menos no Rio, ou naquela ocasião, em São Paulo por causa da minha bunda, porque era a única coisa que aparecia. Que a Globo entrou… Porque eu quebrei – tive um ímpeto assim – todos meus discos! Sabe, pôr fogo? Loucura! Rá! Quebrei os discos todos dela. Depois eu comprei tudo de novo. Mas quebrei todos os discos assim, sabe? Doído, quando eu soube da morte dela. Todo mundo escondendo de mim! O Lô aparece de óculos escuros e tal. Aí eu ouvi: “Solange, essa…” Estava na hora, mais ou menos, na hora do almoço, assim: “Não liga agora a televisão, não e tal!” Foi aquele negócio, como se fosse uma irmã minha… lá em casa pra me contar, de tanto que eles sabiam que eu era fã da Elis, entendeu? E ainda mais ali, depois que ela já tinha ligado pra mim, sabe? Que ela já tinha escrito. Que era minha chance de ouro, sabe? De ter ela; pô, quem que a Elis Regina gravou que não foi pra frente? Ninguém! Da mesma forma que acontece com o Bituca. E eu teria a força da Elis não fosse a fatalidade que ela sofreu. Aí que eu fiz? Eu não queria fazer uma carreira. Eu queria fazer um disco então, em homenagem a ela. Só isso. E eu fiz, entendeu?

Voltar ao topo TRABALHOS

Atividades Profissionais

Minha banda era o Nico, o Noca, na sua guitarra altíssima, o Gilmar, que detestava quando eu chamava o saxofone dele de corneta: “Pára de tocar essa corneta alto!” (RISOS) Era assim. O Gilmar no sax. Depois foi Evaldo Robson. Mas assim, bateria era o Neném. Outra hora era o Léo, era um amigo nosso, sabe? Eu já toquei com Otávio. Sabe o Otávio do 108? O Otávio, o “ex-Otávio”? Do 108, do estúdio? Otávio tocava baixo comigo. Tocou muito tempo. Porque eu fiz muitos shows com esse Bom Dia Universo. Eu fiz muitas cidades. Muita gente pergunta. O Lô fala que ele entra no meu okurt – sei lá o quê, eu não entendo nada disso – entra lá, e ele fica bobo de ver tanta gente que me procura, que não sei o quê, que aconteceu. Porque eu fiz muito show em São Paulo. Então, a gente tem um público legal no interior, entendeu? Eu fiz Avaré, fiz Campinas, fiz até Guarulhos, sabe? São Paulo fiz um monte de shows do Bom Dia Universo. Já com Bel. Que deu maior pé mesmo. Nessa época era o Chico Fernando, o Nico, o Gérdson, no baixo, Maurinho Rodrigues, nas guitarras, e o Mário castelo, na bateria, quando eu viajei.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

A primeira vez que eu botei uma letrinha, que eu fiz uma “musiquinha”, foi quando o Daniel, há 26 anos atrás, nosso sobrinho faleceu. Com sete aninhos, filho da Sônia. Estava na época do disco d’Os Borges. Falei assim: “Vou fazer uma música pro Daniel, gente.” Aquela coisa, porque a gente sempre lá em casa, com tudo faz música. Qualquer motivo. Se nasce faz música, se morre faz música. Tudo faz música. (RISOS) Então a gente fez uma música pro Daniel. A música saiu no disco d’Os Borges, chama “Daniel”, eu canto e tal, sabe? É mania de fazer música pra tudo; papai faz música pra oração, não é? Uma coisa bonitinha ele têm: as musiquinhas da oração. E mamãe, tudo dela foi música, sempre gostou de música, a vida inteira. Sempre incentivou. Os festivais que a gente entrava ela fazia as faixas todas. Ela sempre gostou. Depois ela começou a acolher essa gente toda de música lá em casa. Sempre foi acolhida, a vida inteira acolheu todo mundo. Por isso que todo mundo era, de uma certa maneira, os músicos mineiros aqui, eles eram todos muito ligados com mamãe, muito apaixonados por ela. Porque viviam todos lá. Você via as intimidades que eles tinham com ela: “O Maricota, não sei o quê. E tal”. O Bituca escondia dentro do quarto dela. (RISOS) Eu assim: “Mãe?” Não sabia que o Bituca estava lá em casa, e tampouco trancado na porta de mamãe, e eu cuido dela, falei: “Ora, quarto trancado.” Comecei a bater: “Mãe?” “Ô mãe, que a senhora tá fazendo aí?”, que eu sempre vou atrás dela, ia atrás dela. Aí o Bituca falava assim: “Não sou tua mãe!” (RISOS) Falei: “Então tá, então é o Bituca que tá guardado ali.” É difícil, não é?

Voltar ao topo ADOLESCÊNCIA

Locais que freqüentava

Eu andava no “Stage House” – não sei se era “Stage House”. Como é que chama aquele ali do Teatro Marília? Hmm… Um bar que tinha ali em cima. Era “Backstage”. É. Em cima do Teatro Marília. Ali era um lugar que a gente se encontrava bastante. Íamos também muito ali no Maletta, mas no Maletta mamãe não gostava porque era sujeira. Então a gente foi no Maletta muito pouco. Os bares do centro. Agora os bares de Santa Tereza, qualquer um que tivesse aberto na hora. De preferência que fosse pertinho de casa. Então a gente ficava nos bares. Agora o bar que eu mais gostava mesmo de freqüentar era o do Lúcio. O Lúcio sempre foi meu amigo, você entendeu? Nunca incomodou comigo, até na época em que eu bebia. Ele era, sabe? Nunca tive problema com o Lúcio. Seu Pedro era muito cheio, porque o pessoal gostava do Pedrão, ia todo mundo. Mas eu sempre gostei, gostei muito, sinto falta também daqueles sabadões de boteco. Sabe aquele sábado que senta com bebedor aberto, falar assim: “Hoje eu vou, hoje eu vou pro boteco cedinho.” Aí você já fica, já levanta com aquela boquinha de pastel, sabe? De tira-gosto. Fala: “Hoje é o dia.” Gostava daqueles sábados prolongados. Sabe aquele negócio que você senta com a família, vai todo mundo pro bar? Não tinha isso lá em casa? A gente tinha isso demais, de ir pro bar. Você participou de vários bares, ia com os nenéns e tudo. Então a gente ia muito pro bar. A gente adorava tomar cerveja no bar, não é? Até que a gente chegou a conclusão que cerveja no bar estava por fora, melhor a gente fazer festa lá em casa mesmo. Aí nós transferimos pra casa toda e qualquer festa e lá vive rolando as festas. Agora o bar que eu mais gosto é o lá de casa mesmo. Porque começou a pegar mal, não é? Mas era todo mundo, mas não era a gente, só a gente. Era a mulherada toda com os nenéns, com os carrinhos, os meninos todos, elas jogando aquelas peles para os nenéns comerem. Pipoca doce – eu lembro disso. Fazendo… “Você pode ferver um leitinho aqui pra mim, pra eu botar na mamadeira?” (RISOS) Tinha muito disso, ué? Mas era uma época da vida da gente que era interessante também, sabe? Porque a gente não fazia nada, a gente estava ali tomando uma cervejinha, jogando conversa fora e mais nada. Mas era, era uma época legal de bar.

LAZER
Cinema

Eu gostava. Eu assistia todo filme que estava fazendo aquele sucesso. Eu sempre fui atrás do sucesso de bilheteria. Então, assim… Mas eu sempre era a última a ir, de preferência na hora que não tivesse mais fila. De preferência quando já tivesse no vídeo. (RISOS) No vídeo que eu ia assistir. Mas eu assisti Help umas 20 vezes, certamente. (RISOS) Uns filmes brasileiros que eu ainda fui ver, Central do Brasil; porque eu não gostava de cinema brasileiro, não. Depois que eu comecei a assistir alguns filmes: do Cazuza, esses mais recentes. Mas eu vi muito filme, é, “Titanics” da vida. Vi O exorcista – eu tomei uma atração pelo diabo que eu vi… (RISOS) Que eu assisti O exorcista assim, umas 15 vezes. Eu adorei aquele filme. Assim porque é aquela coisa de terror. O filme também ficou famoso. Então eu peguei a fila do Exorcista, falei: “Nossa, está todo mundo a fim de ver a menina encapetada!” (RISOS)

PESSOAS
Márcio Borges e Lô Borges

É, eles são meus irmãos queridos, eu não tenho assim o quê, sabe? Eles não… Eu acho que lá em casa meus irmãos… – eu acho eles muito gênios, sabe? – Eu considero gênios mesmo – não é porque são meus irmãos, não, entendeu? Porque eu fico lendo jornal, vejo “nego” escrevendo tanta bobagem, pego um livro aí e leio; vejo, do próprio Paulo Coelho, ele que me perdoe, mas vejo tanta bobagem… aí leio Os Sete Falcões do Marcinho, falo: “Pô, esse cara é gênio!” Entendeu? (RISOS) Sabe? Eu vejo, ligo, fico vendo só pagode… aqueles negocinhos, tem-tem-tem, aquelas mesmas musiquinhas. Vou, pego um disco do Lô, têm aquelas coisas maravilhosas, peço um disco do Telo, tem uma coisa maravilhosa, entendeu? Do Marcinho. Então assim, pra mim eles vão ser, eles vão continuar sendo sempre os meus ídolos, mesmo. Pra mim eles são os melhores, porque assim: quando aparecer melhor, eu vou ter discernimento pra dizer: “Olha, esse aqui é melhor.” Mas, sinceramente pra mim ainda não apareceu, entendeu? (RISOS), no cômputo geral, música melhor do que a de Minas, do que do pessoal daqui, não apareceu. Só que não são divulgadas, porque pra ser legal tem que ser Rio e São Paulo. Eu não gosto de música… Gosto de algumas músicas baianas, mas não gosto dessa invasão baiana, essa coisa, entendeu? Não gosto de axé, não gosto desse negócio de “Boquinha da garrafa”, não sei o quê. Esse negócio que a moçada hoje toda gosta. Mas gosto do Skank, você entendeu? Gosto de algumas coisas, agora não significa que esses caras aí sejam ruins não, entendeu? Só que eu acho, por exemplo, aquele disco que o Lô fez: Um dia e meio, aquele disco, achei bem diferente do Lô, sabe? Do Lô, do som. Eu achei aquele disco diferente do som do Lô, que o caracteriza, sabe? Achei ele bem levado pra esse lado atual. E embora tenha sido um disco lindo, eu preferia – já preferi – esse novo disco dele que parece que ele já deu uma retomada ao estilo dele. Você entendeu o que eu estou querendo dizer? Eu gosto das músicas bonitas gente. A verdade é essa! (RISOS) Que você tem letra, você tem melodia, você tem harmonia. Não gosto de: ton-tchin-tutz-ton-tchin-tutz-ton-tchin-tutz, toda vida. Não gosto, sabe? Não gosto de tan-nan-nan-nan-nan, vai-uidan-ara-ra-ra, ta-ra-ra-ra. Não gosto dessa mesma “coisísse” aí, não tem jeito, entendeu? Não gosto mesmo, não uai!

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: avaliação

Eu considero o Clube da Esquina um movimento. Virou musical depois que se começou a fazer música dentro desse movimento. Porque na verdade era um movimento de pessoas que se identificavam pelas características artísticas. Um gostava de tocar, outro gostava de compor, não sei o quê. Mas sempre houve esse movimento dentro de casa pelo fato… Eu acho que esse movimento é o movimento de 11 filhos de uma família numerosa, sempre hospitaleira, entendeu? Esse movimento que proporcionou essa música crescer dentro desse movimento, entendeu? Então assim, acho que partiu muito mais do movimento entre as pessoas do que propriamente da música, sabe? Porque as pessoas se encontravam lá. Ou é pra beber, ou pra almoçar, ou pra conversa fiada. Depois começaram a fazer música, entendeu? E cada um tinha seu dom e ali ficava. Os meninos, todo mundo gostava de música, sabe? Aí esse movimento musical, pra mim veio a partir disso, entendeu? Porque ele foi levado, ele foi embalado pela música. Mas o movimento rolava. Sabe aquele amor, aquela acolhida que papai e mamãe sempre deram a toda vizinhança, a todo mundo sempre. Essa confusão na minha casa sempre houve, esse movimento que foi virando música, sabe. (RISOS)

CLUBE DA ESQUINA
Fãs

Nossa! (RISOS) “Cadê o Clube da Esquina?”
Tem dia, que eu vou dar um exemplo, teve um que eu falei assim: “Oh, o Museu é vivo, ele não está aqui, não. (RISOS) Saiu andando, não sei onde ele está funcionando, viu?” (RISOS) Mas tem demais, cara! Gente todo dia. Mas vem, aí vão fotografar placa, vão fotografar casa. Tem foto de mamãe lá que “neguinho” vai lá, sabe? Vai lá querer conversar com papai. Muitas vezes a gente, por exemplo, a gente atravessou uma fase muito ruim agora com a morte da minha mãe, com a doença dela e tudo. E essas coisas a gente sempre teve prazer de receber, até porque é um reconhecimento pelo que a gente fez, sem querer fazer, mas fizemos, não é? Assim, fizemos um bem para as pessoas de alguma maneira e isso aí eu gosto de tratar bem, tudo. Mas também, há momentos que isso aí também não é tão bom, de você ser tão visado assim, a casa tudo. Porque não é toda hora que você está… Agora, por exemplo, mamãe estava doente, não é toda hora que eu estou a fim de ficar falando de Clube da Esquina pra um cara de colégio que vem, é o tema, sabe? Aí eu fico com pena do menino… já prometo que vou arrumar um papel. Papai chegou uma época a escrever uma apostila toda do Clube da Esquina assim, pá! “Quem chegar aí você dá assim na mão!” (RISOS). Papai tem um material. Um release enorme. Não tem? Tem, você já leu. É bate campainha: “Toma! É trabalho de escola? Toma!” Sabe? Ele já entregava. Ele fez um monte de cópia dentro do envelope pra eles poderem parar de bater campainha lá em casa um pouco. Procurar. Gincana, cara! Gincana de colégio. Já me fizeram ir pra a Praça do Papa, casar com o Zorro e de noiva! (RISOS) É, o Zorro era quem? Era o Sidnei Moreira? Era um desses caras. É, não é aquele do: “Bem-te-vi, Bem-te-vi…” Como é que chama? É Paulinho Pedra Azul. O Paulo. (RISOS) “Pô, Paul Blue Stone.” Aí eu falei assim: “Nossa!” Ele que era o noivo. Eles não conseguiram levar não. E me encheram. Eu lembro que eu tomei todas! Cheguei lá de noite noiva, não apareceu nenhum noivo pra casar comigo. Vestiram um de Zorro lá. Porque o cara não estava, estava viajando. Então eles não conseguiram a tarefa. Mas aí eles ganharam metade dos pontos. Conseguiram trazer a Solange Borges de noiva.
Quem organizou isso foi o pessoal da Rádio Cidade, na ocasião. Porque a gente, na época estava na moda, não é? Agora, esse Museu é que voltou essa moda. Se bem que nunca saiu de moda! Porque eu ouço rádio assim, eu vejo sempre aquelas rádios que tocam mesmo. Eu vejo o Lô, o Lô vai lá. Ele tem, o Lô pode até não vender disco. E acredito que a partir de agora então ninguém mais venda disco! (RISOS) Mas que ele tem aquele público certo, ele tem. Da mesma forma que o Telo tem, que a gente tem, sabe? Igual teve o evento lá, o Douglas falou comigo: “Nossa, o show estava… na hora que chegou os Borges: uêêê, fez!” Então o povo já tem assim uma história, uma coisa que já vem de muitos jornais. Quando não é pela música é pela tradição da família, pela união. A Rede Globo, uma vez, já passou uma tarde inteira de graça, ninguém pediu nada. Foi rede nacional. Não foi no Natal? O dia 25 inteirinho a Globo plantada em casa, filmando o nosso Natal. A bagunça, a bacalhoada, nesse você estava. Pois é, não passaram o dia inteiro lá? Sem ninguém pedir, sem nada! E foi em rede nacional, aquela coisa, aquela família. E depois a da Maria da escolinha. (RISOS)

TRABALHOS
Composições

Eu fiz uma música com o Telo, que é “Centelha no olhar”, embora eu acho que essa música não seja minha. Porque ele falou, o Telo falou assim: “Botei no disco as frases suas, o que você colocou lá eu considerei digno de registro.” Mas eu fiz pouca coisa nessa música. Eu tinha feito uma coisa, eles mudaram muito. Aí eu não me considero tão autora assim, mas tá meu nome. Porque tem um texto, uma frase lá, duas frases lá, quatro frases, que não são minhas… não sei quantas que eles aproveitaram lá. E eu sempre gostei de escrever. Sempre gostei de escrever mesmo, entendeu? De tocar violão e escrever. Tudo que vem na minha cabeça. Não, eu tinha escrito; aí eu comecei a botar letra nas músicas dos meninos. As primeiras letrinhas ruinzinhas pra caramba. Algumas ruins e tal. Depois fui melhorando, sabe? O Yé é um cara que faz música muito bonita, sabe? O Yé, o Nico, eles têm músicas belas mesmo. Por isso que eu acho que lá em casa, como diz a Elis Regina: “Aquilo ali é uma fábrica…” O César falou: “Isso é uma fábrica de som, nossa!” Porque chegava, cada um mostrava uma música dele. “Essa é sua?” “Nossa essa maravilha é sua?” O cara, cada hora é uma diferente, mostrando. Então, eu comecei a escrever pra essas músicas, sabe? Do meu disco, a maior parte das letras são minhas.

Voltar ao topo DISCO

Bom Dia Universo

No meu disco teve uma coisa interessante, porque eu falava assim: “Eu queria nesse negócio uma flauta bem marrom.” Os caras: “Nossa, uma flauta bem marrom.” (RISOS) Assim eu usava umas figuras assim. E eles entendiam, cara! Sabe aquele negócio assim? Então eu bolei todos os arranjos – “cê não tem um “bagulhinho” aí pra fazer: tsi-tsi-tsi. Alguma coisa assim? Sabe?” Eu queria todos os sons… todos os sons eu que organizei. Porque a gente tinha pouco recurso, pouco negócio, não é? Então, eu lembro que pra fazer um som que a gente queria numa música, a gente abria o piano de corda, e o Gérdson passava uma faca assim, uma palhetona nas cordas: Blur-rr-rr. Aí fazia o barulho que a gente queria, sabe? Então foi assim uma coisa bem artesanal. E eu achei legal porque, por exemplo, você vê os vocais do meu disco: Eu, eu, eu! (RISOS) Todas as vozes são minhas e raramente tem uma voz assim, às vezes, tem uma vozinha masculina ali no fundo e tal. Mas eu que fiz as letras, eu que inventava os arranjos. Depois eu falava assim: “Maurinho, pelo amor de Deus, cê vai fazer um negócio assim pra mim amanhã. Você vai fazer…” Ele: “Uma flautinha marrom?” Falei: “É uma flauta marrom, não pode, sem ser esse periquito esse negócio, tem que ser mais marronzinha.” “Ah, bom.” Sabe? Aí a gente já ia se entendendo. Ia fazendo. Dando nome, apelido, pra variar, nas coisas. “Ah não, essa Jabiraca tá muito esquisita.” “Pode tirar essa Jabiraca!” Jabiraca era uma pianola que eles levavam lá pra botar. Falei: “Esse troço tá muito feio.” (RISOS) Sabe aquele negócio que tinha de “piccolo”, aquele negócio? Falei: “Não, não essa Jabiraca aí tá ruim demais!” E a gente foi fazendo um disco, ficou um disco gostoso demais. Porque não tinha nenhum compromisso com o sucesso. Eu não queria nada disso. Eu queria fazer uma homenagem a Elis Regina, sabe? De quem eu gostava muito, ainda gosto. Só isso que eu queria com o disco. Tanto que tá lá escrito: Olha, agradeço papai e mamãe por ter saído esse disco e tal. Porque possibilitaram eu fazer o que eu queria fazer. Aí começamos a fazer show desse disco. Mas eu não tinha muita vontade de seguir essa coisa. Até porque eu achava uma concorrência, sabe? Aquela coisa dentro da família, igual quando uma vez, quando eu falei pra Isto É, eu falei: “Oh, eu não quero nada de irmã de Lô Borges, não sei o quê.” Porque, por exemplo, você fica pegando escadinha, não sei o que, sabe? Eu fiz esse disco independente do sucesso, independente de qualquer coisa. Eu fiz esse disco porque a Elis Regina morreu, sabe? Mas eu quero continuar sendo Solange Borges aqui, eu não quero fazer sucesso. Eu não faço questão nenhuma disso aí não, de palco. Mas aí que eu vi, que atrás disso vêm a… e como veio, não é? Vieram convites pra show, sabe? Eu tinha… eu falei: “Nossa! Não sabia que tinha que fazer tanto trem depois.” Queria só gravar e ficar quieta. Mas aí tive que trabalhar e gostei da época que eu trabalhei, sabe? Pensei até em fazer um segundo disco, mas foi ficando distante as idéias, eu fui arrumando outra coisa. Fui trabalhar na Secretaria de Saúde. Minha mãe foi ficando mais idosa. Eu como a única filha solteira, fui pegando essa missão de cuidar dos dois e tal. Hoje eu cuido dos “um”. (RISOS)

Voltar ao topo LOCALIDADES

Canadá

Essa minha ida para o Canadá tem a ver com música. Nessa época aí, eu trabalhei bastante nessa época. Explorando esse disco, esse negócio. Trabalhei bastante com música e gostei bastante. Nessa época o Bel, ele me levou; Que era o Bob Bel, ele adorava o Bob Dylan, então apelidamos ele de Bob Bel. Então… (RISOS) Ele sempre de chapéu e tal. Ele é Oficial de Imigração lá. Arremesso de brasileiro pro Canadá, que eu falo. (RISOS) Então ele me levou pra lá, a época de eu tocar; eu andei tocando lá num bar brasileiro, o Copacabana, foi legal pra caramba. Fiz uma música lá com os grupos. E depois… eu trabalhava mesmo. Era uma fábrica de travesseiros, que eu ficava o dia inteiro ensinando os gringos a falar bobagem em português e aprendendo bobagem em inglês, entendeu? Era o que eu fazia lá. Ah, era coisa divertida, adorava, passava oito horas do meu dia depois, quando eu enchia o saco de ficar tocando lá; porque lá no Canadá era difícil, a gente cantava e depois vinha cantada, você entendeu? Era uma coisa meio que não entendiam muito aquilo direito, não. Acho que eles não entendiam o espírito da coisa, não, sabe? Depois que fazia o show, o “neguinho” achava que devia ir lá e traçar, entendeu? Aí eu falei: “Não, vou brincar de outra coisa aqui, ué?” Já que eles… (RISOS) Falei: “Vou abandonar totalmente esse palco aí.” Daí você sai do palco todo mundo: “Ué?” (RISOS)

PERSONALIDADES
Grupo Sepultura

Eu não dei aula de violão para o Sepultura! Foi porque eles estavam tocando com um violão desafinado, que estava me doendo a cabeça, a guitarra estava desafinada. Mas aí depois, até o Max, ele me explicou o que era: é que a corda Ré deles estava emendada e só dava pra ir até ali. (RISOS) Entendeu? Eu falei: “Gente, pelo amor de Deus.” Eu entrei lá no meio do ensaio deles, ele até deu uma inquietação: “Entrou uma louca lá, falando que estava tudo desafinado, começou a afinar os “trem” todo.” Mas eu entrei, uai, eles estavam tocando quase dentro da minha casa, porque é do lado ali. Aí eu peguei, cheguei: “O, gente pelo amor de Deus, vocês me desculpem, não tenho nada com isso, não, mas há uma nota alta e desafinada pra caramba, uai! Vocês têm que melhorar isso aí, uai! Eu tô falando de vocês porque eu tenho ouvido, pode tá ligado, hein? Aqui a gente tem ouvido. E aí está desafinado. Está ficando feio por causa dessa nota!” Falei assim: “Tô gostando do som, mas tá feio.” Falei: “Pô, ninguém me perguntou nada que eu entrei aqui falando.” Ele falou: “Pô. Ah meu, mas sabe o que que é…?” Eu levei… porque, assim, era tudo muito amador na época, aquela coisa, até o Sepultura. Peguei, levei uma corda Sol, e o Sol arrebenta demais – o Sol não, é o Ré, aquela do meio – eu tinha uma corda… falei: “eu tenho uma corda Ré de guitarra novinha. Graças a Deus.” Aí levei lá pra eles. Pra eles pararem de emendar e poderem subir a corda no tom certo. Aí: “Valeu Solange.” “Tá.” “Obrigado.” E tal. Mas eu cheguei lá, dei uma esculhambação, falei: “Pô, se tivesse pelo menos o trem afinado.” “Tá horroroso isso aí!” Porque o Sepultura ficava aquele trem, não é? Liga o som, liga os negócios. Que o som deles deve ser um negócio. Liga todo mundo em cima dos pedais, aí: “Pode começar a arrotar.” Aí o cara: “Bruooo.” Pra mim o som do Sepultura era isso aí. Eu falei: “Pô e ainda com a guitarra desafinada?” Sabe? Então falei: “Não dá.” E foi. E os caras, eles achavam engraçado porque eu falava isso na cara deles. E eles achavam engraçado e tal. Mas depois no final ele falou assim; teve um grito, deu uma declaração também, ele falou assim: “Eu mijo, não é?”, não… “Eu escarro no Clube da Esquina”. Eu falei: “Eu continuo colocando flores na Sepultura.” (RISOS)

TRABALHOS
Atividade de escritora

Ah, o livro é o seguinte: mamãe também nos ensinava, igual Jesus Cristo, ela ensinava via parábolas, não é? Ela inventava um… Depois, eu não quis fazer homenagem póstuma não, sabe? Mas a gente falou: “Pô, mamãe.” Toda hora lembra dela, alguma coisa que ela falava. E ela tinha mania de inventar nomes pros objetos da casa, para as coisas. O nome original não vinha na cabeça dela, daí ela inventava o primeiro nome que vinha na cabeça e aquilo tomava aquele nome. Igual, por exemplo, “o escutador de bolero”, é o aparelho auditivo. Então é “o escutador de bolero.” “Pega o escutador de bolero aí.” “Que que é isso mãe?” “Escutador de bolero?” “É o aparelhinho de, de botar no ouvido.” Então assim, sabe? Então ela teve tanta coisa, tantas frases, tantas máximas mesmo, tantas pérolas que ela disse. Falei: “Pô, eu vou escrever As Pérolas da Dona Maricota.” Era muita coisa engraçada, sabe? Muito nome: “trombolho”, “furdunco”, “trapizonga”. Os nomes que ela xingava os meninos lá em casa, como é que? “Furdunco”, “trapizonga”, “tibolosco”, ela usava assim, “pratibanda”. Isso tudo você olha no dicionário não tem. “Bengola”. Você sabe o que é “bilingo balaco”? Alguém sabe me responder? Lá em casa todo mundo sabe o que é “bilingo balaco”. É o controle remoto da televisão. (RISOS) De qualquer televisão. A gente fala, não é? “O meu bilingo tá sem pilha.” “Vê se acha “bilingo balaco” de papai aqui, tal.” Mamãe deu: “Esse ali fica só no bilingo balaco, bilingo balaco, bilingo balaco, e não deixa assistir nada.” “ele não deixa num canal só.” “Já tô farta desse bilingo balaco do seu pai.” Ficou “bilingo balaco”, sabe? E assim vai de dezenas, centenas de termos, não sei o quê. Aí eu resolvi fazer As Pérolas da Dona Maricota. Resolvi contar um pouco da maneira como ela nos criava e como ela se valia desses ditados, dessas expressões pra nos criar, entendeu? Pra facilitar a comunicação dela com a gente, entendeu? “Pipoco”. Então, algumas palavras davam pra significar uma série de objetos. E ela então, ela inventava mesmo. Sabe? “Lingüinha de curar bicheira.” Se você fosse falar mal de alguém, ela te chamava de “lingüinha de curar bicheira.” Ela não queria nem saber se foi mal de quem, o que tinha feito: “Não pode falar mal de ninguém! As boas e as más, com quem as faz! Não admito que falem mal de ninguém aqui! Todo mundo tem defeito!” Ela nunca deixou a gente falar mal de quem quer que fosse. Chegar pra falar mal… “O lingüinha de curar bicheira. Mãozinha de finado.” O que é mãozinha de finado? É o nome que ela dava pra todo mundo que ficava fuçando nas coisas dela, nos armários, nos… “Eh, mãozinha de finado!” Não sei porque também, mãozinha de finado. Sabe, eu resolvi contar assim, um pouco da personalidade dela. Da história do jeito lindo que ela nos criou. Da forma dela dar amor, dar repreensão também. Sabe dar educação. E inventando as palavras. Inventando palavras, não era? “Bodanca”. “Bodanca” é marido, qualquer marido da família independente. Só que as condições pro cara ser “Bodanca”: ele tinha que ser mal-humorado. Aí eu digo até assim no livro: “Pô, nem todos os maridos eram “Bodanca”.” Embora mamãe afirmasse que todos tinham seu dia de “Bodanca”, sem exceção. (RISOS) Ela incluía papai também, o dela também. Então assim eu falei: “Pô, legal, eu vou escrever isso, sabe?” “Vou fazer as pérolas de mamãe.” E comecei a escrever, fui lembrando, fui lembrando. No início eu queria fazer um manual. Assim um “manualzinho” com os negócios. E a… vou dizer assim, a definição da palavra, do que era aquilo, do que ela chamava aquilo. Quando eu vi… sempre usava, usei um caso para poder ilustrar. Acabou que eu já estava contando como mamãe nos criou. Tem hora que a gente está adolescente. Tem hora que a gente está… Só pra justificar, contar a história daquele termo. E tá super engraçado. E super triste também. Porque o final dela também foi super triste. Tá assim: você morre de rir e pode morrer de chorar também. Dependendo do que você tiver lendo lá. E eu fiz esse livro. Adorei ter feito porque eu gastei, foi um prazo que eu dei, porque eu falei assim: “Esse ano, pra eu não ficar só pensando em mamãe…” Porque mamãe foi, foi uma das pessoas com quem eu mais convivi. A última coisa que eu tinha mais medo da minha vida, sempre foi, era de perder papai e mamãe, entendeu? E mamãe eu assim; porque mamãe adoeceu de 2003 pra cá, não é Claudinha? Mas idosa, idosos os dois já são há mais tempo, entendeu? Que já não pode ficar sozinho, não sei o quê. E eu tive esse, essa coisa com os dois, de ficar só eu, ir lá tratando. Dodote morava com o Dinho aqui em casa mesmo. Quer dizer, eram todos casados, não sei o quê, eu que ficava por conta dela. Então eu tinha essa coisa de fazer um “mingalzinho” e tal. E eu falei assim: “Pra eu não pirar…” Porque eu pirei! Quando ficou confirmado que mamãe estava dançando. Eu pirei, sabe? Fui fazer um monte de bobagem. Que nem vem ao caso. Mas, sabe? Pra eu não pirar mais, entendeu? (RISOS) Pra eu segurar a onda da minha cabeça assim, eu falei assim: “Pô, vou escrever isso aqui.” “Aí eu ocupo meu tempo lembrando dela e…” Tu sabe? Fazendo coisa mais legal. Entendeu? Porque eu fiquei muito deprimida demais da conta. Com o falecimento da minha mãe, sabe? Demais da conta mesmo. E depois ainda veio o Celo. Aí deu aquela caidona. Mas, foi muito difícil, sabe? Porque assim eu fui muito acostumada com ela. Eu, minha vida, falei assim: “O que eu vou fazer agora?” Minha vida é andar atrás de mamãe. Porque mamãe inventava moda demais. Era na cadeira de roda, pensa que ela não sossegava, não. Eu cheguei pra papai um dia, falei: “Papai, eu não agüento mais seguir mamãe, pai.” “Eu não tenho o pique dela!” “Mamãe chegou da rua, agora cinco horas da tarde, tá querendo ir lá pro Extra, pai.” “Pelo amor de Deus, me livra dessa.” Sabe, aqueles negócios? Mamãe de cadeira de roda. Então tinha que ir, sabe? E aí, quando eu perdi minha mãe, eu falei: “Vou fazer uma coisa qualquer.” Bom, aí eu comecei a pensar nelas, nas coisas dela, nas coisas boas dela, pra poder sair de uma depressão profunda assim que eu entrei, sabe? E graças a Deus, tô bem melhor, porque não vai, vai trazer ela de volta aquela depressão. Mas assim é com um descontrole; que cada um reage da sua maneira. E eu achei esse negócio de perder mãe o pior negócio do mundo que já inventaram, foi isso. (RISOS)

Voltar ao topo MUSEU

Clube da Esquina

Nossa, eu achei genial essa idéia do museu! Mas como nesse país tudo se copia, você vai ver que tem museu de tudo. Está todo mundo fazendo museu aí, já reparou? A partir do museu do Clube da Esquina. Já andei notando, tem museu de tudo. Mas foi… é demais cara, fazer um negócio deste. Primeiro porque você mantém vivo uma coisa que continua viva. Porque você não pode morrer enquanto há vida, enquanto a vida não acabar você não pode matar uma coisa. E essa coisa tá viva, sabe? Então; porque estava assim meio dormindo e tal. Uma coisa tão grande, tão forte assim, pra tantas gerações. E estava meio dormindo. Marcinho fez despertar isso, porque isso aí não deve ser esquecido, isso faz parte da história. Da história de Minas Gerais. Da história cultural de Minas, sabe? Faz parte da tradicional família mineira. Que nós somos a tradicional família mineira, de muitos filhos, aquela família numerosa, hospitaleira. Então, juntou tudo isso. Então acho que teve uma idéia de gênio, como todas as idéias que eu acho que ele tem, sabe? Porque eu considero ele gênio. Considero meus irmãos todos gênios no que fazem, sabe? Os meus irmãos são gênios. Embora, na brincadeira que nenhum deles me bata depois, é que eu sempre falei para as minhas cunhadas: “Jamais me casaria com nenhum deles.” (RISOS) Naquele negócio, porque marido é muito ruim.
Mas agora eu tô curtindo, não é por causa dos meus irmãos, não. É porque eu nunca pensei em marido; porque minhas irmãs, eu sempre tive muita irmã casada. E aquele negócio de marido, aquele negócio de compromisso. Eu falei: “Nossa, eu não vou casar não! Pensa nisso, eu tô aqui a fim de tocar um violão e não sei o quê, e chegou meu marido eu tenho que ir lá botar janta pra ele.” Nem! Aí eu fiquei pensando assim. Fui me afastando mais. Falei: “Não, eu vou namorar, tudo, mas marido eu não vou querer não.” E, como lá em casa pra ter filho, tinha que ter marido. Então optei por não ter nenhum dos dois. E fui… (RISOS) Se eu pudesse ter um filho sem marido, eu até teria tido, mas lá em casa não rolava. Então, eu falei: “Então não vou ter nem marido, nem filho!”

TRABALHOS
Parceria

É, eu fiz uma música com o Yé foi no dia… O Celo faleceu no dia 23, não é? Na véspera de Natal. O Yé no dia 24, chegou do enterro e falou: “Eu fiz essa música aqui e tal.” Aí ele falou assim: “Vamos fazer”. Tipo assim, não precisava nem falar, mas “Vamos fazer.” Falei, pro Celo, claro. Eu estava com a minha cabeça muito ruim. Eu falei, cheguei no próprio Celo, depois da missa de sétimo dia. A Sandra já tinha viajado. Eu falei: “Oh Celo, me ajuda aí cara. Me explica como você cantava?” (RISOS) Cheguei pra ele e falei assim: “Me ajuda aí, já que você tá aí exercendo o poder completo. Me dá uma força aí? Porque sua mãe está viajando, queria tanto mostrar essa música pra sua mãe amanhã. E eu estou sem idéia nenhuma, cara!” Aí conversei, fiz essa oração com ele lá, acendi uma vela e tal. “Me ajuda aí que eu queria… Eu não escrevi nenhuma linha, sua mãe chega amanhã, eu queria mostrar pra ela amanhã.” O Celo me ajudou. Acho que essa música é do Celo, inclusive. É porque na hora… depois… na mesma; depois acabei o trabalho e tal, que eu fiz ali um “trabalhinho”, uma oração. Mais tarde acabou o futebol, botei papai na cama, vesti o pijaminha nele, aquelas coisas, dei remedinho. Então tranquei tudo. Falei: “Agora vou fazer aquela música!” E saiu a música toda, a letra toda. Sabe? E ficou legal.
Porque na verdade estou falando com o Celo, porque tem hora que eu falo assim: “Hoje foi você, amanhã sou eu.” Quero dizer, é um entra e sai danado, um sobe e desce danado. As maternidades tão lotadas e os velórios também, entendeu? Então assim, cada um já vem com a data da validade ali carimbada: acabou. Sua passagem tá carimbada cê vai, cara. Fala assim: “Ah, o Serginho do São Paulo foi negligência.” Foi nada! Foi o Todo Poderoso, chegou: “Serginho, vamos embora?” (RISOS) Sabe? Pra mim é assim que rola. Entendeu? Com a exceção do suicídio. Porque aí foi uma coisa que o cara próprio interrompeu. Mas fora isso, não. E da mesma forma foi com o Celo, ué? Deus quis nos dar essa prova. Nossa família é muito grande, a gente não ia ficar impune. Impune que eu digo é assim: Deus não ia ser diferente com os filhos todos que ele tem na Terra, não é isso? Você vê aí, pô, você lê no jornal famílias… Sandra mesmo perdeu uma, uma amiga. Você lembra que ela chegou na véspera do Natal, morreu a família toda assim. Pai, filho, a mãe, os filhos, tudo dentro duma van. Todo mundo, não sobrou ninguém da família. Quero dizer, nossa família enorme, agora que nós estamos começando a sofrer nossas primeiras duras perdas. Então acho que vai ser o normal da vida de todo mundo, porque ninguém é eterno aqui. Fica faltando um pedaço. Fica um buraco cheio de flor, igual Marcinho falou. E lá em casa vai ter que ser um buracão. E haja flor. (RISOS)

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: considerações finais

Não tenho mais nada pra contar. Porque assim: posso até lembrar, mas depois. Porque lá em casa é muito cheio de ocorrência, de história, sabe? Assim, senão essa entrevista aqui não acaba. Porque sempre que você chega lá tem uma novidade! É um enredo lá, assim sabe? Dá um livro, dá uma idéia assim: “Ah, a minha vida dá um livro.” Dá uma enciclopédia, sabe? Dá um, dá uma Bíblia, entendeu? Lá em casa dá uma Bíblia, se você for contar, sempre cheio de menino. Eu fui correndo, eu falei: “Pô gente.” “Filho a gente evita, mas sobrinho é inevitável.” Eu falei assim: (RISOS) “E se eles inventassem uma pílula pra evitar sobrinho…” (RISOS) Já que os filhos a gente dá jeito. Mas os meninos, eles vão chegando impassivelmente eu lá, eles vão chegando é uma alegria, por causa da… sabe? Por isso que eu até agradeço. No livro eu agradeço os meus irmãos por eles multiplicarem essas pérolas. Eu não tenho filho, mas não precisava ter também. É o tanto de filho que eu já tenho dentro de casa o dia inteiro. Aqueles meninos todos lá e tal. É tudo filho cara, sabe?
Gente, eu agradeço a oportunidade de estar aqui batendo esse papo legal, lembrando essas boas histórias que deixaram saudade. Mas que continuam vivas, não é? As histórias; Porque enquanto eu tiver viva, vou ter história pra contar. (RISOS) Sabe? Não estou parada. Então a história eu espero ter, histórias mais, daqui pra frente, histórias mais alegres pra contar. Embora a passagem de uma pessoa não seja um motivo tanto de tristeza. Tristeza pra quem fica. Porque lá no céu rola maior carnaval, a cada um que chega. Eu tenho certeza! (RISOS)

Fale na Esquina

Uma mensagem para Solange Borges

  1. Luis Fernando disse:

    Achei um testemunho maravilhoso pois tem a visão feminina né? Que no grupo não existe. Não sabia do seu disco, conhecia apenas a participação no disco do Lô. Sua reação no dia em que a Elis nos deixou; nunca vi nada mais natural, se tratando de quem ela significava para você e todos nós. Meus sentimentos pela perda da sua mãe e do Celo. Também achei super legal a pílula dos sobrinhos: minha primeira namorada tinha uns trinta quando mocinha, pois tem quinze irmãos. Morei em Niterói uns vinte anos e fiquei mais curioso ainda sobre esse castelo de Mar Azul, que já tinha ouvido falar. Deve ter sido muito divertido! Você já leu o depoimento do Ze Rodrix (era Zé Rodrigues) ? Muito legal todas essas estórias. Boa Sorte!