Tadeu Ferreira

| | |

« « Retornar a página anterior

Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/Local e data de nascimento

O meu nome é Tadeu Ferreira Rodrigues da Silva. Eu nasci, por um acidente de percurso, no estado do Rio de Janeiro, na cidade de Barra Mansa, em junho de 1953.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Pai/Irmãos

O meu pai trabalhava no Grupo Votorantim e nesse período ele foi transferido para Barra Mansa. Mas logo depois nós fomos para Bahia, para Santo Amaro da Purificação. Moramos lá dois anos e meio – na terra do Caetano – e voltamos para Minas em 1960. Eu me considero um tremendo mineiro, com certeza. Eu tenho um irmão mais velho paulista, seis fluminenses, uma baiana e três mineiros.

Voltar ao topo ADOLESCÊNCIA

Entrada na adolescência

Quando nós viemos pra Minas, eu morei no interior, no município de Ouro Preto, na siderúrgica – a antiga Usina Wigg – em Miguel Burnier. E vim para Belo Horizonte no final de 1963, para estudar. Aí morava em pensão, junto com dois irmãos mais velhos. E tive uma vida, vamos dizer assim, de rua, sem pai e sem mãe para vigiar e, de certa forma, sendo um garoto no meio de adolescentes. Eu me auto-intitulo um boêmio precoce. (risos)

Voltar ao topo TRABALHO

Atividades profissionais

Como eu vim de uma família grande, a gente tem que ajudar o pai. Eram onze filhos. Mesmo com um bom emprego, a gente tinha que trabalhar. Em 1970 o meu pai acreditou na minha capacidade de trabalho e nós compramos uma mercearia, onde eu havia trabalhado de balconista por uns dias. A mercearia não estava indo bem; eu enchi a cabeça do meu pai e ele acreditou. Eu tinha, na época, uns 17 anos e ele deu uma força: comprou a mercearia para eu trabalhar com meus irmãos. Daí entrei no comércio.

Voltar ao topo PESSOAS

Fernando Brant

Essa mercearia ficou com o nome do antigo proprietário – era o Supermercado Marcelo. Era no bairro Anchieta, na rua Vitório Marsola. Foi uma experiência muito interessante. O negócio deu certo. A gente cresceu. Tinha uma padaria ao lado que não deu certo. Nós ocupamos o espaço da padaria e fiquei com a loja, onde a pequena mercearia estava fechada por um ano. E como eu já tinha uma grande vocação boêmia e para bar, nesse espaço da antiga mercearia eu abri o meu primeiro bar. E foi através desse primeiro bar que eu tive contato, para a minha felicidade, com o Fernando. “Travessia”, naquela época, eu considerava um grande hino. Aquela coisa da gente adolescente, “…solta voz na estrada…” – isso é tudo muito bonito. O Fernando ia buscar cerveja. Ele e a esposa dele, a Leise – por sinal, uma grande figura por quem eu tenho uma grande admiração. Daí, logo que eu abri o bar, nós estreitamos o nosso relacionamento. Ele ia comprar cerveja lá, porque tinha se mudado para um prédio em frente à mercearia. E logo que eu abri o bar, nós passamos a ter uma convivência mais próxima. Criamos uma bela amizade. Uma amizade que eu tenho pela família, por todos os irmãos. A gente ainda brinca que eu sou o décimo primeiro da família. (risos)

Voltar ao topo LOCALIDADES BELO HORIZONTE

Bar do Tadeu

O bar ficou conhecido pelo meu nome. Ficou conhecido como o Bar do Tadeu. Não tinha uma placa, não tinha nada. Era uma coisa despretensiosa. Eu enxergava um amadorismo muito grande em alguns bares, e eu queria ter um bar que eu tratasse o cliente como eu gostaria de ser tratado. Então foi uma coisa assim. Daí não tinha uma placa, não tinha nada. Era uma coisa pequena e tal. E começou. E com a participação do Fernando a coisa virou, o negócio pegou uma dimensão muito grande. O Fernando brincava, dizendo que ele tinha transferido a sala de visitas e o escritório dele para o meu bar. Então ele morava num apartamento pequeno e todas as visitas ele recebia no bar. Com isso ele criou um ponto de encontro muito grande dessas pessoas todas, ligadas principalmente à música.

Voltar ao topo TRABALHO

Atividades profissionais

E nesse período o Fernando fez um trabalho com o pessoal do Grupo Corpo e o encontro era no meu bar. Eu acabei participando também do espetáculo “Maria, Maria”, que foi o primeiro trabalho de balé que o Fernando fez com o Milton Nascimento e o coreógrafo argentino Oscar Arrais, junto com o Grupo Corpo. E eu embarquei nessa história. Fiz a assistência de cenografia. A princípio seria com Eulo Maia, mas houve um desentendimento e quem acabou fazendo o cenário foi a Suzana Otero. Eu passei a trabalhar com ela e fiz assistência de cenografia do espetáculo “Maria, Maria”, em 1975. Depois fiz também com eles “O Último Trem”, com a mesma equipe. Nesse período eu coloquei um amigo que ficou como gerente do bar. Então a gente dava um jeito de dar uma saída e de fazer as coisas.
“Maria, Maria” foi um espetáculo fantástico. Foi muito bonito. Foi um sucesso total. Fez muito sucesso no exterior. As viagens fora do Brasil eu já não fiz. Eu não participei porque em 1976, durante uma turnê em Brasília, eu fiquei por lá com um grupo e nós fundamos uma escola de fotografia, a “3×4 Escola de Fotografia e Cinema Super-8”. Nesse período eu abandonei o bar. Deixei com os meus irmãos e morei em Brasília. Foi um projeto com o Juvenal Pereira, Quinersem, uns fotógrafos ligados à área de jornalismo. E foi um projeto, vamos dizer assim, muito bonito – poesia pura. Um projeto que durou pouco tempo, mas foi fantástico. Foi muito interessante também.
A escola, infelizmente, não teve vida longa e depois dessa experiência eu voltei para Belo Horizonte. Nesse período fiz um estúdio de fotografia com o Cristiano Quintino, tentando sair um pouco do bar. O bar teve uma invasão muito grande de pessoas, uma tietagem muito grande e nós fomos expulsos do bar, de certa forma. Virou um tumulto. O bar passou a ser até uma coisa desagradável depois de um certo tempo. E eu fiquei muito desgastado com isso. Aí eu voltei a fazer esse trabalho de novo com fotografia. E foi quando o Tavinho Moura já freqüentava o bar, o Murilo Antunes, o Beto. Eu já conhecia essa turma toda. Aí eu participei com o Murilo Antunes, com o Tavinho Moura, do filme “Cabaré Mineiro”, que, a princípio, chamaria-se “O Aventureiro São Francisco”, mas que no decorrer das filmagens mudou o nome para “Cabaré Mineiro”.
O “Cabaré Mineiro” era um projeto do Carlos Alberto Prates e era um filme muito interessante, que se chamaria originalmente “O Aventureiro São Francisco”. Mas durante as filmagens, um acidente de percurso, vamos dizer assim, acabou rebatizado como “Cabaré Mineiro”. Foi um trabalho muito interessante e muito divertido de fazer, do qual eu participei da produção e fiz algumas fotografias de cena para o Carlos Alberto Prates, porque ele havia me pedido. Tem uma curiosidade, uma coisa muito interessante, porque em Montes Claros nós conseguimos o salão paroquial, onde foi feita uma réplica de um cabaré. (risos) E tinha uma cena maravilhosa com a Tânia Alves! Então tinha a orquestrazinha do lado e o pessoal dançando. Aí teve figuração com o Augustão, Bala Doce, figuras folclóricas do lugar. E foi um negócio fantástico. Então foi reproduzido um cabaré e o palco com uma passarela. E no fundo tinha um painel que foi pintado pelo Godofredo Guedes, pai do Beto. Foi muito interessante, porque aquilo ali me despertou uma coisa. Falei: “Poxa, é isso aqui que a gente precisa fazer em Belo Horizonte de novo.” Fazer um pequeno cabaré, uma casa voltada a música, essa coisa toda. Depois, em 1985, eu fiz junto com o Wagner Tiso e o Cláudio César.
Eu peguei logo no início da produção, mas eu ficava mais em Belo Horizonte. Eu fazia os contatos e a colocação de pessoal. Mandava buscar em aeroporto. Eu fiz uma assistência de produção e quando eu fui, fiz o acompanhamento no set de filmagem. Fiz algumas fotografias para o Carlos Alberto, algumas fotografias de cena. O Tavinho fez a trilha e ele conhece muito mais, pois ele participou. Foi interessante. Era a história de um jogador que subia o Rio São Francisco no vapor, jogando um carteado. Era o Paixão e o ator foi o Nélson Dantas. Era uma história muito divertida, muito engraçada. Então tinha participação de Tânia Alves, da Eliene Narduti… (risos) Mas foi bastante divertido. Foi em Montes Claros. A gente teve uma locação em Grão Mongol, em Contria. Então foi para o Norte de Minas. E foi um trabalho muito interessante.
A história do salão paroquial foi assim: precisávamos de um espaço amplo na cidade, onde se criasse esse ambiente. E o que foi conseguido na época, curiosamente, foi o salão paroquial. Então foi com isso aí que foi feito. E ficou muito bem feito, muito interessante.
A repercussão do filme foi interessante. Eu acredito que o filme não tenha sido um grande sucesso de bilheteria, mas quem viu gostou. Depois eu não fiz um acompanhamento assim… O Carlos Alberto, o Tavinho, têm uma informação maior. Foi um sucesso de crítica, com certeza. Aí veio a idéia de fazer o Cabaré Mineiro.


Bar do Tadeu/Bar do Lulu

Belo Horizonte é um mercado complicado e eu com isso acabei voltando para o boteco. E fiz um barzinho de novo no Santo Antônio e também não pus nome. Mas ficou conhecido. Seria o Cor de Rosa, que era um predinho antigo, de esquina, onde funcionou uma mercearia. Mas virou o Bar do Tadeu de novo. De certa forma eu não queria, porque a gente já tinha sido invadido uma vez e lá aconteceu a mesma coisa. Depois se transformou no Bar do Lulu, que foi um bar conhecidíssimo em Belo Horizonte. Um ponto que também marcou a cidade.

Atividades profissionais
E, paralelamente a esse bar, ainda fiz a produção do filme “Chico Rei” e também participei com o Fernando Brant, o Milton e o Oscar Arrais do outro espetáculo deles, “O Último Trem”. Então ainda estava tendo essa atividade. O bar, para continuar reunindo as pessoas e como uma fonte de renda mais fixa. E algumas produções… Porque você tem uma produção hoje, depois fica desempregado, depois faz uma coisa. Então o bar era para dar continuidade ao encontro dessas pessoas, que continuaram a me acompanhar. O bar era muito pequeno, mas foi um sucesso, o que foi complicado também. Ainda na existência desse bar, eu já estava um pouco desanimado com ele e a gente fez o filme “Idolatrada”, do Paulo Augusto Gomes. A equipe de produção se alimentava na Pizzaria Dona Derna, que o Nemo Biaggi, filho da Dona Derna, patrocinou isso pra gente. E ele, nesse momento, havia perdido a mãe e me ofereceu a casa, a Pizzaria Dona Derna. Aí nós revivemos a Casa dos Contos, que era o nome original. Eu fiz junto com a atriz Nely Rosa, em 1981.

Casa dos Contos/Cervejaria Brasil
Eu já queria fazer uma coisa menos pessoal, onde eu aparecesse menos e pra que as pessoas pudessem freqüentar sem uma invasão muito grande daquelas que não faziam parte. E aí fiz a Casa dos Contos, em 1981, com a Nely Rosa. E de novo virou ponto de encontro desse pessoal todo. Somou a turma da música, da fotografia, do cinema – que eram as pessoas que eu tinha uma ligação maior – e o pessoal do teatro, que acompanhou mais a Nely Rosa. Não houve um racha, mas depois eu saí da Casa dos Contos. Fiz a Cervejaria Brasil e a Casa dos Contos, que até hoje é uma casa mais freqüentada pelo pessoal do teatro. E os meus botequins ficaram mais com o pessoal da música, que valeu até uma brincadeira do Ferdi Carneiro, no Pasquim. Ele fez uma brincadeira comigo, me comparando ao flautista de Hamlin. Onde eu ia, ia aquela corriola atrás. (risos)

Fernando Brant
Com o Fernando sempre tive uma convivência muito interessante. O Fernando é uma pessoa de fácil relacionamento. É uma pessoa muito afetiva, muito carinhosa. É um grande irmão. A presença dele sempre foi muito marcante. Dessa convivência veio um tio dele, que todos nós, carinhosamente, tratamos de tio Mozart. Ele é vivo e é uma figura fantástica. Ele declamava alguns poemas e tinha um poema dele fantástico, “E a puta morreu”. Eu lembro que ele, às vezes, no final da noite, declamava: “Dois soldados e quatro velas/ Velaram a noite inteira por ela/ Outras putas vieram e perguntaram/ Para quem ficarão os vestidos dela?” Sei que termina assim: “Um deputado mandou flores/ Não houve notícia fúnebre nos jornais/ E os filhos da puta não souberam.” (risos)

Bar Brasil
Teve uma vez que o Tadeu Franco veio para Belo Horizonte e morava sozinho. Nessa época já era o Bar Brasil. E o Tadeu não saía de lá. Era o ponto dele, era o ponto de encontro, o que lhe valeu uma brincadeira. Teve um dia que um amigo dele passou e o Tadeu estava lá no bar. Ele falou: “Tadeu, tudo bem? Vai sair de casa hoje?” (risos) Aí virou uma brincadeira, porque alguns chamam o bar de Lar Brasil. Então é o Lar Brasil.
Ali era o local onde o Fernando encontrava com todo mundo. O Bar da Vitória, o Marsola, o Bar do Tadeu… O Tuti Maravilha também fez vários shows em Belo Horizonte. Ele produziu vários shows. Então, após os shows, baixava todo mundo no meu boteco. E tivemos algumas passagens complicadas, de pessoas que não entendiam o ambiente. Tinha um sujeito muito maluco, um tal de Cipó, que bebia muito, se drogava, e fez uma cena ruim, mas acabou tudo certo. Se não me engano foi num fim de tarde, no Francisco Nunes. Estava o Luiz Melodia, Rosinha de Valença, Copinha e o bar lotado. Esse sujeito chegou, quebrou mesa… Foi uma correria, uma confusão. E eu, como sou uma pessoa muito grande e muito forte, corajoso para caramba, sempre tive que peitar essas pessoas. E eu era a única pessoa que o Cipó respeitava. E ele era enorme e eu, com dedinho em riste, encarava o sujeito – e ele me respeitava. Então eu sempre me fiz respeitar dessa forma. Mas era desgastante. Foi complicado o final da história do bar.

Cabaré Mineiro
Nesse período nós fizemos o Cabaré Mineiro. Eu saí da Casa dos Contos e fiz a Cervejaria. Foi quando houve uma divisão de público, vamos dizer. E essas pessoas continuaram freqüentando a cervejaria. Eu tinha a intenção de fazer uma casa pra música, por causa da dificuldade do músico em Belo Horizonte, por aquela coisa de tocar num botequim, em um local totalmente improvisado, nos bares… E eu sempre fui contra isso, porque eu acho que a música deve ser tratada com mais respeito, principalmente o músico. Eu não era contra a música em bar, só que eu achava que um bar que eu viesse a fazer deveria oferecer um tratamento melhor. Daí surgiu a idéia antiga do filme “Cabaré Mineiro”, que foi o que deu a origem. Logicamente foi com a autorização do Carlos Alberto. Eu pedi emprestado o nome do filme pra gente criar a casa e fiz junto com o Wagner Tiso e o Cláudio César, em 1985. Nós criamos o Cabaré Mineiro, que foi uma casa de espetáculos. Fizemos grandes shows. Marcou uma época em Belo Horizonte também.
Praticamente todo mundo se apresentou no Cabaré Mineiro. Nós ainda pegávamos alguma carona com a participação do Wagner no Rio e essa coisa toda. Pegamos alguma carona no Free Jazz e fizemos alguns shows internacionais também. Fizemos o show do Winton Marsalis, fizemos o show do Wayne Shorter, fizemos o do Al Di Meola e daqui, praticamente todo mundo: Elza Soares, Cauby, Eduardo Dusek – que fez um show fantástico – João Bosco, Paulo Moura, Sivuca. Então foi um período muito fértil, de muita produção, de muita coisa. Foi uma casa muito interessante que, com certeza, deixou um espaço aberto na cidade. Hoje a cidade carece desse espaço.
Eu fiquei no Cabaré até final de 1988. Houve uma ruptura na sociedade. Tinha feito um acordo com o Gonzaguinha… Quando ele veio pra Belo Horizonte, quis fazer alguma coisa pela cidade e participou da Rádio Inconfidência junto com o Fernando. E a gente precisava de mais energia e essa coisa toda. O Cabaré era uma casa que tinha uma dificuldade financeira, porque o custo operacional era alto. Às vezes você tem um show que tem uma rentabilidade boa; mas, às vezes, o outro você não tem. A gente estava em busca de uma parceria. E, a princípio, com a autorização do sócio, eu fechei um acordo com Gonzaguinha. Ele entraria para a sociedade. Mas no meio do caminho houve um desentendimento lá, e tanto o Wagner quanto o Cláudio resolveram colocar outros dois sócios, que já eram funcionários da casa. Então com isso houve uma ruptura e o Gonzaguinha acabou não entrando. Eu fiquei insatisfeito com a história e saí no início de 1989. Depois o Cabaré funcionou mais uns três, quatro anos e encerrou a atividade.

LOCALIDADES BELO HORIZONTE
Cervejaria Brasil
Depois que eu saí da sociedade, eu tinha a Cervejaria Brasil, que continuava como ponto de encontro dessas pessoas. A Cervejaria é um local muito agradável, com um jardim muito bonito, um quiosque de sapé. E ali conviviam todas essas pessoas: Paulinho Pedra Azul, essa turma mais nova, Tadeu Franco, Celso Adolfo, Juarez Moreira. Então virou mesmo um ponto. A Cervejaria já existia desde 1983 e me ofereceram a esquina. Tinha um comércio desativado e a esquina tinha um predinho fantástico, da década de 20, e com a minha saída do Cabaré me ofereceram o ponto da esquina. Tinha um comércio fechado e eu achei aquilo ali fantástico para fazer o bar da esquina. Nós recuperamos um projeto do Milton de Castro, que tinha feito também o projeto da Cervejaria e o projeto do Cabaré Mineiro. Aí nós recuperamos o prédio e fizemos um bar, um bar de esquina, que é uma tradição. Minas têm sempre uma esquina. E aí, até hoje, é o reduto dessa turma. Quem freqüenta é o Tavinho, Murilo Antunes – que desde o primeiro bar a gente criou uma amizade muito legal entre a gente – o Beto – que é um companheirão.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Instrumentos/ Saxofone

O Beto Guedes tem até uma história legal. Eu sempre gostei de saxofone, mas eu não sou músico, sou um aprendiz. Então, às vezes, na madrugada ficava eu, o Beto, o Tadeu Franco. E teve uma noite que a gente começou assobiar umas músicas do Godofredo – o Paulinho Pedra Azul, eu, o Tadeu Franco e o Beto Guedes. Aquelas brincadeiras de fim de noite. E minha esposa estava grávida, a Rosiana – eu fui casado com ela 20 anos – e o Beto tinha um saxofone tenor; eu gostava muito de sax e falei que gostaria de aprender. Então naquela brincadeira, o Beto falou o seguinte: “Se nascer menino eu vou te dar o sax, mas com a obrigação de você estudar”. Só que a minha filha nasceu mulher… (risos) Então o Beto falou: “Não, mulher tocando saxofone não é interessante”. Quer dizer, a idéia dele era que eu tinha que aprender, mas tinha que ensinar o meu filho. Como nasceu mulher, ele achava que não. Então ele me deu meio saxofone. (risos) Quer dizer, nós não tínhamos jeito de dividir o sax. Depois ele queria um sax alto, então eu comprei a metade do sax alto para ele. Eu paguei a metade e ele me deu o sax tenor. Hoje ainda arranho lá. Faço umas aulas, mas ainda sou um aprendiz. Já faz praticamente 20 anos, mas eu pego, abandono, pego, abandono. Não consegui estudar muito tempo. Então tem essa história do meio saxofone do Beto.

Projetos Futuros
Através do bar eu sempre patrocinei, de alguma forma, alguma coisa. Então patrocinava com o que eu poderia oferecer. Além do espaço de encontro, sempre que vinha um músico ou um artista, eu participava com o que eu tinha a oferecer, que era alimentação. Então, com isso se criou, desde o primeiro bar, esse apoio, porque a gente sabe da dificuldade que a gente passa, já passou e ainda continua passando nesse país, de se criar, de ter um trabalho. Eu sempre fui apaixonado por fotografia – eu cheguei a trabalhar profissionalmente, mas hoje a fotografia continua mais como uma paixão mesmo. Mas ainda tenho projetos de retomar. Se a gente der mais uma incrementada na produção cinematográfica em Minas, quem sabe… Eu ainda estou aí com pique para fazer alguma coisa. E acho que os amigos ainda me chamarão.

Veveco/Tavinho Moura/Murilo Antunes
Todo final de ano a gente fazia o nosso encontro. Então sempre teve essa parceria. E o Veveco sempre me ajudou na cozinha. Desde a primeira cervejaria o Veveco me ajudou no cardápio e foi interessante, porque fizemos uma pré-inaugural da Cervejaria só com essa corriola. O Tavinho Moura tem uma habilidade manual interessante. Ele tem uma marcenaria em casa. E ele estava fazendo uns bonecos, uns cata-ventos e essa coisa toda. E ele fez um boneco que foi batizado de Brasilino. Então nós fizemos a inauguração do Brasilino. E antes de abrir a casa, nós fomos lá para pintar o boneco. E nisso o Veveco criando o cardápio. Aí criaram um prato que ficou batizado de Fo Scargot, que era uma receita do Veveco, que não dava para ficar no cardápio. Então o Fernando pôs o nome de Abre Coração, porque esse prato é um coração de frango no vinho branco. Então sempre teve uma parceria. O Fernando brinca que a letra dele é a música do Veveco, o “Abre Coração”. E a gente sempre fez isso. Então toda vez que ia fazer alguma coisa, chamava essa corriola. E daí eu passei a fazer todo final de ano uma confraternização dessa corriola do boteco no mês de dezembro.
O Veveco fez um prato, que era um peito de frango à Cicciolina. Então o Veveco sempre inventava um prato e virava aquela confusão na cozinha. E cada um fazia sempre alguma coisa com carne de sol. O Tavinho fazia uma coisa, o Murilo dava um palpite, o Beto fazia uma salada. O Tadeu Franco já fez uns pratos também. Então cada um inventava um prato lá e todo ano a gente tinha um prato. E era uma festa fantástica.
Esse prato Abre Coração fez sucesso uma época. Teve um frango recheado na primeira casa. O Veveco fez aí também um cassoulet, que é uma feijoada com feijão branco, uma coisa mais fina, mais magra também. Depois de muitos anos, a Cervejaria foi pegando uma vocação mais de restaurante. Eu lancei uma chapa réchaud para carne. Então virou uma tradição como uma casa de carne. O bar ficou preservado sem carne, porque defumava os clientes. (risos)
Nessa época, graças ao relacionamento com o Murilo Antunes, nós tínhamos algumas cachaças de Pedra Azul. Tinha Cantagalo, Gabeleira, Faísca, Fagulha – essas são, se não me engano, de Teófilo Otoni – e as de Pedra Azul. E desde essa época já tínhamos as cachaças de Salinas, que se transformou numa marca de cachaça. As cachaças do Norte de Minas, que são muito bem aceitas, como Havana, fazem um sucesso muito grande. Tinha Motinha, Claudeonor, de Januária, que era uma cachaça muito boa. Ferreira foi uma cachaça também que teve um período, depois sumiu do mercado. Voltou atualmente. Eu não sou um grande conhecedor de cachaça, mas a cachaça tem que ser saborosa, suave, que não desça queimando, que tenha um bom cheiro e um paladar interessante, que você sinta. Eu tenho algumas cachaças que estão ficando com um paladar muito forte da madeira e eu acho que isso atrapalha um pouco. Eu prefiro as cachaças mais suaves e hoje tem umas cachaças mais novas, que estão muito bem no mercado. Eu posso até citar algumas: Central de Minas, a Germana, Tabaroa. Minas continua produzindo cachaça de muita qualidade.

Voltar ao topo CLUBE DA ESQUINA

Museu

Eu acho fantástica essa idéia do Museu Clube da Esquina porque, nada bairrista, eu acho que é uma história legal, que marcou uma época e continua marcando. Tem muita história pra contar da família Borges, porque foram eles que iniciaram isso aí. Da vinda do Milton pra Belo Horizonte, o Fernando, essa turma. É todo mundo novo, jovem, cheio de energia, com muita poesia, com muita vontade de fazer; e eu acho isso fantástico, porque tem uma geração mais nova aí que não participou e não conheceu totalmente isso. Então nós estamos preservando essa história, que tem a ver com Belo Horizonte, com Santa Teresa e que é, com certeza, um marco na música. É uma coisa muito importante. E fico agradecidíssimo de estar fazendo parte dessa coisa com o meu depoimento. Eu entrei nessa turma em 1974 e daí não saí mais. Eu acho muito interessante e o que a gente puder contribuir, em termos de material, essa coisa toda, vamos fazer.
Claro que eu fiquei extremamente feliz da reunião do lançamento do Museu Clube da Esquina ser justamente no meu bar. De certa forma é um reconhecimento para mim. Veio como um reconhecimento, de uma participação que eu tive junto com todos. O Murilo Antunes sabe, o Tavinho, o Beto, de uma participação assim. Eu sempre procurei dentro do meu espaço, dentro dos botequins que eu criei pela vida, criar um espaço de encontro, um ponto de encontro das pessoas e, felizmente, isso aconteceu. O Fernando fez um texto bonito para mim, numa época que eu fiz uma exposição de fotografia. E eu pedi para o Fernando fazer uma coisa pra mim e ele fez,“Bodas de Prata do Bar do Tadeu”. E contou uma história muito legal, que eu fiquei muito feliz pelo que ele falou, porque ele falou toda a verdade da nossa relação. E ele termina dessa forma: “Nos bares do Tadeu, muita coisa se fez, muita coisa se criou”. Então eu fico satisfeito por isso, de fazer parte. Tenho o maior orgulho de fazer parte dessa história e fiquei extremamente feliz de poder ceder o meu espaço lá, que continua sendo o ponto de encontro dessa maravilhosa turma.

Fale na Esquina

Os comentários estão encerrados.