Tavinho Moura

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/Local e data de nascimento

Meu nome completo é Otávio Augusto Pinto de Moura. Nasci em Juiz de Fora, no dia 9 de agosto de 1947.

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Pais

Meu pai era professor de escola em Juiz de Fora. Era formado em advocacia aqui em Belo Horizonte e se chamava João Valente Pinto de Moura. Minha mãe, dona Hebe Gonçalves Pinto de Moura, era dona de casa. Depois de ter ficado viúva muito nova, com seis filhos, mudou-se pra Belo Horizonte, de onde ela era originária. E aqui ela teve que trabalhar, fez curso de datilografia. Foi ser secretária, fez concurso pro Estado e criou os filhos nessa luta de funcionária pública.

FAMÍLIA
Irmãos

Os meus irmãos são João Luiz, Maria Alice, Suzana, Maria Isabel e Zé Roberto. O mais velho é o João Luiz, contador. Minhas duas irmãs são donas de casa. O mais novo trabalhou um pouco com publicidade, ele é desenhista e atualmente é freelancer.

FAMÍLIA
Avós paternos

Meu avô da parte de pai se chamava Francisco Otávio Brito de Moura e eu não o conheci. Minha avó, dona Domingas Brito de Moura, eu conheci já muito idosa. Ela me contava muitas histórias daquelas fazendas de café lá de Juiz de Fora. Outro dia me contaram que o meu avô fez uma viola. Alguém queria uma viola que tivesse o som um pouco mais grave. Dizem que ele construiu a viola com o corpo daqueles bandolins antigos, mais abaloados. Era toda bordada em madrepérola, diz que era um troço muito bem-acabado. Parece que um tal Pedrinho, primo de uma tia minha, acabou ficando com esse instrumento.

FAMÍLIA
Avós maternos

Minha avó materna era dona Ana. Vovó dona Ana foi que me criou. Morei na casa dela aqui na Floresta, em Belo Horizonte. Meu avô materno eu também não conheci. Ele se chamava Otávio Augusto, o meu nome. Ele teve farmácia aqui em Itabiri, depois em Belo Horizonte. Exerceu a profissão até falecer.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Primeira infância

A lembrança mais antiga que eu tenho da infância é da rua onde eu morava em Juiz de Fora, rua Barão de Cataguases, que agora se chama Olímpio Reis.
Nessa rua só tinha casa de um lado. Eles taludaram uma montanha e foram construindo as casas. Eram todas meio parecidas. Em frente à nossa casa tinha um brejo. Aí tinha o campo, o lugar onde a gente pegava passarinho. A gente andava muito num caminho paralelo à rua, porque ali você catava joaninha com facilidade e ficava escondido no mato vendo as meninas voltarem da escola. Eu relacionava a música do Luiz Gonzaga com esse lugar: [Cantarolando]: “Vai boiadeiro que a noite já vem/Pega o seu gado e vai pra junto do seu bem”.
Quando menino devia tocar muito isso no rádio, porque eu relacionava muito com esse lugar. Lembro do meu pai tocando “Conversa de botequim” no violão; dizem que ele tocava bem, mas eu não tinha capacidade de julgar. As irmãs dele todas tocavam. Minha tia Didinha tocava cavaquinho, a outra tocava bandolim, ele tocava violão. Minha mãe estudou bastante piano. Tocava música italiana, essas coisas assim. Da infância mesmo, a lembrança que eu tenho é soltar papagaio em Juiz de Fora. A gente praticava muito. O papagaio do meu irmão tinha o escudo do Botafogo, o meu tinha o do Flamengo. Juiz de Fora era muito influenciada pelo Rio. E jogar botão. Quando eu vim pra Belo Horizonte eu trouxe o meu time de botão. A infância era boa.

FAMÍLIA
Moradia

A minha casa era curiosa. Era até arrumadinha. Tinha uma varanda, onde a gente jogava botão, aí tinha o escritório do meu pai à direita, depois tinha uma sala. Aí tinha uma área no fundo, ligada à cozinha, que era onde a gente almoçava. Era uma cobertura que foi acrescentada. Nos fundos tinha uma oficina de marcenaria, onde meu pai fazia algumas coisas, e depois um barranco. Antes do barranco tinha o galinheiro, depois vinha o talude, um barrancão. Lá em cima tinha a estrada que ia pro Morro do Cristo. Era muito comum cair cavalo no quintal de casa. O cavalo vinha à noite pastando nessa rampa e caía nesse precipício. Alguém tinha que vim sacrificar, porque eles quebravam perna, quebravam tudo. E às vezes caíam em cima do galinheiro, desmanchava o telhado do galinheiro.
Uma vez caiu um caminhão, mas foi no vizinho, não foi lá em casa. O cara barbeirou, o caminhão desceu rolando a ribanceira e caiu lá embaixo. Foi aquela festa: Juiz de Fora inteira veio ver.

FAMÍLIA
Cotidiano

Lá em casa se ouvia muito Noel Rosa. Todo mundo ouvia aquele programa no rádio, “Balança Mas Não Cai”. Quando Francisco Alves morreu, foi aquela consternação lá em casa. Quando morreu Getúlio, uma consternação lá em casa. Juiz de Fora pra mim é isso aí. E os passarinhos: Juiz de Fora pra mim era passarinho.

INFÂNCIA
Brincadeiras de criança

Eu era alucinado com os coleirinhos. São migradores. Então, quando chegavam os primeiros bandos a gente não tinha muito interesse, mas quando um machinho separava e alugava um lugar que ia ser território dele, onde depois ia colocar uma fêmea e acasalar, esse macho já começava a mostrar a raça, o canto. Quando o coleirinho canta é bonito, aí a gente tinha que tentar pegar esse coleirinho pra gente. O coleirinho não caía numa armadilha de comer alpiste no alçapão. Tinha que colocar um espelho. Quando ele se via na imagem no espelho, que ele queria brigar com o espelho, ele caía no alçapão. Tinha esses truques. Mas naquela época não tinha mineradora destruindo tudo, era uma coisa inocente. E não era pra comércio, era só pra ter.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Primeiro instrumento

O meu primeiro instrumento foi um violão, já aqui em Belo Horizonte. Tinha um violão do meu pai que era um violão de homem, um violão que a caixa era mais fina. Era todo de madrepérola, todo bordado. Lamentavelmente, se estragou. O violão da minha mãe era menorzinho, falavam que era violão de moça, um pouquinho menor. Como eu era muito menino eu tocava era nesse.
Minha mãe tocava muita coisa do Dorival Caymmi: [Cantarolando] “Risque o meu nome no teu caderno”.

Voltar ao topo ADOLESCÊNCIA

Músicas que ouvia

Na adolescência, a gente tem as primeiras namoradas, então o negócio era serenata. Já tocava algumas coisinhas pra fazer uma serenata. Eu sempre gostei de música, ouvia de tudo. Eu chorava com as músicas do Dorival Caymmi, aquele negócio dos marinheiros morrendo, aquele trem.

Voltar ao topo LOCALIDADES BELO HORIZONTE

Floresta

Eu morei em Juiz de Fora até os oito anos, mais ou menos até 54. Nos mudamos para Belo Horizonte porque o meu pai faleceu. A família da minha mãe estava aqui e ela resolveu vir pra cá com a gente. Aí fomos morar na casa da minha avó, na Floresta, na rua Marechal Deodoro, esquina com a rua Silva Ortiz.
Era meio conflituoso porque casa de avó é casa de todos os netos, então chegava domingo, qualquer primo que chegasse invadia meus espaços. Era difícil. Minha vida não foi muito fácil não. Morei lá até os 17 anos, depois já comecei a morar em outros lugares.

TRABALHO
Primeiro emprego

Eu comecei a trabalhar muito cedo, com 14 anos. Fui trabalhar no Estado como desenhista do Serviço de Engenharia de Trânsito. Ali conheci o João Pontes, professor de pintura clássica e excelente pintor. Conheci o José Pedro de Alcântara, que faleceu há pouco tempo, que pintava muito São João del Rey, Ouro Preto, essas pinturas mais clássicas. Todos bons caricaturistas, bons desenhistas. Eu fazia desenho técnico. Nós inventamos a Rádio Planejamento de Tráfico. A gente fazia programas especiais de música enquanto desenhava. Então um cantava uma coisa, outro fazia uma propaganda, outro cantava outra coisa. A gente cantava o dia inteiro. Fazia programa só sobre o Dorival Caymmi, só sobre Tom Jobim, só sobre Elvis Presley. A gente ficava brincando de cantar.
Trabalhando e cantando. “No ar, Rádio Planejamento de Tráfico. Na voz de Tavinho, vamos ouvir a canção…” Aí cantava a música toda. “Tá errado esse pedaço!”, aí saía. Era um pessoal muito bacana. Quando apareceu o primeiro trabalho profissional que eu fiz, que foi o filme do Schubert Magalhães, “O homem do corpo fechado”, eles me deram uma licença remunerada de seis meses, porque todo mundo acreditava que esse negócio ia dar certo. Foi muito bom. Quando eu fui trabalhar como assistente de produção, eu voltei e tinha um dinheiro guardado. Só aí vi que ia fazer a trilha sonora do filme, então saí do trânsito e fui trabalhar com publicidade.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação musical

Comecei a tocar com aquele violão, na casa da minha mãe. Não sei se a minha família me incentivava muito. Eu ficava horas com o violão na mão, isso eu sei. Ficava horas tentando tirar as músicas, ouvindo os discos. Mas a coisa começou a funcionar mesmo com uns vizinhos que já sabiam um pouco de música. Um vizinho meu tinha um professor, aí aprendia acordes um pouco diferentes, acordes do Garoto. Eu não tive muita relação com ele, mas aprendi algumas coisas. Depois eu conheci o Toninho, que morava mais ou menos perto de lá.

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Toninho Horta/Nelson Angelo

Conheci o Toninho Horta porque eu andava de bicicleta num lugar, no alto da Floresta, e o Toninho morava por ali. Ele ficava com um violão na esquina, tocando as músicas do João Gilberto. Então eu parava pra ver ele tocar. Falava: “Ainda vou chegar lá”. Depois, quando eu conheci mesmo o Toninho, ele me ensinou muita coisa, ensinou pra nós todos. Depois, conheci o Nelsinho Angelo também, logo que o Bituca chegou do Rio com aquela vitória maravilhosa do “Travessia”.

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“Vidros Coloridos”

Eu já conhecia o Marcinho, já conhecia mais ou menos o Fernando, nós saímos da cantina do Lucas pra uma varanda que tinha na casa do Fernando. Foi a primeira vez que eu mostrei uma música, que eu tinha feito em Barbacena, chamada “Vidros coloridos”. O Nelson angelo gostou. O Bituca também, mas falou: “Você tem que melhorar uns acordes aí, depois vou te passar. Vai ficar jóia esse negócio”. Aí comecei a harmonizar, ver que você podia preencher mais os espaços. Fui aprendendo assim, meio autodidata, na escola da vida.

Voltar ao topo LAZER

Cinema

O primeiro da turma que eu fiquei conhecendo foi o Toninho Horta. E depois vem Nelson angelo, o Fernando, o Marcinho. Por causa do Schubert, eu freqüentava o cinema do CEC, onde o Marcinho também ia. Nós viajávamos muito juntos, a gente ia muito pro Rio ver os filmes do Godard no Cine Paysandu. Era um grupo que a gente tinha: o Guará, o Carlão, a Célia. No Rio, a gente descolava uns apartamentos, era um negócio engraçado, ninguém sabia de quem era, mas a chave abria a porta [Risos].

FORMAÇÃO MUSICAL
Preferências musicais

O Marcinho já tinha interesse em outras coisas lá no Rio, eu ia ver a Clementina de Jesus, esse pessoal do samba. Sempre gostei muito do Noel Rosa e comecei a colecionar os discos. Achei um 78 rotações zerinho de “Com que roupa”; consegui ganhar de presente, standard play, com o próprio Noel cantando. De fato, eu posso reivindicar o mérito de ter falado: “Vocês têm que ouvir esses caras, esses caras são foda”. Porque ninguém falava muito de samba. E eu comecei a conhecer o Cartola, o Nelson Cavaquinho, esse troço todo. Uma coisa que não tem nada a ver com a música que eu vim a fazer, mas o espírito disso me ajudou muito.

LAZER
Cinema

Uma vez, eu toquei pro Schubert a música de um filme chamado “The stalking moon”, um filme de um diretor chamado Robert Mulligan. Em português, acho que se chamava “O selvagem”. É um faroeste com Gregory Peck e Eva Mary Saint, em que ela é seqüestrada pelos índios. O filme tinha uma música muito bonita, e de tanto assistir, comecei a tirar, lembrar como era a música. Procurava a gravação mas não achava. Ai eu toquei pro Schubert um pedacinho, ele falou: “Essa música é maravilhosa”. Nós fomos muitas vezes ver o filme juntos.

PESSOAS
Tonico Mercador

Aí eu fui pra casa de um primo da minha mãe em Barbacena, que é médico e era capitão da Aeronáutica. “Você fica aqui comigo”. Fui pra lá. Ele tocava um pouco de piano. Fiquei um mês e tanto lá. Então eu conheci um poeta que hoje está aqui em Belo Horizonte, Tonico Mercador, e nós ficamos muito amigos, arranjamos umas namoradas. Eu já cantava umas músicas do Chico Buarque, nós fazíamos uma serenata bacana, tocando “A banda”, aquelas músicas. E começamos a fazer umas experiências com música. O Tonico escrevia as letras no quadro negro – na casa do meu tio tinha uma salinha de aula. Nós fizemos uma música que chamava “Quatro ventos”, outra que se chamava “Querência”. Foi um laboratório pra mim, muito legal.

MÚSICAS
“Como vai minha aldeia”

Quando eu cheguei em Belo Horizonte, mostrei pro Marcinho uma das músicas que estava sem letra. Aí ele fez a letra de “Como vai minha aldeia”.
Essa foi nossa primeira parceria. “Como vai minha aldeia” foi feita em Barbacena. O Schubert queria a música pro filme dele, mas eu mostrei pra ele ainda sem a letra. Mas quando ele viu que o Marcinho fez a letra e entrou no Festival, falou assim: “Como é que pode uma música que já concorreu no Festival estar na trilha do meu filme?”. Não tem nada a ver uma coisa com a outra, poderia perfeitamente… Ganhei um filho e perdi o outro, mas não faz mal.

Voltar ao topo TRABALHO/CINEMA

Atividades profissionais

Mas aí o filme se concretizou, a coisa ia acontecer. O Schubert falou: “Você quer trabalhar pra conhecer?”. Eu pedi: “Quero trabalhar no filme, quero ver tudo como é”. “Então vai trabalhar de assistente de produção.” Quer dizer: o boi de carga. Eu arrumava cama dos outros, lençol, quando precisava arrumava mamão pro café da manhã. Tinha uma merda de um cavalo que era do ator principal do filme, o cavalo era de uma cidade vizinha que se chamava Rodeador. Nós filmamos em Conselheiro Mato. Toda manhã tinha que pegar o cavalo lá em Rodeador. Toda noite ele fugia. Era do ator principal, o Roberto Bonfim. Se chamava Marão. “Cadê o Marão?” “Fugiu.” “Mas como é que pode, que curral que é esse?” O cavalo pulava o trem lá. E eu ia em Rodeador buscar o Marão. Mas eu faria tudo de novo, foi uma experiência fantástica.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições/“O homem do corpo fechado”

O argumento do filme é assim: o vaqueiro se apaixona pela filha de um coronel, daqueles do sertão mineiro, e o coronel é contra o casamento. Aí o vaqueiro rouba a moça, só que o coronel contrata jagunços pra ir atrás do casal. Aí tem tiro. E o Schubert conseguiu uma autorização do Guimarães Rosa pra basear os diálogos do filme no “Grande Sertão: Veredas”. Então o filme tinha um diálogo muito poético. A música também ficou muito boa. Tem uma outra história curiosa: eu compus os temas e o Schubert aprovou todos. Nós levamos pra um camarada chamado Pedro Santos, um orquestrador alagoano ou paraibano, não sei, um rapaz novo que escrevia música muito bem. O Toninho Horta conhecia ele, aí eu chamei o Toninho pra tocar na trilha sonora. Nós combinamos quem a gente ia arregimentar, que base seria feita. No Rio de Janeiro, eu fui assistir a um show da Marlene, acho que em Niterói. E quem tocava com a Marlene? Novelli, Luiz Alves, Robertinho. Aí arregimentamos esse grupo junto com o Toninho Horta pra ir pro estúdio da Musidisc, um estúdio de dois canais, no Rio de Janeiro, pra gravar essa trilha.

FORMAÇÃO MUSICAL
Primeira gravação

Foi a primeira vez que eu entrei num estúdio, a primeira vez que eu toquei com um grupo. No festival do “Como vai a minha aldeia”, quem tocou foi o Marilton, quem orquestrou a música foi o Nivaldo Ornelas, e era uma baita de uma orquestra em cima do palco. Depois, quem cantou “Como vai a minha aldeia” foi o Beto Guedes, acho, num show com o Bituca. Acho que a primeira vez que eu toquei mesmo foi nesse rabo-de-foguete. Gostei muito de tocar com um grupo e de ser apresentado pelo Toninho como ele me apresentou aos músicos. O show era maravilhoso, a Marlene, aquela energia no palco, cantando música do Gonzaguinha que ele fala do pai dele, uma coisa maravilhosa aquilo, “Galope”: [Cantarolando] “Um galope só é bom quando é à beira-mar”. Eu falei: “Tudo que eu quero na minha vida é esse trem”.

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Composições/ “O homem do corpo fechado”

A gravação foi muito divertida, deu tudo certo. O Quinteto Villa-Lobos participou também. Fomos na escola contatar eles e eles vieram. Corne inglês, fagote, não sei o quê, coisa que eu nunca tinha visto ao vivo. E os caras tocando minhas músicas. Aí botamos na trilha do filme. Agora, a trilha é muito pequenininha. Outro dia, uma das pessoas que trabalharam nesse filme, o Victor Hugo de Almeida, que é um crítico de cinema daqui, chegou com a fita; nós fomos na Bemol, o técnico do estúdio não queria nem tocar a fita. Tocou, mas não dá pra aproveitar. Tinha que gravar de novo pela precariedade a que chegou o material. Eu tenho isso em cassete. Essa gravação tem uma participação importante, do violeiro Renato Andrade, que participa do filme como ator e tocador de viola. Nós fomos buscar o Renato em Abaeté. Foi engraçado demais, porque a gente chegou lá, tínhamos combinado tudo com ele. “Olha, vocês vão ali, tal, me espera.” Ele estava jogando baralho! Quando acabou o baralho é que ele veio. Aí ele tirou a viola da caixa, fez três coisinhas na viola e falou assim: “Acho que eu vou lá fazer esse filme com vocês”. E foi pra Diamantina com a gente. Completamente maluco, mas deu certo.

PESSOAS
Schubert Magalhães

O Schubert Magalhães foi, se não a mais importante, uma pessoa muitíssimo importante na minha vida. Porque com ele eu conversava às vezes das seis horas da tarde às quatro da manhã. O Schubert não tinha o menor egoísmo cultural. Ele acabava de ler uma coisa, transmitia o que ele tinha lido. Tinha facilidade de se comunicar, uma coisa impressionante. Através dele eu li muita coisa, inclusive passei a tomar mais contato com a obra do Guimarães Rosa. Até já tinha um lado que me puxava pra esse sertão. Eu fui muito pro sertão de Minas quando era novo.

MÚSICAS
“Calix Bento”

Aqui na Floresta eu tinha um vizinho que era prefeito de uma cidade chamada Porteirinha. O filho dele fez grupo comigo. Eles passavam férias na fazenda deles em Porteirinha. Era longe… Daqui pra Montes Claros só era asfalto até Corinto; de Corinto a Montes Claros era terra. Levava um dia até Montes Claros e mais um dia pra chegar em Porteirinha, sendo que a gente ia em janeiro, época de chuva, as estradas eram uma lama. Uma coisa que me marcou foi ter feito a música “Calix bento”. Eu estava dormindo em uma sala e acordei com um bando daqueles homens rudes, aqueles portinaris, tocando só instrumentos feitos por eles. A viola, o cara que tinha feito, a rabeca, o cara que tinha feito, o pandeiro, o cara que tinha feito, as caixas eram de couro de veado com não sei o que lá de buriti. Uns negócios malucos, e os caras cantando um dialeto que eu não entendia, aquele troço mais louco. Depois que eu entendi que era: [Recitando] “O sol entra pela porta, a lua pela janela, Oiai meu deus, a lua pela janela”. Comecei a me interessar muito por aquela conversa, já estava começando a ler Guimarães Rosa. Falei: “Esse daqui é um universo realmente fantástico”. Aí começou, depois foi a paixão natural.

TRABALHO
Atividades profissionais

Quando terminou a minha licença remunerada, fui trabalhar com Vitor de Almeida e com Regis Gonçalves numa firma de assessoria chamada RV, numa revista chamada Alterosa em Revista. Fazia uns boletins de algumas empresas. A gente tinha servicinhos assim, mas um arquiteto muito amigo meu, chamado Paulo de Tarso Cravo de Oliveira, que trabalhava pra Montreal Engenharia, uma firma grande, me falou: “Quer pegar esses catálogos pra fazer?”. Uns catálogos de fim de ano, desse tamanho, em inglês e português. O Vitor de Almeida falou: “Se você trouxer esse serviço pra cá vou te dar uma comissão de 20%”. Aí os trabalhos vieram, nós fizemos os dois catálogos e depois apareceram mais dois. Aí eu fiquei rico, parei de trabalhar. Falei: “Vou só tocar violão”. Não é que eu fiquei rico e parei de trabalhar, mas ganhei uma grana legal. “Estou precisando mexer com as músicas.”

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento

Fazia um tempo, estava tentando montar um grupo chamado Corte Palavra, que era eu, Zé Eduardo, Paulão e o Melão. Nós trabalhamos muito tempo juntos. Essa experiência me levou a gravar meu primeiro disco, que era viola, violão, bandolim e contrabaixo. Naquela época, não tinha aqueles afinadores bons que tem hoje, afinava-se no ouvido. A viola, dez cordas; o violão, seis; o bandolim, oito; e o baixo, quatro. Era difícil a gente tocar afinado, mas o povo gostava. Quando ganhei essa grana, comprei uma motinho pra mim. Já estava morando com a Cica na Serra, na rua Capivari, já estava casado. Isso foi em 72, 73. Em 74 estreou esse Corte Palavra. Fizemos umas oito cidades de Minas no Festival de Inverno de Belo Horizonte e fizemos um show no Palácio das Artes pro SBPC, que foi bacana demais. Nesse show, a gente tocou “Como vai a minha aldeia” e a música “Corte Palavra”, que é minha com o Marcinho Borges. Eu cantava muito a música do Zezinho da Viola, um violeiro que eu vim gravando aos poucos. Cantava “Tesouro da juventude”, “O trem está feio”.

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“Nossa Senhora do Ó”

Pra essas músicas do filme do Schubert, o Fernando Brant fez letra pra nós, uma ficou chamando “Nossa Senhora do Ó”, que já tinha nesse show também e foi a primeira música que eu fiz com o Fernando Brant.

MÚSICAS
“Paixão e Fé”

Depois nós fizemos “Paixão e fé”, que foi pro Corte Palavra, de 1975, aí já tinha um repertório mais novo. “Paixão e fé” foi feita originalmente pra um audiovisual. O Zé Luiz Pederneiras, do Grupo Corpo, fotografou a procissão de Diamantina e eu fiz a música. Aí nós entramos no Salão Global de Inverno de Belo Horizonte e ganhamos primeiro lugar. Ganhamos acho que mil dólares e uma viagem a Paris. Aí fiquei rico de novo. Nós vendemos a passagem e rachamos a grana. Só agora que eu estou pobre, mas já fui rico [Risos].

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Festival de Belo Horizonte

O Festival foi em 69. Aí que começa tudo, porque foi aí que eu fiquei amigo do Beto, do Lô, do Toninho. O Marcinho já estava. Com o Fernando a gente saía todos os dias, mas o Fernando era júri, eu não podia ficar andando com o júri. Eu conheci o Túlio Mourão nesse festival, o Sirlan. Foi ali que a turma começou a se reunir. O Marilton é que defendeu “Como vai minha aldeia”, ganhou segundo lugar. Em primeiro lugar ficou uma música do Rio de Janeiro, “Águas claras”, defendida pelo Eduardo Conde. A música era do Eduardo Souto Neto, acho. Depois, atrás de mim veio o Toninho Horta com “Cante desalento”. O Toninho Horta teve duas premiações, acho que terceiro e quinto lugar. Tem um quarto lugar que eu não sei, depois o Túlio Mourão com “Retratos”. Esse festival tinha “Equatorial” com Lô e Beto, tinha “Clube da Esquina”, com arranjo do Nelsinho Ângelo, quem cantou foi o Marilton. Tinha muita música boa. E o júri final também era bom, veio o Egberto Gismonti, Nelson Motta. Foi bacana, movimentou a cidade. A partir desse festival é que se consolida a nossa ligação, que fomos fazer mais músicas juntos.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

Começa a aparecer uma semente, porque a diversidade era muito grande, muitas idéias diferentes. O Lô com o Beto é uma coisa de um jeito, o Túlio Mourão completamente diferente. Eu já cheguei com uma coisa mais “curraleira”. O Toninho Horta já era aquela sofisticação. Essa coisa começou a germinar de uma maneira múltipla e me ajudou muito, porque fiz muita música que eu nunca mostrei pra ninguém. Já mostrei pro Bituca. Era a cara das dele, e nunca vou aceitar fazer uma música com a cara dos outros. Mas como experiência serve. Pra você falar que a música é sua mesmo, ela tem que ser sua. Então isso me ajudou a ter o meu estilo. Procurei muito uma maneira de fazer música que fosse minha. E acho que isso ajudou muito, porque comecei a ver as coisas de perto, ver o que as pessoas faziam, como faziam — e faziam bem pra cacete! Hoje todo mundo acha que minha música é muito personificada. Deve ser graças a isso.

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“Clube da Esquina”

A minha participação no álbum “Clube da Esquina 1” foi de bisbilhoteiro. Eles ficavam na casa do Marcinho até tarde tocando as músicas a ser gravadas, discutindo quem ia tocar, quem não ia e eu ficava ali.

PESSOAS
“Bituca”(Milton Nascimento)

Eu comecei a ter uma aproximação com o Bituca. O Bituca é a pessoa mais original que eu conheci na minha vida. Fora o respeito que eu já tinha, porque quando ouvi as músicas dele já sabia que o negócio era sério demais, uma coisa diferente de tudo. O Bituca em si era uma pessoa muito original. Sujeito que falava tudo diferente, o jeito dele fazer humor era qualquer coisa. Eu pensava: “Sou uma insignificância pra chegar perto desse cara”. Mas ele, muito gentil como sempre, um dia me fechou num quarto, pegou o violão, tocou uma música pra mim maravilhosa. Pediu pra eu tocar uma música minha e do Marcinho. Fui desinibindo, mas ele é que fez tudo, porque eu era um verdadeiro jacu. Chegava perto dele, eu tremia igual uma vara. “Não tem nada disso não, o cara é gente fina.” Mas não adiantava, quando ele falava: “Não sei o que lá”, eu falava: “Puta meu, começou”. Então foi assim, depois nós ficamos superamigos, fizemos música e filme juntos.

PESSOAS
Beto Guedes

Comecei a participar de algumas gravações nos discos do Beto. A pessoa que se aproximou mais de mim foi o Beto Guedes. No primeiro disco, ele já gravou uma música minha com o Zé Eduardo, e no disco seguinte, o “Amor de índios”, já faço uma porção de coisas. Participo de seis ou sete faixas. Depois, participei dos outros todos. O Beto também participou do “Como vai minha aldeia”, meu primeiro disco. Ele canta “Cruzada” comigo. Tocou bateria numa faixa. Para o Beto, eu falava assim: “O que você quiser fazer, pode”. Os outros músicos não gostavam, ficava todo mundo com ciúmes. Esse negócio de música tem muito ciúmes, parece casamento de homem velho com moça nova. Ela vai na esquina, o cara já está achando que vai rolar alguma. Negócio de música tem muita ciumeira.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições/“Cabaret Mineiro”

Gravar a trilha do “Cabaret Mineiro” foi uma experiência incrível, porque a gente queria mais gente tocando. Eu já tinha relação com muita gente. Participaram comigo o Vermelho, o Flávio, o pessoal do 14 Bis, Eli. O estúdio tinha quatro canais. A Tânia Alves tinha que botar a voz, então a gente tinha que saber essas divisões. É uma coisa difícil, mas se fazia, e era bom pra danar. Hoje a gente reclama de tudo que tem. E como é que fazia daquele jeito, com aqueles A4? Nunca ninguém está satisfeito.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

“Paixão e fé” foi feita pra umas imagens de uma procissão, a rua toda desenhada. A letra é do Fernando. Ele viveu em Diamantina a vida toda. Eu tive muita influência disso tudo, primeiro porque minha família era muito católica, enfeitei rua demais pra procissão passar. Fazia carneirinho de pipoca, buscava serragem, sacos e sacos de serragem pra gente tingir e fazer os tapetes. Isso acaba tendo uma influência. O tipo de música também, que isso vai marcando a gente. Essa coisa que a religião impõe, uma certa sobriedade. Tocam aquelas músicas, você tem que ouvir tudo, e isso acaba te marcando muito, porque você ouve meio com medo de alguém querer te levar pro Céu naquela hora, e você ainda tem muita coisa pra fazer aqui. Isso marca a gente.
Gosto muito da religiosidade popular, essa sem intermediário, de sujeito que conversa direto com santo, bate tambor pra ele, canta. Acho fantástico isso, adoro. E conheço várias festas, já cansei de ver essas festas, Nossa Senhora do Rosário, a Marujada, coisas que eu gosto de cantar. A Marujada tem mais de 300 anos. A tradição desse tipo de música em Minas, de festa popular, eu adoro esse trem. Não preciso nem falar, está em todos os discos, em todos os filmes, em tudo. A marujada seriam os brancos; os catopês, os negros; os caboclos, os índios. Essas três raças se unem pra fazer um festejo pra Nossa Senhora do Rosário, a Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que é uma visão que os escravos que estavam vindo pro Brasil tiveram, de ter visto uma entidade que iria protegê-los aqui. Assim que puderam, construíram as igrejas. Em quase todo canto tem a Igreja Nacional do Rosário dos Pretos. E aí vem a tradição toda. Os brancos, a marujada, cantam a saga da viagem da África pro Brasil. O sofrimento, as paradas no mar, e uma revolta que houve dos mouros contra os cristãos, quando quiseram tomar embarcação… Tem toda uma dança dramática, onde tem o que eles chamam de rezinga, que é uma briga entre dois mundos, uma discussão do patrão com o contramestre da embarcação. Um simbolizando os mouros, outro simbolizando os cristãos. No fim, eles matam o patrão, falam que vão jogar o corpo dele no mar e que o dinheiro dele é pra farrear. Mas alguém chega e o ressuscita, pro bem de todos, entendeu? É mais ou menos assim. Aí cantam: “Quem me ensinou a nadar, foram os peixinhos do mar”.
Essa música do peixinho no mar são dois trechinhos de momentos diferentes, a segunda parte não tem nada a ver com a primeira. Mas eu juntei porque tinha a idéia de fazer um musical infantil chamado “A lenda do peixe vivo”. Na verdade, eu sempre saquei isso, inventando uma história eu acabava fazendo uma música. Se eu pegar o violão e ficar inventando música só por causa de nota, não acho muita graça. Mas se tivesse a Débora Bloch, pra fazer música pra ela, como foi no “Noites do sertão”, melhorava muito. Então inventei essa história de fazer “A lenda do peixe vivo”. Peguei mais ou menos o enredo da marujada, criei esse personagem, que é o “Como pode um peixe vivo viver fora da água fria”, num período de ditadura, e tentei fazer uma coisa. Mas ia mexer com outro, ia mexer com outro, o trem ficou meio embrionário. Mas eu fiz muita música por causa disso.

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“Calmaria”/”Que bento é o frade”/”Peixe vivo”

“Calmaria”, uma música minha com o Marcinho Borges, tem essa música do peixinho do mar. Na verdade, os marujos cantam: “Foi as baleia do mar”. Aí eu passei pra peixinho do mar. Tem uma outra música minha que chama “Que bento é o frade”, gravada no “Engenho Trapizonga”. Saiu muita música. Com o Fernando saiu uma música chamada “Peixe vivo”, que é um baiãozinho bacana, que eu gravei num disco chamado “Tavinho Moura”.

DISCOS
“Como vai minha aldeia”

O meu primeiro disco foi assim, eu fiz esse show do Corte Palavra no Teatro Francisco Nunes. Aí veio um produtor chamado Zé Milton, lá de São Paulo – está aí até hoje, produz discos do Cauby Peixoto, da Ângela Maria, da Tânia Alves, da Nana Caymmi –, me assistir com o grupo. Me chamou pra jantar, depois falou: “Quer assinar o contrato agora ou quer assinar lá em São Paulo?”. E fui chamado pra gravar o primeiro disco, “Como vai minha aldeia”. Eu disse: “Vou levar esses mesmos meninos, vamos fazer nós quatro” – e o Beto, que é a participação especial do disco. Foi bom, ficamos em São Paulo. Foi em 78, tinha Copa do Mundo. Tantos anos que eu não ouço esse disco, mas no mínimo ele serviu de aprendizado pra uma porção de coisas corrigidas no outro. E todo disco é assim, é pra você depois corrigir no outro. Mas é um disco muito querido. Parece que ele faz parte daquela coleção Retratos do Brasil. Tem os cem discos mais importantes da música brasileira, e esse disco está lá. Recebeu críticas ótimas do Sérgio Cabral, do Tinhorão. Todo mundo dava dez pro disco. Mas na verdade eu não ouço há muito tempo. Tem muita história engraçada de pulga, no show desse disco. Nos teatros que a gente ia tocar tinha pulga. Esses interiores aí, nossa mãe!
A música “Como vai minha aldeia” foi bem executada. Uma das músicas que eu gravei, chamada “Ribeirão encheu”, passou a fazer parte de uma coletânea de sucessos que a RCA Vitor fez. Esse disco também foi bem. Uma das músicas entrou numa novela, “Cabocla”, fizeram um arranjo lá do “Trem está feio”. O disco foi bem, mas nada que preocupasse o Roberto Carlos não, coisa mais simples.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições/“Perdida”

A trilha de “Perdida” foi toda gravada com o pessoal do Corte Palavra. Já tem algumas coisas de viola do Zezinho da Viola e tem duas músicas minhas com o Murilo Antunes, uma que chama “Montanhês Danças”, que eu gravei no “Como vai minha aldeia”, e outra que se chama “Mauá de baixo”, no mesmo disco. Então já tem um trabalho com o Murilo, já entrou o Murilo na jogada.

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Murilo Antunes

Conheci o Murilo na época do Festival. O nosso “Montanhês Danças” não é fiel. Uma vez eu conversei muito com um boêmio aqui de Belo Horizonte, seu Delfino Santa Rosa, o rei de picotar cartão lá. Ele falou: “A música que vocês fizeram não retrata o que era o Montanhês”. “Mas é exatamente por causa disso que nós fizemos, se a gente fosse retratar, não teria a graça que a gente queria. Nós estamos fazendo uma outra coisa, com outro espírito. A dona do Montanhês Danças não era uma argentina?” Falou: “Era”. “Pois é, a gente não está falando da portenha madre nuestra? A mãe de todos aqui, só tem filho-da-puta.” Então ele começou a entender que a nossa visão era outra da coisa.

DISCOS
“Tavinho Moura”

Mas depois eu acho que eu faço é o outro disco mesmo, esse que chama “Tavinho Moura”. Esse disco já tem a música do “Cabaret mineiro”. Uma das músicas mais fortes que tem é a do “Cabaret mineiro”.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições/“Cabaret Mineiro”

Depois, eu conheci a Tânia Alves e gravei a trilha do “Cabaret mineiro”.
O “Cabaret” é um sucesso. Trabalhei no filme como assistente do Carlos Alberto. Tem uma coisa genial de música que a gente fez, que eu acho que é uma raridade. O “Cabaret” era pra se chamar “O aventureiro do São Francisco”. Era um jogador de baralho, pelo vapor do Rio São Francisco, parando nas cidades, fazendo amizades, jogando baralho e mexendo com as putas. Em 79, quando houve a maior enchente que o Rio São Francisco já teve, o rio acabou, as margens ficaram todas enlameadas e o Carlos Alberto trocou o título pra “Cabaret mineiro”. Ele me telefonou: “Você faz uma música em cima desse poema?”. Eu falei: “Faço, ué”. Peguei o poema do Drummond, já tinha autorização do próprio Carlos Drummond de Andrade. Peguei, fiz a música “Cabaret mineiro”, levei pro Rio, a Tânia Alves ouviu. Aí o Carlos Alberto falou: “O negócio é que nós vamos escrever o filme assim: eu tenho mais ou menos seis seqüências, as outras nós vamos escrever lá”. O filme foi sendo feito à medida que era filmado. Isso era uma coisa arriscada pra danar, mas o Carlos Alberto é danado. Uma vez, ele me chamou à noite e falou assim: “A Eliene Narduchi e o Nelson Dantas vão cantar uma música. O que a gente pode fazer pra eles cantarem?”. Aí eu fiz uma brincadeira com um motivo popular e nós ensaiamos. O rapaz do som-direto já ficou mais ou menos nos gravando ali, pra ver se estava bom, se estava afinado. Tinha uma amiga minha que toca flauta muito bem. A Sílvia Beraudisam, que gravou comigo o “Como vai minha aldeia”. Acho que ela estava namorando alguém da equipe, e ela foi a Grão Mogol. Chegou nessa noite. Eu falei: “Silvinha, você trouxe a flauta?”. “Trouxe.” “Então vem cá que você vai tocar comigo.” Aí nós fizemos o seguinte: a câmera ficou numa ruína linda, uma ruína no meio do mato de pedra, porque lá em Grão Mogol é tudo de pedra. Os atores deitados no capim, a câmera em plongée, fez uma torre e ficou um olhando pro outro. Um canta, o outro canta, mas eu tocando violão de fora do quadro, a Silvinha tocando flauta de fora do quadro, Goulart arrumando o som, mixando, os atores cantando. Sei que o Carlos Alberto falou pro Murilo Salles assim: “Quando você falar ‘pode’, eu digo ‘ação’. Tavinho, você começa, vou falar ‘ação’ pra câmera, você começa a introdução, eles entram cantando. Tudo certo”. Aí ele falou: “Ação!”. A câmera “tuf”! Eu fiz a introdução, a Silvinha tocou flauta, Nelson Dantas cantou, ela cantou, os dois cantaram juntos. Terminou, eu fiz o final. “Valeu?” “Valeu, valeu.” Não teve re-take, uma vez só. Ficou bacana, tenho o maior orgulho. Aí nós ouvimos a gravação, estava boa pra cacete, tinha um grilo ali, uma coisa aqui e tal, mas bonito. E isso é uma coisa difícil de fazer. Porque não é playback, é direto mesmo.
As locações eram em Montes Claros, Grão Mogol, Contria.
Em Grão Mogol teve umas coisas engraçadíssimas. Eram vinte e poucas pessoas na equipe. Com seis dias que a gente estava lá acabou tudo, não tinha nem uma lata de sardinha no armazém, não tinha nada. Não tinha ovo, nada, acabou tudo. Então a gente começou a comprar as coisas no Barrocão, que era o um lugar mais perto. Sei que a gente arrumou um esquema, a gente comprava o boi em pé e o cara matava. Vendia um tanto de coisa que dava pra pagar o boi. A gente ficava só com o tanto de carne que a gente queria. Isso na matemática, que não tinha grana. Eu sofri muito com isso até, porque fui aparador de alguns exagerados.
Eles queriam me pegar, mas não me pagaram. Nós montamos o “Cabaret” no salão paroquial. Pedimos ao padre a casa paroquial emprestada e fizemos o “Cabaret” lá. Depois ele viu, achou até bonito: “Olha que teatro bonito que vocês fizeram aqui”. No dia em que fomos filmar a música, houve uma encrenca qualquer, acho que foi com o assoalho, porque o piso era caído. Tiveram que fazer um tabuado, e quando puseram a grua, ficou muito perigoso. Quando o cara começou a andar com o carrinho e com o Murilo Salles pesadão lá em cima, com a câmera, começou a ficar perigoso aquilo cair em cima dos figurantes todos. E aquilo foi atrasando a filmagem, a Tânia ficando cansada. O Carlos Alberto, enlouquecido, pegou a câmera e falou: “Bota a câmera igual você está fazendo aí e solta o playback. Canta aí, Tânia”. Filmou um plano só. Ela lá no palco, cantando a música. Era o único jeito que tinha. Aí nós resolvemos convocar todo mundo pra voltar no dia seguinte. Já eram 4h30 da manhã, nego tinha que trabalhar cedo. Mas a figuração tinha que ser a mesma, porque nós queríamos aproveitar um pedaço do plano que a gente filmou. Então eu pedia: “Você volta amanhã, pelo amor de Deus. O negócio não deu certo, nós vamos reforçar esse chão todo. Vocês vão aparecer bonitos na tela, vai ficar um negócio bonito”. Uns falavam que voltavam, outros: “Vamos ver”. Voltou muita gente. E deu pra fazer com a grua. É uma obra-prima. Eu, que participo como ator nessa seqüência, contraceno com a Tânia. Ela se chama Havana, a estrela do Norte, e eu me chamava Ernesto, com uma boininha com a estrelinha igual ao Che Guevara, um bigodinho do Chaplin e óculos escuros, maior cafajeste. Eu era amante da Havana e o Nelson Dantas passa a mão nela. Eu digo pra ele: “Perdi-a porque acredito na utopia”. Que é a frase que o Guevara falou quando perdeu a revolução da Bolívia. O Cabaret é a segunda trilha com o Carlos Alberto e a terceira trilha que eu faço. Foi o meu mestrado, porque o doutorado foi o “Noites do sertão”.

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Festival de Cinema de Gramado

O “Cabaret mineiro” foi uma coisa estupenda, porque nós chegamos num festival de cinema lá em Gramado e tinha o filme, acho que do Jabor, com música do Tom Jobim, o Chico Buarque, e era um bochicho danado aquele trem. Quando o filme passou, o pessoal ficou pirado com o filme. Sei que, dos 14 prêmios, não sei se eram 14, 80% o nosso filme ganhou. Ganhou tudo quanto era prêmio, inclusive a música.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições/“Perdida”

Eu já tinha ganho um prêmio com “Perdida”, um prêmio chamado Coruja de Ouro. A trilha original do “Perdida” é minha, mas a trilha mesmo do filme é do Carlos Alberto. O prêmio era muito mais dele do que meu, mas o que conta é a música original. Ele já tinha ganho como diretor, então acho que ele não queria duas corujas daquela na casa dele não [Risos]. Deu uma graninha também, foi bom pra ajudar. A música tem uma presença no filme e eu também apareço cantando e tocando num lugar. Já no “Cabaret”, eu contraceno um pouco mais. O Fernando Brant fala que eu sou o Hitchcock do Carlos Alberto, em vez de ele se colocar, ele me põe pra fazer o que ele gostaria de fazer.

DISCOS
“Cabaret Mineiro”

O disco do “Cabaret Mineiro” foi feito primeiro pela Embrafilme. Quando o filme passou em Cannes, na mostra paralela, levaram o disco pra lá. Diz o Nelson Horneff que foi uma verdadeira briga pra comprar o disco depois da sessão. E eles só tinham levado cem longplays. Depois que eu saí da RCA e fiz o meu contrato com a Odeon, eles queriam que o meu primeiro disco fosse o “Cabaret Mineiro”. Aí o Carlos Alberto negociou com eles, que ele era o dono do Master. Nem mexemos na fita, foi igual, só mudei uma coisa ou outra. Aí virou o disco da Odeon, com aquela capa. Mas foi censurado três vezes.

Voltar ao topo EVENTOS HISTÓRICOS/DISCO

Ditadura Militar

Era pra ter sido um sucesso. Me deram um adiantamento sobre 200 mil cópias, um trem assim. E não passou de 14 mil, porque foi censurado. Teve uma primeira censura, que foi da música “A suíte do querer meu”. Aquelas mulheres do terço na mão, de São Paulo, falaram contra a pornografia, revista pornográfica, música pornográfica. O disco então saiu lacrado, com uma tarja: “Músicas pornográficas, proibido para menores de 18 anos”. Quando ele estava no mercado foi proibido de novo, porque cantava “…o Figueiredo estava com a bunda virada”, e o Figueiredo era presidente da república. Aí nós fizemos uma carta explicando quem era o Figueiredo, que não era o presidente. Na verdade, houve uma primeira carta do Ricardo Cravo Albin que fez uma defesa da “Suíte do querer meu”. Ainda deve existir essa carta. Aí eles liberaram, mas com a tarja “Restrito a ambientes masculinos”, e lacrado. Aí veio o negócio das mulheres. Nós escrevemos uma carta que fala: “Dona Hebe, mãe do compositor Tavinho Moura, está com a bunda virada. Alceu, irmão do diretor Carlos Alberto, está com a bunda virada”. Fomos falando quem era cada um. “Joaquim Pedro de Andrade, cineasta, autor dos filmes tais, está com a bunda virada. Figueiredo, funcionário do estúdio Bemol em Belo Horizonte, também está com a bunda virada. Não se trata do presidente da república.” Aí liberaram. Essa música é muito interessante. No filme quem dança é o Grupo Corpo, as meninas dançam batendo as bundas de madrugada, é linda essa filmagem. Aí teve uma terceira censura, interna. Porque mandaram um abaixo-assinado pra Odeon contra a pornografia. E a empresa resolveu tirar o disco de catálogo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições/“Noites do Sertão”

Depois, o Carlos Alberto me chamou pra fazer “Noites do sertão”, baseado nesse conto do Guimarães Rosa. Tive que pensar muito a coisa, porque se fosse fazer as músicas teriam que ser algumas vinhetas, aquelas coisas bem características do sertão: [Cantarolando] “Esse boi amalhado, sirigado/Aquele outro é vermelho azeitão/Esse coco é de Juca, Baijão”.
A literatura do Guimarães Rosa é uma coisa muito sofisticada, então me caiu a ficha que eu devia fazer uma música muito bem construída, bem trabalhada, e fiz alguns temas muito bonitos. A música “Noite do sertão”, o Milton, logo que ouviu, falou: “Essa música é minha”. Ela abre o filme. “Buriti”, agora chama “Saudade eu canto assim”, letra do Murilo Antunes. E outra que chama “Maravilha, Vilhamara”. Outra que chama “Amor meuzinho”, que depois o Fernando fez a letra. Enfim, foi uma turminha de músicas que saíram meio juntas e que eu tenho o maior carinho. Acho que todas trouxeram muitas alegrias depois. Fora a quantidade de prêmios que essa trilha ganhou, acho que uns quatro. “Cabaret Mineiro” também tinha ganho quatro, essa trilha também ganhou quatro prêmios. Brasília, Gramado — em Gramado ganhou dois prêmios, melhor trilha sonora e melhor música original.
Acompanhei toda filmagem de “Noites do sertão”, também como assistente do Carlos Alberto. Foi um filme muito gostoso de fazer porque era em fazendas, lugares bonitos. E uma equipe muito bacana. As filmagens do Carlos Alberto demoram muito, esse filme tem 27 noturnas, ficava a noite inteira de vigília, só dormia de dia. Mas foi muito bonito.

PESSOAS
“Manuelzão”

Nesse filme é que eu conheci o Manuelzão. O Manuelzão é um dos vaqueiros que fizeram parte daquela viagem famosa com o Guimarães Rosa, uma comitiva que ele fez de Minas Gerais até Goiás. Depois — o Guimarães Rosa anotou muita coisa —, escreveu o conto “Manuelzão e Miguilim”, que é sobre esse Manuelzão. Tadinho, foi lá pra filmar, acho que ficou durante sete, oito dias com a gente. E, no fim, ele participou de uma conversa, mas o Carlos Alberto acabou não aproveitando. Eu que aproveitei muito o Manuelzão. Porque pedi pra botarem ele no meu quarto, ele ficava lá comigo, depois a gente saía. O povo ia pras locações pela estrada, a gente ia andando por dentro do mato. Aí me mostrou muita coisa.
A árvore que não perde folha, que fica às vezes três anos com folha e só depois troca. O que é a vaqueta, o que é o tingui, uma porção de plantas que hoje eu conheço um pouco mais, o vá-mirim, que hoje eu ando no cerrado. Foi o Manuelzão que me passou a ficha. Pra que servia tal cipó, tal coisa. Ele sabe tudo. Manuelzão é um figuraço, ficou muito meu amigo. Ele contou tanta história, algumas coisas tão engraçadas. Eu, a Cristina Axé e o Marcinho Ferreira, que era o empresário do Milton, a gente tinha dor de tanto rir. Ele contando como é que foi o primeiro carro que chegou em Salinas, o que o povo achou daquilo. Diz ele que o homem desceu do carro e falou: “Não assusta não que eu só trouxe o macho. A fêmea desse trem, pra aninhar é complicado demais”. [Risos] E aí vai, a história vira um negócio de louco. Eu combinei com ele que eu ia pegar um gravador e ia pra casa dele lá em Andrequicé, ia passar uns dias pra ele contar tudo de novo, depois eu ia escrever um livro. Ele: “Vamos falar o que você quiser”. Então eu acabei que nunca fui. Outras coisas pegam a gente.

PESSOAS
“Bituca”(Milton Nascimento)

Outra coisa importante do “Noites do sertão” foi a convivência com o Bituca, que fez o chefe Ezequiel, um personagem riquíssimo do filme. É um sujeito que mora no moinho da fazenda, que não dorme, fica escutando os sons da noite, achando que alguma coisa vai chegar. Ele pressente uma ameaça, aí ele descreve como a coruja caça, sabe todos os sons. É um negócio muito chique. E o Bituca faz super bem esse personagem, que acaba tendo uma ligação com uma das filhas do coronel Liodoro, que é a Maria Beú. Aí começa essa coisa toda do Guimarães Rosa. O Liodoro é filho da vovó Maurícia, pai da Glória e da Beú; Beú é que responde o canto da Verônica, no Martírio. Maurícia é o nome científico do Buriti… O conto se chama “Buriti”. Isso dá conversa pra seis museus.

DISCOS
“Noites do Sertão”

Ganhei uns prêmios com “Noites do sertão”. Depois, nós fizemos um disco com a trilha, que foi brinde de uma empresa. Eu até tenho vontade até de transformar em CD, já que eu tenho discos que estão em ótimo estado, dar uma masterizada, limpar e lançar em CD. Mas foi o primeiro disco que eu acho que o pessoal do Quilombo quis fazer. Saiu com duas capas, uma primeira, meio cinzenta, que eu falei: “Não pode isso não”. Aí consegui trocar e botar uma foto da Débora Bloch e da Cristina Axé na capa, e ficou o próprio cartaz do filme. É mais pra documentar a trilha.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições/ “Minas Texas”

Depois, eu fiz o “Minas Texas”, também um filme muito bacana.
Sabe essas torres da Cemig, que você vê pelo sertão, aquelas torres imensas de ferro com os fios de alta-tensão? Aquilo tudo pra nós eram torres de petróleo. Minas Gerais é dividida assim: até Curvelo é o Colorado; de Curvelo até Corinto, é Texas. De Montes Claros pra cima é Texas, todo mundo armado, de bota. O argumento do “Minas Texas” é complicado demais, porque é muito livre, é muito cheio de coisa. É uma mocinha também, que está despertando pra vida, que fica apaixonada pelos caubóis dos rodeios de Montes Claros. Mas, na verdade, os rodeios que ela vê são os rodeios dos filmes B americanos, aqueles rodeios geniais, que os caras viram pra trás no cavalo. Está lá a Andréa Beltrão assistindo: “Nossa, que chuchu”, e aí corta pra um filme americano dos anos 20, o cara dando cambalhota em cima do cavalo, fazendo tudo. Ela fala: “Que chuchu”. Aí aparece o Zé Dumont com um cavalo branco, correndo: “Gostou, meu bem?”. O cavalo dele tem um escudo do Atlético. Então vai mesclando toda a exuberância do caubói americano com a fragilidade do nosso caubói do sertão. É um filme muito divertido, é uma comédia. O argumento é um pouco inspirado numa coisinha que tem no “Buriti”, que é Donhã e seus quatro maridos. Essa mulher vai juntando, pega um, traz pra dentro, pega outro, outro, ela fica tendo quatro maridos. A história é essa. Ela foge com os quatro maridos. Mas tem aquele com quem ela se casou, porque roubaram ela no casamento, daí aquele com quem ela se casou vem atrás pra tentar recuperar. Aí acontece uma história que eu não posso contar, senão ninguém vê o filme. Mas tem um duelo lindo em cima de uma ponte de madeira. Tem umas coisas muito bonitas.

MÚSICAS
“Conspiração dos poetas”

Eu fiz uma música pra esse filme, muito bem orquestrada, com cordas e tudo, chama “Conspiração dos poetas”. A letra é do Fernando. Mas a música é o grande tema do filme. Tem outra que chama “Dois rios”. O Carlos Alberto provocou muita música boa ao fazer as histórias dele. Tem muita coisa interessante de dança popular também, na hora que ela vai casar, tem uma brincadeira que a Elke Maravilha canta. Porque eles chamam uma parteira, que o cara duvida que a menina está virgem, ela vivia fugindo com outro. A parteira canta, é muito engraçado, as letras são engraçadas: “A menina morreu de medo quando viu que ia levar dedo” [Risos]. É muito engraçado.

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Composições/“Minas Texas”

No “Minas Texas”, aconteceu o seguinte: o filme ficou pronto, mas não ficou com uma montagem definitiva. O Carlos Alberto inscreveu o filme num festival de Brasília, eu ganhei prêmio de trilha sonora lá, o filme ganhou vários outros prêmios. Mas quando ia pegar grana pra poder fazer a montagem direito, tirar mais cópias e fazer cartaz, foto de cena, tudo que um filme precisa, o Collor entrou e acabou com a Embrafilme. Então o filme ficou meio órfão. Agora que o Carlos Alberto está pensando em dar uma remexida e ver o que faz.

Composições/“Idolatrada”
Com outros diretores, eu fiz foi “Idolatrada”, do Paulo Augusto Gomes, história que se passa no princípio do século passado aqui em Belo Horizonte. É um filme de uma moça do Rio que vem pra cá e seduz um rapaz daqui que já era casado, e aí tem um romance com ele. É um filme muito poético com a Denise Bandeira, Mário Lago. O diretor é o Paulo Leite Soares, sociólogo, que tem uma preocupação mais social.

PESSOAS
Paulo Leite Soares

Ele fez um filme chamado “Bandido Antônio Do”, que é uma história muito contada até hoje no sertão de Minas Gerais, desse Antônio Dó, um jagunço bravo que entrava na cidade e dominava tudo, botava o povo pra dançar pelado na rua, esse tipo de coisa. E um outro filme que ele fez, chamado “Vivos ou mortos”, que é a história de dois irmãos que foram assassinados pela polícia militar de Minas Gerais por causa de um serviço que eles fizeram e o cara não quis pagar. Um deles teve uma atitude qualquer lá, o cara foi na delegacia, fez uma queixa e eles foram presos e espancados. Um dos irmãos foi lá, pegou uma arma e libertou o outro, e eles fugiram pelo sertão afora. E a polícia foi perseguindo. Foi uma verdadeira covardia, porque mataram eles no dia de Natal, os caras já estavam quase mortos. E quando a gente filmava o “Antônio Dó” a gente via muito cartaz com o retrato desses dois meninos sendo procurados, os irmãos Piriá. Tipo “Procura-se”. O Antônio Dó é um personagem muito rico, tem muitos livros sobre ele. E é a mesma coisa, conflito com a polícia. Foi feito um curta-metragem também sobre eles, que o Toninho Horta fez a música e o Murilo Antunes é um dos irmãos. No que nós fizemos, o Antônio Grasci é um dos irmãos.

Composições/“Amor e Companhia”
Depois veio o “Amor e cia.”, do Helvécio Ratton, com a Patrícia Pillar, o Marco Nanini. Esse também foi um filme legal demais de fazer, que é baseado no Eça de Queiroz e tem muita música nossa também. Eu apareço cantando um negócio chamado “Isto é bom”, que foi gravado por um camarada chamado Xisto Bahia. Acho que foi a primeira gravação feita no Brasil, em 1902. Uma hora eu apareço cantando num Cabaré, longe, de levinho, mas está lá. Essa trilha também ganhou prêmio.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições/“O Tronco”
Depois veio a trilha para “O tronco”. O João Batista de Andrade eu já conhecia desses festivais de cinema. Ele me telefonou, estava com urgência de fazer essa trilha. Explicou que o filme era baseado no livro do Bernardo Édes, que era um livro muito bom sobre uma guerra que teve em Goiás em mil novescentos e pouco. Fui pra São Paulo assistir ao copião do filme. Falei: “Olha, dá pra fazer”. Já tinha uma trilha pro filme gravada, mixada e jogada fora. Em 15 dias, eu fiz uma porção de músicas, mais de 15. Nós orquestramos tudo e ele veio pra cá, entramos nos estúdios e gravamos aqui na Bemol. O resultado ficou muito bom. Aí saiu o disco da trilha, com uma tiragem pra promoção do filme e pra mim. Foi legal, porque nesse disco eu fiz algumas experiências. Por exemplo, tocar viola com orquestra. Eu tocando viola de dez cordas, com acompanhamento de orquestra. Geraldo Viana, um arranjador daqui, muito meu amigo, já tinha trabalhado comigo no “Amor e cia.” e chamei ele pra fazer “O tronco” também. A gente ficava o dia inteiro escrevendo no computador, fazendo as músicas, fazendo os arranjos, vinhetas. Gravamos rapidinho. Ainda tive uma experiência legal demais, que foi mixar a trilha num estúdio no Chile, um estúdio maravilhoso. Filme projetado em Cinemascope, com as mesas de 24 canais, você monitorando tudo, um negócio fantástico. Fiquei uns dias trabalhando lá. O filme foi pros Estados Unidos, acabaram de fazer lá as outras pistas. E passou por aí, deve estar passando até hoje.

Composições
Já fiz acho que dez trilhas de longa-metragem. Com cinema não tem um jeito, um macete pra trabalhar. Tem algumas coisas que você vai aprendendo por causa de tempo. Às vezes, você tem uma seqüência de 20 segundos e o cara quer um trecho daquela determinada música ali. Com o metrônomo eletrônico ficou mais fácil, você mexe um pouquinho na rotação, aí fica um pouquinho mais lento, dá certinho. Mas tem alguns macetes que eu usava, você vai tendo uns macetes. Como repetir frase sem parecer que é a mesma. Então você faz às vezes três melodias diferentes pra mesma harmonia. Num caso você usa uma, num caso você usa outra, pra não ficar repetitivo. A primeira é sempre igual, mas a segunda é diferente. São coisinhas assim, mas não ajuda muito. O negócio é o espírito mesmo, tem que combinar, a música não pode ser só ilustrativa, tem que ajudar a passar todas as idéias que estão ali. É uma coisa de emoção, é o trabalho mais bonito que tem, é o que eu mais gosto de fazer, botar a música na imagem. Toda hora eu guardo uma celulazinha de música. Eu acho que na verdade compor é um pouco isso. Se você tem uma boa célula, você cria uma vida, sabe como? Então quando eu acho uma celulazinha que é boa, ligo o gravador e gravo. Antigamente, não fazia isso, mas agora faço. Pode ser uma célula de três notas, de oito notas, cinco, eu gravo aquela idéia. E no caso dessa coisa do “Tronco”, me ajudou muito, porque eu tinha umas anotações de coisa que eu queria vir a transformar em música. Aí as entidades também foram chegando, ajudaram, e saiu. Está lá.

Fale na Esquina

2 Mensagens para Tavinho Moura

  1. Pierre Dechery disse:

    Tavinho, meu nome é Pierre e sou um grande fã seu carioca. Estive no seu show no CCBB no projeto Novas Esquinas, e queria saber como ter acesso a seus discos antigos. Grande abraço.

  2. Bernardo Macaúbas disse:

    Olá! Sou músico amador, contrabaixista e apaixonado pelo Clube da Esquina. Estive procurando sem sucesso na internet uma tablatura da música "Paixão e Fé" do Tavinho Moura. Gostaria de saber se vocês tem essa tablatura/partitura/cifra para violão. Ou se eu poderia pedir (por e-mail) diretamente para o Tavinho. Obrigado!