Telo Borges

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome / Local e data de nascimento

Marcelo Wilson Fragoso Borges. Nasci dia 22 de janeiro de 1958, em Belo Horizonte.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação Musical

O meu primeiro contato com a música aconteceu através dos meus irmãos que já eram profissionais, principalmente o Marilton, o Lô se profissionalizou depois. Tinha sempre um instrumento em casa dando sopa e quando eu não estava na rua jogando bola, eu estava em casa mexendo, brincando nos instrumentos, no piano, no violão e tal. Então foi naturalmente que eu comecei a mexer com música.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Brincadeiras de Criança

A minha infância foi bem aproveitada, eu era bem capetinha mesmo. Ficava na rua o dia inteiro, praticamente. Quando eu não estava na escola, já estava na rua. A minha principal diversão era, e é ainda, o futebol, ficava sempre jogando bola e também atormentando os vizinhos, batendo campanhia, fazendo lata de… (risos). Vou fazer este depoimento aqui e agora e é capaz de um vizinho de 30 anos atrás vir atrás de mim. Fazia umas latas de mijo e botava no muro… (risos). Pode cortar se quiser… Aí a pessoa passava sem ver o fio, e na hora em que passava pelo fio, caía a lata em cima. E eu ficava escondido em algum ponto, morrendo de rir. Tinha também um pau de bosta. A gente enfiava o pau na bosta e arrumava uma briga: “Você está encarando porque você está com a vassoura, segura aqui pra você ver”. Aí o cara pegava. Tinha sempre um curioso pra tentar apartar ou então incendiar a briga, e na hora que segurava, puxava, e ficava aquela rodela. Quer dizer, foi por isso que minha mãe acabou me internando, querendo me internar, ela me colocou no seminário. Na rua, em Divinópolis, eu era considerado um dos mais enfezados. Então foi uma infância que eu considero bem aproveitada mesmo, aprontei demais, fiz muita arte mesmo.

Voltar ao topo INFÂNCIA / LOCALIDADES BELO HORIZONTE

Lembranças da Infância / Edifício Levy

Tenho pouca coisa de lembrança dessa época, porque a gente morou no Centro, no edifício Levy. Eu me lembro que a gente ficava mais em casa mesmo, ou da casa pra escola, ou então no clube. Mas no Centro eu não transitava muito. Eu lembro que eu tinha um problema de hérnia. Me vem na memória meu pai me levando às vezes pro médico, eu na corcunda dele, é uma vaga lembrança que eu tenho do Centro. E algumas vezes, também, aprontando no edifício mesmo. O edifício tinha 17 andares e a gente ia a cada andar, batia a campainha e saía correndo pela escada. Aprontamento de menino mesmo. Então minha referência dessa época é isso. Outra coisa que eu lembro também da minha infância é o dia do assassinato do John Kennedy. Eu lembro exatamente o local em que eu estava. Eu estava passando ali naquele viaduto da Floresta, indo do Centro para Santa. Tereza, quando alguém ficou sabendo da notícia pelo rádio, e foi uma comoção dentro do ônibus na hora. Imagina isso lá nos Estados Unidos. Diz que o mundo inteiro ficou boquiaberto com aquilo. Gente chorando dentro do ônibus, eu era menino e lembro daquilo. E eu falei assim: “Mas o que aconteceu?”. Depois é que eu fui ligar os fatos, saber que tinha sido assassinado o presidente de um outro país, mas que teve uma repercussão até dentro do ônibus em que eu estava, em Belo Horizonte. É uma referência que eu tenho da minha infância, além das molecagens todas que eu fazia.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação Musical

Minha mãe viu que eu estava muito insistente com aquele negócio de ficar sempre brincando. Tem até uma citação que o Marcinho faz no livro “Os Sonhos não Envelhecem” , que é a história que eu pegava o violão, e o violão era muito maior do que eu, botava no colo e – tum! – dava uma pestana, um golpe de caratê no meio dele. Aí tocava uma música do Dorival Caymmi: “Olha o mar, meu amor, olha a brisa que beija…”, e sempre brincando no piano, no violão. E mamãe falou assim: “Vou botar esse menino pra estudar”. E me colocou numa professora lá em Santa Tereza, como é que era o nome da professora? Ah, não vou me lembrar. Só sei que era lá perto de casa, e a aula não evoluía porque eu chegava pra ter aula e ela falava: “Toca aí um pouco o que você sabe que eu quero ver”. Aí eu começava a tocar as músicas que eu estava começando a fazer, passava a aula inteira e a professora ficava assim: “Olha, que gracinha, que beleza”. Aí eu falei um dia com a mamãe: “Mãe, na aula não está acontecendo nada, eu fico só tocando e a professora ouvindo”. “Ah, mas então eu vou te tirar dessa aula.” E aí foi a única vez que eu entrei numa aula assim, depois até estudei e tal, mas tudo sozinho. Peguei alguns métodos e comecei a me instruir nos instrumentos. Eu tinha de 13 pra 14 anos, por aí.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Cotidiano

O dia-a-dia era uma deliciosa confusão. Porque era uma casa com 11 irmãos, e cada um com seu horário, com a sua escola, com a sua namorada. Então eu lembro da casa sempre com muita bagunça, e que me agradava, me confortava muito estar sempre no meio de muita gente, de muita confusão, de muita briga. Era tudo muito, a paz era muita, a confusão era muita. Eu lembro de ficar acompanhando meus irmãos crescendo, minha mãe, a luta da minha mãe diária, do meu pai também, que eu pouco via, que saía de manhã, voltava à noite. Era isso, com o negócio da música também chegando e minhas molecagens na rua, meu futebol. Eu ficava o dia inteiro jogando bola, e quando eu entrava em casa, levava a bola pra dentro do quarto, ainda por cima. Minha mãe falava assim: “Poxa, mas não é possível, você já jogou bola demais e ainda está dentro do quarto dando chutinho de noite”. Minha casa era uma casa muito movimentada pelo tanto de gente. E como se não bastasse o tanto de gente da própria casa, ainda tinha os outros, os amigos que chegavam, então era sempre confusão. Pra você ter uma idéia, durante muitos anos, eu dormi junto com o Nico, que é meu irmão mais novo, abaixo de mim, eu deitado pra cima e ele pra baixo. Era impossível caber todo mundo numa casa daquela. Então a gente chegou a dormir junto muitos anos ainda. Basicamente isso.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Influências

A música que marca a minha história, que sempre foi uma coisa muito ouvida lá em casa, é, sem dúvida nenhuma, Beatles. Foi aquilo que mudou a vida de todo mundo lá em casa e a minha também. Mesmo sendo uma criança, era a referência musical que eu lembro. Eu não me lembro de outra música que me chamasse a atenção naquela época que não fosse dos Beatles. Sempre alguma coisa rela- cionada aos Beatles. Foi onde todo mundo bebeu, mesmo lá naquela casa. De repente, o Marilton e o Marcinho, que são os mais experientes, tenham outras referências, mas a minha concepção é puramente Beatles. E a chegada do Milton com as músicas dele, geniais também, começou a interferir diretamente dentro da nossa casa. Mas pra mim, eu acho que do Lô pra baixo, lá em casa, todo mundo é Beatles, não tinha outra referência. Talvez um pouco de bossa nova, de João Gilberto, de Tom Jobim, mas, no geral, a maioria era Beatles.

PESSOAS
Milton Nascimento

Eu lembro do Bituca a primeira vez, nos primeiros momentos da minha memória, ainda lá no centro, no edifício Levy. Eles tinham um conjunto com o Marilton e ficavam ensaiando lá. E numa determinada época, além de ensaiar, ele começou a dormir lá em casa também, começou a morar lá em casa. Aí ele foi pra São Paulo, foi pro Rio, mas sempre voltava. Aí a gente se mudou pra Santa Tereza e ele continuou. Toda vez que ele vinha aqui pra Belo Horizonte, ele ficava lá em Santa Tereza, e virou tipo irmão mesmo. A minha mãe tinha a maior confiança, meu pai deixava a gente, eu e o Nico, ir passar férias com o Bituca no Rio. O Bituca até falava que o Cristo fazia assim (põe as duas mãos na cabeça) na hora que ele via que estavam chegando aqueles dois capetinhas. E o Bituca virou irmão mesmo, com a maior confiança. A gente ia, mamãe liberava, falava: “Vai, vai com o Bituca”. Aí a gente ficava no Rio com ele, era superlegal.

Voltar ao topo EDUCAÇÃO

Estudos

Eu fiz até o segundo grau. Mesmo assim, confesso que eu ainda devo umas duas matérias, uma biologia, uma química, uma coisa assim. Mas eu estudei pouco, parei de estudar cedo pra começar a fazer música. Eu acho até que nem precisaria de ter chegado nesse ponto, eu podia ter feito música e continuado a estudar. Mas eu não gostava muito de estudar. Eu era até bom aluno, tinha inteligência, compreendia as coisas, tinha boas notas, mas a disciplina me levava pro buraco. Em todo lugar que eu ia, eu tinha problema. Todos os colégios que eu freqüentei eu tive problema de disciplina. Nunca gostei muito de ser mandado, gostava de tripudiar em cima de quem estava comandando. Sempre essa tendência de ficar meio querendo sacanear quem estava me mandando. Não gostava de ser mandado e isso não deu certo. Aí eu falei assim: “Quer saber? Não vou estudar mais”. Parei de estudar, coisa até que me arrependo, gostaria de ter estudado um pouco mais.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

Minha formação é toda autodidata mesmo. Eu fiquei só ouvindo muita coisa. Depois dos Beatles, eu comecei a ouvir Jonh McLaughlin, Emerson, Lake & Palmer, Yes, Genesis, e comecei a ouvir o Milton também, demais. Então eu nunca estudei, a não ser sozinho, de comprar alguns métodos e tentar fazer algumas coisas mais acadêmicas.

FORMAÇÃO MUSICAL
Primeiro Instrumento

A mesma intimidade que eu tinha com o violão, tinha com o piano, não tinha muita diferença. Mas aconteceu que a primeira composição veio no piano. E foi uma história legal que parece até um conto de fadas. Eu estou com 47 anos e quando eu tinha uns 13 ou 14 anos eu fiz
“Voa Bicho”, a minha primeira música. Teve uma luz que passou em cima dessa nossa Terra que foi um escândalo. Eu lembro que teve uma repercussão muito grande, saiu em todos os jornais, saiu na televisão. Perto de 1960 passou uma luz em cima da Terra, e todo mundo falou que era um OVNI. E eu lembro de ter dado em rádio, em televisão, em jornal. E exatamente nessa hora que passou essa luz, eu estava sentado na porta de casa depois de ter passado um dia inteiro jogando bola e molecando. O corredor da casa em frente à nossa estava escuro, à noite, e de repente esse corredor ficou iluminado por um facho de luz rápido – “shuf!” – e aquilo me desorientou. Contei e ninguém acreditava. Ninguém viu. E eu fui pra dentro de casa essa noite, sentei no piano e fiquei lá: (cantando) “Disco voador, disco voador”. Eu lembro do Marilton passando e falando assim: “Esse está louco mesmo. Vocês podem levar, recolhe porque está louco”. E eu impressionado com aquilo. No dia seguinte, a partir da repercussão no mundo inteiro daquela luz que eu comecei a fazer o “Voa Bicho”, que foi a minha primeira música. Eu me animei, mostrei pro Marcinho e fiquei animado com o negócio de fazer música e ter ficado bonitinho, organizadinho. O pessoal falava assim: “Olha, que menino danado, que bonitinha a sua música”. Foi um incentivo pra mim.

Voltar ao topo MÚSICAS

Voa Bicho

Era tudo gravado na memória mesmo, na cabeça. Ela foi amadurecendo, essa primeira música, e eu fiquei tocando-a muitos dias. Ela ficou gravada dentro de mim. Aí teve um festival do colégio Pio XII, e uma amiga que já conhecia a música falou: “Eu quero entrar com a sua música no festival da minha escola, pode?”. Eu falei: “Pode”. “Mas ninguém vai ficar sabendo, ela vai ficar como se fosse minha, tudo bem?” Eu falei: “Tudo bem, pode ser”. E a música ganhou o festival da escola. Eu tocando, e ela no palco, o bairro inteiro, tinha muita gente de Santa Tereza. Então eu coloquei o Marcinho pra fazer essa letra. Ele fez e ficou gravado. O meu processo de criação nessa época era todo na mente mesmo. Depois, para minhas futuras composições eu pegava um gravadorzinho e registrava ali. Mas naquela época não, era tudo na cachola mesmo, cachola fresca. Terminou que aí ela ganhou o festival e anos depois, dois ou três anos depois, descobriram que a música não era dela. Diz que tentaram caçar o prêmio dela, tirar a medalha. Eu nem sei como é que ficou isso, o desenrolar dessa história, eu sei que ela foi desmascarada depois de algum tempo. Nego entregou, falou: “Essa música não é dela, é de um cara lá de Santa Tereza, um menino lá que faz umas músicas”. Mas essa referência é legal, do começo das minhas músicas.

MÚSICAS
Vento de Maio

Depois que eu fiz “Voa Bicho”, eu dei uma parada. Eu continuei tocando, mas não compus mais. Eu fiz “Voa Bicho” aos 14, e lá pelos 17 eu ainda estava tocando muito a música, pra ficar gravado. Era a única música que eu tinha, eu mostrava pra todo mundo. E lá pelos 17 anos eu me apaixonei. Depois, eu me casei com ela e ela foi uma fonte inspiradora. E aí eu comecei a fazer mais, pra ela. Fiz um monte, fiz “Vento de Maio”, que o Lô gravou no “Via Láctea”, em 1978. E o Lô conhecia, porque eram na verdade várias partes, eu sempre compunha uns pedaços. Aí o Lô falou: “Não, essa parte aqui combina com essa, vamos juntar as duas que eu vou gravar isso”. Aí virou “Vento de Maio”, que o Marcinho pôs a letra. O “Vento de Maio”, na verdade, teve uma versão, a primeira versão dela tem uma letra, uma coisa que vocês não acreditam. Foi o Lúcio Borracha, primo do Toninho Horta, quem fez a letra para um show que a gente fez em Belo Horizonte nessa época que eu tinha 17, 18 anos. E a partir daí, com “Voa Bicho” e com “Vento de Maio”, eu fiquei mais chique ainda. Eu falei: “Agora eu sei fazer.” Pedia até tempo. Falavam: “Vamos não sei aonde…”. E eu falava: “Não, agora espera aí que eu estou compondo, eu estou mexendo”. Aí eu fiquei profissional. Para mim, eu fiquei superchique. Eu falava: “Eu sei fazer músicas bonitas, legais”. Então isso me incentivou a continuar, dar força pra tudo, quase tudo que eu estava tocando, que estava vindo na minha cabeça, eu começava a organizar, achar um sentido, achar uma letra, achar uma forma de aquilo virar uma música. A letra de “Vento de Maio” era a seguinte: “Dentro do copo, um sujeito amarelo me olha de esguelha”. Olha só, de esguelha! “Dentro do copo, um sujeito amarelo me olha de esguelha. Eu bebo por ela, eu sonho com ela e vejo um sujeito com cara de bebum. E entorno a dose de rum com o tal sujeito por lá. E eu só lhe quis falar: ‘Ai, ai, meu Deus do céu.’” Aí fica: (cantando) “Ai, ai , ai…”. O refrão era todo ai, ai, ai, ai, ai. Mas a letra, Nossa Senhora, eu mostrei para o Marcinho e o Marcinho quase me bateu. Falou: “Mas como é que você deixa?” (risos). É o Marcinho fez outra porque a primeira não tem sentido. Na verdade, ele quis dizer que o cara estava tomando um rum, se embebedou, ficava pensando na mulher e a via dentro do copo e começava a gritar, a pedir pra Deus pra dar certo, uma coisa assim, sem sentido (risos).

Voltar ao topo PESSOAS / TRABALHO

Marilton Borges / Atividade de músico

O Marilton tinha uma casa, em sociedade com um outro amigo. Eles tinham uma casa ali na Bernardo Monteiro, 890, e a casa se chamava 890. O Marilton era a atração da casa, tocava toda noite. Eu freqüentava lá mesmo sem poder, porque eu era menor ainda na época. E o Marilton, vendo que eu estava meio atiradinho nas harmonias que ele me ensinava, nos acordes, começou a chegar um pouco atrasado, e falava: “Hoje eu vou atrasar, abre pra mim”, querendo me lançar. E me lançou mesmo. E aí eu tocava, às vezes, meia hora, uma hora, antes do Marilton chegar na casa pra tocar. E, muitas vezes, eu estava no palco e chegava alguém assim: (batendo palmas) “Rápido, sai daí rápido, que o cara está aí na porta”. Era do Juizado de Menores. Aí eu tinha que ir pra cozinha, eles me colocavam dentro da cozinha e ficava aquela coisa sem harmonia, o piano vazio, ficava aquela coisa estranha. O Marilton não estava, não tinha ninguém tocando piano, a mulher cantando. “Quem está acompanhando?” As pessoas do Juizado de Menores não entendiam bem o que era aquilo, mas deixavam rolar. Mas o Marilton é que deu essa força, esse empurrão. Eu morria de vergonha, falava: “Nossa, será que eu vou conseguir? O bar cheio de gente me vendo tocar”. Então, profissionalmente eu comecei a tocar com o Marilton.

PESSOAS / TRABALHO
Lô Borges / Atividade de músico

E aí, logo na seqüência, depois que o Lô gravou o “Vento de Maio”, no “Via Láctea”, a gente já saiu para Projeto Pixinguinha, que foi superlegal. Nós ficamos um mês viajando o Brasil inteiro, no Nordeste. E ali mesmo que foi meu batizado de grandes públicos, de uma responsabilidade maior. Porque bar é uma coisa, mas teatro é outra, muita gente olhando. Então, a mesma pergunta que eu fiz pro Marilton eu fiz pro Lô. Falei: “Lô, será que eu vou dar conta? Será que eu não vou ficar nervoso?”. E o Lô: “Tranqüilo, pode ir que eu estou do seu lado”. E eu lembro que nos primeiros shows do Projeto Pixinguinha, eu enchia o bolso de bala Soft, pra eu ter o que fazer, pra distrair. Eu ficava o show inteiro chupando bala e tocando. Não conseguia olhar pra lado nenhum, só pro que eu estava fazendo, de nervo. Eu era muito novo. Depois fui ficando mais tranqüilo pra subir em palco.

FAMÍLIA
Pais

Eles nunca comentaram comigo, eu não me lembro de nenhum comentário, de falar assim: “Oh, meu filho, faça isso mesmo, que é isso mesmo, está certo”, ou: “Deixa de fazer isso, porque esse caminho não vai dar certo”. Foi uma coisa natural, eles viram que eu estava de alma e de coração naquilo, com apoio dos irmãos. Então eles, de alguma maneira, mesmo sem falar, apoiavam, porque se eles não apoiassem, eles iriam chegar pra mim e falar: “Olha, não faça isso”. Ele ficaram na deles, deixaram a coisa seguir naturalmente.

Voltar ao topo TURNÊS / VIAGENS

Projeto Pixinguinha

Foi a mesma banda que gravou o “Via Láctea”. A banda era eu no teclado, o Paulinho Carvalho no baixo, o Fernando Orli na guitarra e o Laércio Vilar na bateria. E esse Projeto Pixinguinha era um show do Lô, do Wagner Tiso e de uma cantora chamada Rosali. O Wagner de vez em quando se confundia na hora de apresentar, ficava parecendo que ele apresentava uma porção de arroz: “Agora, com vocês a Rosali!”, “Arroz ali!”. Aí o pessoal pensava que ia entrar um garçom, com uma bandeja. E foi essa banda, Paulinho, Fernando Orli, Laércio Vilar, Juarez Moreira, na guitarra. Foi uma viagem maravilhosa, inesquecível.

Voltar ao topo DISCO

Os Borges

E na seqüência teve os Borges, minha família, que foi um projeto da ex-mulher do Márcio, da Duca Leal, que levou pra Odeon a idéia de juntar todos aqueles irmãos malucos, que faziam música, colocar tudo dentro do estúdio, pegar duas músicas de cada um e gravar um disco. A idéia dela acabou vingando, porque foi um disco maravilhoso mesmo. Chamamos as participações, eu convidei o Guilherme Arantes pra fazer os arranjos das minhas músicas. Hoje eu estava ouvindo esse disco e é uma coisa muito bonita. Na época a gente não tinha muito como saber a dimensão dessa obra que a gente fez. Mas é uma coisa que eu me orgulho muito de ter feito, esse disco dos Borges.

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Edifício Maleta / Ponto dos Músicos

Eu sou posterior a isso. Eu já peguei a época mesmo do 890 e subi no palco. Minha coisa foi essa, eu toquei pouquíssimo em bar. A minha experiência em bar foi essa com o Marilton, no 890. A partir dali, era show. Então eu virei um cara de palco, eu não era cara de bar desde novo.

MÚSICAS
Vento de Maio

Teve isso. A gente estava gravando “Os Borges” no estúdio dois, que era um estúdio um pouco menor, e a Elis estava gravando no um, que era um estúdio grandão da Odeon, em Botafogo, na Rua Mena Barreto. Eu não estava sabendo de nada, mas o Marcinho parece que já sabia, só que ele não tinha me falado. E, uma bela tarde, entram o Marcinho e a Elis dentro do estúdio. Eu já conhecia a Elis, de vista, e falei: “É ela”. Aí ela entrou, e eu lá quietinho, sentado no meu canto lá, bem sossegado. Aí o Marcinho parou e ela veio andando na minha direção. E eu falei: “Nossa, é ela. Está vindo, está vindo, é ela, é ela” (risos). Aí a Elis chega pra mim: “Você que é o Telo?”. Eu falei: “Sou eu mesmo.” E ela falou: “Vem cá que eu vou te mostrar uma coisa”. E eu falei: “Meu Deus, o que será que está acontecendo?”. Aí ela me pegou pela mão e eu já fui meio tremendo. Aí nós entramos no outro estúdio dela, e ela falou: “Solta, maestro”. Estava gravado já. Aí ela mostrou “Vento de Maio” e eu fui assim: “Ahhh”. Quase caindo… Fiquei na maior emoção, chorei, fiquei na maior alegria. Era aquela gravação dela do “Vento de Maio”, que é uma das coisas mais lindas que eu já vi. Então foi dessa forma, fui pego de surpresa numa tarde, gravando uma outra coisa. A partir daí a gente ficou superamigo. Eu mandava carta, ela me respondia as cartas. A gente ficou muito amigo uma época. Saía com ela, com o César, ia jantar. Foi ótimo. Aí teve aquela tragédia, que foi a passagem dela para o andar de cima. Eu estava todo esperançoso, porque ela estava, inclusive, com o projeto de gravar o próximo disco dela. Ela falou: “Nossa, vou gravar agora. Eu gravei uma e adorei, agora vou gravar três músicas suas”. Então tinha mandado umas dez músicas pra ela. E de repente a notícia, que pegou todo mundo de surpresa, e eu fiquei supertraumatizado, chocado. Eu lembro que minha primeira reação foi ir no supermercado e comprar uma garrafa de uísque, eu devia ter 22 anos, 23. Eu fiz isso, me contaram. Eu tomei aquele choque e falei: “Ah, então vou ali na esquina”. Fui lá e comprei uma garrafa de uísque e fiquei três dias ouvindo “Vento de Maio”, chorando e tomando uísque. Só chorava e bebia, chorava e bebia. Foi uma reação que eu tive, uma coisa infantil minha, pra tentar confortar essa dor.

LOCALIDADES BELO HORIZONTE
Esquina

Olha, o que eu me lembro daquela época é que eu quase recebi a carteirinha de sapo do Clube da Esquina. Porque o pessoal era um pouco mais velho do que eu, e eu estava sempre interessado nas coisas deles, nos movimentos, nas esquina, aonde que eles iam, o que eles estavam fazendo. E muitas vezes eu era convidado a me retirar. Falavam: “Olha, menino, até agora tudo bem, mas a partir daí você dá licença, porque agora aqui esse assunto não é pra você”. E eu estava sempre junto, toda hora. Passavam dois e eu já começava a ir atrás deles. “Não, agora você não vem não. Agora você espera.” Era muito sapo, era um menino que ficava sapeando tudo isso. Via o pessoal tocando, ia muito pela música e muito pela companhia, era dos papos adultos. Eu gostava de vê-los conversando a respeito de música, a respeito das outras coisas. Então era essa a minha referência, de ser muitas vezes convidado a não participar, tipo: “Você está menino demais, agora não, você já ficou muito tempo, agora você vai pra casa que nós vamos fazer não sei quê”. Era mais ou menos aquela época em que foi gravado o “Clube 1”. Tem 33 anos, eu tenho 47, a gente faz a conta e vai dar 14 anos. Na contracapa do disco, tem eu descendo a rua em Divinópolis, do lado do Bituca, ele com um monte de gente. Eu sou aquele que está à direita dele, aquele pirralhinho, era pequeno ainda. Era aquilo ali, cara, eu ficava ou jogando bola ou andando atrás dos adultos ou só fazendo arte, o tempo inteiro.

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Esquina

Eu lembro só desse negócio do violão, que era uma constante. Sempre que tinha gente reunida naquela esquina, tinha um violão envolvido, muitas vezes uma fogueirinha que a gente fazia pra assar uma batata doce, alguma coisa. Ficava aquele clima de roça mesmo. Belo Horizonte há 30 anos era bem roça mesmo, a rua de calçamento de pedra. Eu lembro desse povo se encontrando, fazendo uns ensaios em casa, do Marilton com a banda dele, no Levy. E lá em Santa Tereza esse piano, sempre na sala. E o violão, que era uma constante na esquina. A gente sentado, a gente não, os adultos sentados tomando uma, tocando violão, namorando as meninas e eu sapeando. Então minha referência era essa, eu sempre gostaria de estar no lugar deles. Falava: “Eu ainda vou ser grande, ainda vou ser adulto, ainda vou sentar na esquina e vou tocar meu violão, sem ninguém me mandar embora pra casa”.

LOCALIDADES BELO HORIZONTE
Garagem dos Venturini

Algumas vezes, eu cheguei a freqüentar. Foi a época até que teve o “Fio da Navalha” aqui em Belo Horizonte. Então essa época eu já estava praticamente perseguindo o Lô. Eu ficava querendo saber onde eram os ensaios, porque eu queria ir. Às vezes ia com ele, ele mesmo me levava, falando: “Ah, não tem jeito de eu ir sem você não ir, não é? Porque senão você vai ficar aí, me perguntando”. Aí eu já aparecia sem ele me chamar mesmo. Gostava muito de freqüentar esses ensaios lá na casa do Flávio. E foi a época que eu e o Cláudio Venturini começamos a ficar amigos, também. Ele também não tocava nessa época, ele operava o som, então quando o pessoal saía pro café, ele pegava a guitarra e eu ia pro piano do Flávio, e a gente ficava curtindo. O pessoal chegava e falava: “Opa, agora são eles”. Era só mesmo dando canja, mas eu cheguei a freqüentar algumas vezes esses ensaios lá na casa do Flávio.

DISCOS
Clube da Esquina 1

Parou de tocar Beatles lá em casa quando chegou o Clube 1. Aí era direto. O pessoal falou: “Nossa!”. Eí ficou todo mundo no maior orgulho de ter visto aquilo acontecer e de ter virado um sucesso no Brasil inteiro. E a gente conhecia todas as músicas, todas as letras, era uma coisa diária, botava o disco, furava a agulha, botava o dia inteiro durante anos. Foi muito legal isso, e todo mundo lá em casa – eu lembro das minhas irmãs, da minha mãe, do meu pai –, todo mundo sabia tudo do disco. A ordem que vinha, as letras, virou um livro de música pra gente estudar. Eu estava lá na audição do disco em Santa Tereza, com certeza. Eu não me lembro precisamente desse momento, mas com certeza, interessado do jeito que eu era nas coisas dos adultos, eu estava lá presente num cantinho, ouvindo. E adorando, porque foi uma coisa muito importante pra formação musical da gente.

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Mar Azul

Eu fui lá algumas vezes de férias. Inclusive, eu testemunhei um fato absolutamente inédito, ninguém acredita quando eu digo. Eu vi o Milton Nascimento jogando futebol, naquela época. Era um flagelo da natureza, uma coisa completamente descompensada. Acho que só se equipara ao Beto Guedes jogando bola. Era uma coisa sem o menor sentido, ele, a bola, era uma coisa que não tinha… você olhava e não acreditava. Ele caía sem a bola vir, ele tropeçava só de ver a bola, ele tonteava, era muito engraçado. E eu via o pessoal dizer: “Não, o Bituca nunca jogou bola”. Até ele falava: “Eu joguei?”. Mas eu falava: “Jogou, eu já vi você jogando bola”. Nessa época do Mar Azul, eu lembro dessas peladas na praia, que era aquele tanto de gente jogando. Nessa época, o pessoal gostava muito de tomar uma, então quando chegava ao ponto do Bituca jogar bola, você imagina o estado alcoólico que não estava esse povo todo. Era bom demais da conta, eu adorava aquela casa lá em Piratininga. Teve até um negócio de um carneiro, também, a história de um prato que eles fizeram e que ninguém teve a coragem de comer porque o bicho estava feio demais. A mulher fez um jantar pra nós lá em Mar Azul. Essa vez, essa noite, estava minha família inteira. Eu lembro da minha mãe, meu pai, estavam todos lá nessa casa. E aí fomos jantar, e na hora que todo mundo entrou na sala de jantar, estava o carneiro lá, mas o carneiro estava feio demais, ninguém teve coragem. Ficou aquele clima, as pessoas com medo: “Será que nós vamos comer isso?”. Ficou um clima muito estranho, eu não esqueço disso. Lá em Mar Azul eu lembro das peladas na praia, das bagunças na praia, e desse carneiro, que eu nunca entendi o que era. Acho que ninguém comeu aquilo (risos).

LOCALIDADES RIO DE JANEIRO
Mar Azul

Eu não participei do processo criativo, porque ali tinha a praia, ali eu conseguia me distrair, me desgrudar deles um pouco. Pra mim, a atração maior era o mar, era apaixonado pelo mar, então ali eu dava um pouco mais de sossego pra eles e via que também, àquela altura, a coisa já estava mais profissional, não era uma coisa mais de esquina, de rua. Era uma coisa que eles sentavam pra trabalhar. E aí eu falava assim: “Trabalho também eu não estou querendo tanto assim não, quero mais é ficar ali na praia, curtindo o mar”.

DISCOS
Clube da Esquina

Eu não fazia a menor idéia, sinceramente não. Na minha mente juvenil, quase infantil, eu não fazia, não tinha concepção do que viria se tornar isso. Pra mim, era uma coisa de muito bom gosto, uma música muito gostosa de ouvir, as letras fáceis, de compreensão, eu entendia tudo, mas não fazia nenhum juízo daquilo, do que poderia acontecer. Da compreensão? (risos). É, porque eu também estava mergulhado demais naquilo, então eu percebia até o que as pessoas estavam sentido. Por exemplo, no caso do Marcinho, eu percebia praticamente tudo que ele estava querendo dizer. Não tudo, às vezes, por que eu era muito novo, mas eu entendia a intenção, eu sacava que era uma intenção de luz, de coisa boa, de romantismo. Eu sacava que era uma coisa focada mais pra essa coisa boa, não era uma coisa triste, não era uma coisa de saudade, não era nada disso. Era uma coisa de: “Vamos, gente, tal, olha aqui, tem a nossa música…”. Eu percebia esse movimento. Agora, pelas nuances das palavras, muitas vezes eu passava batido também, mas a intenção eu percebia.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: movimento

Eu acho que como o trabalho desse primeiro disco teve uma repercussão muito grande e levou muita gente junto, muita gente querendo ser do Clube da Esquina, querendo fazer uma coisa parecida com o Clube da Esquina, eu acho que aí sim se encaixa nessa conotação de movimento. É um movimento, movimentou muita gente. Quem não conhecia, gostou, quis participar e quis ser da nossa turma. Então eu acho que aí é uma coisa de movimento.

DISCOS
Milagre dos Peixes

Ah, é, tem essa passagem. Essa foi anterior à primeira composição, anterior ao “Voa Bicho”. Eu tinha dez, 11, 12 anos. Teve um belo dia, numa dessas férias que eu e o Nico fomos passar com o Milton, que no meio dos sorvetes e da praia, falaram: “Hoje nós temos que trabalhar”. Eu falei: “Eu?”. Falaram “É, hoje você vai cantar no estúdio”. Aí o Bituca me levou, eu nem sabia disso, estava acompanhando. Só sabia que, além dos passeios, o zoológico, o Corcovado, o Pão de Açúcar, tinha uma hora que nós íamos ao estúdio gravar, cantar. Aí participamos do “Milagre dos Peixes”, o Nico cantou “Pablo” e eu cantei “Cadê”, cuja letra, do Ruy Guerra, foi censurada. E a gente cantou com a Clementina de Jesus. Eu, o Bituca, o Nico, a Clementina e mais alguém? Acho que não, acho que foi só a gente mesmo. E foi a maior beleza. Depois que gravava, a gente ficava lá dentro ouvindo, pra ver se eu ouvia a minha voz ou não ouvia, porque tinha muita gente cantando (risos). Mas foi uma experiência legal, eu, menino, entrar no estúdio a primeira vez, com o Milton e com a Clementina. Eu não me esqueço disso.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação Musical

Adorava cantar, tocar, esse movimento musical sempre. Depois que eu conheci as primeiras músicas dos Beatles, de ir no cinema ver “Os Reis do Iê-iê-iê”, “Help”, eu fiquei superligado em música e interessado em cantar, em tocar, em tudo. Ficava sonhando com isso, falava: “Ainda quero virar um cantor”. Aliás, tinha outros sonhos também. Eu tinha um sonho de ser jogador de futebol. O pessoal falava que eu era muito bom na época, que tinha gente que parava na rua. Teve uma época – sem brincadeira, não é porque eu estou na minha presença não (risos) –, com 12 anos, que eu driblava todo mundo, não tinha gente que eu não driblasse. E aí eu lembro de gente parando na rua pra ver. Eu era considerado, no bairro, o menino que mais driblava. Eu era muito bom. Aí eu alimentei esse sonho também. Falei: “Quero ser jogador de futebol, e dos bons”. Eu tive até oportunidade, fui convidado pra treinar no Vila, me parece, mas eu tinha que estar lá às seis horas da manhã, e não fui (risos). Não consegui chegar na hora. Aí eu desisti. Resolvi jogar na rua mesmo.

DISCOS
Clube da Esquina

Pra mim, representa a bíblia musical. Pra mim, é onde estão resumidos os ensinos básicos de uma música brasileira e de qualidade. Eu considero uma coisa básica na minha formação. Foi ali, decorando aquelas músicas, aquele álbum de vinte e tantas músicas, aquelas vinte e tantas letras, estudando exaustivamente aquilo, que praticamente me formei musicalmente. Claro que não é só isso. Como eu falei, os Beatles eram uma coisa parecida também, apesar de ser em inglês e eu não entender nada. Mas pra mim é isso, “Clube da Esquina” é uma bíblia musical, referência. Porque eu acho que as músicas contidas naquele álbum duplo resumiam o que de melhor tinha na música mundial na época – tinha uma coisa do rock, tinha a coisa dos Beatles, tinha a coisa da bossa nova. Todas as coisas de bom gosto da música, do jazz, estavam todas ali naquelas músicas, então eu acho que é por isso que pegou todo mundo pelo pé. Porque era uma coisa completa, era pra quem gostava de poesia, de bossa nova, de rock, de música boa. Então eu acho que é por isso que pegou muita gente pelo pé. E pega até hoje.

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Movimento

Eu vejo com bons olhos. Eu acho que o pessoal que tem essa formação do Clube da Esquina está bem encaminhado para poder fazer música legal também. Porque vem, como eu disse, com todos os ingredientes de uma boa música. Então acho que é uma boa formação pra qualquer músico, principalmente para os novos, que já têm outras referências também. Mas o Clube da Esquina, em si, é uma referência forte pra quem está começando. Eu aconselharia. “Está começando? Vai ouvir, vai estudar o Clube da Esquina, que ali você vai pegar muita coisa boa, com certeza”.

PESSOAS
Lô Borges / Beto Guedes

Quando eu estava viajando com o Lô, a gente foi fazer o lançamento, acho que foi do “Via Láctea”, aqui mesmo em Belo Horizonte. A gente estava ensaiando lá no Sion, na casa do Mário Castelo, e, um belo dia, o Beto foi nesse ensaio do Lô. E ficou lá, eu lembro exatamente, de chinelo Havaianas, supersimples, tomando um cafezinho, fumando um cigarrinho, quieto, vendo ensaio. E eu era amigo do Beto. Eu achava até meio chato porque ele tinha isolado uma bola minha uma vez. O Beto era ruim de bola. Ele chutou minha bola com a bota, e ela furou e ficou presa no galho da árvore. Eu traumatizei com o Beto depois daquilo, porque mexer com bola minha era uma coisa que mexia comigo. Então, como o Beto era tipo irmão também, eu não tinha ficado nem um pouco impressionado: “Oh, o Beto Guedes está no ensaio!”. Nada disso. Até porque ele também não tinha o nome que ele tem hoje. E aí, no intervalo do ensaio, ele chegou pra mim e falou: “Você topa tocar comigo? Estou lançando um disco e quero fazer um show. Você topa?”. Aí eu falei: “Nossa, Beto, claro. Agora eu já estou tocando com o Lô, cara, vamos embora, vamos fazer sim”. E eu fiquei emocionado de ter dado esse passo profissional, de falar assim: “Já toco com o Lô, agora vem o Beto e me chama pra tocar com ele.” E eu lembro da minha estréia com o Beto, aqui em Belo Horizonte, no Ginástico, ali no alto da Afonso Pena. Foi uma coisa maravilhosa, porque o Ginástico inteiro estava superlotado. E teve uma música, “O Medo de Amar”: (cantarolando) “O medo de amar é o medo de ser, nã, nã, nã…”, que tinha um final que a gente convencionou e ensaiou durante muito tempo em que acabava com todo mundo junto. Só que na hora, na intuição, na luz, veio uma coisa, e eu continuei. A música acabou, todo mundo acabou, e eu continuei fazendo um piano elétrico com flanger e o Beto chegou com a guitarra perto do piano e ficou. A banda parou e ficou só o piano, molhado, dando umas notinhas, e ele fazendo um solinho de guitarra. A gente ficou assim uns 2 minutos e o povo: “Uaaa!”. E eu todo arrepiado, foi uma coisa que pintou na hora. E ali eu fui batizado. O Beto falou: “Eu não vou abrir mão desse cara mais”. Ali foi a minha estréia e teve esse momento maravilhoso, de uma coisa que não estava combinada, de a gente fazer junto. E quando acabou, o Ginástico veio abaixo: “Uaaaa!” (palmas). O Beto apontou pra mim, eu levantei, nossa… E fiquei 12 anos com o Beto depois disso. Esse show foi “Sol de Primavera”. Foi maravilhoso. Saudade…

TRABALHO
Atividade de compositor

Além de viajar com esse povo, de estar na estrada, uma coisa que eu fazia muito era compor. Aí começou a ficar assim: eu não conseguia não compor. Sempre que eu sentava num instrumento, começava a vir coisa, começava a vir idéia. Aí virou uma coisa minha, até hoje eu sou meio assim. Eu não posso ficar muito tempo tocando que daí a pouco eu começo a querer organizar, juntar, combinar, botar letra. É coisa de compositor mesmo. Isso ficou comigo, eu sempre tive muito isso. Hoje, por exemplo, eu tenho 150 músicas, e devo ter umas vinte e poucas gravadas. Quer dizer, não é nem 20%, a obra é inédita, tem coisas demais por causa disso, porque eu estou sempre compondo, sempre fazendo muita coisa. A vontade de organizar as melodias e as harmonias? Pois é, essa é uma pergunta que não quer calar, que eu gostaria de saber também o que é. É uma inspiração da minha pessoa mesmo, do meu ser. Eu não defino, não é uma coisa técnica, prática, ela vem naturalmente, eu estou sentado e ela vem, acontece.

PESSOAS
Márcio Borges

O Marcinho é considerado o poeta da família. É o cara das letras, o cara que escreve. Então eu tenho muito orgulho, muito prazer de o Márcio ser o meu parceiro mais constante. Acredito que, das minhas músicas com letra, ele seja o autor de 70%. Estou muito bem entregue, encaminhado. Pra mim, é um prazer muito grande ter um cara que escreve bem igual ao Marcinho como principal parceiro. Olha, tem dois momentos… aliás, não, tem mais, tem três. Tem o primeiro, que é a primeira música que eu fiz, que foi com letra dele, “Voa Bicho”, com a qual eu ganhei aquele festival no Pio XII. Foi a primeira coisa que saiu de mim para os outros ouvirem. O segundo é o “Alma de Borracha”. A gente fez duas músicas, duas almas de borracha, e o Beto gravou a “Alma de Borracha 2”, que até deu o nome ao disco dele. Foi superlegal a gente fazer uma música, o Beto escolher e virar nome do disco. Achei isso uma estrela minha e do Marcinho também, da nossa parceria. E o terceiro momento é o “Vento de Maio”, pelo fato de ser a minha música mais conhecida, a mais gravada também, e de a Elis ter feito aquela gravação maravilhosa, e de ele ter entrado com a Elis no estúdio. São três momentos da nossa parceria, que eu considero bacanas.

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Milton Nascimento / Beto Guedes / Tristesse

O Bituca é o seguinte: eu lancei em 1998 o meu primeiro CD, “Vento de Maio”. Eu fiz um show no Teatro Alterosa, superlegal, e depois do show teve um coquetel do lançamento, e a gente foi lá na Savassi, no coquetel do lançamento do meu disco, todo mundo tomando uma e o disco tocando. Aí o Beto Guedes chegou perto de mim e falou: “Ô, velho, essa música é bonita demais, sô.” No disco “Vento de Maio”, tem uma trilha instrumental – é a última música. E o Beto falou: “Mas isso é bonito, rapaz. Eu adorei. A música que eu mais gostei do seu disco é essa. Quero gravar isso, como é que faz pra gravar isso? Porque não tem letra…”. Eu falei: “Ô Beto, eu não sei, não tem letra, como é que você vai fazer?”. Ele falou: “Olha, pra mexer nisso, pra entrar nessa música, tem que ser o Bituca. Se o Bituca fizer uma letra, alguma coisa, eu gravo isso no meu próximo disco”. Aí liguei para o Bituca e falei: “Ô, Bituca! O Beto adorou uma coisa minha aqui, e falou que tem que ser você porque ele quer gravar”. O Bituca falou: “Claro, adoro também”. O Bituca já tinha o disco. E aí fui pro Rio me encontrar com o Bituca. E ele todo sério, de óculos, com a prancheta: “Toque mais uma vez”. Eu toquei, toquei, e ele: “Mais uma” (risos). Aí o Bituca pegou o violão, fez a melodia, e falou: “Agora deixa comigo que depois eu vou fazer a letra”. E aí nasceu “Tristesse”, que é a música minha e do Milton. O Beto gravou realmente com a Paula Toller no “Dias de Paz”, aquele disco dele. O Bituca adorou também e falou: “Eu vou gravar isso. No próximo disco eu vou colocar essa música nossa.” Eu falei: “Ótimo.” Aí eu estava em Brasília, fazendo um trabalho político, e o Bituca me liga: “Olha, está na hora, vamos gravar? Só que é o seguinte, eu vou gravar o ‘Tristesse’ e quero gravar o ‘Voa Bicho’ também”. O Marcinho estava do meu lado e eu falei: “Mas que beleza! O Marcinho vai adorar que você vai gravar o ‘Voa Bicho’ também, fala com ele aqui um pouco”. E o Marcinho falou: “Ô, Bituca! O bicho já estava empalhado e você está botando ele pra voar de novo?” (risos). Aí teve a história do sertão. Fiz uma música pra peça “Ponto de Partida”, mostrei pro Bituca e ele fez a letra. Ele gravou três músicas minhas no último CD dele, “Pietá”. E eu fiquei todo feliz de gravar com o Bituca. Um dia, o Bituca ligou pra mim e falou: “Olha, eu queria te convidar pra você fazer a turnê do Pietá com a gente, você topa?”. Aí eu falei: “Ô, Bituca! Se topo!”. Fiquei na maior alegria, e isso já faz quase três anos. O disco do Milton foi lançado, nós fizemos a turnê, e a música “Tristesse”, essa minha primeira parceria com o Milton, ganhou um Grammy Latino. Já veio carimbada também, é como eu e Marcinho. A primeira coisa que a gente fez deu supercerto. Então, cara, fizemos, viajamos, fomos três vezes pra Europa e vamos amanhã pela quarta vez, ficaremos um mês viajando pela Europa. Estivemos no Japão, estivemos na África. E em todos os lugares acontece a mesma coisa: quando vamos tocar o “Tristesse”, seja qual país, o Milton fala da nossa parceria com o maior carinho e me apresenta em separado. Aí a gente faz o “Tristesse” e o pessoal ama. A Marina Machado canta pra caramba. Então já tem três anos já que eu estou com o Milton, é um momento de muita alegria mesmo. Porque o Bituca é uma referência musical minha muito forte, e a gente tem uma coisa, uma intimidade de família, de anos juntos. Então eu estou em casa, adoro subir no palco com o Bituca, é uma lição a cada show.

TRABALHO
Avaliação

Lição de vida é o seguinte: é muita calma e humildade. Essa é a lição que eu tenho da minha música, que é uma intuição que Deus me deu. E eu agradeço a Deus por ter me dado essa intuição. E de ter me dado essas oportunidades que eu tenho tido, de poder viajar o mundo inteiro, de poder mostrar o meu trabalho. Então o que eu acho que fica de lição pra mim é de saber que a gente tem dono nessa história, a gente não está por acaso aqui neste mundo, nem fazendo mosca. A gente tem a missão da gente. E que a gente deve sempre muito agradecer a Deus pelo que a gente tem, seja muito ou pouco.

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Clube da Esquina

Eu acho que a importância maior da história do museu é exatamente abrir mais o leque, esse livro da história da música do Clube da Esquina, para o mundo inteiro. Oficializar isso, pra essa coisa ficar mais prática, mais acessível, principalmente para as gerações futuras, para os novos, isso é fundamental. Você poder conhecer essa história do Clube da Esquina já com um projeto muito bem elaborado, com uma coisa superdefinida. Então acho que a importância é essa, de ser uma coisa aberta e bem feita, pra que qualquer um que chegue tenha o conhecimento de quem já está lá há muito tempo.

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2 Mensagens para Telo Borges

  1. aurélio ricardo disse:

    Meu caro telo, vi você tocando com o Lô, em Salvador. Acho Lô um dos músicos mais completos da história da MPB. Admiro o trabalho de Voces. tenho muita coisa do Clube da Esquina. Achei essa matéria super linda. Muito legal. Seo Salomão foi um privilegiado, tendo criado vocês. Grande abraço. Quem viveu direta ou indiretamente aquela época era feliz. Muita saudade. Que Deus ilumine sempre teu caminho, rapaz.

  2. JOsé Renato Eteves disse:

    Show de bola Telo, adorei a entrevista. Sou fã de vocês e também fico impressionado com a benção recebida pelo Seu Salomão e Dona Maricota por receber na família tanta gente talentosa, e aí estou falando também do Bituca. Amo a música de todos vocês.
    Grande abraço de fã
    Zé Renato