Toninho Horta

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Nome/Local e data de nascimento

Meu nome é Antônio Maurício Horta de Melo. Nasci em Belo Horizonte, graças a Deus, em 2 de dezembro de 1948.

FAMÍLIA
Pais

Meu pai chamava-se Prudente de Melo, e já é falecido. Minha mãe, Geralda Magela Horta de Melo, está com 94 anos de idade. Durante muitos anos foi funcionária pública. Meu pai era mestre-de-obras; sempre foi idealizador e um pouco filósofo. Tinha umas idéias, umas convicções, umas frases. Eles tinham muito carinho pela música, mesmo com essas profissões. Eles começaram a namorar em Pirapora, nos idos de 20 ou 30.

FAMÍLIA
Avô materno

Minha mãe era filha do maestro João Horta; ela leu pra mim um texto que ela fez sobre o pai dela, nos anos 50. Era um maestro de bandas do interior. Ele era funcionário da Central do Brasil, mas ele sempre montava uma bandinha nos lugares onde morava. Assim eu soube um pouco mais da história do meu avô. Ele foi o primeiro músico da família. Passou isso pra minha mãe.

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Mãe/tias maternas/avô materno

Minha mãe tocava bandolim. As irmãs dela, a Clarice e a Imai, cantavam nos coros. A tia Clarice foi uma santa, ajudou muita gente. Ela dizia que o pai dela, quando via alguém desafinar na banda, ia lá: “Me dá o seu trombone aqui”. Pegava a vara, tirava a água toda e devolvia pro músico tocar. Ele fez muitas missas na edição de Nossa Senhora do Rosário, de São Sebastião. Músicas sacras, polcas, mazurcas. No texto que minha mãe escreveu dá pra ver a dimensão do meu avô. Em vários locais do interior de Minas tem alguma coisa dele. Na época não tinha papel de música, ele pegava papel de pão pra escrever as músicas. Já saiu lista dos compositores mais representativos do barroco mineiro e ele foi citado. Mas até hoje não se conhece a obra do João Horta. Um dos meus projetos pro futuro é esse. Absorvi muita coisa que é do João. Então minha mãe termina o texto dizendo, emocionada: “Terminando, me lembro das palavras do maestro Francisco Nunes”. O maestro Francisco Nunes, quando conheceu meu avô, falou: “Só os anjos podem tocar uma música tão bonita e grandiosa quanto a sua”. O meu avô, que não é conhecido, foi elogiado por uma pessoa que hoje dá nome a um teatro. Um dia vai ser conhecido. Eu peguei muito do perfeccionismo dele no trabalho. Então foi nesse berço que eu nasci.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

Minha mãe tocava bandolim e violão; meu pai, na época namorando com minha mãe, tocava violão. Minha mãe ficou grávida 23 vezes; ela trabalhava em fazenda, pegava cabrito, aí perdia os filhos na beira do rio. Vingaram oito, e os dois primeiros, acho que um nasceu já morto e outro viveu três anos, a Marilene. Na fazenda não tinha como curar. A partir do Paulo, o mais velho, vingaram os seis filhos. A gente nasceu com toda aquela coisa de música, de ouvir minha mãe tocar bandolim. Dizem que ela tocava até nas costas. Lembro dela tocando violão de frente, mas ela falou que tocava até nas costas. E o meu pai tocava violão, tocava tipo Dilermando Reis.
Meus irmão se chamam Paulo, Letícia, Gilda, Berenice e Marilena. De nós todos, o Paulo foi o primeiro profissional. A vida inteira ele teve influência materna e paterna de música. E nos anos 50 criou um Clube do Jazz com os amigos, o Donato, o doutor Vilmar, lá na rua Pouso Alegre. Tinha uma loja no centro da cidade que eles iam ouvir todo o tipo de música, aí descobriram o jazz, aqueles discos antigos do Stam Canto, Stan Getz, Duke Wellington, Roy Hamilton. Com doze anos, eu imitava o Roy Hamilton cantando. Mas isso foi uma coisa bem pré-Clube da Esquina. Quando eu tinha 15, 16 anos, meu irmão já tinha quase 30 e era um músico profissional da noite de Belo Horizonte. Ele que puxou todos os irmãos. Aí veio a Gilda Horta, minha irmã, que era a terceira. Ela cantou um tempo, depois virou produtora. Os primeiros shows de música instrumental no Brasil, com Vitor Assis Brasil, Egberto Gismonti, foi ela quem produziu. E fez parceria com o pessoal da Jorge Elis, os produtores do primeiro show do Tom e Elis no Teatro Nacional. Eu até toquei guitarra na orquestra. Trabalhou com Gil e Caetano, Simone, Milton Nascimento desde o sucesso do Clube da Esquina. Muito do que eu sou hoje devo a Gildinha Horta.
A Letícia, segunda abaixo do Paulo, sempre cantou, mas nunca fez nada de música oficialmente. A Berenice, logo depois da Gilda, é diretora do Colégio Estadual, que criou a orquestra de violões, que fez hoje uma homenagem belíssima pro pessoal do Clube. Ela até tocava violão comigo nos anos 60, a gente ia na TV Itacolomi. Uma vez a gente estava tocando dois violões, e tinha um repertório em cima do violão, o durex soltou, a gente ficou procurando a música. Ela fez esse projeto da cabeça dela, quando eu vi já estava aprovado. Só incentivei, virei padrinho, dei umas idéias. E a Lena, a caçula, era bailarina. Um dia que eu fui viajar pra fora, trouxe de presente uma flauta pra Lena. Mudou a vida dela. Hoje ela é flautista, formada em Minas Gerais, tocou na Orquestra Sinfônica de Campinas. A família inteira de músicos. Devo muito ao meu irmão por ter me mostrado as primeiras coisas aos dez anos de idade.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Profissionalização

Eu virei profissional aos16 anos. E seis anos antes de acontecer o “Clube da Esquina”, eu já conhecia o Milton.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Primeira infância

Nasci na rua Pouso Alegre, Floresta. Hoje tem um prédio no lugar onde foi a minha casa, onde meu irmão tinha o Clube de Jazz. Meu pai tinha um Ford 29, depois teve os outros Fords: 35, 48… mas quando eu devia ter uns dois, três anos de idade, meu irmão me pegou e fugiu com o carro. “Cadê o Paulinho, cadê o Toninho?” “Foi com o Paulinho.” Ele me levou sei lá aonde com o carro, a família toda preocupada. Acho que por causa disso, até hoje eu tenho essa história do negócio do “Manuel, o audaz”, de sair, de se aventurar. Alguns irmãos nasceram na Floresta. Depois a gente mudou. Fizemos o circuito ali na rua Guaranésia, a rua Jacuí, eu com cinco anos de idade. Tinha o bonde que passava na rua Jacuí. Eu ficava com meus coleguinhas falando: “Quantos carros eu contar que passarem pra baixo é ponto pra mim. Quantos forem pra cima é ponto pra vocês”. Eu era o rei de andar descalço e bater o dedão. Meu dedão estava sempre com sangue, arrebentado. Quando já estava secando, dava outro tropicão, não tinha jeito.

Voltar ao topo EDUCAÇÃO

Escola

Eu estudava na Creche Menino Jesus, onde era o Hospital São Francisco, no bairro da Graça. Eu me lembro de uma vez que eu voltei da creche e fiquei apertado, estava nervoso, passei mal. Eu vim pingando bosta da creche até em casa, por toda a rua Jacuí! [Risos] Cada lote que eu passava, fazia mais um pouco. O pessoal estava doido pra chegar. “Ô, Toninho, chega em casa logo, que ninguém vai agüentar.” Foi uma história inesquecível.

FAMÍLIA
Pais/tia materna

Nossa família era muito simples. Meu pai tinha uma fazenda enorme em Pirapora, norte de Minas. Pra você ter uma idéia, uma das maiores fazendas de hoje, a Fazenda do Triângulo, era uma das três partes da grande fazenda do meu pai. E um escritor chamado Claude Bernard, um francês, rodou Minas Gerais inteira, e descobriu esse lugar, que era o paraíso. Todo dia descobria uma cachoeira, uma novilha. Nas festas, sempre matava aqueles bois. A vida inteira, meu pai e minha mãe sempre receberam generosamente as pessoas, de qualquer classe, religião ou cor. E foi uma coisa que passou pra nós. Quando eu era adolescente, todo mundo ia em casa o tempo todo. Era todo dia à tarde: café, comprava dois, três pães de meio quilo. A irmã da minha mãe, a tia Clarice, fez promessa de ajudar as pessoas depois que o marido dela abandonou ela com três filhos. Virou santa, praticamente, viveu pra ajudar. Minha mãe, hoje com 94, ainda fala: “Estou vivendo pra ajudar meus filhos e meus netos a terminarem ainda os projetos deles”. Quer dizer, é uma pessoa que dá a vida pros filhos.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

Essa é a energia que me dá pra chegar aos 55 e tocar o Clube da Esquina de uma forma meio rock and roll, que também é uma parte da formação da gente que não dá pra negar. No princípio, eu falava que os roqueiros eram o Lô e o Beto, porque eu era bossa-nova, sofisticado, jazzista. Mas, no fim, todos nós absorvemos todas essas culturas.

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Lembranças de infância

Eu tive uma infância muito livre e feliz, com meus irmãos tocando. Eles se fantasiavam, botavam vestidos compridos, dançavam charleston, foxtrote. Meu irmão sempre com o baixão. Ele foi o arrimo da família, aquela pessoa que com o baixo acústico conseguiu manter os outros cinco. E meu deu oportunidade de ser o que eu sou. Devo muito ao Paulinho. E a meus pais, minha mãe que até hoje está injetando energia na minha pessoa. Antes de vir para a entrevista, ela ainda falou pra mim: “Não esquece do projeto do Livrão e das pessoas que foram muito importantes pra você”. A gente podia ter a mãe eternamente. Acho que eu vou ter.

FAMÍLIA
Irmão/Paulo Horta

Tem dois anos que meu irmão faleceu. Mas você fala em Paulo Horta pros músicos da nova geração, todo mundo respeita. Na época dos anos 60 ele mostrava os LPs pra todo mundo, fez a cabeça do pessoal pré-Clube da Esquina. Os músicos daquela época, Nivaldo, Paulinho Braga, Carlos Vilela.

PESSOAS
“Bituca”(Milton Nascimento)

O Milton era baixista. Já era compositor, mas também era baixista. O Bituca foi lá em casa, eu tinha 15 anos, ele 19, 20. Isso seis, sete anos antes do Clube acontecer. Eu fazia música com Marcinho Borges. O Lô era menino, jogava botão, usava calça curta. Mas com a orelha desse tamanho aqui, ó! Ficava ouvindo a gente tocar.

FORMAÇÃO MUSICAL
Primeiro instrumento

O meu primeiro instrumento foi um violão da Del Vecchio, amarelo. Tenho até hoje. Recentemente, o Virgílio, grande craque, luthier, de Sabará, deu uma reformada nele. Mas é um violão que tem muita história. Foi onde eu dei meus primeiros acordes, inclusive comecei a tocar com os dois dedos. A primeira música que eu toquei foi do Ary Barroso: [Cantarolando] “Risque… pon, don, don, don”.
Eu gostava dos baixos. Minhas irmãs já tocavam dedilhando, mais delicadamente. Daí a pouquinho eu já estava passando as meninas. “Olha, o Toninho tem jeito pro negócio.” Devia ter uns dez anos.

INFÂNCIA
Primeira infância

Minha mãe lembra de duas histórias… Parece que quando eu tinha um ano e meio, tinha uma música chamada “No na ná”, uma música cubana, uma rumba. Eu adorava. Então já tinha uma coisa.

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Pais/ As Influências

Meu pai é descendente de índio. Minha mãe tem história lá de Portugal, da Dinamarca. Uma junção bem peculiar. A bisavó do meu pai foi pegar laço no sul da Bahia, os índios cariris, uma história incrível. Então eu tenho tanto o lado de sofisticação, do jazz, quanto do ritmo, do groove, do Jorge Ben.

INFÂNCIA
Primeira infância

A rumba do “No na ná”, diz minha mãe que era um 78 rotações, aquele disco pesado. Ela disse que eu pedia tanto pra tocar que ela teve que comprar outro, porque já não estava tocando. Devo ter enchido o saco da minha mãe. E quando eu tinha três anos, e a gente ouvia muita música clássica em casa, por influência do meu avô. Quando tocou Debussy, o Clair de Lune, diz que eu comecei a chorar. Com três anos. Aí minha mãe falou assim: “Acho que negócio de música é com esse menino”. Porque eu fiquei emocionado com a música.

INFÂNCIA
Brincadeiras de criança

Quando eu tinha oito, nove anos, depois de ter morado na rua Jacuí, na rua Guaranésia, fui morar na rua Araxá. Bem adolescente já, soltando papagaio, o rei da finca na época da chuva, o rei da bolinha de gude, aquelas brincadeiras.

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Cotidiano escolar

Agora, na escola era um fracasso total. Eu estava repetindo a quinta série, passei pelo Colégio Arnaldo, implorei pra não me tirarem de lá, mas eu ia ganhar o terceiro cartão azul. Se ganhasse o terceiro cartão azul, era expulso do colégio. Ganhei dois, aí o padre José falou: “Seu filho não vai poder mais estudar”. Foi a maior tristeza da minha vida, porque eu adorava aquele colégio. Ficava jogando bola o dia inteiro, levava violão, fazia letra de música, mas estudar mesmo eu não queria. Às vezes tinha aquele negócio de memorizar, botava um santinho, uma correntinha, uma medalhinha: “Olha aqui. Quantas peças têm aqui? O que é que você viu?”. Eu era esperto. Sempre fui bom em redação de português, apesar de nunca ter gostado de ler muitas coisas. São os dons naturais que Deus deu pra gente. Depois passei pro Colégio Estadual, Colégio Anchieta, hoje a Cetec, escola técnica. Eu trocava figurinha, trocava revistinha, era rei.

FORMAÇÃO MUSICAL
As Influências

Até com quase 30 anos de idade, morando no Rio de Janeiro, eu tinha bala, revistinha e quase não bebia. Lembro que o Marcinho falou, eu com 27 anos, não vou esquecer: “Você é a pessoa mais pura que eu conheço”. “Que é isso, Marcinho!” É porque eu sempre fui muito natural, as coisas sempre foram muito pro lado da emoção, da verdade. Tanto que a minha música reflete um pouco essa liberdade de ritmo, de estilos. Eu posso fazer tanto bossa nova quanto a coisa mais puxada pro pop rock ou hip-hop ou jazz. Agora fiz um disco de forró com a Elba Ramalho, o Dominguinhos, toquei com Jackson do Pandeiro. Tenho essas influências, foi tudo o que eu toquei em baile com o meu irmão, rumba, maxixe, samba. Toquei muito em casamento, em serenata. Nem tinha namorada, mas tocava pras namoradas dos meus amigos. Ficava lá chupando o dedo, mas a minha namorada era a minha viola. Era apaixonado pela viola, mais do que por qualquer menina. Tive vários amores platônicos. A vida foi muito sem pressa, a gente é o que é na verdade.

EDUCAÇÃO
Estudos

Passei pelo Estadual na adolescência. Conhecia todo mundo da época do Luiz Marcio, Nelson Ângelo. Na época de ir pro barzinho, namorar, fazer serenata. Essa época dos 16 aos 19 anos. Tinha o bar Veia Poética, do lado do colégio, aonde os poetas, os malucos daquela época iam. Era muito bom conviver com essa turma. Mas eu vim a estudar no Colégio Estadual, na Sagrada Família. Eram três estaduais: tinha um na Serra, um central, que era o principal, e tinha outra filial, que existe até hoje. Foi lá que eu estudei, passei um ano no Colégio Sagradinha. Mas vivia no Estadual vendo os eventos culturais, shows. Hoje a gente tem que batalhar pra levar cultura nas escolas. Pra fazer a cabeça do pessoal antes. Uma vez eu fui tocar numa universidade, lá no campus da UFMG: “Gente, hoje eu vou tocar uma música do clássico da música brasileira, Dorival Caymmi, ‘Saudades da Bahia’”. E ninguém cantou comigo, ninguém conhecia o Dorival Caymmi. Acho que a gente tem que pegar os meninos mais jovens e tentar fazer a cabeça deles.
Então eu sempre gostei do Colégio Estadual. Pelo menos naquela época, tinha essa efervescência cultural, uma coisa política. Política eu nunca dei bola. Até naquela em 1968, que teve a passeata dos Cem Mil. “Aí, Toninho, vai na passeata?” “Não, vou dormir.” Estava no Rio de Janeiro. Meu apelido é Soninho Horta, que quando a coisa não me interessa, eu durmo. Mas o pezinho fica balançando. Quando tem uma coisa que me interessa: “Opa!”, aí parece que não me aconteceu nada, que eu estou ligado o tempo todo.

FAMÍLIA
Irmã/Berenice Horta

O Estadual sempre foi um colégio muito aberto, do pessoal liberal. E hoje, vendo a minha irmã, que foi professora por mais de 20 anos, e há mais de cinco é vice-diretora do colégio, ela, por iniciativa própria, fez uma orquestra de violões. Queria colocar alguma coisa cultural na mão dos meninos, uma possibilidade de sair das idéias erradas. E mesmo gente com boa intenção às vezes não tem condição financeira do pai comprar um violão, um instrumento. Ela entrou num projeto do Instituto Gino Rabello, conseguiu patrocínio, e durante dois anos eles estão bancando essa orquestra. Compraram trinta e tantos violões. E foi hoje a abertura desse evento maravilhoso, em homenagem ao Clube da Esquina. E já que a gente estava tocando na casa deles, falamos: “Nós vamos tocar”. Até fiz um arranjo do “Trem azul”, do Lô e do Ronaldo, e foi uma coisa maravilhosa. Por isso e por outras coisas, o Colégio Estadual sempre foi assim. E nesse ano agora de 150 anos de comemoração, quero parabenizar o colégio. É um projeto do Niemeyer, o Mata-borrão. A gente tocou no Mata-borrão do Niemeyer hoje. Estou muito feliz, hoje foi um dia muito especial.

FAMÍLIA
Reuniões familiares

O Paulo foi quem mais incentivou. Eu já vinha tocando. Quando fiz oito anos de idade, teve uma festa na rua Araxá, num sobradinho do lado da minha casa, que foi no 566, em frente à praça do alto do Colégio Batista. Na época eles falavam que tinha até duende na praça, e eu acreditava. “Pô, duende!” Eu vivia na coisa de magia, soltando papagaio. Quando a pipa subia, acho que eu ia junto. Na música consegui isso, essa liberdade melódica, harmônica. E com oito anos de idade, teve uma festa lá em casa, uma das que eu mais ganhei presente. E o meu irmão trouxe todos os amigos músicos: Dino, saxofonista, Plínio, Aécio Flavio, que foi uma grande pessoa na minha vida, maestro, vibrafonista, flautista, pianista, compositor. E toquei depois com o Laércio na banda Bacana, junto com o Paulinho. Mas esse dia eles tocaram. Eles sempre tocavam nas festas lá em casa. O Dino esqueceu o sax dele lá em casa, no armário. Eu fui querer montar o sax no dia seguinte, montar aquele cachimbo, mas eu não sabia de jeito nenhum. Estraguei o sax dele todo. Aí o meu irmão ficou chateado. Mas naquela época já estava querendo entrar na onda.

INÍCIO MUSICAL
Primeira composição

Com dez anos comecei a tocar violão. Aos treze, fiz a primeira canção, “Barquinho vem”, um pouco, ou totalmente, inspirado naquela música: [Cantarolando] “Um cantinho, um violão/Esse amor, uma canção/Pra fazer feliz a quem se ama…”. Aquela em lá menor, com sexta e vai descendo a bemol diminuto. Naquelas épocas eu não sabia nada de nomes não, só sabia de música. E eu fiz a música: [Cantarolando] “Vem meu barquinho/Vem me buscar”. Até a nota era parecida…: [Cantarolando] “Quero ir com você pro imenso mar”. Um mineiro com 13 anos falando em mar! Não tinha nada a ver. Mas, na verdade, a gente já estava pensando em sair das montanhas. A letra foi feita pela minha irmã Gilda.

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“Flor que cheira saudade”/ Primos

E aos 14 anos eu fiz a “Flor que cheira saudade”. Tenho vários primos que são grandes músicos também. A Gina Horta, que é uma compositora bissexta, tem várias outras atividades, mas de vez em quando ela faz um disco. É muito competente, escreve bem letra. E o irmão dela é um craque, um pianista fabuloso, Halley Flamarion, tocou na noite de São Paulo muitos anos, é um virtuose.

TRABALHO
Avaliação

Eu acho que a minha batalha nesse mundo é valorizar o músico. O meu irmão foi um operário da música a vida inteira, tocou 40 anos na noite, bebeu e se destruiu bebendo. Bebida e cigarro a vida inteira. Até que chegou uma hora que ele não agüentou. Acompanhei o processo de várias gerações de músicos, vi que vários músicos piraram, outros se drogaram, os outros viraram produtores de jingles, ou diretores de gravadoras, ou sei lá o quê. Poucos mantiveram aquela coragem audaciosa de ser compositores e músicos a vida inteira. Até tantos anos era marginalizado. Tenho vários projetos em andamento pra valorização do músico. Quando eu falo do Paulinho, do Aécio, do Dinho, das pessoas todas, falo com muito gás, muita alegria, porque acho que o músico é um batalhador. São as pessoas que fazem a alegria, a cabeça das pessoas. Muita gente falava pra mim, a Nana Caymmi: “Toninho, pô, legal a letra do ‘Beijo Partido’, sua música”. Foi história pra muita gente, dor de cotovelo, as pessoas têm a referência. Assim como do “Girassol do seu cabelo”, do “Trem azul’’, do “Clube da Esquina ”, “Clube da Esquina 2”, do “Nascente”.
A música é uma coisa inebriante, divina. É uma das coisas que pode salvar o mundo. Por isso eu respeito demais. E não existiriam os grandes cantores, Maria Bethânia, Gal Costa, Ângela Maria, Elza Soares, se não existissem os músicos batalhadores, que foram sempre os injustiçados. Também não estou falando uma coisa assim, acho que é muito legal ser músico, agüentar o pessoal fumando na sua cara, conversando, você tocando umas harmonias geniais, sentindo pra caramba, e o pessoal não está nem aí. Isso tudo faz parte. De vez em quando estou tocando num lugar que não tem nada a ver, mais pelo prazer de tocar, pela oportunidade. Às vezes as pessoas não sabem da importância, mas acabam ficando. De repente, tem um carinha no final do show que fala: “Pô, gostei daquela música”, ou: “Aquela frase me pegou”, “Pô, aquele acorde da guitarra”. Não existe nada mais maravilhoso que isso. Acho que eu sou um privilegiado. O que já ganhei de recíproca…

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Clube da Esquina

E tento também colocar minha energia em prol de muita coisa, o próprio Museu do Clube da Esquina, por exemplo. Falando do Marcinho, que é supercorajoso, um audaz, mais que um “Manuel, o audaz”, acho que só ele poderia fazer isso. Luto em função de alguma coisa que pode se eternizar. E a gente que fez sucesso numa época em que não tinha a palavra “mídia”.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

Agora há pouco fui num seminário em Itabira, tinha uns meninos falando do Drummond. Montaram um grupo, não tem nem produtor, uma meia dúzia de adolescentes falando sobre a poesia de Drummond. Mas foi tão verdadeiro, que eu vou fazer uma trilha de graça pra eles. Vou acompanhar os poemas de Drummond pra eles representarem. Porque vale a pena investir na coisa verdadeira.

FORMAÇÃO MUSICAL
Primeira apresentação

Estreei onde hoje é o Minas Centro, em Belo Horizonte. Era a Secretaria de Saúde e Assistência. Auditório pra mil e poucas pessoas. Teve o Festival, que primeiro se chamava Sindicato dos Músicos de Belo Horizonte, onde meu irmão trabalhava, ajudante na Ordem. E ele ajudou a organizar. Lembro que eu acompanhei a cantora Malu Balona, que hoje não mexe mais com música, é irmã do tecladista Célio Balona. Então, eu acompanhei a Malu nessa história. A música “Morria de amor” e uma música minha. “Você que não vem”. Foi a primeira vez que eu participei.

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“Flor que cheira saudade”

E voltando um pouquinho, dois anos antes, com 14 anos, eu fiz a música “Flor que cheira saudade”. A banda do Aécio Flávio na época – um conjunto chamado Conjunto Aécio Flávio, com meu irmão no baixo, o Plínio no trompete, o Washington no piano, Dino no sax, Márcio José cantando, Valtinho na bateria – gravou. A segunda música que eu tinha feito na minha vida, uma bossa, um samba-canção, estava sendo registrado no Rio de Janeiro por um conjunto já famoso. Então, pra mim foi a glória, um grande incentivo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Profissionalização

Dois anos depois, eu já estava me tornando um profissional. É que eu fui pra noite mesmo com 19 anos. Meu irmão falou: “Agora você já está bem grandinho. Nós vamos lá no shopping comprar uma guitarra e você vai começar a fazer baile com a gente, vai ganhar grana. Não pode ficar a vida inteira eu te paparicando. Agora você vai começar a trabalhar”.

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Festival Estudantil da Canção

Aí a gente comprou uma guitarra Snake, e então em um, dois anos, eu fiz aquela participação no Festival Estudantil da Canção, em Belo Horizonte. Teve o Tavinho Moura com “Como vai minha aldeia”, o Lô e o Beto com “Equatorial”. E foi mais ou menos na época do Edifício Levy, onde a família Borges morava.

PESSOAS
Beto Guedes/Lô Borges

Eu morava no mesmo prédio que o Beto, na rua Tupis. Dava uns 40 metros de uma portaria pra outra. Morava no segundo e o Beto no nono andar. O Beto sempre encontrava com o Lô Borges, aí eu falava: “Ih, aqueles roqueiros”. E ele olhava pra mim com o violão, falava: “Ih, aquele cara do jazz, da bossa nova, não está com nada”. Mas acabou que no Festival nós nos encontramos, em 69. Aí todo mundo virou amigo.

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Festival Estudantil da Canção

Tenho uma foto muito representativa desse Festival, tocando a música “Yara Bela” com a Joyce, uma cantora carioca que sempre teve muita empatia com os mineiros. Aliás, foi a primeira cantora, fora de Belo Horizonte, a gravar uma música minha. Em 68 ela gravou “Litoral”, a primeira música que eu fiz no Rio com o Ronaldo Bastos. E em 69 ela já veio cantar essa outra, e o Naná Vasconcelos fazia a percussão. O Naná veio do Nordeste, percussionista fabuloso, um cara sempre criativo. E na época do Clube da Esquina ele chamou a gente pra mostrar o Jimi Hendrix. Tem essa foto com a guitarra Snake.

PESSOAS
Beto Guedes

Essa guitarra é a única coisa física que eu posso doar pro Museu Clube da Esquina. Na época chamava Sun Burst, ela era preta, depois ia pra marrom, pra vermelho e amarelo, eram quatro cores. Depois o Beto Guedes, com aquelas idéias todas de ter uma guitarra natural: “Toninho, vamos raspar essa guitarra?”.
Raspamos a guitarra toda. “Vamos cromar isso, o que está cromado, vamos fazer dourado.” O Beto sempre teve aquelas histórias. Aí fomos pra São Paulo. “Vamos botar um captador Gibson”. Envenenamos a guitarra. E hoje ela está aí, toda mexida. Foi a guitarra em que eu fiz o solo do “Trem azul”, solo que ficou famoso.

PESSOAS
Tom Jobim

E depois até o Tom Jobim — que é um grande fã do Lô Borges –, que eu também considero um dos maiores compositores do Brasil e do mundo, um cara altamente inventivo, com uma liberdade de criação absurda, de concepção musical, extraiu todo o meu solo do Clube da Esquina e passou pras cantoras dele, com vocal e tudo. Pra mim foi a maior glória. Pro Lô foi a glória o Tom gravar “Trem azul”, que o Tom quase que não gravava música de ninguém. É porque ele era fã mesmo. E ele gravou meu solo também, aí realmente tenho que tirar o chapéu.

TRABALHO
Atividades profissionais

No primeiro baile que eu fiz, no Conjunto Aécio Flávio, toquei a guitarra como se fosse um violão. (Olha que impressionante: agora achei até que tinha um violão aqui do meu lado, juro que eu vi um braço do violão aqui. Aí vi que não era, foi só uma visão. Mas não tem problema, é que a música está o tempo todo comigo.) E fui acompanhando as músicas do baile, formaturas, tocando sempre nas cordas do meio, como se tocasse violão. Aí o Aécio falou: “Não, Toninho, o negócio é o seguinte: na guitarra você deve explorar as cordas dos agudos. Você pode botar nas quatro cordas mais agudinhas, você pode botar umas inversões, uns acordes. Você pode explorar, porque a guitarra te dá muita possibilidade”. Foi aí que eu comecei a andar na praia.

FORMAÇÃO MUSICAL
Preferências musicais

E logo eu já estava ouvindo muito Taul Falor, o Barney Kassel, que fez um disco histórico com a Sílvia Telles, um disco de bossa nova. A gente bebeu muito dessa fonte, desses guitarristas da música americana. Quando veio a bossa nova, negócio do balanço, também sofisticado, a gente pôde juntar isso. É a escola do Juarez Moreira, do Flávio Henrique, do Sérgio Santos, do Chiquinho Amaral, do Robertinho Brant. Foi muito legal essa experiência de baile.

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento

Naquela época o pessoal ainda falava assim: “Dois”. Dois era o dó, ré, fá, ré maior. Tinha uns códigos doidos assim. Aí que eu comecei a aprender cifra. Com 16 anos, cheguei a fazer seis meses de teoria em solfejo numa escola, a Universidade Mineira de Arte. Mas eu não queria estudar aquelas coisas teóricas, queria fazer música, tocar. Lembro que cifragem pra mim era muito complicado. Com o tempo e com a prática do baile eu fui aprendendo; eu aprendi bastante com o Aécio também. Então as primeiras pessoas começaram a gravar as minhas músicas no Rio, depois do Festival de 69. E veio o primeiro show do Milton, em 1970, no Rio de Janeiro. Antes de 69 teve 67, que foi o festival onde o Milton ganhou segundo lugar com “Travessia” .

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“Bituca” (Milton Nascimento)

Eu tinha 15 pra 16 anos, e, mais uma vez, o meu irmão e as minhas irmãs promoveram um baile lá em casa. Chamava Hora Dançante. Era um encontro pra dançar, namoradinhos e namoradinhas, salgadinhos, refrigerante, cuba-libre. E depois, meu irmão vinha com a banda dele pra tocar. Nesse dia a banda tocou o tempo todo. Chamaram o Marilton Borges, o conjunto do Marilton, não sei se era o Gemini Sete. Foi todo o grupo pra lá. Estava o Chiquito Braga, meu guru na guitarra, um grande violonista e guitarrista. E o Paulinho, meu irmão, falou assim: “Eu vou trazer uma banda aí, o Gemini Sete. E vem aí um rapaz, um crioulo do interior, mas o cara é uma fera”. Lembro do meu irmão, com a idade dele, e eu com a minha, ele falando comigo, como se fosse hoje. Ele tinha o maior bom gosto. Ouvia Henry Mancini, aquela orquestração toda. Meu irmão sempre teve uma concepção muito avançada. E ele falou: “Vou trazer esse cara aí, é demais, ele toca contrabaixo e canta na banda do Marilton”. Aí acabou a Hora Dançante, ficaram só os músicos. Nós fomos pra copa da rua Araxá, 566, e eu era um menino de calça curta, o Paulo era 15 anos mais velho. Estou com 55, mais 15, conta 70. Ele faria 71 esse ano. Eu vou fazer 56.
O orgulho do meu irmão sempre foi me apresentar. Que legal isso! Falou assim: “Toca aí umas músicas pro Milton”. Não, não era Milton, era Bituca. “Gente, esse aqui é o Toninho, meu irmão, está fazendo umas musiquinhas.” Aí toquei o “Barquinho veio”, “Flor que cheira saudade”, “O ciúme da areia”. As três primeiras músicas que eu tinha feito. Depois o Bituca pegou o violão. Aí ele mostrou “Barulho de trem”, deve ter mostrado “Crença”, uma das músicas mais antigas com o Márcio, eu não me lembro exatamente. E se criou uma primeira empatia. O Milton virou meio fã da família também, e foi uma noite inesquecível pra mim. Antes de ter o lance dos Borges, que os Borges adotaram o Bituca, ele ia muito lá em casa. Em 66, talvez uns dois ou três anos depois desse encontro, um ano antes de ele ser classificado pro Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, com três músicas, e eu com duas, ele vivia lá em casa.

MÚSICAS
“Segue em paz”

E um dia nós fizemos uma música que se chama “Segue em paz”. Parece que ele não assumiu muito – né, Bituca? Vamos assumir um pouco essa canção, nem que for pra história! E aí o Bituca fez “Segue em paz”, melodia minha, com letra dele: [Cantarolando] “Segue em paz/Que eu já vou pela vida/Já se vai esse tempo em que o bem/Longe está demais…”.
É um samba-canção bem bonito. E de vez em quando eu toco na televisão, estou divulgando a música demais. Até o dia que não vai ter jeito mesmo e ele vai ter que autorizar alguém a gravar.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

Mas a parceria não foi muito pra frente. O Bituca era compositor, gostava mesmo de fazer melodias. E em 67 foi classificado pro Festival. E a gente pegou o mesmo avião, naquela época do sapato de bico fino, a calça pega-frango. Tem uma foto, até. Tenho que rezar pra um dia essa foto aparecer. A gente no aeroporto, junto com o Carlos Hamilton e o Mário José, que foi cantar a minha música. A gente chegando no Rio de Janeiro, com o avião atrás, o Bituca bem magrinho e eu um pirralho de gente. Um pouco dessa história é falada no “Sonhos não envelhecem”, pelo menos a preparação de mandar as fotos, a classificação, o Pacífico Mascarenhas, que levou a gente. Ele sempre foi compositor, nunca assumido, porque ele tinha outras atividades profissionais, mas é um cara que estava sempre lá, fazendo a sua música, com o coração todo pra Belo Horizonte. Ele que levou a gente pra gravar música pra TV Globo. E foi classificado nesse festival. A história começou a vingar profissionalmente quando a gente foi pro Rio. O Milton já tinha uma história, em 66 se não me engano, na época do festival da Record, quando ele morou um ano ou dois em São Paulo, quando a Elis Regina cantou “Canção do sal”. Mas acho que São Paulo não foi um bom astral pro Milton. Pelo que eu lembro, não foi um lugar que ele gostou muito, apesar de ter conhecido a Elis. Mas eu acho que em 67, no Rio de Janeiro, foi que as coisas aconteceram.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

Acompanhei o Milton em todos os lugares que a gente era chamado pra tocar; todo mundo queria saber quem eram os compositores mineiros que tinham mais de uma música no festival. Todos os compositores brasileiros tinham uma música. Um letrista brasileiro tinha duas letras. Era quem? Vinicius de Moraes. E só dois músicos tinham mais que duas músicas. Éramos eu, com “Maria madrugada”, parceria com a minha prima Júlia Horta, e “Nem é carnaval”, parceria com o Marcinho, interpretada pelo Márcio José, e o Milton, com “Travessia”, parceria com o Fernando, “Maria, minha fé” e uma outra. Eu estava com 18 pra 19 anos. A gente era chamado pra casa Maria Amélia Marcondes Ferraz, no alto da lagoa, no Jardim Botânico. Mas todo mundo tocava: Paulinho Tapajós, Artur Verocai, Dori Caymmi, Marcos Vale, Dino Greca, todo mundo tocava o seu violão, seu piano. A gente rodava as noites do society lá. E no final, todo mundo queria saber quem eram Milton e Toninho Horta. Eu tocava timidamente o violão, aquela vozinha assim… O último era o Milton, que todo mundo queria saber quem era. “Quem é que classificou três músicas pro festival?” Aí começava a cantar. Você só via gente indo pros lados, chorando, impressionante. Emoção absurda, ninguém acreditava no que era “a voz de Deus”, o Bituca.
O dom supremo musical é do Bituca. E não só o dom da voz e de como passar essa emoção; um compositor também, a quem Deus deu tudo. Tem uma música antiga do Edu Lobo que eu gosto, chamada “As mesmas histórias” (eu, que sou considerado o rei da harmonia — até o Tom Jobim falou “rei da harmonia”. O Hermeto Pascoal, que é considerado um dos maiores músicos do mundo, falava: “Quem é o músico que você quer tocar?”. Ele: “O Toninho Horta”. No mundo inteiro: “Ah, Toninho Horta”), e essa música, “As mesmas histórias”, teve uma hora que eu estava tocando, e eu falei: “Bituca, estou com uma dúvida aqui, estou tocando mas não sei…”, eu já sabia que não estava no caminho certo da música. Ele falou: “É isso aqui”. Pegou e tocou. Então o pessoal pergunta: “O Bituca toca violão?”. Ele não é aquele exímio instrumentista, mas ele conhece tudo, e o mais importante: a musicalidade. Não importa a maneira ou o som arranhado, é o entendimento harmônico e melódico da coisa. Isso é uma coisa dos seres supremos, a presença de Deus nas pessoas.
O Milton, realmente, é a pessoa pra quem eu mais tiro o chapéu, agradeço, sou influenciadíssimo e, sem demagogia nenhuma, é um dos grandes inspiradores. Muito daquela coisa do violão rasgado que eu faço, ou as coisas de vocalise, parcamente, modestamente, é influência do Bituca. Claro que já tinha as influências do jazz, do meu irmão. Mas o Milton misturou. Naquela época ele era programador de uma rádio em Três Pontas, então tudo o que a gente estava ouvindo em Belo Horizonte já estava ouvindo em Três Pontas. Ele já tinha cabeça. E misturado com a coisa do negro, o canto do trabalhador. A coisa dele é muito mais profunda. E talvez a necessidade, por ser negro, de se afirmar. Acho que ele, graças a Deus, provou pro mundo inteiro. Todo mundo, em qualquer lugar que eu vá, tem fã do Clube da Esquina. E o Milton é assim, é o Deus. Graças a Deus.

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Festival Internacional da Canção

Naquela época, meus pais foram. Minha mãe era aplaudidora, e tinha muita música bonita no Festival. Era uma festa, uma coisa única ver 15 mil pessoas no Maracanãzinho, aplaudindo as canções, os músicos se conhecendo, a Joyce começando a ter um contrato pela antiga PolyGram, querendo gravar música minha. Conheci Agostinho dos Santos. E naquela época eu era um cara grilado, mineiro, desconfiado, minha guitarra… Adolescente sempre tem grilo. Eu não sei o que foi que aconteceu, o Agostinho: “Toninho é assim mesmo?”. Falei: “É, o Toninho é assim mesmo”. Isso é de nascença mesmo. Os músicos se respeitavam, então todo mundo se conheceu. E o Rio é para o Brasil o que Nova Iorque é internacionalmente, recebe músicos do mundo inteiro: russos, austríacos, africanos, europeus, asiáticos.
O Rio de Janeiro foi esse lugar centralizador de pessoas do Brasil inteiro. Conhecemos o Capiba, grande compositor do Nordeste, Edino Krieger, da área erudita, mas que também faz sua canção popular, Dori, Edu. Na verdade, Edu, Dori e Milton já eram da geração um pouco abaixo do Tom Jobim, e depois é que vinha a minha geração. Aí vem Fernando Leporace, Nelson Ângelo, Tavito, Danilo Caymmi, um pouco mais novo. Claro que essa geração dos festivais foi privilegiada, naquela época dos anos 60. Não tinha essa coisa da mídia. O que chegava no público eram os festivais. O Caetano Veloso, com “Sem lenço, sem documento”, Geraldo Vandré com “Disparada”, “Pra não dizer que não falei de flores”, sei lá, tinham umas coisas políticas na época. Guardo muito boas recordações, curti, viajei muito. Tinha aquela cantora Cláudia, competentíssima, na época era uma gatinha. Quando eu cheguei no quarto do Hotel Savoy, fui tomar um banho. Quando eu olhei na janela do outro lado, estava a Cláudia, maravilhosa. Falei: “Mas que beleza, hoje eu vou te contar. Taí, Festival da Canção, coisa melhor do mundo!”. [Risos]
Desse festival a gente voltou meio ídolos. O Bob Tostes, que é também cantor e tudo, tinha uma coluna. Acho que a primeira nota do Toninho Horta saiu na coluna dele. Eu devia ter 15 ou 16 anos. Foi legal, as pessoas procuraram a gente pra fazer as matérias de jornal. E frutificou muito porque não só as pessoas começaram a nos dar os parabéns pelo trabalho, como no Rio de Janeiro abriram as portas. Os cantores começaram a gravar músicas minhas, do Milton. Aí o Milton foi fazer um disco com o Tamba Trio, que tem “Travessia”, um disco de alto nível musical e artístico. Logo depois, em 70, o Milton foi chamado pra fazer o primeiro show no Rio de Janeiro, no Teatro Opinião. Ele me chamou pra fazer participação especial nesse show. Eu já estava meio paralelo com o Milton.

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Origem do Clube

Às vezes, a história do Clube da Esquina confunde, as pessoas acham que todo mundo começou com o disco “Clube da Esquina”. Foi mais o Lô e o Beto que usufruíram dessa história, porque eles se formaram mais junto com o Milton. Até por causa da idade, por causa da influência com o meu irmão em Belo Horizonte, eu já vinha trabalhando com música.

PESSOAS
Família Borges/ “Bituca”(Milton Nascimento)

Em 67, quando veio a classificação do Festival, eu estava morando na rua Tupis. Conheci o Marilton, o Bituca. Talvez eu tenha ido na casa deles um dia, ou pelo menos sabia onde era, lá em cima, nos últimos andares, mas eu não tenho recordação nenhuma da casa deles. Agora, depois que eles se mudaram pra rua da Bahia, eu fui fazer umas músicas com o Márcio. O Lô era menino, jogava futebol de botão. Me lembro da rua da Bahia, tenho uma lembrança legal. Depois eles foram pra Santa Tereza, que aí é aí onde o pessoal já estava mais próximo da época do Clube da Esquina. Fim dos anos 60, princípio dos 70.

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“Milton Nascimento”/ “Aqui, Ó!”

Já tinha acontecido o show do Milton, e Ah! E O Som Imaginário. A banda chamava Ah! E o Som Imaginário. Não era O Som Imaginário não, era Ah! E O Som Imaginário. Foi uma temporada de duas, três semanas. E todo dia era muita gente, o pessoal se emocionava demais. Naquela época era Hélvius Vilela no piano, Gegê na bateria, Laudir de Oliveira na percussão, Luiz Alves no baixo, Robertinho Silva na bateria. Acho que o Fredera veio depois, não sei. Mas em 70, nessa mesma época, acho que o Tavito ajudou sim. E o disco “Milton Nascimento”, pela EMI, tem a gravação de uma música minha com o Fernando, em 68. O Milton gravou “Aqui, Ó!”. O Fernando diz na letra: [Cantarolando] “Oh, Minas Gerais, um caminhão/Leva quem ficou por 20 anos ou mais”. Quer dizer, já estava me desprendendo de Belo Horizonte pro Rio, e ele fez uma letra de despedida. Em 68, o Milton gravou, e eu fiz uma participação, cantando, tocando violão.

MÚSICAS
“Durango Kid”

E em 70 teve o registro do “Durango Kid”, uma música minha e do Fernando, que na época eu não tinha aprovado a letra. O Fernando sempre foi craque, mas me assustei demais. Assim como a letra do “Manuel, o audaz”, me assustei com a letra do “Durango Kid”: [Recitando] “Esse jornal é o meu revólver/Esse jornal é meu sorriso…”. Mas o Milton cantou divinamente, um arranjo do pessoal do Som Imaginário. Não participei dessa gravação. Era o segundo registro meu que o Bituca tinha feito.

DISCOS
“Clube da Esquina”

Dois anos depois é que aconteceu o convite pela EMI, e o Ronaldo Bastos era ligado à área de produção, e foi uma das pessoas mais importantes nesse projeto. Ele ajudou a convencer a EMI a fazer um álbum duplo, porque era muita riqueza musical. Naquela época, na América, tinha muita gente fazendo álbuns duplos. E o Ronaldo é aquariano, sempre pensou na frente. Batalhou pra conseguir gravar aquele LP, que foi assim uma coisa maravilhosa, o “Clube da Esquina”. “O Clube da Esquina ” é o primeiro álbum duplo feito no Brasil.

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Atividades profissionais

A gente tinha essa relação com o Milton, desde Belo Horizonte, depois Festival Internacional da Canção em 67, show no Teatro Opinião, temporada com Milton Nascimento e Ah! E o Som Imaginário. Depois a gravação do disco “Beco do Mota”. Em 70, a gravação do “Durango Kid”. E nesse meio tempo, até gravar o “Clube da Esquina”, eu trabalhei com a Elis Regina, em 1970. Com o Nelson Ângelo, que já era um companheiro, a gente fez várias apresentações em movimentos estudantis, de colégios, coisas culturais.

TRABALHO
Apresentações

O Marcinho é que gosta dessa história, de um show que não deu nada certo. Um evento que teve no Instituto de Educação. Pra começar, estava lotada a platéia do Instituto. Quando abriu a cortina, o cenário era tudo o que tinha de peças atrás do palco, de espada de teatro, camisola… E tudo desbotado. Quando abriu já foi aquela coisa, foi incrível. De repente, o cara foi tocar e falou: “Eu vou chamar não sei quem aqui na frente”. Aí tinha aquele poço do maestro, aquele alçapão, o cara caiu lá pra dentro [Risos]. Aí outro, não sei quem, foi tocar cello. E a partitura foi amarrada com barbante. Quer dizer, tudo maluco. “Agora com vocês, o trio do Bosco Baterito”, e entravam mais três pessoas. O Nelson Ângelo estava, mas a gente morria de rir.

PESSOAS
Nelson Angelo/ Elis Regina

O Nelsinho foi um grande parceiro, e a gente estava sempre junto nos eventos. Quando ele foi morar no Rio, antes de mim, e ficou amigo do Novelli, eles me chamaram. Nelson me liga: “Toninho, vai ter uma audição com a Elis Regina, eu vou fazer. Mas como a gente toca junto há muito tempo, você não quer fazer esse teste não? De repente passamos nós dois, duas guitarras”. Pô, o cara é genial! “Estou querendo montar uma banda com você chamada A Tribo”, ele falou. Uma banda toda psicodélica, 1970, com a Joyce, Naná, o Novelli, o Nelson e eu. “Aí você vem aqui, mora com a gente, e a gente então participa da Elis Regina.” Fizemos o teste, a Elis adorou, viajamos com ela o Brasil inteiro, foi o maior barato. E aí toquei n’A Tribo com o Nelson durante um ano. Fizemos várias músicas, alguns discos. Nelsinho era líder com a Joyce, eu participava mais como músico.

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Márcio Borges/ Marilton Borges/ Fernando Brant

Já conhecia o Marcinho, ele já era meu parceiro. Tínhamos feito “Nem é carnaval”, a gente já se cruzava. O Marilton era amigo do meu irmão. O Fernando apareceu na época do Festival. A gente se encontrava na Pavuna, na rua, que era um grupo que a gente tinha na rua Tupis, entre Rio de Janeiro e Espírito Santo, atrás da igreja São José. A gente ficava sempre das sete às nove da noite conversando, era um barato.

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“Clube da Esquina”

Daí a pouco, quando pintou oportunidade do Milton gravar, eu fiquei já sabendo do convite: “O Milton vai gravar e quer você”. Não sei se ele mesmo falou ou se foi o Ronaldo. “Vai estar todo mundo.” Paulo Moura, Wagner Tiso, todo mundo. Então quem estava com o Milton esse tempo todo, desde o meio dos anos 60, as pessoas que tinham mais amizade e, obviamente, musicalidade, quem tinha um recado musical pra dar, o Milton chamou. Agora, da preparação do repertório, eu me lembro que eles ficaram numa praia em Mar Azul, em Piratininga, durante um mês. O Ronaldo falou: “Não é possível que você não vá ficar lá nenhum dia”. Era pra eu ter participado, pelo menos eles me chamaram. Nessa casa eles fizeram todas as composições do Clube, o Beto, o Lô e o Milton, principalmente. Aconteceu que eu estava gravando, não sei se com a Gal ou com a Elis. Eu já era um músico de estúdio. Depois que eu gravei com a Elis – já estava no Rio de Janeiro desde o fim dos anos 60, sempre viajava com o Lô Borges. Viajávamos pela Útil ou pela Cometa pro Rio –, sempre de ônibus. A gente sempre dormia um no ombro do outro, cada hora um dormia. Viajamos de trem no Vera Cruz. Isso já na época do show do Clube.
Da preparação do disco não pude participar. Mas o Ronaldo falou: “Você vai, nem que for no último dia”. Aí no último dia da casa, lá em Piratininga, cheguei com o Ronaldo, ele no fusquinha branco, que era o Manuel, o pré-Manuel. Fiquei lá com o pessoal algumas horas, nem cheguei a dormir lá. “O pessoal está indo embora amanhã.” Então foi uma coisa muito rápida. Eu me lembro já no estúdio, gravando. Era tanta gente pra gravar, que tinha o Lô, o Beto, o Milton, o Wagner, aí chamaram o Novelli, o Robertinho de percussão, não sei se o Luiz Alves estava, mas eram muitos, Nelson Ângelo, Tavito, e deve ter mais gente que eu estou esquecendo.
A coisa mais característica da gravação foi a liberdade que todo mundo tinha. Porque o Wagner já era considerado o grande maestro da turma, a mãe dele era pianista clássica. Ele começou a fazer uns arranjos com o Paulo Moura, aprender arranjos no Rio de Janeiro. Era mais velho um pouco, já da geração do Milton, batendo a idade, cinco anos mais velho que eu. O Wagner era a pessoa que queria organizar o trabalho, fazer o contexto final, dar aquele retoque pra todos os arranjos e orquestrações. Eu participei muito dos arranjos de base. Por exemplo, chegava o Milton de manhã, falava assim: “A música é essa”. Quem estava ali na hora, quem acordava cedo estava ali. Quem acordava tarde não estava ali. Então o pessoal que estava dizia: “Vamos lá passar uma música”. E gente dava idéia aqui, outro dava idéia ali, daí a pouco a música estava pronta. Aí chegava mais outro no finalzinho, pegava um badulaque, começava a falar: “Eu vou tocar percussão nisso”.
Então, várias vezes já cheguei e a coisa já estava pronta. Aí eu pegava um caxixi, fazia uma percussão. Quando chegava antes, ajudava a organizar: “Não, vamos fazer isso aqui na introdução”. Não tinha baixista? “O baixista chegou atrasado, o Novelli está ali?” “Não, o Novelli só vem na parte da tarde.” Muitas vezes o pessoal acordava tarde. Quando eles passavam no hall desse prédio, onde tinha um estúdio da EMI, no início da Rio Branco, ali no Rio, acho que era no quarto andar, tinha aquele café, que servia um chopinho maravilhoso. Aí não dava pra resistir. O pessoal que acordava tarde já ficava por ali mesmo. “Cadê o pessoal?” “Está lá embaixo tomando.” Gravava uma música e descia pra tomar um chopinho. Aí, quem já estava lá, subia. Então, o interessante é que nunca coincidia. Se você pegar a ficha técnica de cada música, não coincide. Às vezes eu atacava de baixo, faltava guitarra, eu tocava. Era tudo muito espontâneo. Ajudei a organizar essa coisa da base, fazer as introduções, os finais. A minha contribuição foi muito mais em cima disso, já que eu não participei da criação do repertório.
Foi uma coisa muito livre, e acho que resultou numa coisa muito original. Tem músicas que o Beto toca bateria, tem outra que outro está no teclado. O “Clube da Esquina” foi uma felicidade total. O repertório todo de alto nível musical, e com aquela pulsação da juventude, que na época todo mundo estava aí com vinte e poucos anos. O Lô e o Beto com a influência do rock, de Beatles e sei lá quem mais, Rolling Stones; a parte do pop rock que eu peguei, James Taylor, mais light, Emerson, Lake and Palmer, Creem, aquelas bandas, Almond Brothers.
Eu venho de uma escola mais jazzística, de harmonia. O Wagner já vem da escola erudita, com a mãe dele. Nivaldo Ornellas já vem com a coisa meio barroco mineiro. O Milton com o negócio do canto, aquelas coisas modais. A junção disso tudo é que foi a riqueza do “Clube da Esquina”. E feliz do Milton, e de nós todos, de ele realmente ter sacado as pessoas naquela época.
Esse disco pra mim é um marco da música brasileira. O “Clube da Esquina”, mais que o “Tropicália”, é uma revolução musical. O tropicalismo é coisa mais da estética, da letra, da revolução de costume, porque eles colocaram guitarras na música popular brasileira. Os baianos, como os cariocas ou o pessoal que vive nas praias, têm muito mais oratória, mais descontração. E o mineiro é aquela coisa contida, meio arredia. Mas a potencialidade musical que cada um tinha era absurda. O tempo provou que depois dos primórdios da música brasileira, da época de ouro, Lamartine, Ary Barroso, Ismael Silva e todos aqueles grandes craques da época de ouro, e depois da bossa nova, que foi uma revolução já, uma coisa harmônica, um pouco influenciada pela harmonia européia com balanço de João Donato, e também de uns compositores importantes ali entre o samba de raiz da época de ouro e a bossa nova, depois disso, com certeza, está o Clube da Esquina. A história provou que musicalmente foi uma revolução da harmonia, da melodia.

FORMAÇÃO MUSICAL
Instrumentos

No “Clube da Esquina” foi a Snake que eu usei. Mas tinha umas guitarras da EMI — as gravadoras sempre tinham uns instrumentos que eles compravam, tinha uma Fender. Quando eu tocava baixo, tinha um baixo Gibson, do Bituca, um baixo vermelho. Eu tocava com palheta, adorava o som, dava vontade de comer de tão gostoso o som. E tinham outros baixos, não sei se era Rickembacker… naquela época o Fender ainda não era famoso. Rickembacker é daquela geração que tocava rock nos anos 60. E a guitarra era a Snake, parece que tinha uma Fender e uma Gibson, tipo uma 335, que era uma que eu tocava já nos shows do Milton, “O Milagre dos Peixes”. Aí eu já estava com uma guitarra vermelha, Gibson também. O antigo estúdio da Odeon, a EMI, tinha uma guitarra maravilhosa. Mas os registros foram com a Snake. Mais pra frente eu toquei baixo acústico com o Edson Machado. Meu irmão tocava baixo acústico. Ataquei de vários instrumentos. Piano, tecladinho. Mas o negócio é que naquela época a gente tinha tanta liberdade, era tão criativo, que valia tudo.

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“Trem Azul”

“Trem azul” é a faixa que eu estou mais inserido com o disco, porque eu fiz um solo. A vida inteira fui grilado com solo, nunca achava que era muito solista, porque eu não tenho muita técnica, ainda mais pra achar ali a nota certa, o bom gosto. E eu fiz um solo, e falei: “Quero fazer de novo”. Naquela época só tinham dois canais, não podia negócio de playback. “Tem que fazer, então a gente vai gravar tudo de novo.” Aí eu fiz um outro solo na época. E eu me lembro que fiquei muito feliz com o solo. Você tem que fazer, porque não dá pra gravar de novo. O desafio é bom demais por causa disso. E eu fiz um solo que começa “pan, dan, dan, dere”, comecei a cortar, depois as terças.
Falaram que o Pat Metheny ouviu as minhas terças e começou a se inspirar num trabalho dos mineiros. Fiz um solo muito simples, delicado, contando uma história. E eu lembro que eu fiquei satisfeito. O recado do solo seria: “Gente, eu estou aqui”. Aí vai mudando. Então cada trecho do solo era como se fosse uma história contada. Tem uma conclusão, uma história do princípio ao fim. Termina numa coisa apoteótica. Mas sem muito estardalhaço. É mais um acompanhamento com a pulsação legal, gostosa, mas sem muito impacto, sofisticada. E deu certo, tanto que o Tom Jobim resolveu gravar no disco “Brasileiro”, antes de ele se despedir de nós. Achou que o solo estava tão inserido no contexto da música, que ele apresentava a música. Ele copiou o solo todo, como se o solo fizesse parte da música. Isso pra mim foi um reconhecimento maravilhoso. Ainda mais que Tom Jobim, pra mim, é o mestre maior em termos de música popular no Brasil, de todos os tempos. Acho que esse solo foi uma coisa que marcou. Fiz uma introdução no “Beijo partido” que acaba fazendo parte da música. Aquela introdução do “Travessia” já vira a própria composição. Então, não só no Brasil, no mundo inteiro, o pessoal já toca a música com o solo. Muito legal. Quando a coisa é feita com verdade, ela vinga. O Clube da Esquina deu certo por causa disso, porque era uma coisa boa e de verdade.

DISCOS
“Clube da Esquina”

Não me lembro se estava na primeira audição do disco. Mas eu me lembro de vários encontros. Teve uma vez que a antiga revista “Manchete” publicou uma foto. Estávamos em frente a um barzinho perto da Paraisópolis. Tinha uma mercearia e estavam Fernando, Lô, Beto e eu. Naquela época todo mundo era meio hippie, de bigodinho, bico fino, cabelão. Alguém ainda deve ter essa foto. Não lembro da audição na rua Divinópolis, mas lembro, no Rio de Janeiro, na casa do Ronaldo Bastos, ouvindo o “Clube da Esquina” pronto. Acho que essa foi a primeira vez que eu ouvi o disco. Foi aquela choradeira, ouvindo uma música atrás da outra, vendo o resultado final do coisa. Todo mundo ali era menino, aquela empolgação pra ouvir. Hoje tenho muito mais autocrítica. Fico sempre querendo fazer melhor: “Ah, porque o som do instrumento não era aquele”. Hoje a gente se preocupa com o timbre, com a dinâmica, a pulsação dos músicos, se eles têm um timbre de música que é bom pra aquele tipo de música. Um músico toca bem uma praia, meio de rock, mas não toca bem a bossa nova, ou o da bossa nova toca bem, mas não toca na praia do rock. Mas hoje eu penso nisso. Naquela época não, estava tudo muito bom demais. E vendo hoje, só poderia ter sido gravado pelas pessoas que gravaram. Foi uma coisa muito verdadeira, estava todo mundo muito junto, muito amigo. Não tinha como dar errado.

TRABALHO
Apresentações

Depois que lançou, teve o show. E a gente tocando lá: “Cadê o Wagner?”. Não estava no palco. Aí aparece um corrégo, uma água correndo lá detrás até a frente do palco [Risos]. Desculpa, Wagner, mas tem muita história minha aí também barra-pesada, que você pode contar… Não deu jeito, foi atrás da cortina mesmo que ele soltou o negócio todo.

DISCOS
“Clube da Esquina”
Mas a repercussão do show foi incrível. Iam muitos músicos, muitos artistas, e o pessoal ficava desbundado. Realmente, as emoções do show do Milton no campo do Botafogo, no Moriço, no Ibirapuera, em São Paulo… Cada lugar que a gente ia, era emoção demais. O Bituca naquele auge, e uma banda muito boa, a gente tocando verdadeiramente. Na época deu muita repercussão, mas não sei se a gente não soube levar. O Milton também partiu pra outros tipos de trabalho, de banda.

DISCOS
“Minas”/ “Geraes”/ “Sentinela”

Depois de 78 já mudou a banda do “Clube da Esquina”, depois do “Geraes”. Fiz o “Minas” e o “Geraes”, que ainda eram discos que tinham semelhança com a atmosfera do “Clube da Esquina”. Já em 69, quando ele foi pra BMG Ariola e fez o “Sentinela”, parece, já veio com outra proposta musical. E já tinham outros produtores metendo o bedelho, entre aspas, na música do Milton, tornando um pouco mais comercial. O que, na minha opinião, descaracterizou um pouco. A música continuou boa, como é até hoje, mas a música que era feita pelos mineiros era diferente. Até 78 eu acompanhei o Milton.

DISCOS
“O milagre dos peixes”

Depois do “Clube da Esquina”, fizemos o “Milagre dos peixes”, que foi uma emoção total no Teatro João Caetano, no Rio, e no Teatro Municipal, em São Paulo. Nunca vi. Até mais do que no show do “Clube da Esquina”, porque tinha orquestra. Aí também, em 74, o público do Milton já tinha aumentado.

DISCOS
“Minas”

Em 76, veio o disco “Minas”, em que ele gravou uma música minha, “O beijo partido”, mais ou menos na mesma época que a Nana Caymmi. Foram duas gravações geniais, bem próximas uma da outra. E o “Beijo partido” ficou conhecido a partir dessa gravação do Bituca, em 76.

DISCOS
“Clube da Esquina 2”/ “Geraes”

Em 78, teve o “Clube da Esquina 2”. Em 79, acho que o “Geraes”. E depois do “Geraes”, o Milton mudou de gravadora, já mudou de banda. De repente você entra numa tangente, numa praia que vai pra outro lugar. E os músicos que tocavam com ele fielmente partiram também pra outros trabalhos.

DISCOS
“Courage”/ “Terra de Pássaros”

Eu comecei a viajar com outras pessoas, toquei com a Gal, gravei com o Milton na América, também. Foi a primeira vez que a gente gravou na América, em 76. Ele já tinha gravado o disco “Courage”, com arranjo do Eumir Deodato, no fim dos anos 60. Quando acabou a gravação do disco dele, que tem ele todo com cabelo de água assim, ele me chamou junto com o Ronaldo e falou: “Se vocês quiserem gravar alguma coisa do Toninho… ”. Foi aí que eu comecei a fazer o meu primeiro disco, “Terra dos pássaros”, porque o Bituca me cedeu o estúdio. Tinha mais alguns dias pagos de estúdio e dez tapes de duas polegadas, aquele 546. O técnico estava lá de bobeira, genial. Aí eu comecei a gravar o “Terra dos pássaros”. Um presentão dele.

TRABALHO
Parcerias
Foi um momento muito intenso entre 70 e 79. Foi quando aquelas pessoas do grupo estavam sempre juntas. Lô, Beto, Bituca, Nelsinho, Wagner. Depois disso cada um foi fazer sua carreira própria. Ajudei a fazer os arranjos, orquestração e arranjo de base pro Beto, pro Lô, depois veio o Tavinho Moura, o Flávio Venturini, que é uma pessoa da nova geração, também do Clube. Mas o importante é que continuou todo mundo amigo, e todo mundo sempre tentou se encontrar nesses últimos anos. Tem 20 anos que a gente está tentando se encontrar. Aconteceram algumas junções. Por exemplo no “Minas em concerto”, que eram todos os componentes menos o Bituca. Éramos o Wagner, eu, Flávio, Lô e Beto, e fizemos alguns registros. Fizemos em seis, sete capitais do país. A única cidade que a gente não conseguiu patrocínio foi em Belo Horizonte [Risos]. A gente está tentando se encontrar.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Museu
O lance do Museu é interessante. Primeiro passo é reaproximar todo mundo. Mas a vida acabou separando a gente de uma forma que 20 anos depois nós não conseguimos arranjar uma maneira mais fácil de nos encontrar. Talvez porque o mineiro, que tem uma ligação muito forte com a terra, quando extrapola as montanhas, já sai daqui pro mundo. Tem muita gente que faz música e continua dentro do Brasil. O mineiro não, o mineiro consegue ser regional, mas ele já é entendido, já tem uma visão muito universal. Mas a gente ainda é muito preso a esse lugar. Tem as pedras preciosas, que é uma força muito grande, que segura a gente. Às vezes a gente fica medindo palavras ou pensando, e naquela época, não: era tudo muito fluente. Agora que todo mundo amadureceu, as pessoas estão pensando em vez de ser um pouco mais relaxados. Principalmente pra assumir essa coisa do Clube da Esquina. Tudo bem, todos nós sabemos da importância do Clube. Mas não temos a mesma consciência. Pra um, o Clube da Esquina são duas pessoas, pra outro são cinco, pra outro são milhões, como diz a letra do “Clube da Esquina 2”; a gente tem que estar junto sempre, como aconteceu hoje, dia 16 de abril de 2004, nesse evento no Colégio Estadual aqui em Belo Horizonte.
Eu fui um incentivador disso. Gosto de incitar as coisas. Ontem o Marcinho tinha me falado que seria o primeiro registro em áudio e vídeo pro acervo do Museu. Cada um daria um depoimento. E ia ter essa palestra com os estudantes nesse colégio, que é muito especial, porque foi o lugar de formação intelectual de muitas pessoas. O colégio está fazendo 150 anos. A minha irmã, por coincidência, é diretora, e ela formou uma orquestra de violões. As crianças dessa orquestra, quando ficaram sabendo da palestra, decidiram tocar alguma coisa pra nos fazer uma homenagem. Aí eu bolei um arranjo rapidinho do “Trem azul”, só pra ajudar a compor a coisa. Eles fizeram a homenagem, e um dia antes da apresentação, encontrei com Marcinho. Ele me falou que só teria eu de músico do Clube da Esquina. E o Marcinho não é cantor; eu sou cantor, mas não lembro todas as letras do Clube, lembro das melodias, as harmonias, mas tem muito tempo que a gente não toca, o Murilo também não é cantor, é poeta. Aí fiquei com medo. Então resolvi chamar alguns músicos. Dei um toque no Tatá Spalla, no Rodrigo Borges, que é filho do Marilton, sobrinho do Márcio. Aí pensei que dava pra chamar a galera. O Tatá foi comigo lá no colégio, mas como tinha greve dos professores, resolveram adiar pra hoje. Aí foi maravilhoso, porque deu mais um dia de prazo. Comecei a ligar pro pessoal. Então fui ver o que o Marcinho achava de eu chamar a galera. Ele falou: “Está liberado, está liberado”. Aí tentamos, o Telo tinha ensaio. “Pô, mas vamos tirar o Telo do ensaio! Vai ensaiar ao vivo lá!” Dei um toque pro Mário Castelo, liguei pra ele hoje de manhã: “Mário, às dez horas vai rolar um negócio, eu preciso de você”. “Onde é que é?” “É um negócio do Clube da Esquina.” “Já estou, onde é que é? Vou tomar um banho.”
Então, quer dizer, tem muita gente que permanece nesse espírito maravilhoso. Ontem dei um toque no Robertinho. Foi no show do Wagner Tiso, um show maravilhoso orquestrando a obra do Tavinho Moura, que também é um grande representante da música de Minas. Não só do Clube da Esquina, mas vem com um trabalho regional há muitos anos. E sinfônico. Foi maravilhoso. Só que estava todo mundo lá. O Chiquinho Amaral, Robertinho Brant. Eu falei: “Vou chamar a galera. Gabriel, me ajuda a chamar o Rodrigo”. E quando chegou hoje de manhã, que foi chegando um, chegando outro, quando eu fui vendo todo mundo lá, e quando eu soube que o Telo vinha, Paulinho, eu falei: “Acho que consegui”. No sufoco. E deu um resultado muito bom, porque essa nova geração, o Tatá, o Robertinho, Rodrigo, o Gabriel Guedes, filho do Beto, eles viveram isso com a gente. Eles têm mais convicção do Clube da Esquina do que a gente. Até resolvi assumir com eles, falei: “Gente, se vocês toparem eu vou produzir uma banda com vocês. Vou tocar eu, Paulinho Carvalho, Mário, três velhinhos. E o resto novinho. Vamos fazer, vamos correr aí”. Porque o Milton, o Beto, o Lô, eu: cada um tem uma agenda, um compromisso. Pra simplificar, vamos pegar o pessoal que é mais doido, mais animado e vamos tacar o pau. E eles toparam. Por isso foi um dia mágico. A gente não ensaiou nada. A gente combinou na hora quem ia tocar o quê. Aí chegou o Mário, da nova geração, superguitarrista, o Afonsinho, que era da praia do rock, mas tocou bossa nova. Tocou o solo de “Trem de doido”.
Isso é o legal da nova geração estar junto, reconhecendo o valor do trabalho. A gente mesmo do Clube, as pessoas que estão na frente, precisam acreditar mais. O Museu vai ser a melhor forma de realizar isso. E só o Marcinho, uma pessoa integra, maravilhosa, talentosíssimo, cineasta, intelectual, poeta, produtor e alta sensibilidade poderia ter essa atitude. É uma oportunidade, primeiro, pra reunir todo esse pessoal. Meu sonho é ver todos nós no palco. A gente perdeu 20 anos de mídia, depois que essa palavra saiu do dicionário pra entrar no cotidiano das pessoas. A gente está perdendo esse tempo todo. O que é o Mangue Beat? Quem era o Chico Science e o pessoal lá? Os caras levam a sério o negócio.
“Premeditando o Breque”, com Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e outras pessoas que fizeram o Movimento Vanguarda Paulista, uma coisa até que, de certa maneira, limitada musicalmente, mas muito poética, interessante, uns arranjos interessantes. Agora, o Clube da Esquina é fortíssimo. Se eles acreditam nos movimentos deles, por que a gente não vai acreditar no nosso? Cada um acredita, mas a gente não tem um pensamento único. Quer dizer, eu, Beto, Lô, Marcinho, Ronaldo, Fernando, Bituca, pra cada um os pesos e medidas são um pouco diferentes.
O meu sonho é um dia acontecer isso que aconteceu, das pessoas quererem chegar e tocar, mas com o pessoal de frente, o pessoal contínuo principal [Risos]. De repente, estar ali marcado, você não esperar e o Bituca aparecer. Querendo ou não, ele é o carro-chefe. Acho que foi muito duro pra ele, teve muitas críticas em cima dele, em várias épocas. Muitos empresários que sacanearam, mas também muitas pessoas energéticas, que contribuíram pra ter o Bituca hoje. Não só o Bituca, mas o Lô, o Telo, que ganhou o Grammy. Se não tivesse a energia dessas pessoas acreditando o tempo todo, a gente não estava aí, nem o Bituca. Agora, precisa estar mais. O sonho desse Museu é isso. O Marcinho está conseguindo juntar essa galera toda. Acho que é isso que todo mundo está esperando. O dia que juntar de novo, aí o pessoal realmente vai acreditar: “O movimento Clube da Esquina realmente é um movimento”. Não foi uma coisa institucionalizada, mas depois de 20 anos, já como referência musical batendo nos ouvidos, influenciando pessoas, músicos no mundo inteiro, está mais do que arraigado. Agora a gente tem que sentir isso mais na pele, e sem nenhuma dúvida.

DISCOS
“Terra de Pássaros”
O disco que tem “Aqui, Ó!” se chama “Toninho Horta”. Junto com a “Terra dos pássaros”, ele fecha um ciclo. São músicas compostas dos anos 70 até 1980. Tem dez anos de composição ali. Vários músicos participam, muita gente do Clube da Esquina, como o Lô, cantando comigo “Manuel, o audaz”, Wagner Tiso, que fez o arranjo do “Bons amigos”, Robertinho, que gravou “Clube da Esquina”, Luiz Alves, Nivaldo Ornelas, que levei da época do bar Berimbau. São dois discos em que está registrado um repertório de músicas com os parceiros do Clube, o Ronaldo, o Fernando. Registrei minhas influências da bossa nova, os arpejos violonísticos da música erudita, um pouco do barroco mineiro que via nas igrejas quando criança, um pouco de James Taylor, Jimi Hendrix. Sempre fui meio atirador, busquei várias praias. Esses dois discos retratam a diversidade musical que eu busco. Tudo tem qualidade, é só saber fazer e ter uma influência boa pra fazer com qualidade. “Terra dos pássaros”, por exemplo, virou disco de cabeceira do pessoal do Skank. Tanto o pessoal do pop rock nacional, como Lulu Santos. Herbert Vianna uma vez me viu num bar: “Meu mestre, meu mestre”. Lobão, o pessoal da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro… o pessoal me respeita. Então é fazer baile, entender o jazz, a música pop, e considerar indistintamente. A única coisa que eu não gosto – isso é uma coisa que ninguém gosta musicalmente, mas não precisa nem falar – está aí no mercado.

FORMAÇÃO MUSICAL
As Influências
“Manuel, o audaz” é um partido-alto, a introdução. A influência do Jorge Ben, nos anos 60. Em 65 ele gravou um disco que vendeu 100 mil cópias. Tirei o disco todinho, de cabo a rabo. Toquei as músicas dele num programa de televisão chamado “Neocid Dá a Chance”, mas não ganhei. Eu ganhei uma bomba de flit.
Na eliminatória toquei músicas minhas. “Um jovem garoto promissor, tocando músicas de sua autoria e cantando.” E fui pra final. Em vez de tocar músicas minhas, fui tocar as músicas do Jorge Ben. Tirei segundo ou terceiro lugar, me deram as bombas de flit. O Jorge Ben me influenciou muito pela coisa do negro. Todo mundo diz que eu sou o rei da harmonia. Mas já fiz um disco de forró com Dominguinhos, Elba Ramalho e Fagner, com zabumba, triângulo e sanfona, mas com harmonias e melodias mineiras. Quero gravar um disco meio pop rock ou hip-hop, mostrar o meu lado groove. O sangue de índio e do negro que eu tenho, essa influência do Jorge Ben e várias pessoas são experiências que eu quero fazer pro meu futuro.
“Manuel” é uma balada, vem naquela onda do Simon and Garfunkel, do James Taylor. “Diana” e “O céu de Brasília” são baladas, sempre acentuando no segundo tempo, back beat, como eles chamam. Tem a influência pop, mas também uma delicadeza de melodia que lembra um pouco o barroco, Minas Gerais, as influências espanholas e portuguesas do século retrasado, de Ouro Preto. Esses bandolins, esses três por quatro no violão, seis por oito, isso tudo ficou. E “Manuel”, apesar de ser uma balada em quatro por quatro, tem isso. Foi uma das coisas mais interessantes que eu fiz. E a letra do Fernando, que é uma inspiração. Pra cada compositor ele enfoca determinado assunto, toda a atmosfera. No meu caso ele sempre usou as coisas do cotidiano, pelo meu jeito.

MÚSICAS
“Diana”/ “Céu de Brasília”
A Diana era uma cachorra. Às vezes falo nos shows: “Vou tocar uma música chamada ‘Diana’, minha e de Fernando Brant. Se tiver alguma Diana na platéia, me desculpe, mas a música foi feita pra uma cachorrinha”. Com “Céu de Brasília” eu falei: “Tenho uma música que eu quero que chame ‘Céu de Brasília’”. Mas ele nunca tinha ido a Brasília. E fez uma letra que parecia que ele vivia em Brasília.

MÚSICAS
“Manuel, o audaz”/ “Falso inglês”
Manuel era o jipe do Fernando. A letra do “Falso inglês” era uma maneira de falar um inglês que a gente aprende no rádio. “Left to day on make” não quer dizer coisa nenhuma, e a letra é um lance genial. “Manuel” então virou a história do jipe Land Rover de 51 que subia as estradas.
Um dia o Fernando me contou uma história que eu assimilei e contava em todo show que eu fazia. Mas um dia o Brant foi ver um show meu no Palácio das Artes, chegou no camarim e falou: “O show estava ótimo, mas não é nada daquilo que você contou”. Aí fiquei discutindo com ele: “Então eu acho que você bebeu, porque eu tenho certeza que você contou essa história”. Eu tinha ouvido aquela história. A gente bota umas coisinhas aqui, fala: “De manhã comia uns pães de queijo, umas broinhas de fubá, tomava um banho”. O jipe não tinha capota, ele pegava o volante do jipe e botava debaixo do travesseiro pra ninguém roubar o jipe. Até um dia que ele chega na porta e o jipe não está, alguém tentou roubar o jipe mesmo sem capota e sem volante. E não tinha como parar o jipe, então ele se arrebentou numa árvore lá embaixo. Eu contava essa história.
No disco que eu fiz com o Flávio Venturini, o “Circo Voador”, de 88, tem essa história. Demorou uns dez minutos a história, porque eu contava pausadamente: “Era uma vez um jipe Land Rover 51, tum, tum, tum, do meu amigo Fernando Brant, tum, tum, tum, o Brant dava uns rolés pelas montanhas de Belo Horizonte, tum, tum, tum, o jipe se amarelava com aquela terra das montanhas da serra do Curral”. Só que na edição final eles tiraram toda a minha história e deixavam só o fim. Falava assim: “Então morreu um jipe, mas nasceu uma canção, que se chama ‘O Manuel, o audaz’”. Sempre que eu toco no Brasil, tem que ter essa música, virou uma marca não só minha, mas de Minas Gerais. O Lô sempre toca em show, até o Zé Renato, que é do Espírito Santo, canta. O Cláudio Nucci, do Boca Livre, toca demais essa música; o Paulinho Pedra Azul, o Telo deve ter tocado por aí também. O Telo gosta muito de tocar o “Beijo partido” por causa da harmonia. É legal demais ver o Telo, um cara talentoso, se dar bem. O Grammy foi altamente merecido. Dá um gás pra pessoa.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação
Hoje eu estava me sentindo um star. Em Belo Horizonte, nunca me senti assim. Só me sinto um star quando vou sobrevoando o Pacífico. Não chega a ser um star, mas lá fora as pessoas me consideram. Em Belo Horizonte eu estou jogando bola, sinuca, bebo cervejinha e tal. Mas hoje estava tão legal que eu estava me sentindo no auge do Clube da Esquina, daquela energia. O próprio Telo é um cara jovem, assim como o Rodrigo, o Gabriel. Esse pessoal passa toda a energia pra gente. Então eu, o Paulinho e o Mário, a gente estava igual menino lá. O Clube da Esquina não é só o disco, é esse disco como marco histórico, mas também todos os discos que vieram na leva. Todos esses do Lô, do Beto, os meus, do Nelsinho, de todo mundo que nem dá pra lembrar aqui.

TRABALHO
Projetos futuros
Tem um LP que a gente está doido pra lançar em CD. Parece que já saiu pirata no Japão, e já vi aqui uma edição também pirata. Um disco que eu fiz com o Beto Guedes, o Novelli e Danilo Caymmi. Esse disco é considerado revolucionário, porque tinha aquele rock do Beto Guedes, um rock de bom gosto, muito criativo, ele botando os baixos invertidos, influência do lance regional, do chorinho que o pai dele fazia. Tem acordes dos anos 50 ali, a terça no baixo, quinta no baixo. O Novelli veio do Pernambuco, com toda aquela musicalidade incrível. Tem o Danilo Caymmi, que sempre foi um compositor talentoso e flautista. Eram pessoas que estavam ali. Na verdade, era pra ser o seguinte: gravou o “Clube da Esquina”, o álbum duplo, Milton e Lô Borges, com todo mundo participando. E o Ronaldo Bastos e o pessoal da produção sugeriram pra EMI gravar um disco com Beto, outro comigo, um com Novelli, e um disco com o Danilo, que eram os compositores que já tinham uma produção interessante pra ser registrada.
Mas o “Clube da Esquina” tinha exigido um investimento grande, e eles falaram que não dava pra ser um disco pra cada um, mas que podia juntar os quatro e fazer um único disco. A foto da capa retrata como eles espremeram. Ficamos em volta de uma latrina e o Cafi bateu a foto de cima. Num banheiro lá da EMI, pra mostrar o quanto que a EMI nos comprimiu pra fazer aquele disco. O troco que a gente deu é que a parte musical é belíssima. Tem o “Viva eu”, do Novelli, a música cheia de harmonia, de modulações. Tinha participação do Tenório Júnior, que na época da ditadura sumiu. O Nô, que era um batera baiano. A música é impressionante: vem um cara da Bahia, outro do Nordeste, outro de não sei onde, se encontram e fazem música. Com a música o pessoal se entende. Esse disco é considerado, pelos músicos da nova geração, como um dos discos mais importantes. O lance do rock do Beto, a sofisticação do Novelli, aqueles ritmos do Nordeste. O Danilo Caymmi, o samba carioca com tempero baiano, uma coisa meio sensual, aquela melodia descansada. A primeira gravação do “Manuel, o audaz” saiu nesse disco. Gravei “O meu canário vizinho azul”, com a minha irmã Lena. Fiz uma gravação do “Manuel” tocando guitarra e duas ou quatro flautas. Uma versão intimista. São trabalhos que estão aí, que as gerações vão conhecer um dia, já que está fora de catálogo.

TRABALHO
Avaliação
Pra mim, festival foi no fim dos anos 60. E hoje está essa massificação da música de consumo, de má qualidade. Hoje existe muito mais marketing que música verdadeira. Quando eu tinha 15, 20 anos, eu ouvia a Rádio Mineira de Belo Horizonte. Tocava músicas americanas, samba-canção, rumba, bolero, que influenciou muito o samba-canção nacional. Hoje não tem mais isso. A gente tem que ir pras escolas mostrar pros jovens a boa arte. A pessoa pode estar aprendendo, achando que está aprendendo uma coisa legal, e não está. Era uma oportunidade de voltar a pensar na qualidade. Participei de um seminário cultural em Itabira, preparação pro Fórum Mundial de Cultura, e falei nessa questão da qualidade. Hoje, qualquer pessoa grava um disco. Mas é uma faca de dois gumes, às vezes o cara não tem qualidade, não tem autocrítica. Isso é muito perigoso.

FESTIVAIS
Festival da Globo
Teve o convite do Festival da Globo em 2000. Eu falei: “Não vou entrar nessa, porque sei dessas coisas de multinacional, globalização. Não vou entrar nesse esquema. Já estou macaco velho nessa história. Prefiro continuar o eterno rebelde alternativo, mas pelo menos eu tenho o meu próprio selo e eu gravo o que quiser”. Nunca quis as imposições dos caras das gravadoras na minha música, por isso eu tenho um selo alternativo com várias produções. Uma gravada ao vivo na Rússia, outra na Coréia, Itália, Japão, Estados Unidos, Brasil. “Então não vou participar de festival.” Aí o pessoal: “Participa, participa”. Eu tinha feito uma música pra minha filha, lá na Áustria, chamava “O amor é pra se amar”. E a minha irmã inscreveu no Festival da Globo sem eu saber. Quando eu vi, a música foi classificada. “Agora não tem jeito, você tem que ir.” O pessoal da direção do festival me ligou, e falou: “Olha, vamos arranjar uma intérprete de um tom legal pra sua música”. E já que eu estava lá mesmo, falei: “Quero a Sandy pra cantar”. Sou muito fã da Sandy e do Júnior, tudo bem que eles cantem músicas sertanejas e que tenha uma limitação natural, melódica, mas são coisas simples.
Não me agrada a coisa caipira industrializada, mas respeito, acho que eles têm um público nacional, e mais que isso, eles transmitem alegria, afetividade e um alerta pros jovens de hoje em dia. E eu falei que queria que a Sandy cantasse a minha música. Aí a Globo ficou duas semanas pra tentar me enrolar, falando que a Sandy não ia, não sei o quê. “Vamos então chamar uma cantora de peso pra cantar sua música.” Falei: “Cantora de peso? Está por fora”. Então perguntei se a Luíza queria cantar a música dela. “Pai, eu só canto no banheiro. Mas você quer mesmo? Eu canto.” A música fala em duende, uma coisa pura. Vou botar uma cantora com aquela voz de vibrato? Não dá, tem que ser aquela vozinha flete, tipo Astrud Gilberto, sem vibrato, Vanda Sá, Célia Vaz, Liza Ono. Cantoras que cantam daquela maneira belíssima, antiga. E minha filha cantava naturalmente. Aí ela foi. E pra ela foi um baile de debutante, botou aquele vestido de 300 mil reais, um sapato de 500 mil, me botaram uma roupa, de 800 mil, eu todo embonecado. Pra chegar no final e saber que no júri não havia nenhum músico. Respeito DJs, até quero gravar um disco de coisas eletrônicas, o Max de Castro me chamou outro dia, mas o júri era composto por DJs, gente da sociedade, produtor. Então é claro que não podia dar Toninho Horta na final. Ganhou uma música que dispensa comentários, que a banda Tianastácia defendeu. Eles têm um pique legal, mas a música não tinha nada a ver. Mas pra minha filha foi uma coisa de debutante. Ela escreveu um bilhete assim: “Pai, quero ser cantora um dia”. Hoje faz circo, mas eu estou produzindo um disco de música pop pra ela, com orquestração.

TRABALHO
Projetos futuros
Tenho um selo chamado Minas Records. Está um pouco lento, já que faço questão de escolher projetos de bom gosto pra lançar. E selo independente tem aquela dificuldade de distribuição, de bancar. Espero conseguir um apoio ou patrocínio, talvez um padrinho ou parceiro pra deslanchar. O selo Sonhos e Sons, do Marquinhos Viana, que fez um trabalho em cima do rock progressivo, tem um estúdio com mais de cem discos, então ele já tem clientes no Brasil inteiro. Espero que meu selo tenha essa representação dentro do país. Não só pra colocar minha discografia internacional no Brasil, mas também pra puxar os valores mineiros, ajudar a difundir o trabalho das pessoas aqui e levar pra fora. Tenho contatos na Espanha, na Holanda, no Japão, na América. Semana que vem vou para Nova Iorque fazer uma reunião com o pessoal do selo Adventure Music. Eles querem representar o meu selo. Mas além desse projeto, tenho outro que já dura 16 anos. Desde 88 trabalho no “Livrão da música brasileira”. Na verdade, a idéia vem de 86, quando realizei um seminário instrumental em Ouro Preto que durou 20 dias. Até hoje o acervo está inédito. As pessoas que participaram dizem que foi o evento mais importante de música instrumental no Brasil.
Foi praticamente na mesma época do Festival de Inverno, que abrangia também literatura, música contemporânea, circo, pintura, fotografia, artes plásticas. O Seminário foi só de música instrumental. Durante 20 dias a gente levou Rafael Rabello, Paulo Moura, Clara Sverner, Zimbo Trio, Orquestra de Cordas e Dedilhados de Pernambuco, Uakti, Marcos Viana, Dori Caymmi, Paulo César Santos, Sivuca, e por aí vai. Aconteceram dez workshops, 23 conferências, 28 cursos de instrumentos. Ainda tinha o Roberto Shinyashiki, com a análise transacional. Era bem completo. Foi um projeto megalomaníaco criado por mim e encampado pelo governo federal através da Funarte. Na época, o Ziraldo e a Universidade Federal de Ouro Preto deram um superapoio pra Terra dos Pássaros, minha empresa. Acabado o seminário, montamos um acervo de 44 horas de gravação de áudio e vinte e tantas horas de VHS de todos os shows, workshops, cursos.
Naquela época tinha surgido a idéia do Livrão, em 85. Mas aí embarquei no seminário e o Livrão ficou parado. Hoje, o Livrão é o seguinte: é um compêndio com 700 partituras, desde Carlos Gomes, o “Quem sabe”, passando pelos primórdios, Chiquinha Gonzaga, João Pernambuco, Catulo da Paixão Cearense, Donga, Luiz Americano, pessoal da época de ouro, Lamartine Babo, Ary Barroso, depois vem samba-canção, bossa nova, Tropicália, Clube da Esquina. Até os compositores contemporâneos instrumentistas dos anos 80 pra cá. É um livro em andamento desde 1988, quando a Secretaria de Estado da Cultura abraçou a idéia na gestão da Ângela Gutierrez.
Em 99, depois de dez anos em Nova Iorque, voltei pro Brasil e retomei o projeto com o Ministério da Cultura. O que eram 400 músicas inicialmente, são agora 700, e fechei em 700 porque vai ter verbetes pra cada uma dessas 700 músicas. Além das partituras, vai ter outro livro com as letras cifradas de todas as músicas. E cada música vai ter até cinco indicações de “as melhores”. Por exemplo, a gravação de “Carinhoso”, que tem mais de 20 gravações. Eu e uma equipe de educadores escolhemos as cinco melhores. Essa equipe, Rogério Leonel, Lígia Jaques, Luiz Henrique Faria, Elder Rocha e Maria Luz Florence, estão nesse trabalho há vários anos, com o apoio da Acesita Energética Mineira e do FNC do Ministério da Cultura. Esse projeto entrou na Lei Federal, só é preciso agora fazer a captação. Foi um trabalho muito apurado, moroso, por causa da seriedade. Agora, só estão as músicas que a gente considerou feitas por compositores natos. Tem muita gente que faz música difícil, mas não tem naturalidade, são cópias, trechos, colagens de outras músicas. Então é preferível colocar “O luar do sertão”, “Lua branca”, da Chiquinha Gonzaga, uma música superavançada do Hermeto Paschoal. Todas as músicas foram pesadas melodicamente. Se ela foi aprovada como melodia, como forma estética, aí sim. Se a letra for boa, melhor ainda. Então é um livro extremamente musical. Vão sair quatro volumes de 450 a 500 páginas, o que dá 2 mil páginas de “Livrão da música brasileira”.
Agora estamos esperando alguém se sensibilizar e patrocinar esse sonho. Tenho que agradecer às pessoas que me ajudaram: Barbel, do Ministério da Cultura, Ângela Gutierrez, Otávio Elísio, que foi secretário da cultura em Minas, o Ministério do Patrimônio Nacional, e os músicos, compositores. Sem eles não existira nenhum de nós pra tocar essas músicas belíssimas. Espero em vida ver esse projeto realizado, porque acho que vale a pena, acho que pode ser a bíblia do músico do novo milênio. A música brasileira, hoje, é considerada a música popular mais importante do mundo. Já tem gente no mundo inteiro procurando pelo Livrão: “Cadê o Livrão? Cadê o Livrão?”. Falo assim: “Isso é coisa de mineiro, está no forno”. Mas uma hora sai.

FORMAÇÃO MUSICAL
Instrumentos
Guitarra é comigo mesmo! Guitarra é Chiquito Braga, Wes Montgomery. A vida inteira me espelhei nos guitarristas, naquele som das cordas. A harmonia na guitarra é a coisa que eu mais preso, porque recebi muita influência da música clássica. Toco a guitarra de várias formas. Por exemplo, gosto de guitarra sólida, que tem aquele sustem. Você dá um acorde, ela fica com um sustem, como um teclado. E uso muito a corda solta, faço arpejo de baixo pra cima. E isso vem da influência erudita. Tem umas terças que parecem duas flautas tocando. Ou então dou uns bloks, que são blocos de acordes, que parecem os metais americanos. A guitarra não é exatamente como o piano, que seria o mais completo, como uma mesa-pós, que você tem desde a tuba até a última nota do violino. Mas com a guitarra você pode tocar balada, clássico, pop, rock. Quer dizer, é o instrumento mais legal do século. Porque vai desde o rock até o Jorge Vaneps, até o Pedro Mateus, Kido Braga, Luizinho, Carim. E é o instrumento que a garotada mais gosta. Todo mundo que está começando quer tocar guitarra. Porque é o instrumento da liberdade, você pode botar aquele strap, aquela distorção. Consegui a liberdade na guitarra através dos acordes, e como sempre gostei do piano — aquela coisa de orquestração, Ravel, Wagner — comecei a bolar uns acordes fechadinhos. “Só quero essa nota aqui, a sete mol, lá em cima.” Aí mudava a posição.
Uma vez, gravando com o Dominguinhos o segundo disco dele pela BMG, o Jackson do Pandeiro, que já tinha gravado o primeiro disco comigo, falou: “Dominguinhos, chama aquele cabra das venta fina”. Que é o Toninho Horta. “Chama aquele cabra das venta fina. Ele tem as mãos parecendo um pé de galinha.” [Risos] Porque eu botava uns acordes assim. Então, já naquela época eu estava surpreendendo, com 18, 20 anos. Porque não tinha um piano em casa, mas eu queria que a guitarra tivesse a dimensão mais próxima possível dele.. Então comecei a usar cordas soltas e acordes alongados, fazendo aeróbica com os dedos. É o instrumento da minha liberdade. Através dela, do solo do “Trem azul”, do solo do “Waiting for Angela” e de vários acompanhamentos que eu fiz, o “Amor de índio”, do Beto, “Solidão”, do Flávio Venturini, deixei a minha marca. E também com a Gal Costa, a Elis Regina, a Maria Bethânia, com Leni Andrade, Flora Purim, Nana Caymmi. Mas principalmente com o Milton e o pessoal do Clube da Esquina. Ali está registrada a marca da minha guitarra Snake. Por isso vou dar só um presente pro Museu, mas muito significativo. Porque foi com essa guitarra que eu comecei a tocar e com ela consegui ganhar minha vida, sobreviver, e emocionar as pessoas. Nada melhor que falarem assim: “Gosto daquele seu acorde, como que é?”. A riqueza maior é as pessoas reconhecerem o que você faz. A gente é apenas um instrumento, uma possibilidade. A guitarra pra mim é o instrumento maior do mundo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Museu
Achei muito especial. Porque tem seriedade. Às vezes você faz entrevista, a televisão está ali pra fazer um registro, uma coisa rápida. Você começa a falar, os caras já cortaram. O pessoal já vinha me fazendo a cabeça: “Vai ser um negócio demorado, você vai falar sobre tudo”. Não bolei nada do que ia falar, mas pelo menos pensei: “Vou sentar naquela cadeira e relaxar. Se eu começar a ficar incomodado com a hora, que amanhã vou pra Europa, vai pesar”. Mas gostei de ter tido tempo, e percebi o carinho, pela expressão de vocês. Porque se vocês fossem chatos demais, aí ia ser muito ruim. [Risos] Se vocês não entendessem nada de música ou não tivessem sensibilidade, ia ficar muito ruço. Eu ia fazer 15 minutos e ir embora. Mas pelo contrário, vocês me trataram superbem, entendem e respeitam esse trabalho em prol do Museu, que é uma coisa pra qual eu torço pra acontecer mesmo. Queria agradecer de coração a vocês, porque nem sempre a gente tem essa oportunidade. E graças a Deus, também dei sorte. Deus sempre ajuda a gente. Ter dado essa entrevista no dia de hoje, depois de ter tido esse dia no Colégio Estadual, com a orquestra de violões, com vários membros do Clube da Esquina, Marcinho, o Murilo, Nelsinho, agora o Novelli, todo o pessoal da nova geração, o Rodrigo Borges, o Gabriel Guedes, o Afonsinho, Chico Amaral, foi maravilhoso. E não estava muito previsto, mas acho que consegui juntar essa galera. Acho que isso ajudou a preparar meu espírito pra chegar aqui. Fiquei totalmente relaxado.
Fico feliz de dar minha contribuição, de falar um pouco sobre cada assunto que a gente permeou. Mas é isso aí. Sou apenas mais um do Clube, e também não pertenço só ao Clube, tenho a minha trajetória. Mas o importante é cada um, em qualquer coisa que você fizer na vida, acreditar e meter bronca. Porque tem muita gente que vai valorizar. O que a gente já fez no Clube da Esquina dava pra alimentar uns 400 da geração do Fantasma da revistinha. [Risos]

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina:Museu
Que o Livrão saia, e que principalmente o Museu atinja os seus objetivos. Valeu Márcio Borges, Bituca, meu querido Milton Nascimento, Lô Borges, vocês três, principalmente. Se falar quantos têm no Clube da Esquina, vou falar milhões. Mas o núcleo principal está ali: é a família Borges, Bituca. Nós somos apenas contribuintes. Mas o contribuinte também é importante. Acho que se não tivesse o Toninho Horta, essa história seria um pouco diferente. Então, graças a Deus que a minha guitarra estávamos lá nas gravações! [Risos]

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