Túlio Mourão

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IDENTIFICAÇÃO
Nome, local e data de Nascimento

Meu nome é Túlio Mourão Pontes, nasci em Divinópolis, Minas Gerais em 18/01/1952.

FAMÍLIA
Nome e descrição da atividade dos pais

Meus pais são Geraldo Magalhães Pontes, Leonice Mesquita Mourão Pontes. Meu pai era industrial, primeiro ligado ao ferro gusa, depois uma fundição de panela de alumínio, esse tipo de coisa. E minha mãe era professora. Professora do ensino primário, Ensino Médio.

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Descrição dos irmãos

Minha infância foi em Divinópolis. Eu só saí de Divinópolis com quinze anos pra estudar em Belo Horizonte. Mas a infância foi integralmente em Divinópolis. Tenho vários irmãos, e põe irmão nisso! Nós éramos nove, nove irmãos. Teve uma época que tinha mais uma menina adotada. Então era uma casa, uma casa pequena com dez pessoas, uma maravilha, um show.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação Musical

Ninguém da minha família tinha ligação com música. Mais tarde eu soube da grande força que meu avô, pai da minha mãe, fez pra que os filhos tivessem uma educação mais esmerada. Então, ele ficava mudando de cidade em cidade procurando uma educação mais fina pras crianças e, Itaúna, Santo Antônio do Monte, eram cidades naquela época mais avançadas que Divinópolis. Então, por exemplo, o lugar onde minha mãe nasceu: Santo Antônio do Monte. A irmã dela, que é a tia Damaci, conseguiu estudar violino, entendeu? Então, aquilo foi um tento, uma coisa fantástica. Divinópolis não era nada nessa época. Fora isso eu não tinha notícia de músico na família, não. O que aconteceu comigo foi que eu tive a sorte de ter uma grande professora em Divinópolis que é ao mesmo tempo uma grande musicista e também é uma pessoa muito sensitiva, no sentido de ter alguma sensibilidade excepcional mesmo, ou ter alguma percepção muito refinada, para parar por aí, pra não entrar no metafísico. Mas ela olhou pra minha cara e disse: “é músico, tem olho de músico, tem cara de músico”. Assim, na década de 50, em Divinópolis, não era comum menino homem, que é como eles falam, menino homem. Não era comum estudar piano. Era mais coisa de moças prendadas, tem um piano e tal. Então ela me convenceu, e convenceu os meus pais, que eu tinha que estudar piano. E, ela, pra eu tocar uma hora de aula, uma hora de piano com ela, ela brincava comigo duas horas. Você vê a certeza que ela tinha assim do meu perfil de músico. Muito difícil, muito impressionante isso, eu valorizo isso muito. Ela chamava Arlinda Ferreira, essa professora de piano e foi então através dela que eu comecei a relação com o instrumento que nunca se descontinuou. Teve época que eu parei de estudar assim formalmente, estudo formal de piano, mas jamais parei, jamais, jamais me separei do instrumento, do piano. Então esse foi o começo.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Músicas que ouvia

A música me tocava sempre, sempre me tocava. Eu tinha muita sensibilidade e adorava música. Gostava. Meu pai escutava música espanhola – era a predileção dele. Música, música espanhola era o que ele mais gostava. Por exemplo, eu era apaixonado com o prefixo do cinema de Divinópolis. A hora que o cinema começava, acendiam as luzes, aquelas coisas, a hora que vai começar a sessão. Antigamente tinha aquelas luzes modificando e tocava o prefixo do cinema. Eu era apaixonado com essa música e só há uns cinco anos atrás, ou até menos é que eu fiquei sabendo que a música que eu era apaixonado que é “A Lenda da Montanha de Cristal” era do Nino Rota. Aí o meu entrevistador falou, “puta merda, tinha bom gosto desde criança”. Mas eu não imaginava que era o Nino Rota. Ele tinha uma música maravilhosa que tocava no prefixo tal, ganhei o disco, mas era um bolachão de cera e quebrou na mesma semana, aquelas coisas.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Influências

A música erudita foi o portal de iniciação, foi a abertura. Minha professora me ensinava música erudita, mas ela respeitava minha criação. Se eu arrumava um final novo pra música de Mozart ela não me tolhia, não batia na minha mão, não me xingava.

FORMAÇÃO MUSICAL
Primeiras Composições

Em Divinópolis eu, eu imediatamente, quero dizer, como a cidade era pequena, não tinha ninguém e tal eu cumpri essa coisa da, ah o menino que toca piano. Cumpri essa função assim, “ah o menino que toca piano.” Então era levado pras festas, pros lugares. É, por exemplo, eu fui tocar na… uma sessão da Academia Divinopolitana de Letras. Um monte de discurso chato lá que não… Então, de noite, e eu ficava morrendo de sono. Me levavam lá, eu sentava na cadeira e tal, começava uma pá de discurso, eu dormia. Aí me acordavam lá e, “está na hora de tocar.” Eu ia e subia no piano, tocava e tal, voltava pra cadeira e dormia. Outra vez eu ia tocar no aniversário, no baile de aniversário da cidade de Divinópolis, lá no Divinópolis Clube. O porteiro me barrou, “isso aqui é um baile, não entra criança”. Até vir um sujeito lá e “não vai ter um show de aniversário e ele vai tocar piano”. Ficava lá sentado na mesa, também dormindo, ou então vendo o rodopio dos casais, quero dizer, num baile e tal, aí chegava a hora e tocava piano e voltava pra mesa. Enfim, cumpria essa coisa do menino que tocava piano. Mas já compunha e tinha uma música que eu fiz, chamava “Dançando nas Nuvens”, que eu toquei lá no Cinearte, no meio de uma festa grande lá, com piano e tudo. É pro meu registro de música que eu fiz.

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Atividades Profissionais

Profissão música é… Bom, na infância eu não me preocupava com isso, não tinha essa preocupação de ser. Essa preocupação de música como profissão ela aconteceu mais na adolescência. Eu percebi… Por exemplo, tive a influência de alguns heróis, de alguns ídolos assim que se atiraram profundamente nas coisas e foram até o fundo nas coisas. São pessoas que eu presenciei já na minha geração como adolescente, assim como o Jimi Hendrix – teve enorme influência pra mim. Falei, pô, esse cara se atirou, a gente tem que se atirar. Então, eu resolvi ser músico, desse no que desse, disposto a passar o que fosse. Num quadro que não tinha nada de promissor, como é hoje, que tem uma indústria muito sólida, que tem uma indústria da cultura amparada, com leis e tudo; tem projetos. Não tinha nada disso. Era um risco fodido e ainda é. Tinha que brigar contra a incompreensão da família. Como você não vai? Meu pai fez tudo pra eu fazer uma faculdade, tudo. Eu tinha condição de fazer faculdade. Eu vou chutar pra cima e vou fazer música. Teve essa dificuldade toda. E aconteceu isso numa época em que, marcada por grandes transformações sociais e de comportamento, Woodstock, os hippies, as coisas mudando, as pessoas tentando mudar tudo, a roupa, as comunidades, o comportamento, liberdade sexual, uma porção de coisas. Isso tudo aconteceu junto, então, isso dificultou ainda mais a compreensão da família, “ah, é um hippie maluco, está querendo é… está querendo é… sei lá é irresponsável.” Tudo. Misturava essas cenas todas acontecendo ao mesmo tempo. Mas nessa época houve uma voz solitária e mais sóbria, mais sensata, mais sábia, a minha avó falou: “a minha casa é sua e enquanto eu for viva minha casa está aqui”, minha avó Maria. É, uma voz solitária assim de muita… É engraçado você ter a sabedoria justamente de uma geração que é mais pra trás. Mas foi isso, ficou claro pra mim que eu precisava, que eu devia fazer da música meu principal motivo nessa época.

Voltar ao topo EDUCAÇÃO

Estudos

Como todo filho de classe média em Divinópolis, fazia parte da história estudar, fazer um curso médio em Belo Horizonte. Então, eu fui fazer o Estadual aqui, no Colégio Central Estadual, aqui em Belo Horizonte. Eu vim estudar em Belo Horizonte, fiz aqui o científico. O Colégio Estadual aqui o Central de Belo Horizonte era maravilhoso. Tanto que eu não estudei nada pro vestibular. No ano que eu tinha que estar estudando pro vestibular aconteceu um festival em Divinópolis e outro aqui em Belo Horizonte que foi um festival importante – o “Festival da Canção Estudantil”. Então eu fiquei o segundo semestre envolvido com esses dois festivais. Não estudei nada pro vestibular e passei pra arquitetura sem ter estudado nada, porque os colégios aqui eram bons. Tanto o colégio de Divinópolis era bom como o Central aqui era muito bom. E nesse festival foi que eu conheci a rapaziada que estava mexendo com música aqui: o Toninho, o Beto, o Lô, o Flávio, todo mundo que estava…

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Festival Estudantil da Canção

Em 1969 aconteceu esse festival que foi muito importante. Esse festival está no livro do Marcinho, ele cita esse festival. Tinha “Equatorial”; “Clube da Esquina” estava nesse festival. Eu participo com uma música minha e eu tirei o quarto lugar, entre o terceiro lugar do Toninho Horta e o segundo lugar do Tavinho Moura com “Como Vai Minha Aldeia” e o primeiro lugar do Rio de Janeiro acho que com Paulo Machado, e Eduardo Lages, com “Água Clara”, coisa assim. Eu tirei o quarto lugar nesse festival. Mas o importante foi ter nessa ocasião conhecido essas pessoas. E aí comecei um relacionamento muito rico com eles que realmente fortaleceu, me deu base pra que eu fizesse essa opção de ser músico mesmo, profissional.

Voltar ao topo EVENTOS HISTÓRICOS

Ditadura Militar

Eu fazia arquitetura aqui, abandonei a arquitetura porque estava começando no Rio de Janeiro uma escola de música muito importante. Chamava Instituto Villa Lobos. Não é a que existe hoje, é o Instituto Villa Lobos da FEFIERJ, era de vanguarda, uma escola moderna preocupada mais em te dar um conceito, preocupada em te localizar no espaço, no tempo. Te dar armas assim mais conceituais pra você ser um artista contemporâneo, sintonizado, tal. Era uma escola de vanguarda, muita gente boa indo pra lá, Paulinho da Viola, uma pá de gente interessante indo pra lá. Então eu deixei arquitetura e fui fazer esse curso lá. Mas acontece que era a época da ditadura, a época mais dura da ditadura e como a escola era de vanguarda, uma escola libertária que instigava o pensamento, ela, enfim, propunha uma grande reflexão. A escola começou a ser perseguida. Primeiro perseguiram os professores. Prendiam os professores. Não satisfeitos tiraram o maestro Reginaldo de Carvalho da direção da escola, colocaram o general Graça como diretor da escola de música. Muito adequado não é? Não satisfeitos ainda com isso – a escola funcionava no prédio da UNE, ex-prédio da UNE que tinha sido tomado da UNE, a UNE estava proscrita. – o prédio tinha sido incendiado, o teatro, o auditório. Optaram por deixar as paredes incendiadas, as labaredas, tudo. Aquela coisa impressionante, o auditório onde a gente tocava tinha os sinais da violência contra o prédio da UNE. Não satisfeitos em perseguir e terminar com a escola, eles desmancharam o prédio, com medo que a UNE retomasse o prédio. Então se você passar hoje na praia do Flamengo 132, tem um estacionamento. Recentemente eu li que o Oscar Niemayer fez um outro projeto pra lá, pra UNE, não sei se vai ser no mesmo lugar. Mas enfim, isso é a minha história tentando fazer um curso, tentando estudar música no Brasil no meio da ditadura, entendeu? Tive que me profissionalizar, ser autodidata, aprender do jeito que eu pudesse porque não… O resto que existia eram escolas assim, conservatório de música ou não sei o que, que não me interessava, muito formais e muito distantes da visão que a gente já tinha, ou que a gente perseguia.

TRABALHOS
Os Mutantes

Mais ou menos nessa época eu tive uma música que também é um marco pra mim. Uma parceria minha com o Nelson Motta no FIC, que foi o último Festival Internacional da Canção, com uma música que chama “Corpo a Corpo”, foi defendida pelo Fábio. E essa parceria com o Nelson Motta também tem sentido, porque o Nelsinho me identificou assim com um piano moderno, ele tem um olho pra…, ele tem uma percepção muito aguçada assim pra…, sempre teve. Então ele entendeu que eu estava fazendo algo novo e a nossa música era assim meio, um piano assim muito blues, muito legal. A gente fez essa música que é um marco pra mim. Nesse Festival, foi o último FIC, Festival Internacional da Canção, nesse festival estava os Mutantes com “Mande um abraço pra Velha”, só pra ter uma referência. Mas eu estava, quero dizer, eu estava encaminhando pra ter um conjunto de rock com o Lulu, com Lulu Santos. Nosso conjunto ia se chamar “O Veludo Elétrico”, já com o Paul de Castro. Éramos os três, Rui Motta também. Ainda não era o Vímana, uma banda que o Lulu teve logo depois. O Vímana ele só criou quando o “Veludo” já não…, como eu vou contar a seguir.
Então a gente estava preparando esse conjunto e teve uma vez que o Lulu trouxe o Sérgio, o Sérgio Dias, lá pra casa, tinha um piano. Engraçado, eu tive esse piano, lá meu apartamento, exatamente duas semanas. Esse piano eu ganhei, ele cumpriu…, se existe essa coisa de sincronicidade ou de orquestração aí por cima, é um caso desse, impressionante. O piano chegou na minha casa, ficou lá duas semanas. Nessa semana, primeira semana que ele chegou, chegou o Lulu que trouxe o Sérgio Dias. Nós tocamos um pouco piano e violão, me entendi, a gente se entendeu maravilhosamente. Na outra semana eu estava indo pra São Paulo pra tocar com os Mutantes já – o Sérgio me levou pra São Paulo. Aí, eu vendi o piano. Ficou duas semanas em casa pra isso. O Lulu ficou “puto”, porque a gente ia fazer o conjunto. Ficou lá uns três anos sem falar com o Sérgio. Depois, enfim. Aí, eu fiz os Mutantes, quero dizer, eu fui pra São Paulo participar dos Mutantes, nessa fase depois da Rita e tudo. O Arnaldo ainda estava por perto, a gente tentou ainda ter o Arnaldo no conjunto, chegamos a ensaiar com o Arnaldo nessa época. O Arnaldo é muito versátil, ele podia tanto tocar baixo, como outro, tocar teclado também, cantar, não ia ter problema. Tinha o Liminha ainda nessa época. A gente tentou, mas a cabeça do Arnaldo já estava muito… Não estava acompanhando a lista de coisa profissional que a gente já tinha pela frente. A empresária, a Mônica Lisboa, já tinha marcado show. E ela mesma, ela estava empresariando a Rita já com trabalho solo dela e a gente. Então não deu pra manter o Arnaldo. Mas, aí, começou essa coisa de Mutantes que foi uma história, uma história que ninguém escreveu direito. Essa, a história da minha geração, sentindo essas influências todas de fora, Woodstock. O velho piano nessa época mudou pra Moog, Hammond, sintetizadores, essa coisa toda nova que a gente precisava começar a aprender. E aqui essa ditadura mais ferrenha, mais dura. Os amigos da gente sumiam dentro das delegacias, uma porção de gente sumia e a gente nunca mais via, uma porção de gente morria, era doloroso demais. A gente esteve uma vez em Nova York comprando instrumento e, aí, teve alguns arruaceiros que fizeram bagunça num bar, o Jangadeiro, um bar lá de Ipanema, com a camisa dos Mutantes, só porque estavam com a camisa dos Mutantes. A hora que a gente chegou no Rio a polícia federal mostrou pra gente cada passo que a gente tinha dado em Nova York: a loja, o hotel, o restaurante, tal. Era uma coisa, uma sombra assim em cima, fazia uma pressão psicológica muito grande. Nessa época eu tive uma úlcera nervosa e sofri muito. Uma época de tensão muito grande. Então essa foi a época dos Mutantes, marcada por um pioneirismo quixotesco. Não existia essa coisa do PA, a sonorização do espaço. Quando você vai fazer show, hoje, você leva seu instrumento, supõe que o ginásio vai estar sonorizado, vai ter lá as caixas. Não era isso, não existia, então, se a gente quisesse fazer um show como a gente conhecia os shows de rock, com aquela massa de som, com aquela força, respondendo tudo, bateria, grave, teclado essas coisas, a gente tinha que levar o PA. Então, a gente ia, levava todo o PA, a sonorização do ambiente, mais os instrumentos, mais a mesa, mais tudo, mais piano de armário. E a gente montava, montava em cada lugar o PA, o palco e tudo e ensaiava.
Com os Mutantes eu fiz um LP e um compacto. Esse LP é o Tudo foi feito pelo Sol Ele é também uma marca importante no rock porque ele é o primeiro disco de rock que vendeu.

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Tudo Foi Feito Pelo Sol

Têm coisas interessantes da gravação do Tudo Foi Feito Pelo Sol. Nessa época o rock era completamente dissociado da indústria, ou da imprensa, ou de qualquer status, ou de qualquer establishment, de qualquer estrutura do show business. Era marginal mesmo, de uma maneira que vocês não vão entender hoje, que vocês não vão ter como entender. Então pra gente fazer esse disco na Som Livre, o Cazuza por exemplo, ele trabalhava com o pai, com o João Araújo, lá na Som livre, tinha treze anos e ia trabalhar de chinelo de dedo. Ele falou, “ah pai grava aí os meninos, você só fica gravando esses discos caretas, dá uma chance pros meninos, grava eles”. Aí a Som Livre, “tá!”, abriu essa coisa de gravar o disco dos Mutantes, com cinco ou sete sessões no total pra fazer o disco. Entre as gravações e mixagem tinha sete sessões, no máximo. Então era tudo feito assim como se fosse ao vivo, as mudanças de timbre de teclado, tudo em tempo real. E uma coisa muito difícil, também, a gente sem tempo nenhum, sem condição nenhuma e tal. Porque era isso, a indústria não acreditava, nem a imprensa, era uma coisa marginal, rock era realmente marginal

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“Pitágoras”

Nessa época dos Mutantes a gente teve uma boa época, quando éramos gerenciados pelo… Ah meu deus, quem me ajuda? O filho do Samuel Weiner e da Danusa Leão. Ele morreu muito jovem, depois ele foi pra globo e foi cobrir um acidente que teve em Campos e na equipe, na estrada ele morreu, esqueci o nome dele agora. Mas a gente ensaiava em Itaipava, no sítio deles que era do Samuel Weiner e da Danusa. Deixamos lá os teclados, o equipamento todo ligado. E aí a gente acordava cedo e ficava tocando e tal e essas coisas novas todas, os sintetizadores, o piano, o Hammond, tudo. E isso instigava e a gente fazia muito, era muito estimulante você pesquisar as possibilidades que você podia misturando no piano e essas coisas todas. Mas a figura do Pitágoras sempre me inspirou demais pela, um sábio antigo, na verdade ele não é um matemático, ele foi um sábio. E a maneira como ele, a vinculação dos números da matemática com uma cosmogonia é uma coisa que me impressionou demais, o sentido que tinha cada numeral. Então ele sempre, é uma figura que me… é uma figura que sempre me impressionou. E a música tem essa, tem um pouco dessa, dessa simetria matemática, tem um pouco de repetir alguns padrões com muita simetria, então é por isso que eu resolvi homenagear esse mestre aí.

TRABALHOS
Mutantes

Quando eu saí dos Mutantes, o clima, a pressão era insuportável, por exemplo, com essas coisas todas de a gente ter uma carga enorme nos ombros, de pioneirismo e tentando fazer coisas que eram mal vistas pelo governo, que eram perseguidas. E com as dificuldades, por exemplo, a gente não tinha falantes bons aqui, a gente tinha que, a gente tinha que trambicar assim, esses instrumentos a gente não tinha, como é que a gente ia importar legalmente um Hammond, não tinha jeito. Então a gente saía, dava saída de instrumentos aqui, falsos, e entrava com o instrumento de verdade. O Tom Jobim já dizia que o brasileiro tinha que ser um contrabandista pra poder… E isso acontecia, a gente tinha que trazer instrumentos de fora. A gente trouxe uma vez oito falantes Gauss de dezoito polegadas, é uma bacia assim, pra responder graves assim, graves maravilhosos. Se fosse em qualquer lugar do mundo a gente ia ter dezesseis falantes desse, cada um numa caixa de um metro por um metro e empilhar como a Clear Brothers faz, como o Rolling Stones faz e cê ia montar um PA legal. Mas aqui como era difícil demais ter, conseguir esses falantes, a gente tinha que tirar, explorar o máximo cada um deles. Então o Cláudio César Dias Batista, o irmão do Sérgio que era engenheiro, que criava a mesa da gente, criava a guitarra, criava o amplificador, criava o PA, ele fez o projeto de cada uma dessas caixas. Essas caixas, cada uma dessas quatro teve as seguintes medidas que eu não me esqueço: três metros por um metro e vinte, pesando mais de duzentos quilos cada uma. Quando essas caixas chegaram no teatro Brigadeiro, em São Paulo, foram preciso dez carinhas pra tirar ela do caminhão e essa caixa saiu quebrando o teatro, vidro, cadeira. Onde ela passava a caixa saía quebrando e a gente pagando. É muita, muita loucura, é impossível. Eu estava com úlcera, aí não dei conta. Tive uma conversa com o Sérgio que durou – depois do último show que eu fiz, foi em Santos, não dá pra esquecer –, a gente passou a noite inteira conversando, quando amanheceu… eu fui embora e tal, mas eu precisava fazer outras coisas. Eu queria saber o que acontecia na música popular brasileira, na MPB, que era completamente dissociada do rock, que não tinha ponto algum, não tinha chance de contato entre uma coisa e outra,. O rock era uma coisa, os caras da música popular brasileira, outra. Não tinha nenhum contato, de uma forma, também, que vocês não vão entender hoje. E eu queria saber o que acontecia, o outro cenário da música que estava acontecendo, porque aquele estava muito quixotesco, estava muito difícil. Então, comecei a tocar com todo mundo, todo mundo que você imaginar da época: Fagner, Belchior, Ednardo, Raul Seixas, Frenéticas, uma lista que não tem mais tamanho e com cada um desses tem histórias fantásticas.

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Raul Seixas

As histórias do Raul são… a melhor delas é: nós fomos tocar, ainda na época da ditadura, fomos tocar em Brasília no concurso das misses, que acontecia então no ginásio Médici. Já mudaram o nome do ginásio, então vocês nem vão saber como chama o ginásio. Aquele principal lá de Brasília. Mudaram de nome, mas chamava General Médici. Então, fomos tocar. Na chegada – os políticos e os militares mandavam em tudo na vida da cidade – no aeroporto; do aeroporto pro hotel fomos assim, Galaxys negros, aqueles carros, seria o limusine brasileira, com batedores de um lado e do outro, “eeheheheh”, aquela onda toda. Fomos muito bem recebidos, chegamos no hotel. No dia do show, que era o dia seguinte, lá no ginásio e tal, o show era no meio do concurso das misses, então, estava rolando o concurso das misses, chegou a hora do show. Eu fui pro piano lá e tinha uma passarela assim onde… aí o Raul apareceu pra cantar vindo do camarim. O Raul apareceu de pijama, esfregando o olho e falando assim, “onde é aqui? onde é que eu estou? Aqui é a exposição de Uberaba, de gado, não. É o Fla Flu, não. Ah o concurso das misses, ah aquelas misses”. E começou a dar a maior gozeira. Enfim, no dia seguinte eu peguei o avião e fui embora. O Raul ficou três dias detido tendo que ir ao DOPS… (risadas dos entrevistadores) responder porque que ele estava… Porque as esposas de generais estavam todas lá.
O show aconteceu com o Raul de pijama, só que eles não engoliram a terrível ironia dele em cima do concurso das misses. Agora, quem chamou, quem organizou esse show no meio do concurso também é um gozador terrível porque, a hora que terminou o Raul, pensamos, bom agora pode vir uma Clara Nunes, algo assim. Mas não, veio a Maria Alcina e fez um show onde ela só falava palavrão também, que também foi outra. Enfim, não entendi quem montou esse show lá.

PESSOAS
Toninho Horta

Logo depois do festival e antes de ir pro Rio de Janeiro teve essa fase em que, que foi muito importante, conheci o Toninho, os meninos e tal. Por exemplo, a gente ia muito pra casa do Toninho. A casa do Toninho era um núcleo que a gente freqüentava sempre. E a gente se encontrava nos bares pra tocar as músicas que ainda não tinham sido gravadas. É inesquecível pra mim escutar nessa época o Toninho tocando “Durango Kid”, essas coisas, tudo antes de gravar. E o Toninho foi de uma generosidade imensa porque ele… a minha parte teórica de música tinha ficado pra trás, eu comecei estudar com a minha professora em Divinópolis, mas a coisa de tocar de ouvido e de criar e de ficar tocando no piano e tirar de ouvido… Isso tinha tomado espaço, então a minha parte teórica tinha dançado. Então o Toninho resolveu dar aula pra gente, pra mim, pro Lô, pro Beto, na casa dele. Anteontem mesmo estava comentando isso com o Beto, depois servia um café maravilhoso na casa dele. Foi maravilhosa essa fase. Então a gente encontrava, a gente se encontrava bastante, se encontrava nos bares e cada um mostrando a sua música, essas músicas que depois foram gravadas. Eu aproveitei bastante essa época que estava aqui.

PESSOAS
Tavinho Moura

Mas em seguida eu tive que ir pro Rio. Lá no Rio – como estava essa coisa dos Mutantes, eu vim – me encaminhou pra outra esfera de atuação. Então tem um hiato, aqui, onde eu encontrei menos com os mineiros, mexendo com os Mutantes. E depois nessa fase que eu toquei com todo mundo, as participações com os mineiros também eram menos freqüentes. Eu fiz um show com o Tavinho na FUNART, a gente montou um show juntos. Eu acho que um marco dessa coisa de eu voltar a ter contato com os mineiros foi o “Engenho Trapizonga”. É um disco do Tavinho. Esse nome é uma música, uma parceria minha, do Tavinho e do Ronaldo Bastos. “Engenho Trapizonga” é uma peça do Gedeon que é um artista de universidade. É uma peça fantástica que tem movimento e tal. E o Ronaldo é muito sensível, fez uma letra em cima dessa peça. Então eu fiz essa parceira, essa parceria com o Tavinho na verdade foi uma reentrada, uma volta aqui a ter mais contato com a moçada. Mas, eu vinha, então, fiz shows na FUNART com o Tavinho, fiz outros shows por aí.

PESSOAS
Milton Nascimento

E depois, em 1980 que eu fui. Eu tinha um disco na… eu não queria chegar perto do Milton sem ter nada de meu pra mostrar pra ele. Então eu mesmo adiei um pouco essa coisa assim. Porque essa fase que eu encontrei esses mineiros aqui, o Milton já estava no Rio, então eu encontrei todo mundo menos ele. Não tive nenhum contato com ele. Então eu estava esperando ter uma coisa minha pra mostrar pra ele. Então quando eu fiz o meu primeiro disco solo que era da série MPBC no Rio de Janeiro de oitenta, aí fui correndo mostrar pra ele. E a história é ótima, porque ele estava na praia. Eu levei o disco, nessa mesma ocasião ela já falou que ele queria fazer um show em Divinópolis, aberto, de graça pra todo mundo e me falou assim do enorme sentimento que ele tinha de simpatia com o pessoal de Divinópolis, que sempre foi muito caloroso com ele. Existe aquele show antológico que aconteceu em Três Pontas que veio todo mundo, aquela multidão. Teve o Chico, veio gente do Brasil, teve isso. Existiu esse show de Três Pontas fantástico, gente do Brasil inteiro foi ver, uma coisa enorme. Pois bem, de outra feita alguém sussurrou no ouvido de outro lá em Divinópolis “tem show do Milton em Três Pontas”. Foi o bastante pra aparecer dois ônibus de divinopolitano lá. Tinha nada, era um boato. Então chegou esses dois ônibus de divinopolitano lá caçando o show e não tinha show nenhum. Então, o Bituca nem estava em casa, chegaram na casa lá dos pais dele, olharam debaixo da cama, “não é possível que ele não está aqui”. Aí ele chegou vindo de não sei da onde, acho que o Wagner chegou também. Enfim ele teve que fazer o show na praça com megafone e com acordeom, pro povo de Divinópolis. E ele jamais se esqueceu disso, ele ficou muito sensibilizado com essa turma de Divinópolis. Então ele queria retribuir isso. Então naquele momento ele pediu essa coisa de fazer um show. Então eu e minha mulher, minha primeira mulher, a Marisa, a gente tratou de viabilizar esse. E a história da realização desse show, o show aconteceu, foi maravilhoso, têm histórias ótimas aí no meio também. Porque o prefeito no começo quis apoiar, depois a primeira dama queria que fosse um show cobrado pra ter renda pras obras sociais que ela fazia. Enfim, uma coisa que ia desvirtuar do sentido que o Milton… Então o prefeito deixou de apoiar. Mas aí a cidade inteira apoiou o show. Meu cunhado rifou o carro dele, várias pessoas ajudaram e o show aconteceu. Mas também o show acabou virando um comício contra o prefeito porque fez, teve a inabilidade de não perceber o momento político e virar as costas pro show. Então o show virou também um discurso contra o prefeito. Aí em represália ele mandou criar um cemitério na terra do meu sogro. Igual, igualzinho o Odorico Paraguassú lá da… igualzinho. Meu sogro também era um elemento político forte da cidade e como meu sogro e a gente estava apoiando o show ele tratou de enfiar um cemitério na terra do meu sogro, foi uma coisa assim. Tem esses lances todos de política de interior. Mas, enfim, esse show marcou. Nesse show o Milton me chamou pra participar do disco dele gravando, tocando piano na canção “Amor Amigo”. Foi uma coisa que me deixou profundamente emocionado, ele me convidar pra tocar e eu lembro, aí no quarto o Hélio Delmiro rabiscou a harmonia pra mim nas costas do cartaz do show em Divinópolis, eu tenho isso lá. E, o Hélio fez a harmonia pra mim, eu fiquei ensaiando não sei quanto tempo. E essa primeira participação nesse disco é que marca. Marca uma história com o Milton que foi muito rica e depois, depois eu passei a tocar com ele, toquei doze anos, coisa assim. E aí tem história demais.

DISCOS
Clube da Esquina

Eu estava no Rio de Janeiro, antes de entrar para os Mutantes e tem um outro conjunto que estava tentando se organizar: o 1812, 1822. É um projeto muito de vanguarda que misturava cerimônias indígenas gravadas ao vivo com improvisações em cima. É um projeto bem interessante até. E eu estava envolvido com isso e fui na loja de disco com o Pedro Paulo que cuidava, que estava, que era o mentor desse conjunto. Eu lembro de ter visto o disco na loja com aquela capa fantástica e a gente ficou chapado pelo conteúdo pop. Quero dizer, a forma misturando, a forma remetia ao pop, mas com um conteúdo muito original, profundamente original e muito rico, disparando tendências pra todos os lados. Foi uma coisa realmente muito marcante. Agora, em seguida, como apareceu os Mutantes, existia outras coisas acontecendo nessa época, solicitando demais. O rock progressivo internacional aconteceu na mesma época.
O Clube da Esquina foi uma espécie de ponte entre o rock, pop e a música Popular Brasileira. Na verdade isso aconteceu, ele faz essa ponte. Por exemplo, a Tropicália faz, é dona de um discurso formal, um discurso oral. Não, é dona de um discurso formal no sentido de ruptura de forma e abertura. Agora, a Tropicália faz isso muito mais a partir de…, o que ela tinha nesse momento, no momento da sua inserção. A Tropicália é um discurso e uma postura, que significou ruptura, abertura e dilatação de parâmetros, convidou a música brasileira a não ficar fechada dentro dos parâmetros estreitos do bom gosto da Bossa Nova. Agora, o Clube da Esquina, e a música mineira nesse momento, fez essa dilatação, fez essa abertura, pro mundo, para as tendências que chegavam de fora e pro momento do mundo também. Fez essa contemporaneidade, mas com uma bagagem musical realmente sólida. Então, o Caetano reconhece, ele sabe muito bem disso. Então, o estrago foi, é muito violento, porque é uma coisa a parte do que acontecia com a Bossa Nova, completamente a parte, mas com um hálito cosmopolita, com uma abertura para o mundo, uma abertura pro momento, pras coisas que estavam acontecendo e ao mesmo tempo com uma densidade poética que é muito sintonizada com o momento que todo mundo estava vivendo. Foi na veia essa coisa. Isso os mineiros têm de, fizeram essa passagem da música brasileira reorientada pro mundo com muito mais bagagem, com muita bagagem erudita, também.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: avaliação

Olha, a questão de o Clube ser ou não um movimento merece uma análise, por exemplo, nunca tinha me ocorrido isso que eu falei agora. Aliás eu adoro isso, quando eu digo uma coisa que eu jamais pensei. São pessoas excepcionais que me dão essa chance. Obrigado! É, eu adoro quando isso acontece. Eu não tinha feito essa reflexão, ela estava em algum ponto. Agora, por exemplo, a Tropicália é dona de um marketing, ela se organizou enquanto marketing, enquanto mídia, enquanto publicidade. Colocou na mídia essa cara, com essa ruptura. E alguns desses caras como o Caetano e o Gil… o Caetano, em especial, é um grande mestre na arte de permanecer, na arte de lidar com mídia, na arte de ter uma relação muito eficiente com comunicação. Ele sabe se comunicar muito bem. Não é à toa que o cara teve muito marketing. Se o Clube da Esquina tivesse se associado a essa preocupação de se organizar ou de se comunicar como movimento teria feito e pode se quiser agora a posteriori ter essa análise. No momento ele não foi colocado assim por causa do temperamento das pessoas, que era mais introspectivo, que era mais solitário, que era mais, muito mineiro. A gente tem essa dificuldade em comunicar. Minas hoje tem dificuldade em comunicar sua arte nova, sua arte contemporânea, sua cara contemporânea, a gente tem essa dificuldade, ainda. Então, o Clube da Esquina não se organizou nesse… Não comunicou essa face de movimento, comunicou uma música maravilhosa. Mas não impede que hoje você coloque dessa maneira. Diferente dos baianos que colocam o marketing na frente e fazem isso muito bem.

MUSEU
Clube da Esquina

Eu acho que é preciso legitimar e dar condições pra que esse acervo maravilhoso da música que essas pessoas criaram possa atingir todos os seus objetivos e possa prever todos os seus desdobramentos futuros. Nenhuma dessas pessoas que se encontravam na Rua em Divinópolis, não sei aonde, tinham idéia do tamanho do que eles estavam fazendo, nenhum. Agora, não vamos errar novamente, a gente tem que ter essa vocação já futurista, cosmopolita e progressista e conseguir hoje prever e incitar, estimular esses desdobramentos, porque eles podem ser muito grandes. Por exemplo, faz parte do meu discurso hoje, durante doze anos que eu estive junto com a banda do Milton Nascimento, porque hoje eu continuo fazendo algumas coisas com ele tal e, mas enfim, durante doze anos eu tive viajando mesmo com ele. Eu testemunhei o grande interesse de nomes fantásticos da música do planeta pela música de Minas. Alguns desses caras registraram aparecimentos em alguns discos e alguns shows. Mas eu acho que isso está sendo subentendido, está sendo subavaliado e subutilizado. Minas está usando, a música de Minas, utilizando muito pouco essa relação, essa abertura que aconteceu pro mundo. Faz pouco, não se organiza pra tirar partido disso. A gente continua muito mineiro, muito tímido, muito acanhado em função da riqueza que a gente tem. Então eu acho que essas iniciativas iguais as do Museu, elas podem isso, pensar melhor o futuro, pensar melhor o mundo, pensar melhor em como colocar essa música pro mundo. Porque o conteúdo é notável e a gente não pode errar outra vez e ficar guardando isso, esses tesouros num portão de ouro, como diz o Márcio. Quero dizer, nós pra variar, estamos sendo atropelada, essa é a verdade. Nós já estamos atrasados, a história está andando muito mais rápida e cada vez que as mídias evoluem, elas encurtam a distância e encurtam o tempo. A história hoje já anda muito mais rápida do que a gente, a história está andando muito mais rápida do que nós. E isso tudo que está sendo feito, nós estamos profundamente atrasados. A gente já tinha que ter, está muito mais organizado, mandando a música de Minas pro mundo, a gente não tem que pensar em termos de vencer o Rio ou São Paulo ou de pensar em Rio ou na mídia de São Paulo, não é nada disso, a gente está errado nisso. Tem que mostrar a música pro mundo.
Eu acho que as novas gerações são fantásticas. Eu fico, por exemplo, isso me angustia profundamente, eu tenho visto assim instrumentistas fabulosos, cantores fabulosos, compositores fabulosos. Músicas que têm tudo, letra, ritmo, tem atualidade, tem pulsação, tem encanto. Pessoas, artistas completos e muito e eu não sei, a gente não sabe como criar condições pra essa música viver, respirar, multiplicar, se pagar. Isso me angustia profundamente porque o que existe de música de qualidade, de arte de qualidade em Minas é incrível. Desde que eu cheguei do Rio, to morando em Belo Horizonte, eu me envolvi em vários projetos, todos eles de alguma forma ligados a mostrar a cara cosmopolita de Minas, a cara mais atual. Eu colaboro por exemplo com a curadoria do Festival de Jazz de Ouro Preto, que tem essa história de mandar pro mundo e pro Brasil uma cara de Minas mais moderna e trazer grandes instrumentistas do planeta. E ter que fazer aqui workshops gratuitos pros músicos, como vieram diversos já. Mas eu acho que é preciso, por exemplo, é urgente, a gente ter, como existe na França, um portal da música mineira bem organizado. Isso é o mínimo, da música mineira na internet. Onde a informação da música mineira esteja colocada profissionalmente em padrões muito legais e acessíveis e o contato com esses produtores, contato com as estruturas que fazem o show business internacional. Tem muitos canais, tem muitos canais pra isso acontecer. Agora é preciso ter iniciativa da gente mesmo. Não vamos esperar políticas públicas nesse sentido porque eles não vão chegar a essa, é a gente mesmo que tem que fazer.

PESSOAS
Milton Nascimento

Olha, eu tenho que testemunhar, por exemplo – eu que trabalhei muito tempo com o Bituca –, o grande músico é conhecido; o compositor é louvado, conhecido, aplaudido. Mas eu tive o prazer de testemunhar uma alma muito grande e eu acho que eu preciso, não posso deixar de dizer isso. Ele me encantou por pairar sempre acima das mediocridades do meio artístico, que existem, que são. E testemunhar isso durante todo o tempo é muito bonito e muito gratificante pra mim. Como um espírito elevado, uma alma grande, amiga, que está acima das mediocridades, muito acima das mediocridades do meio. Isso é importante, foi muito, me aquece muito ter presenciado isso. E que eu acho que tem que registrar também.

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Uma mensagem para Túlio Mourão

  1. Morera disse:

    Parabéns Tulio Mourão pelos comentarios finas a respeito da música mineira, sou um apreciador e romantico mineiro, infelismente não sou dos tempos de ouro puro da sinfonia mineira e nem da oportunidade de ve-los tocando por ai, assim ali no coreto ou na arena, mas busco essa imagem sempre pra dentro de mim. Sou mineiro de uma nova geração de arte de moda divinopolitana sem muitas expressões ainda, sobretudo um amante e mesmo que de longe reconheço meritos a quem merece e hoje conheci sua historia que muito me encantou. um beijo é esse o meu desejo pra voce e para os muitos do clube.