Tutti Maravilha

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/ Local e data de nascimento

Quando eu nasci, cheguei chorando como todo neném e aí a minha família resolveu “Ah, esse menino vai ser um santo, então vamos colocar o nome dele de José”. Mas aí eles falaram: “Não, não está com cara de que vai ser muito santo não, mas vamos manter o José.” E aí colocaram Ailton José, entendeu? O meu nome é Ailton José Machado. Nasci aqui em BH (Belo Horizonte), 13 de fevereiro de 1950.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Nome dos pais

O nome do meu pai é José Machado e minha mãe é Ilma Carvalho Machado.

Moradia
Eu nasci no Barro Preto de parteira. E o Barro Preto naquela época era um bairro delicioso, era um bairro pertinho do centro e a minha praça era a Praça Raul Soares, preste atenção. Depois eu fui mudando de bairro. Fui rodando um pouco e caí no Santo Antonio. Eu morei anos no Santo Antonio e atualmente moro no Sion.

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Belo Horizonte

Belo Horizonte era uma cidade de interior que tinha um título de capital, não é? E era bacana, a gente adorava porque podia brincar na rua, tinha essa coisa de pegador. O pegador durava uma semana porque as pessoas sumiam e aí durante uma semana a gente ficava um procurando o outro. Mas a cidade era um prazer. Eu me lembro, tive uma mãe e um pai bacanérrimos e a minha mãe falava: “E agora nós vamos na cidade.” Eu tinha que tomar banho pra ir pra cidade, trocar roupa bonitinha e aí a gente ia pra loja Americana comer cachorro-quente, sabe? Depois na adolescência já foi Xodó e aí Praça da Liberdade. A cidade era um prazer e ainda continua sendo. Eu acho que Belo Horizonte, não é porque eu sou daqui não, é uma cidade que eu escolhi pra… quero dizer, pra nascer nem fui eu, foram eles lá, mas eu escolhi pra viver mesmo. Eu já morei fora, mas sempre volto e atualmente eu falo: é a minha cidade. Eu posso ir até lá fora e ficar um tempo outra vez, mas eu volto.

Voltar ao topo EDUCAÇÃO

Faculdade

Quando criança, imaginava forçosamente o que eu ia ser quando crescesse, porque os pais naquela época – na minha casa do primeiro casamento são dois irmãos, eu e mais um –, a história era assim: o meu irmão ia ser engenheiro e eu ia ser médico. Então eu imaginava que ia ser médico. Ilusão de Maria Pezinho, porque tenho pavor de entrar em hospital e imagina ser médico. E aí, por sorte minha, levei pau no primeiro vestibular que era Medicina e no segundo, caladinho, na calada da noite eu fiz a inscrição pra Jornalismo e acabei passando. Acabei me formando em Jornalismo.

Voltar ao topo TRABALHO

Atividades Profissionais

Foi engraçado porque quando eu comecei a fazer o curso de Jornalismo meu pai falou: “Olha, eu tenho um grande amigo do Diário Associados e vou falar com ele pra você entrar como estagiário.” Achei ótimo e fui pra lá como estagiário, mas nesse trabalho de estágio eu fui fazer uma matéria com o Sá, Rodrix e Guarabyra. Eles faziam um show chamado Rock Rural, no Teatro Marília, nem existia Palácio, e o que é que aconteceu? O carro de um deles foi roubado. Eu fiz uma matéria bacana para o jornal, e no dia seguinte estou no jornal e me liga um deles – foi o Sá que ligou – falando: “Tutti, roubaram o carro da gente na porta do teatro e tal, dá um toque aí. Dá pra você por essa nota no jornal?” Fui lá no departamento especializado, dei um toque, nos tornamos amigos e eles foram embora. Um dia me liga um produtor do Rio de Janeiro falando: “Ah, fiquei sabendo de você e estou levando o Marcos Valle em Belo Horizonte, você não quer fazer a promoção, não?” Eu falei: “eu nunca fiz isso.” Ele falou: “não; eu vou te dando uns toques, te mando o material.” E eu falei: “ok.” E foi dada a largada. Eu fiz Marcos Valle, que era um sucesso na época da Bossa Nova e tal, e depois do Marcos foi louco porque duas semanas depois me liga Benil Santos. Existiam dois produtores, dois empresários no Brasil, na época, o Guilherme Araújo, que era o empresário de Gal, Bethânia, Caetano, Gil e um monte de gente, e Benil Santos que era mais Clara, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, entendeu? E Bethânia era do Benil. Ele me ligou e disse: “eu estou sabendo de você e estou querendo levar Bethânia em BH com o Rosas dos Ventos. Você quer fazer a produção aí pra gente?” Eu tinha acabado de fazer Marcos Valle, me entusiasmei e falei: “ahã; manda vir.” Fizemos Rosa dos Ventos que é um show que marca a carreira de Bethânia, não é? E foi ótimo e na semana seguinte me liga Guilherme Araújo e fala: “Caetano está chegando da Itália. Eu quero fazer com você Belo Horizonte.” Pronto; e aí já fiz Caetano. E menina, foi um show atrás do outro. Cada semana era um novo show que eu trazia e eram shows que não existiam patrocínios. A gente pagava hotel, alimentação, hospedagem. Pegava a grana, era engraçado, fazia o borderô do teatro e tirava as despesas todas e o resto a gente dividia. Era louco, mas era muito gostoso. Outro dia conversei isso com a Gal e ela falava “Tutti, saudades daquela época.” Hoje o artista grava um disco e já vende 10, 20 shows no pacote para… um empresário qualquer… E só vai lá fazer e nem quer saber quanto é o preço do ingresso. E nessa história, olha que legal, me tornei produtor de shows, de trazer shows de fora. Comecei a viajar pelo interior levando shows para outras cidades e quando eu estava à toa o Guilherme e o Benil me chamavam pra ir administrar Rio, São Paulo em alguma temporada ou mesmo viajar com algum artista deles. Nisso vários músicos mineiros naquela época chegavam na porta do teatro e não tinham dinheiro pra entrar, e eu já os conhecia assim de cara, e eles falavam: “Tutti” – e normalmente as temporadas, graças a Deus, eram lotadas, esgotadas. Eles chegavam na porta do teatro, eu piscava pra eles e falavam assim: “está esgotado, mas deixa entrar todo mundo e eu ponho você pra dentro.” E aí vários hoje contam: “graças a você eu vi o show do Baden Powell. Graças a você eu vi o show do Chico.” Eu colocava eles pra dentro e isso foi bom pra eles porque eles viam aquele artista ali no palco. Pra eles como músicos era muito legal.

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A Página do Relâmpago Elétrico, Minas/Fernando Brant

Então o Beto Guedes me chama pra fazer o lançamento do disco A Página do Relâmpago Elétrico em 1977. Mas antes tem o Minas? Acho que foi um ano antes, não é? Talvez.
Bom, nessa história toda eu monto uma produtora chamada Produções Maravilha e com um grande sócio e amigo querido, Fernando Brant. E nessa história toda, montamos a produtora. Milton estava lançando o Minas e Fernando falou: “nós vamos lançar em Belo Horizonte.” E foi uma confusão porque a gente ia fazer no campo Atlético, hoje é um shopping, ali na Avenida Olegário Maciel e choveu no dia, de tarde começou a chover e o som era de São Paulo, da “Val e Valma”, empresa maravilhosa de som de São Paulo que a gente contratou e aí eles falaram “olha, vai molhar o equipamento todo e vocês vão ter que pagar o prejuízo.” E aí nós falamos “de jeito nenhum. Então vamos levar o show para um lugar fechado.” Só que já tinha vendido três mil e não sei quantos ingressos até aquele hora. Mas aí transferimos o show para o ginásio do Mackenzie, presta atenção, que cabe três mil pessoas. Menina, quebraram a porta do ginásio. Não, eu não gosto nem de lembrar. Foi uma confusão, foi muito… Hoje a gente acha engraçado, mas foi um susto total. E aí depois Beto me chama pra fazer o lançamento da A página do Relâmpago Elétrico, primeiro disco dele solo e aí foi um prazer, com o 14 BIS acompanhando e a galera toda. Viajamos muito, fizemos lançamentos em varias cidades, foi tudo de bom.

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Fernando Brant

Com essa coisa de fazer os shows com Fernando Brant, como ele é compositor, todo artista que eu trazia queria conhecê-lo. Aí Fafá de Belém, MPB4, todo mundo: “Fernando, cadê Fernando?” Aí com isso o Fernando ia em todos os shows, saía depois com a gente pra jantar, parará e parará, combinava de fazer uma musiquinha pra fulano, outra pra… E pronto, e aí ficamos amigos.

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Festival Internacional da Canção/Elis Regina

Eu acompanhava os festivais. Me lembro de Milton de “Travessia” e tal. Eu acompanho bem antes até. Elis Regina, eu era super fã dela. Eu não perdia um “Fino da Bossa”, eu não perdia um festival que ela participava. Torcia. A primeira vez que ela foi na minha casa o meu pai falou “olha, esse cara tinha 12 anos de idade e você estava ganhando com um festival com o “Arrastão” e ele chorando de alegria. Então sabe, já era fanzão. Eu ia pra porta e ela morria de rir de contar isso. Ela vinha a Belo horizonte fazer shows e eu adolescente, meninaço, fazendo colégio, eu ia pra porta do hotel que ela estava hospedada com um amigo meu que também gostava dela e a gente ficava na porta do hotel só pra ver ela entrando e saindo. Eu nunca pude imaginar que um dia eu ia morar com essa pessoa, não é? Ela me levou pra morar na casa dela. Eu sou o único sem ser familiar que ela levou pra morar dentro da casa dela e ficamos grandes amigos, compadres, a gente é compadre, não é? E aí foi dada a largada, e pronto. E as histórias vão rolando e show pra cá e show pra lá, e vou pra São Paulo pra ajudar ela a montar a Trama; essas histórias todas.


Clube da Esquina I/Ronaldo Bastos

Me lembro claramente de quando saiu o Clube da Esquina, claro. Certamente. Acho que foi o Ronaldo, o Ronaldo Bastos. O Ronaldo vivia aqui. Ronaldo é carioca, não é? Mas ele é mineiro; o Ronaldo é mineiro com todo prazer. (RISOS) Bom; primeiro sabia as notícias em off, porque eu já estava no meio e alguém me contava: “gravaram tal música, ficou demais, o disco vai ficar lindo” e tal e tal. Existia uma tensão no ar, muito legal, da música aqui em Belo Horizonte que era impressionante. E acho que foi o Ronaldo que disse pra mim: “o disco está pronto.” “Opa.” E quando chegou a gente já ia pra primeira loja, existiam várias lojas que vendiam vinis. Ia na primeira loja e comprava. Era a grana pra tomar uma de noite e aí falamos “não vamos tomar não, vamos comprar o disco.” E era bacana porque a gente reunia amigos. Eu me lembro que, por exemplo, o Falso Brilhante, quando saiu, nós fomos, eu e o Ronaldo, e eu comprei e encontramos na rua no centro da cidade e fomos pra minha casa pra ouvir. Sabe aquelas coisinhas? Juntava a turma, a galera, e juntamos mais um bando, vizinhos: “vem cá, vamos ouvir esse disco agora.” Era engraçado. Era bom demais.

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Avaliação

Eu acho que o Clube da Esquina trouxe uma grande contribuição, não só para a música brasileira. Acho que o Clube é responsável por toda uma atitude hoje na música mundial até, sabia? Porque, querendo ou não, aqui no Brasil a gente era muito colonizado. Então era muito ouvir música lá de fora ou então pegar rebarba dos pais da gente e avós que era o bolerão, não é? Era uma Dalva de Oliveira e o pessoal todo começando, nessa época também Chico, Gal, Elis, Bethânia, todo mundo e o Clube deu um gás na loucura e todo mundo, sabe? Tipo assim: “a partir de agora existe um som novo feito…” sabe? As pessoas gravavam muita versão, não é? A maioria dos intérpretes, principalmente, os músicos também tocavam muita música lá de fora, sabe? Não existia. A Bossa Nova era o primeiro movimento, mas ficou muito ainda naquela época… Muito no Rio de Janeiro e tal. Então o Clube muda tudo isso. Eu acho que a música brasileira existe antes do Clube e depois do Clube, sabe? Pra mim é aí.

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Clube da Esquina

Estou achando um barato essa história do Museu do Clube da Esquina. Adorei! Adoro essa história de memórias, guardar. Eu sou o rei de guardar memórias, papéis. Eu tive memórias escritas porque minha memória é muito ruim; você vai puxando e eu vou lembrando. Eu acho ótimo, já falei isso pro Marcinho. É muito, muito importante, sabe por quê? Porque hoje no mundo inteiro você chega e fala que é mineiro, é brasileiro e mineiro, se existe alguém antenado que conhece a boa música fala pra você de cara: “ah, é da terra do Clube da Esquina, é da terra do Toninho Horta, é da terra do fulano”, sabe? Então é um prazer, muito bom.

Palavras Finais
Obrigado. Um beijo Clube! Sou anarquista, mas o Clube, esse clube tiro carteirinha, faço exame, freqüento, faço tudo.
Beijo. Obrigado vocês.

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