Tadeu Franco

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

Meu nome é Geraldo Tadeu Pereira Franca. Nasci em Itaobim em 19 de agosto de 1957.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Iniciação Musical

Desde que aprendi a falar, desde que eu me entendo por gente, eu comecei a cantar. Eu fui criado em Teófilo Otoni e as pessoas vizinhas da minha rua, toda vez que tinha aniversário, depois dos parabéns, me colocavam para cantar. Eu subia na mesa e fazia um número. Eu tinha um repertório de umas três músicas, então eu sempre cantava e fui me convencendo disso. Sempre ouvindo rádio e conhecendo as músicas, fui virando cantor assim.

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Atividade Profissional

Eu vim para Belo Horizonte em 1978 e tentei fazer outras coisas. Fui trabalhar na casa Arthur Haas, vendedor de consórcio, aí não vendi e eles me mandaram embora. Eu já tocava em alguns barzinhos nos intervalos dos grupos que tocavam na noite. Assim que havia um intervalo, eu fazia algumas músicas, cantava ali e fui me profissionalizando.

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Influências

Eu já conhecia o Clube da Esquina através da sua música, que é muito forte. Desde Teófilo Otoni que eu já ouvia Milton Nascimento cantando “Gran Circo”, aquela música grandiosa. Era uma música diferente, era meio distante de mim porque eu tenho influência meio baiana, eu gostava muito da música que vinha do Nordeste, Luiz Gonzaga, Banda de Pau e Corda, aquelas letras que falavam do sertão. Eu era muito ligado nessa coisa de letra de másica. Depois do Clube da Esquina é que eu passei a ficar ligado em música, em melodias bem feitas e aí eu gravei com Milton Nascimento e por incrível que pareça eu nunca tinha pensado nisso.

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Milton Nascimento

Eu estava fazendo uma participação no show de um amigo e o Milton morava em Belo Horizonte na época e assistia a shows variados. Num desses shows eu estava cantando e me apresentaram a ele. Ele falou comigo: “Está tudo bem, vai dar tudo certo pra você”. Eu ouvi aquilo, mas achei que era só ele desejando boa sorte, mas logo que ele fez o próximo disco, me convidou para cantar. Eu cantei a música “Comunhão” com ele e com Simone. Foi a minha primeira experiência com estúdio. Então, eu comecei a ficar achando que toda a bagagem que eu trouxe da minha terra não valia nada, que eu precisava conhecer a música do Clube da Esquina, precisava exercer a mineiridade. Aí eu fui me aproximando do Tavinho Moura, Murilo Antunes, Nivaldo Ornelas, essa turma, eu tive o privilégio de chegar perto deles após essa gravação, ficou mais fácil chegar nessa turma. Depois, eu tive que começar a estudar muito, ouvir muita música, sempre tentar fazer alguma música, sempre chegando mais e sempre com aquela influência, porque é uma escola de música rigorosa.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

Mudou muito o meu jeito de tocar e compor, eu aprendi muito. O que eu sei de poesia foi através do Murilo Antunes, do Fernando Brant, do Marcinho Borges. Eu lia as letras e ficava impressionado com tanta limpeza, com os versos tão limpos, e eu fui tentando fazer as minhas letras assim também. Eu pegava um acorde ou outro que eu aprendia das músicas do Tavinho Moura, do Toninho Horta, que eu ouvia as pessoas fazendo e achava aquilo bonito, e tentava fazer alguma música e colocar aquele acorde ali. E foi assim, eu tive uma influência, e não pude ter mais porque eu não sou um bom aluno, mas o que eu pude, aprendi, e devo muito ao Clube da Esquina.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Discos

Eu cheguei a ouvir aqui em Belo Horizonte a primeira vez. Mas o primeiro disco do Clube da Esquina que eu ouvi foi aquele disco “Geraes”, do Milton, lá em Teófilo Otoni. Um amigo meu me mostrou e falou: “Olha que maravilha!”. Aí eu aprendi aquela música “Volver a los 17”, o Milton cantando “O Que Será”, fazendo aquele vocal maravilhoso, “Fazenda”, uma música que quando eu ouvi eu achei uma maravilha – acho que ninguém definiu uma fazenda de uma maneira tão bonita, tão poética quanto Nelson Ângelo. E a gente lê poesia daqui pra ali, mas eu nunca achei nada parecido com aquilo. Os maiores poetas que eu já li, se chegassem diante dessa letra iriam sucumbir: “Não precisa dizer mais nada”. O “Clube da Esquina 1” era aquela música que me metia medo porque era muito urbana. Se eu não conseguia começar qualquer acorde, como fazer pra começar a música? Eu queria cantar e não podia porque eu não sabia tocar, mas fui gravando aquelas melodias. E a gente não se assusta também. Quando a gente é mineiro mesmo, da montanha brava, a gente ouve aquela melodia e aprende legal, a gente não se assusta não, mas fica querendo tocar aquilo de um jeito perfeito, então fica caçando um jeito melhor pra tocar por respeito, não dá pra tocar de qualquer jeito.

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Avaliação

Houve um movimento do pessoal do Jequitinhonha muito mais modesto que eu musicalmente, que eu nem concordo, não gosto, não me influenciou e surgiu uma turma que até não morava aqui, veio morar depois, quando aqui oferecia um pouco mais de condições de trabalho, e a pessoas vieram pra cá. Mas eu nunca fiz nada pra isso, eu nunca quis usar essa coisa de Jequitinhonha, senão fica aquela coisa regionalista. Muitas vezes você chega a uma gravadora pra fazer outro trabalho e as pessoas te rotulando de regionalista pode restringir um pouco o trabalho. Então eu procurava aprender uma música que pudesse me levar a variados lugares e inclusive fora do Brasil, que eu pudesse cantar aquilo e ser visto como uma coisa diferente e que ao mesmo tempo as pessoas soubessem que aquilo foi feito em um determinado lugar no Brasil. Eu costumo dizer que é a música brasileira feita ao jeito mineiro, o lance do Clube da Esquina.

Voltar ao topo CLUBE DA ESQUINA

Avaliação

Eu vejo o Clube da Esquina como um movimento. Surgiu uma turma, cada um com seu jeito, sua personalidade, mas fazendo música com o mesmo espírito. Você vê que são pessoas muito diferente umas das outras, até com vidas diferentes, mas inexplicavelmente fazem música com a mesma alma. Então essa turma fez escola. Acho que as primeiras letras de música impressas em capas de discos foram nos discos do Clube da Esquina aqui no Brasil. Mas eu acho que quem fez isso primeiro foram os Beatles naquele disco “Sgt. Peppers”. Depois, eu fui ver ler letras de música impressa em capa de disco nos discos do Clube da Esquina. Ninguém tinha feito antes, isso já é uma coisa interessante, que facilita pro consumidor. E as letras das músicas também, aquele jeito de escrever, eram pra ser ouvidas mesmo. A maioria delas não era para você chegar e ficar lendo, ser impressa em livro, é letra pra ser ouvida junto com a música. E isso é uma coisa que veio a calhar na época da censura, porque as pessoas costumavam censurar as músicas adoidado e as pessoas às vezes usavam pseudônimos, artistas muito perseguidos pela censura. Como a turma do Clube da Esquina escrevia coisas meio subjetivas, falava das coisas e a censura não pegava, era fácil burlar a censura fazendo letra do jeito deles.

PESSOAS
Milton Nascimento

Tem muitos casos. Um que eu acho interessante é quando eu tenha talvez tido uma visão. Eu estava saindo de um barzinho lá pelas tantas da noite, e eu vi, passando por outro bar, um negro de boné na cabeça e eu achei que fosse o Milton Nascimento. Eu olhei e achei que era um cara parecido, mas na época eu fiquei atrás de um carro e falei: “Olha, é o Milton Nascimento!”. Fiquei olhando e até depois de muito tempo ainda acreditava. Aí eu comentei com umas pessoas que eu tinha visto o Milton Nascimento, mas não era ele, foi viagem minha mesmo, eu estava bebum. Passou um tempo e ele esteve nesse show e logo depois me chamou para cantar uma musica chamada “Comunhão”. Logo depois, eu estive em Teófilo Otoni, dei um disco pra minha mãe e ela falou: “Meu filho, eu rezei muito para que acontecesse isso e a música que você cantou fala de comunhão”. Então eu acho que foi viagem minha, eu não sei se eu queria isso, a gente espera a ajuda de alguém e logo depois que eu tive essa visão eu tive a oportunidade de gravar com ele.

FORMAÇÃO MUSICAL
Primeiro Disco Gravado

O “Cativante” foi uma conseqüência justamente da gravação que eu fiz na Ariola da música “Comunhão”. Eu não tinha realmente nenhuma experiência. A gente tem muita intuição e quando eu entrei no estúdio pra gravar, eu não tinha idéia de como ia ser, eu só tinha experiência de uma música e eu não tinha músicas minhas, era músicas imaturas e eu peguei uma só que eu tinha que estava apta para gravação e gravei. Toquei o violão ali, tudo muito amador e fui pra estúdio cantando coisas do Tavinho Moura, do Zé Renato, do próprio Milton, do Túlio Mourão. E essas pessoas todas participaram, é um disco interessante porque os autores das músicas estavam ali tocando e aquilo tudo pra mim me engrandecia mais ainda. E eu tive uma lição de humildade que o Milton deu. Ele cantou com o coro que tem na música “Gente que Vem de Lisboa”, e aquilo pra mim foi uma coisa de humildade. Ele não cantou nenhuma faixa do disco. Se ele quisesse cantar todas, eu falava: “Fica com o disco pra você” (risos), e ele foi lá e contou no coro. E eu estava operado de apêndice. A minha mãe morreu logo que eu entrei no estúdio e eu fiquei muito chateado, somatizei aquilo tudo e me provocou uma apendicite. Eu cantei com a barriga costurada e não dava pra cantar assim, eu fiz um esforço. Às vezes as pessoas não entendiam, não estavam sabendo o que eu estava passando. Tem uma musica lá, “Cativante”, que é do Túlio Mourão, e o Milton disse que a gente tinha que fazer uma percussão batendo os pés em cima dos jornais no estúdio, mas eu não conseguia, eu batia o pé e doía tudo, então eu pensava: “Eu não vou bater pé, não estou agüentando”. Mas não falava para não chatear os outros. Então ficou parecendo que eu fiz corpo-mole, mas é porque eu não estava agüentado bater o pé. Porque você não consegue nem rir, é um negocio engraçado, dói todo o abdômen. E o disco contou com a ajuda de todo mundo. As pessoas viam o que eu estava passando, então todo mundo deu uma força nos arranjos. E na época tinha um selinho com o trenzinho, a marca do Milton Nascimento, e eu fiquei doido para que o selo fosse esse, que aparecesse pelo menos o trenzinho, mas não rolou.

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Clube da Esquina

Pois é, (risos) eu achei até meio engraçado o nome, museu, fica parecendo aquela coisa… Porque o Clube da Esquina sempre foi aquela coisa moderna, inovadora, que não pára, porque vão sempre chegando pessoas que vão fazendo coisas, o Milton vai fazendo os discos que as pessoas sempre assustam à primeira ouvida, e de repente vão entendendo, discos diferentes, com arranjos arrojados, músicas. Ele vai sempre chamando pessoas novas, as músicas dele sempre belas e de repente chegam aqui e fazem um museu. Fica parecendo coisa do passado. Mas não é, é uma música eterna, moderna que induz a pessoa a estudar mesmo. Quem quiser pegar o disco “Clube da Esquina” e tocar vai ter que rebolar, porque é difícil realmente você achar, pegar. Um dia desses eu fui aprender com um amigo a música “Clube da Esquina”. Eu até lacrimejei o olho, eu falei: “Há anos que eu queria cantar essa música, agora eu vejo que é assim, que coisa mais linda!”. “Travessia é linda”, simples e eu estou tocando legal, porque eu peguei um DVD do Bituca na Suíça e eu dou pausa na hora que ele faz um acorde (risos). Aí eu pego e aprendo, estou aprendendo tudo assim. Na hora que não mostra ele tocando, eu fico xingando o cara que filmou: “Puxa, será que esse cara não podia filmar o braço do violão o tempo inteiro?”. É um barato, mas você tem que se dedicar, senão não tem tranqüilidade pra tocar. Mas é uma iniciativa legal pra arquivar as coisas que eles fizeram, memorizar isso aí e ensinar as pessoas, porque também tem esse intuito. E chegando mais gente vai agregando, porque realmente é uma escola. Como eu estava te falando, o Murilo Antunes sempre foi muito generoso com as coisas que ele sabe, gosta de mostrar pra gente: “ Olha esse poema aqui”. Ele é daquele tipo que sabe as coisas e não se contém, parece que aquilo não cabe dentro dele e ele tem que passar pra gente. Essa é uma faceta maravilhosa do Murilo. Então ele chegava pra mim, me mostrava algo e eu ia lá, comprava e lia pra depois conversar com eles. Tive que aprender muito pra depois conversar com os caras, senão ficava ali feito bobo. Então é uma iniciativa maravilhosa e esse pessoal é danado – quando está parado, está carregando pedra, está fazendo promessa com pedra na cabeça. Essa é uma iniciativa que merece aplauso, porque essa turma já fez muita música, já fez show por aí, tem feito e precisa fazer mais, porque estão jovens ainda, com família pra criar, e tem que descolar o uísque dos netinhos (risos). Então a coisa não parou, esse museu reacendeu a chama e eu fico feliz de estar sendo lembrado pra poder vir aqui falar. E eu ganhei um carteirinha de sócio fundador que eu guardo com muito orgulho.
Eu queria desejar a todos muita saúde pra gente seguir lutando, porque a luta continua.

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Uma mensagem para Tadeu Franco

  1. Tarcísio Rosa disse:

    Grande músico, com certeza, merece um lugar de maior destaque, mas infelizmente a mídia brasileira é tendenciosa, oportunista e brega, e não sabe valorizar esses íconis da música brasileira. Esse mestre é meu vizinho, com muita honra prá min.