Vermelho

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IDENTIFICAÇÃO
Nome, data e local de nascimento

Meu nome é José Geraldo de Castro Moreira. Nasci no dia 27 de abril de 1949, em Capela Nova, Minas Gerais.

FAMÍLIA
Pais

Meu pai é Sebastião de Assis Moreira e minha mãe Marina de Castro Moreira.
Meu pai é comerciante. Ele trabalhou no comércio, mas primeiro trabalhou na roça. Meus avós tinham fazenda de gado. Capela Nova era uma cidade pequena, na década de 50, 60, sei lá. As cidades todas eram… O Brasil era um país agrícola até 1960, quando se tornou um país industrial. Então, era mais esse negócio de ter umas cabeças de gado, feijão, roça de milho, não sei o quê. Meu pai capinava na roça. Depois teve esse pequeno comércio na cidade de Capela Nova. Na cidade, na verdade uma cidade pequena, 3.000 ou 4.000 habitantes. Igual a Santa Bárbara ou outras dessas cidades de Minas que se formaram a partir da descoberta do ouro. Ao longo do caminho dessa estrada real, porque a cidade em que nasci fica na estrada real, na verdade tem uns pólos: Diamantina, Ouro Preto, Mariana, São João Del Rey. Ouro Preto era a cidade sede. E no meio delas, cidades pequenas onde passavam as tropas com mantimentos, com ouro pra levar pro Rio de Janeiro ou pra Salvador, no começo. Ali foram se criando as pequenas povoações, lugares onde tinha comida, agasalho, tudo, pras pessoas que estavam descobrindo ouro. Minha família é uma das descendentes disso, os Moreira. Inclusive vieram de Portugal e começaram a fazer comércio.

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Irmãos

Meu pai e minha mãe tiveram seis filhos. Eu sou o mais velho. O segundo, meu irmão, é professor de física, trabalha para o governo na área de Ciência e Tecnologia. É diretor de divulgação do Departamento de Ciência e Tecnologia. Um físico muito competente. Tenho quatro irmãs, todas muito competentes no lar. Têm filhos, filhos bonitos.

FAMÍLIA
Pais

Meu pai é maestro de banda. Compositor e maestro de banda. Uma história um pouco parecida com a do Godofredo, pai do Beto. Um pouco no sentido de que ele não pode realizar, mas ainda pode, porque é vivo. Ele toca bombardino, um instrumento muito interessante nessas tradições de bandas. Meu pai tem muitas composições. E quer inclusive fazer um CD com ele regendo músicas dele e tudo mais. Ele não tem nenhuma música dele gravada.
Essa banda que ele regia tocava música religiosa, de igreja. Você sabe que no Brasil inteiro, particularmente em Minas Gerais, a igreja tinha uma predominância muito grande. A festa de páscoa, de natal, da padroeira da cidade e tudo, a vida religiosa era muito importante no barroco mineiro. A banda de música tocava muito esses motetos, matinas, dobrados, valsas. Acompanhava as cantoras na igreja. Ao mesmo tempo, a banda de música… Uma coisa muito importante: meu pai era maestro de banda. Ele é um maestro de banda ainda. Tem encontros de bandas lá em Barbacena e meu pai é uma das figuras mais requisitadas; 20 bandas que vão, todas estão atrás do Seu Moreira. Meu pai é muito mais conhecido que eu, inclusive. E nos ensaios de banda, é que eu aprendi como eram as coisas. Tinha três ou quatro anos de idade e comecei a aprender. Tinha uma banda de música e eu estava ali que nem louco, escutando aquele negócio tocando, aquela música maravilhosa. Porque, além deles tocarem as músicas de igreja, os dobrados, as marchas, no final tocavam valsinhas; com o saxofone tocavam músicas de Pixinguinha, música dos compositores populares da época, tipo Luís Gonzaga, esses compositores todos. Faziam arranjos disso tudo, Noel Rosa… Então, a vida toda da gente se misturava, essa informação musical era muito grande.

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Influências

Essa coisa de banda de música eu ia porque gostava. Claro que eu ia porque meu pai estava lá, mas vinha do meu avô. Meu avô era, inclusive, muito mais entusiasmado que meu pai, em termos de música. Uma coisa que eu aprendi com meu avô paterno era isso. Meu avô chegava para os caras e falava: “isso aqui não é um dobrado de chegada”. Dobrado de chegada é aquele dobrado quando a banda de música vai aparecer na praça. “Tem que tocar outro. Esse é muito bonito. Mas pra chegada é tal”. E a banda tem que terminar assim: “prã-ran-pan-pan””. Acho que aprendi muito isso, porque até hoje nos meus trabalhos com o 14 Bis, e nos outros trabalhos, sou um cara que tem uma noção de repertório muito clara. Eu sei que uma música é muito boa pra meio do show, mas nunca vou terminar o show com uma música fraca. Nunca vou começar o show com uma música que não tem lugar ali. Sei exatamente a música pra começar e terminar. Acho que eu puxei muito isso do meu avô. E o entusiasmo também. E também tocava na banda. Mas eu gostava muito também da música de igreja, porque o padre… Tinha o sacristão, um cara que tocava na igreja, com uma vida musical muito intensa. Tinha duas bandas de música, um coro muito bom, orquestra que tocava junto com as cantoras. Todo mundo afinado. Na família do meu pai tem uma tradição de gente que canta muito legal, sabe? Até meus filhos puxaram isso. Mas as músicas de igreja, tocavam muito aquelas que vinham de Roma, da Capela Cistina. Antigamente eram aqueles discos que quebravam, não era nem LP. Eram aqueles 33 rotações, que chiavam, coisa e tal, mas são muito bons. Tinha a Ave Maria de Bach, de Gounod. E aquela música as vezes tocava quando tinha uma festa, ou quando morria alguém da cidade, tocava uma daquelas tristes. Ou então quando batia um Ângelus às seis horas da tarde, você estava pescando e escutava aquilo de bem longe. Dava uma emoção muito forte. Às vezes você escutava, sei lá, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Pixinguinha, ou aquelas Guarânias de Mato Grosso, do Paraguai, ou aquela músicas de Teixeirinha, do Rio Grande do Sul, sabe? Então, é uma formação muito grande que a gente tem. Eu vejo também no Beto Guedes, que também teve uma formação muito parecida com a minha, porque também nasceu no interior. Eu também nasci no interior. A maioria do pessoal que vocês estão entrevistando, inclusive, são mais cidade. Nasceram em Belo Horizonte, no Rio e coisa e tal. Eu faço muito paralelo com o Beto, porque tem muito a ver com o pai dele também ter sido um cara de música e que não pode, vamos falar assim, não teve as músicas dele gravadas. Depois foram gravadas pelo Beto. Ele até colocou que gravou as músicas do pai. Ele viu que o pai dele não teve oportunidade disso.

FORMAÇÃO MUSICAL
Instrumento

Instrumento, por incrível que pareça, eu comecei tocando cavaquinho, porque era o único que meus dedos davam conta. Comecei tocando cavaquinho e meu pai saxofone. Meu pai tocava todos os instrumentos de banda. Faltava, sei lá, os caras de banda de música eram pessoas da roça, então o cara que tocava baixo, tuba, se machucava, torcia o pé, cobra picava, mulher teve filho, então o cara não vinha. Papai era o maestro e o substituía. O cara da clarineta não veio, papai tocava clarineta. Não veio o cara do sax, papai tocava sax. Falhou o cara do trompete, papai tinha que tocar trompete. Então ele tocava qualquer instrumento. E ao mesmo tempo, tinha uma didática maravilhosa. Ele tinha que ensinar a caras que de repente nem sabiam escrever o nome, papai tinha que ensinar aos caras como se lia música. E tinha uma didática… Tinha, não. Tem. Igual eu tenho e esse meu irmão, que eu falei que é físico, ele tem uma didática maravilhosa. O cara ensinar física, se não tiver didática, complica. Você ensinar fórmulas, explicar Einstein, fórmula da gravidade, campo magnético. Eu tenho essa didática e esse meu irmão mais que eu. Papai tinha essa coisa. Eu aprendi a ler música, praticamente antes de ler, escrever meu nome.

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Belo Horizonte

Demorei a vir para Belo Horizonte. Demorou pelo seguinte: eu estava em Capela Nova, fiquei lá nesse estágio, tocando cavaquinho e depois comecei a tocar violão. Era por volta de 1960, eu já tinha terminado o grupo escolar, hoje primeiro período. O tal do ginásio, que hoje seria o segundo período, não tinha lá na cidade da gente, tinha que sair. Então, fui pra um colégio de padres alemães chamado Borda do Campo, lá perto de Barbacena. Colégio Interno.

CIDADES
Capela Nova

Capela Nova fica perto de Lafaiete, Ouro Preto, Barbacena. Se tivesse jeito de traçar uma linha reta entre o Pico do Itacolomy, em Ouro Preto e Barbacena, traçando uma linha reta, Capela Nova está no meio. Na estrada para o Rio, que agora tem asfalto, passou Lafaiete, uns 20 quilômetros, na altura da cidade de Carandaí, você entra à esquerda e uns 25 quilômetros está em Capela Nova. Não tinha asfalto, mas agora tem. Uma cidade muito legal, que antigamente chamava Capela Nova das Dores de Pedra Menina. Tem a Pedra Menina, que eu até fiz uma música com esse nome. Uma pedra que tem lá. A cidade foi formada em cima de um arraial de Índios Purís, tanto que a gente achava machadinha, essas coisas. É uma das cidades pequenas que tem uma das maiores praças das que eu conheço aqui em Minas. Porque é no alto, tem uma praça enorme, que antigamente tinha uma lagoa e ao redor tinha a aldeia dos índios. Uma água muito pura, muito boa.

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Colégio Borda do Campo

Eu fui pra esse colégio dos padres, Borda do Campo, que é um lugar tradicional em Minas. Porque na Borda do Campo tinha passagem do ouro pra ir em direção ao Rio, a Capital. Lá que se pesava e cobrava o quinto do ouro. Lá tem as casas, que inclusive pertencem à família Andrada, a fazenda antiga, com aqueles muros enormes. A ruína da fazenda ainda está lá. Então os Andradas cederam o terreno aos padres Alemães, da Sociedade Verbo Divino, que são os mesmos padres do Colégio Arnaldo, aqui. Tanto é que depois eu vou contar que vim para o Colégio Arnaldo. Eu fui pra esse colégio dos padres, que se chama Borda do Campo porque está em Borda do Campo, no terreno dos Andradas, um lugar tradicional. Inclusive a Inconfidência Mineira praticamente começou lá.
Lá tinha aula de tudo. Lá aprendi música também. Eu vou te dizer: a gente tinha aula de alemão, latim, grego, inglês, francês, português, matemática, geografia, história, tudo. Eu falei cinco línguas aí. A gente cantava. Tinha uma disciplina rigidamente alemã e pra mim foi bom. Eu gosto da disciplina alemã. Eu gosto da disciplina européia, pra mim fez bem. A gente acordava às cinco e dez da manhã. E lá é frio, mais frio que em Barbacena, porque é no meio do mato. Então, a gente acordava cedo e ia pra igreja rezar e cantava cantos gregorianos, canto chão, entendeu? “Aaavee Maariia”. Os padres cantavam muito bem porque tinham vindo da tradição européia, vindo da Alemanha. Mas não eram só padres alemães, tinham padres italianos, polacos, Tchecoslováquia, basicamente dessa cultura. Um, inclusive, foi colega desse finado papa, João Paulo II.
Fiz o ginásio lá. E como já tinha uma noção de órgão, de música, sabia ler música. O padre viu que eu sabia ler música. Eu só tirava dez, era um aluno muito bom, como meu irmão – e não estou sendo metido de maneira nenhuma, nem fico com pudores de dizer que era bom aluno, porque era, sempre fui – graças inclusive ao estudo que tive em Capela Nova, que foi muito bom. (Capela Nova como disse é uma cidade pequena, mas não tem analfabeto lá, não tem. E não tem desigualdade social. Não tem esse negócio de crioulo ser maltratado por ser crioulo. Não existe esse negócio de racismo na minha terra, nunca existiu.) Parênteses feito, como eu tirava boas notas em tudo, o padre que dava aula de música viu que eu era bom em música. E falou: “vem cá. Os meninos que tocam órgão elétrico, a harmônica lá da igreja, de repente os caras estão no quarto ano, vão sair e vão embora pra Belo Horizonte. Eu vou te ensinar”. E o padre começou a me ensinar. Comecei a tocar músicas de igreja. Comecei a harmonizar canto gregoriano, e é uma harmonia chata, porque é modal, um negócio meio…, é difícil. Eu cantava, também, no coro. Tinha coro quatro vozes e eu tinha voz de menino, então cantava soprano. Eu sabia ler, comecei a cantar. E como era colégio de padre, tinha missa de manhã, depois tinha benção, mais um bocadinho tinha outra missa, rezava de noite. Um regime quase o Nome da Rosa, aquele filme, quase um mosteiro. Era um colégio de padre, mas não no estilo Salesiano, não. Era um colégio de padre… Pra ter canto gregoriano, você vê que é uma coisa…

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação musical

Nesse colégio fiz todo o ginásio, quatro anos. Na verdade, fiquei cinco, porque na época tinha uma tal de preparação, admissão. Que era pra fazer em Barbacena, mas eu acabei fazendo lá no colégio. No fim estava tocando tudo. Por exemplo, eu ia tocar uma missa num tom, vamos dizer, Sol Maior. Mas estava muito alto o tom pros meninos cantarem, porque já estavam com uma voz mais grave, eu tinha que tocar aquilo dois tons abaixo. Tinha que ler uma coisa e tocar outra. E isso é uma coisa complicada. Mas eu peguei uma habilidade muito grande com isso. O mais importante nisso é que como eu era um bom aluno, a gente tinha muito estudo obrigatório o dia inteiro. A disciplina dos padres tinha isso. Tinha hora de trabalho. Depois das duas da tarde, era exercício físico, capinar, trabalhar no pomar, era todo mundo exercer coisa física, jogar futebol, capinar, limpeza, outro dia na cozinha, todo mundo tinha que aprender a nadar. Uma disciplina em todos os níveis, inclusive físico. Graças a Deus eu tenho uma saúde muito boa até hoje. Praticamente eu peso hoje o mesmo de quando eu tinha 18 anos de idade. E devo muito a isso. Então a gente tinha uma disciplina muito boa. E como eu tinha notas boas, não precisava participar desse estudo com os outros alunos. O padre me dava a chave da sala de música. Só que na sala de música eu tinha acesso às partituras que vinham dos Estados Unidos, da Alemanha, da França, da Inglaterra. Eram partituras da “Sinfonia nº 5”, de Beethoven”; “nº 32”, de Wagner; abertura de Wagner, música de Villa Lobos, tudo. Não sei se você já acompanhou uma partitura, mas pegar uma “3ª Sinfonia”, de Beethoven; “Paixão Segundo São Mateus”, de Bach; e você ler aquela quantidade de instrumentos tocando ao mesmo tempo, é uma rapidez louca. Maestro lê assim: paran-pran-praranran-pan-pan. Está lendo, porque são vários instrumentos tocando. Você não está lendo só a parte de piano, porque a flauta está fazendo isso aqui, entendeu? A grade é violenta. Então eu aprendi a ler grade de pequenininho. Eu lia isso com 12, 13 anos de idade. Quando eu saí de lá estava só querendo saber de Wagner e Beethoven, tinha esquecido até de Pixinguinha e tudo.

EDUCAÇÃO
Colégio Arnaldino

Eu na verdade ficava no Arnaldino, que é dos mesmos padres do colégio em que eu estudei, Sociedade Verbo Divino. Eu morava no Arnaldino, semi-interno e estudava no Colégio Arnaldo, de graça. Na verdade, eu estava continuando os estudos pra padre, só que depois eu parei, saí. O colégio lá é pra formar sacerdotes. Só que os padres lá tinham uma visão legal de formar você, culturalmente bem e intelectualmente bem, pra que se você não fosse na idéia deles – o que eu acredito que seja até a idéia de alguns papas modernos, da igreja católica que pensa mais legal – você vai ser uma pessoa culta e passar essa coisa de divindade. Mesmo que você nem seja católico, não vá à missa, nem vá à igreja, você tem uma noção de divindade certa. Eu tenho, particularmente, que Deus é um só em qualquer religião, seja católico, seja budista, seja maometano, seja judeu, ou nessa coisa da espiritualidade negra, que é fantástica, no candomblé. A gente está entrando numa área onde eu sempre fui bem orientado nisso. A gente tinha uma coisa legal de, se não fosse seguir o caminho pra ser padre, estava lá numa boa. Eu estudava no Arnaldino, morava no Arnaldino que era ali no Anchieta, na Vitório Marsolla, onde na época não tinha nada. Tinha uma favela lá em cima no Cruzeiro. A gente vinha a pé pro Colégio Arnaldo e eu tinha aula no Colégio Arnaldo. Lá eu me dei bem, era um aluno legal, tirei nota alta pra caramba.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências – Beatles

Pois é, você disse exatamente… chegou no momento exato. Foi numa dessas manhãs que eu estava saindo do Arnaldino, na Vitório Marsolla, no Anchieta, eu estava vindo pro Colégio Arnaldo pra ter a primeira aula. Provavelmente seria de matemática, com o Walfrido Mares Guia que hoje é o cara que está trabalhando com o Lula na Câmara. E é tudo verdade, se trouxer o cara aqui eu comprovo tudo, na reta. O meu curso era de medicina, porque eu queria fazer psicologia. Na época era medicina ou engenharia ou clássico. Eu fiz clássico um tempo, mas depois estreitou tanto o caminho que eu pensei: “Vou pra medicina, porque psicologia é mais medicina”. E a primeira aula era matemática e o Walfrido chegava fervendo. Como ele era boa vida, gostava de namorar, kart, era cara da alta sociedade, ele chegava segunda feira de manhã e chegava detonado. Eu chegava: “Ô, professor, a noite foi boa ontem”. Ele chegava no quadro e já mandava aquela equação pra rachar no meio: “Quem acertar tira dez, quem errar, prova!”. Todo mundo passava lotado, os caras de medicina. Eu me dava bem, porque sempre entendi matemática pra caramba. Era páreo pro meu irmão que é físico. Eu fazia a prova e já saía. Mas numa dessas manhãs, não sei, podia ser aula de latim, de grego, de sei lá o quê, eu passo aqui na Praça do ABC, que era caminho, me bate uma música e eu digo: “Meu Deus do céu! Que é isso?” Eu não sei a primeira música dos Beatles que escutei, provavelmente “Please, Please” ou “I want to hold your hand”. Eu fui pra aula completamente ensandecido, não entendi nada. Eu pensei: “Meu Deus, o que é isso?” Estava numa época em que eu já tinha passado por banda de música, música religiosa; já estava curtindo Wagner, uma música mais orquestral mais avançada que tinha pra época. Toda música de cinema é baseada em Wagner, Ravel e tal. Pra mim, o maior avanço da música que existia era aquilo. E de repente eu topo com um vocal de uma violência, de uma vitalidade, de uma juventude… Eu estava quase monge e de repente eu comecei a ver o mundo feminino. E depois que voltei do colégio comecei a ver as fotos dos caras, aquele cabelinho curtinho e as meninas todas ensandecidas, loucas com os caras, bonitos. Falei: “Esses caras são veados”. Não são, cara! As meninas estão loucas com eles. O Beto também falou a mesma coisa. E eu fiquei louco com os Beatles. E eu me lembrei que já tinha lido um artigo de um jornalista, acho que da Visão, na época, que pôs uma foto dos Beatles – devia ter guardado – os quatro andando numa rua de Londres. Lembro o texto exato: “Ganham milhões, cantando mal”. Eu olhei pra aqueles caras e pensei: “Que diabo, que caras esquisitos, feios. Se bem que os cabelos não estão tão feios”. Porque na época era todo mundo igual, com aquele cabelo cortado igual soldado da primeira guerra. Homem tinha que andar assim. Aquele cabelinho era coisa de veado, nem existia. Mas de repente as meninas todas ficavam loucas naquilo. Mas eu, como estudava em colégio de padres, eu li aquilo ali e pensei: “Como os caras ganham milhões, cantando mal?” Eu nem sabia o que era ganhar milhões, nem sabia o que era vida artística. De cantar bem pra mim, era aquilo ali. Mas como os caras podem cantar mal e ganhar milhões? Na minha cabeça não tinha. Ainda mais os caras vindos da Inglaterra. Falei: “Tem coisa errada aqui no meio”. Entendeu? Quando eu topei com os caras, e escutei a voz deles, eu liguei: “Pá, são aqueles caras que eu vi. Por que o cara escreveu que eles cantam mal? Cantam mal o “caramba”. Os caras cantam pra “caramba”. Se você reparar bem, os caras foram antenar pra Beatles depois, mas a gente que tinha 15 anos na época, como era meu caso, caso do Beto, de toda aquela geração, foi uma tijolada na cabeça. Não foi só música. Beatles depois foi uma música mais organizada, mas as primeiras era aquela coisa que não dava tempo “She loves you, ié ié ié…” cantando os quatro ao mesmo tempo. E guitarra comendo. Ninguém sabia o que era guitarra. E guitarra distorcida, nem pensar. O visual dos caras mudou tudo. As meninas de repente não estavam mais querendo curtir o bonitinho daqui. Estavam querendo curtir era Beatles. Então, nessa eu mudei de idéia completamente. Eu já queria sair do Colégio de padres, porque não estava servindo pra mim. Saí em 66. Fui tocar em bailes. Arrumei uma guitarrinha, só que eu não estava a fim de tocar guitarra, tocava órgão. Comecei a pesquisar os conjuntos que tinham órgão e cheguei no Animals que tinha aquela música A Casa do Sol Nascente, lembra? Aí que eu encontrei com o Animals e depois com o The Doors, que depois veio com o Jim Morrison, que também é legal pra caralho com Light My Fire. Aí que entrei nesse mundo de música, vamos falar, pop.
Eu continuei estudando no Colégio Arnaldo, mas saí do colégio de padres, porque não estava mais querendo tocar em missa, não. Estava doido pra escutar Beatles o dia inteiro. Arrumei uma república, as famosas repúblicas, e fui morar lá. Isso em 66, 67, até terminar o Colégio Arnaldo, que eu pude continuar lá.

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Lugares frequentados

Nessa época eu não estava conseguindo espaço em bandas. Porque primeiro eu não tinha muito traquejo na história e segundo não tinha dinheiro pra comprar um órgão. Eu tinha que comprar um órgão e os brasileiros eram muito ruins, esses Saema aí, e caros. Não estava na época ainda. Nessa época de 66, 67, fiquei mais estudando e escutando Beatles pra caramba. Eu ia lá pra Barbacena; meu pai tinha mudado pra Barbacena nessa época, 66, 67. Escutava Beatles, dançava com as meninas em bailes, comecei a aprender como dançava. Quando eu era pequeno via como mamãe dançava, então sabia como era. Então nessa época eu comecei a namorar, não é? Eu estava a fim de namorar, não de ser padre. Acabou minha época de ser padre. Entendeu? Estudei no Colégio Aplicação, aqui do lado da Fafich. E aí, nós não podemos esquecer outra coisa: enquanto 1964 trouxe pra nós essa tijolada chamada Beatles, ao mesmo tempo, nós brasileiros, em 1964, tivemos a “revolução militar”. Então, cara, foi uma tijolada dupla. “Putz”, mudou o mundo todo. Você pensa comigo: um cara que ao mesmo tempo está num colégio de padres e descobre uma música completamente diferente, que era a dos Beatles; descobre um universo feminino que nunca conheceu – claro, tinha mãe, prima e coisa e tal – de repente desperta a sexualidade, vê como as mulheres estavam mudando, a pílula que estava aparecendo. As mulheres já não estavam querendo os machões do exército americano. As propagandas do exército americano já não valiam mais. As meninas estavam doidas por Beatles. A pílula estava liberando a mulher. Meu pai já não podia falar com minhas irmãs do mesmo jeito, já não podia controlar minhas irmãs. Não era aquele negócio de transou, casou. Não era mais essa história. Pela primeira vez na história do mundo, não era. Algumas nem usavam mais sutiã. Entendeu? Teve uma virada no mundo. A mulher resolveu chegar mais perto do homem. Isso na virada dos anos 60. E a guerra do Vietnã comendo solta. Aqui os militares metendo a lenha. Cabelo igual ao nosso aqui já estava ferrado.

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Ditadura Militar

Eu servi exército esta época. Então, mas logo em seguida, a gente encurtando um pouco a história, esse meio de campo de 66, 67 na minha vida, foi muito de participar de passeata contra o regime militar. Senti aquilo. Escutar muito e falar pouco. Falar pouco, porque inclusive não podia falar. Eu queria fazer psicologia. Entrei no Colégio Aplicação, em 67, quando saí do Arnaldo, fui muito bem doutrinado. E fui bem, porque lá tinha muita menina. Minha sala tinha 20 meninas e quatro caras. Mas todos muito ligados. Hoje provavelmente caras do PT, sei lá o quê. Gente que sabia de contestação aos militares, de participar de DCE. Eu comecei a dar linha nessa coisa. Alguns ficaram, igual meu irmão que está até hoje nessa coisa de governo, de Lula; igual Gabeira e outros assim, que eu acho que fizeram um trabalho legal. Eu não fiquei porque tive um outro tipo de orientação. Mas sempre fui torto, gostava de aulas de antropologia, quando fiz a faculdade. Em 67, eu fiz o vestibular e em 68 entrei na faculdade. Entrei na Fafich. Fazia psicologia, mas tinha aula de antropologia, sociologia, que eram as que eu mais gostava. Mas, ao mesmo tempo, assistia algumas aulas, e outras não gostava. Então as aulas de anatomia… psicologia não era minha área. Eu na verdade devia ter feito história ou jornalismo, sabe? Hoje vejo que errei. Devia ter feito história ou jornalismo. O que eu queria na psicologia era o lado mais humano, mais sociológico da história.
Mas, entrando no assunto do exército, principalmente na época dos militares era uma lei servir o exército. Acontece o seguinte: quando você está na época de ser convocado para o serviço militar, se você está no nível universitário, você em vez de ser soldado de corpo de tropa, como eles chamam, pode ter um grau mais elevado. Pode ir ser oficial da reserva. Eles selecionam oficiais da reserva, que tem que ter soldados da reserva, pro caso de uma guerra ou sei lá o quê; qualquer país do mundo tem uma reserva de forças armadas. Até Israel tem. Qualquer país do mundo tem. No Brasil, e eu acho uma coisa certa, a interpretação de cada um pra esse negócio. Tem soldados e tem que ter oficiais, como tem que ter sargentos, também. Então, os oficiais são escolhidos entre as pessoas que naquela época, com 18 anos, já têm nível universitário. Eu fui escolhido, como outros. E eu, fazendo exército em 1968, fiz um ano. Você fica lá, basicamente tendo um regime quase igual ao…, basicamente cumprindo as leis pra chegar lá meio dia em ponto e ficar até as seis. Só que vem todo uniforme. Pra efeito de instrução, os sargentos estão acima de você, embora o aspirante de oficial seja acima. Mas pra efeito de instrução, sargento manda em você. Cabos e soldados estão abaixo de você. Mas o resto está tudo igual. Quando você está lá dentro do CPOR, dentro do quartel tem muito tenente, capitão, que te dão instrução; pessoas de um nível mais elevado, vamos dizer assim, nível de instrução militar, era mais legal. E pra mim foi muito bom, porque conheci muita gente lá. Aprendi muita coisa, sabe, muita coisa que o exército tem que é legal. Nunca fui a favor de ditadura militar, não sou a favor de… Mas viver no exército na época da ditadura militar era um pouco difícil às vezes. Porque, principalmente, o pessoal dos dois lados não compreendia. Os caras do exército não compreendiam que você pudesse ser um estudante que tinha idéias, sei lá, que não estava muito de acordo com aquela repressão, mas apesar disso continuava amando estar trabalhando no exército. E do lado de cá, o contrário. Os colegas de faculdade achavam que você era um traidor, um vagabundo. Até um espião e que você estava lá fazendo exército, enquanto os militares estavam metendo a lenha nos caras. Por outro lado isso me deu uma visão muito clara das coisas, sabe? As pessoas boas e ruins, legais, estão em todos os cantos. No exército eu conheci muita gente leal, muito capitão gente boa pra caramba. Como conheci na faculdade gente ignorante pra caramba, radical. Na esquerda tem gente radical pra caramba. Agora do outro lado também tem. Conheci muito torturador, muita gente que fez sacanagem. Eu nunca participei de nada, nunca me obrigaram a participar de nada. Nem tinha poder pra isso. Nunca o capitão ou coronel Medeiros, que inclusive foi depois chefe da SNI no governo Figueiredo. Dizem que ele era torturador, não sei, estou falando de mim. Acho que o Flávio conheceu ele também. Era uma pessoa honrada, não estou defendendo ele, estou falando por mim. Era uma pessoa honrada, tanto que, você me perguntou o que a gente fazia, quando tinha passeata aqui dos estudantes na Praça Sete e que poderia haver um risco de a gente sair do CPOR às seis e meia da tarde, que era a hora que a gente saía, e ser pego num fogo cruzado, ou seja, eu era um cara que estava fazendo faculdade e ao mesmo tempo fazendo CPOR, de que lado ia ficar? Entendeu? Então, o capitão, coronel Medeiros, já tinha essa noção e falava: “Gente, hoje vou liberar vocês às quatro horas da tarde. Vocês vão embora. Vão pra casa, porque eu não vou lá defender ninguém. Não entra em passeata, não, porque vocês estão aqui no exército”. Tipo como se ele dissesse que não estava interessado no que a gente pensava, mas que não entrasse em roubada porque estando no exército, como ele ia fazer? “Se o DOPS pegar vocês vou ter que tirar vocês de lá?”.

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Flávio Venturini

Conheci o Flávio no exército, sim. Quero dizer aqui que nunca fui a favor da ditadura, nunca fui. Mas eu aprendi muita coisa lá de lealdade, legal. Nunca ninguém tirou onda comigo lá. Saí de lá tenente R2. Fiz meu… Quando você sai de lá sai aspirante a oficial e faz seu estágio. Eu fiz no RI, 45 dias. Trata os soldados lá como subordinados seus. Aprende a comandar, ser tenente e comandar um pelotão. Não é uma coisa fácil. Eu cheguei e disse: “Gente, eu estou aqui não porque quero seguir carreira militar. Mas eu quero fazer meu estágio direito. Todo mundo pra mim… Vocês têm que me respeitar porque sou o tenente aqui. O sargento vai comandar”. Peguei um sargento que estava 20 anos lá, apesar do cara estar abaixo de mim, hierarquicamente, mas deixei o cara comandar. Falei: “Sargento, comanda aí, porque você entende mais do que eu”. Ele inclusive disse: “Tudo bem. Eu chamo de senhor”. Quando eu saí do CPOR, no último dia fiz o hino do CPOR. Porque no CPOR fizeram um hino lá, precisavam de um hino e eu fiz o hino. Compus o hino. Como meu pai era maestro de banda, eu sabia compor música de banda. Fiz uma marcha lá. No dia que eu fui receber, tinha uma festa de fim de ano lá, fui receber a grana que eles deram por causa do hino, e eles me disseram: “Teve um outro ali que também quis fazer o hino. Mas ele não deu conta de fazer letra”. Eu falei: “Quem?”. “O Hugo Venturini da artilharia”. “Sei, um cara de olho verde, nariz grande, que joga bola pra caramba e acabou com nosso time. Você tem o telefone dele?” “Tenho”. Liguei pra ele, os caras lá conheciam ele como Flávio Venturini. Liguei pra ele, cara super legal, chamou de Zé, porque meu nome é José Geraldo, tal, mas lá no exército era Cássio Moreira. Não tinha apelido. O Flávio falou que estava voltando em 15 dias, porque estava indo pra Santos. Acho que ele passava fim de ano, janeiro. O exército acabou dia 30. Inclusive acabou com o AI-5 explodindo na boca. (RISOS) Um dezembro maravilhoso e pra completar a festa um AI-5, na boca do caixa. O Costa e Silva morrendo, Médici. Estou contando a história do Brasil. O Flávio falou: “Estou dando um descanso em Santos”. Quando ele voltou…, ele morava na Praça Raul Soares, no décimo segundo andar. Tinha até cobertura que era deles também, da mãe e do pai. Aí, fui lá, o Flávio começou a tocar piano. Eu pensei: “Pô, esse cara toca piano legal. Não tem técnica muito boa, mas toca um piano legal”. Começou a tocar umas músicas dele, depois uns Beatles. Aí eu peguei o piano e também comecei a tocar. Como eu já estava estudando clássico, isso eu não falei, mas esse tempo todo que eu vim pra Belo Horizonte, conheci Beatles e tal, não deixei de estudar. Estudava na Fundação Artística da Berenice Menegali. Eu estudava piano. Tinha estudado órgão, lá no colégio interno. Cheguei aqui e continuei a estudar piano. Continuei meus estudos de música, paralelo ao Colégio Arnaldo. Então, eu não parei. Tinha uma técnica, vamos falar, tecnicamente eu tinha um conhecimento musical tradicional um pouco maior que o Flávio, porque estudei muito mais que ele. Mas por outro lado, quando ele chegou no quarto dele, aí que ele mostrou Beatles. Eu fiquei muito surpreso quando me mostrou a coleção de Beatles e começou a cantar Paul MacCartney e eu vi como o Flávio cantava bem. Eu fiquei encasquetado com aquilo, como ele cantava bem. Eu tinha um conhecimento de voz, de coro, de cantar, mas não de participar, de cantar essas coisas. Resultado: como eu não tinha casa em Belo Horizonte, morava em república, eu fiquei tão amigo do Flávio que a gente começou a fazer música logo em seguida. O Flávio tem um irmão menor, que é o Cláudio Venturini, que toca hoje no 14 Bis, mas era bem pequeno nessa época, não dava pra falar dele muito não. Nessa época estava lá jogando futebol de salão, essas coisas, mas sempre atento ao que a gente estava tocando. Aí, a mãe do Flávio estava passando por algum problema financeiro, sei lá e quis alugar um quarto. Era muito comum as famílias alugarem quarto pra estudante, como fazem em república. A mãe do Flávio ia alugar um quarto e eu falei: “Por que você não aluga pra mim e pra meu irmão?”, esse meu irmão que estuda física, que estava na UFMG. Então fui morar na casa do Flávio. Que acontece? A gente fazia música o dia inteiro. Eu comecei a trabalhar na Caixa Econômica Federal, porque meu pai…, eu tinha que ganhar algum dinheiro, fiz concurso lá na Caixa Econômica Estadual, desculpe. E comecei a fazer música com o Flávio. A gente fazia letra, música, começamos a fazer vocal. Aí comecei a por em prática todo aquele conhecimento de cantar em coro, todo o conhecimento meu. O Flávio conhecia Beatles, eu comecei a aprender mais coisas de Beatles com eles. Comecei a escutar mais coisas de Animals e de outras bandas que tinham órgãos.

PESSOAS
Hely Rodrigues

O Flávio tocava em bailes e nessa aí eu já comecei a procurar banda de baile pra tocar e conheci o Hely. Por isso te falei que o negócio começa a andar rápido. O Flávio tocava em bailes com os Turbulentos. Nessa aí, o melhor baterista que eles acharam, quando faltava um, eles já chamavam, que era o Hely. O Hely tocou em tudo que é lugar, tocou em gafieira, junto com orquestra, Ponto dos Músicos, tocava de tudo. Tocava mambo, samba, twist, rock and roll, baião, tudo. O Hely tocava tudo. Nessa, eu conheci o Flávio, e logo em seguida conheci o Hely, porque fui tocar em baile. Tocava em outro conjunto, óbvio.

PESSOAS
Lô Borges e Beto Guedes

O Flávio tinha o conjunto dele, Os Turbulentos, e eu arrumei outro, o Impacto. Nessa eu já estava trabalhando na Caixa Econômica, mas já tinha o conjunto em que eu tocava. Tocava na colônia portuguesa, colônia italiana, renascença, porque na época era hora dançante, esses negócios. Então, iam as meninas todas. E era uma hora boa pra namorar, porque eu também já estava a fim de, não é? 17 anos, queria namorar. E numa dessas de a gente estar compondo música, começaram os festivais na época, que inclusive foram os responsáveis por lançar grande parte dos músicos brasileiros: Chico Buarque, Caetano, Gil, Milton, Geraldo Vandré, MPB4, Mutantes… Tudo que está aí hoje, praticamente começou nos festivais. Aqui também tinha. Um desses festivais, o Festival Estudantil, eu lembro que teve um festival maravilhoso onde é hoje o Minas Centro; onde era a Secretaria de Saúde, a gente morava do lado. Teve um festival ali que eu fui, eu e o Flávio entramos com a música e nem foi classificada, ou ficou ali entre as… Mas participou. Tinha a música “Clube da Esquina I”; “Como Vai Minha Aldeia”, do Tavinho. E no meio desse festival entra Beto Guedes e Lô, fiquei louco. Eles entraram e cantaram “Equatorial”. Eu virei pro Flávio e falei: “Putz, os caras estão compondo demais”. Entrou o Beto com chapéu, tocando baixo. Foi a primeira vez que eu vi aqueles caras. Eu fiquei assim, não acredito. Era uma música muito mais avançada, no meu entender, do que eu estava fazendo, eu e o Flávio. E a gente estava compondo bem. Eu falei pro Flávio: “Nossa, os caras estão compondo demais. Me apaixonei”. E como eu sempre fui um cara meio atirado, de chegar junto, entendeu – e talvez até por causa disso sempre tenha me dado bem como Flávio, com o Beto, com todo mundo, até com o Marcinho, que é mais semelhante comigo. Tem outros que não, por exemplo o Flávio já é mais cadenciado, mais calmo. Você se encanta com o Flávio pela doçura dele, aquele olho verde, pela musicalidade e você tem vontade de chegar perto do Flávio. O Beto é aquele carisma maluco que ele tem. Eu não, sou aquele maluco que já chego falando o que eu acho. Até uma das coisas bonitas do Clube da Esquina é isso: todo mundo ser amigo, bom de serviço, mas cada um tem seu jeito. E não ser podado nisso. Se alguma vez foi podado isso, não deu certo. Isso não vale só pra Clube da Esquina. Vale pra qualquer reunião de orquestra, de Beatles, de Mutantes, vale isso. É o companheirismo e cada um tem seu jeito. Quando eu vi o Beto e o Lô tocando naquele dia, naquele mesmo dia encontrei com a Solange tocando “Equatorial” na porta do teatro, fiquei louco ali. No dia seguinte achei o endereço do Beto lá na Fundação. Roberto Fabel passou o endereço do Beto. Ele morava na Rua Tupis, em Cesário Alvim. Cheguei lá, bati, o avô do Beto, oitenta anos, na época tinha cabelo branquinho, cheguei lá, ele: “Me dá um cigarro”. “Não tenho”. Igualzinho o Beto, o avô dele. Perguntei: “Cadê o Beto?” “Está lá dentro”. Cheguei lá uma turma de baianos, tudo lá dentro. Cheguei lá o Beto com o baixo tocando. O baixo do Beto agarrado no armário pro som sair, porque baixo desligado não sai som. E o Beto lá tocando. E o “filho da mãe” tocando uma música dele que lembro até hoje, nunca ouvi mais, a música mais linda que eu já ouvi. Perguntei o que ele estava tocando: “cara, esse negócio é do caramba, o que você estava tocando?. Beto, eu sou Zé Geraldo, Fabel que me mandou. Pois é, o Fabel falou, e eu estudo música, sabe? Gostei demais daquela música que você tocou com o Lô. Eu estava participando desse festival, conheço o Tavinho, o Sirlan. Conheço o Túlio Mourão também, mas você eu não conhecia. Gostei demais dessa música que você tocou com o Lô. Será que você pode me ensinar ela no violão?” Eu toco aqui, mas é o Lô quem toca mais isso”. “Não tem importância, não. Me ensina mais ou menos, porque eu também não sei tocar violão, não”. Ele com toda paciência me ensinou a tocar “Equatorial”. Não sei por que cargas d´água, ele percebeu que eu estava fazendo um esforço danado pra aprender “Equatorial”, porque também não sei tocar violão bem, mas eu aprendi. Sei que fiquei amigo do Beto. E também marquei o ponto dele, porque o Beto ficava o dia inteiro naquela esquina da Tupis, jogando fliperama. O dia inteiro. O Beto não queria saber de nada na vida. Só queria saber de jogar fliperama. Só que nessa comecei a fazer a cabeça dele. E nessas, eu escutei Gênesis. Escutei um dia e falei: “Putz… Esse troço é muito bom”. Eu comecei a convencer o Beto a ir na casa do Flávio. Falei que o cara canta muito bem. E quando o Beto chegou lá, nós começamos a cantar música em três vozes. O Beto cantava uma voz, o Flávio outra e eu outra. Então, eu estava aprendendo com dois caras que cantavam pra caramba. E ao mesmo tempo estava liderando, não é que liderando, mas eu tinha capacidade de coordenar os dois caras, porque o Flávio é meio tímido e o Beto também era. E eu dava um nó nos dois. Entendeu? E ao mesmo tempo eu sabia escrever as notas. Então, quando o Beto cantava uma voz e o Flávio cantava outra, a minha terceira eu já sabia mais ou menos o que era, sabia escrever. Porque na partitura eu via uma nota que estava batendo uma com outra. Eu tinha noção de partitura. E eles ficavam loucos com isso, porque não sabiam fazer isso. O Beto: “Pô, isso que você está fazendo é demais”. E eu cantava certo junto com eles. Mesmo quando meu ouvido não ia, eu sabia ler. Eu tinha mais noção de música erudita. E o Beto e o Flávio sempre gostaram, mas nunca tiveram conhecimento musical disso. Então, a gente colou e começou a dar certo na bucha. Fui eu que apliquei Gênesis no Beto e no Flávio. Eu comprei o disco e levei pra lá. Mas o Beto não gostou da primeira vez. Não pode falar isso, se não… Se ele não contou que não gostou… Mas no primeiro dia não gostou. O Beto escutou o Gênesis e falou: “Não gostei muito não”. E eu também fiquei meio na dúvida. Só que o Beto foi pra casa, jantou e voltou, não sei se no mesmo dia ou no dia seguinte e já voltou encasquetado. No segundo dia, o Beto já voltou louco, queria escutar a bateria do Phill Collins. A primeira música do Gênesis que eu escutei foi aquela “For Absent Friends”, só viola e vocal, escutei na Rádio Jornal do Brasil, Barbacena. Foi essa primeira música que eu escutei do Gênesis. Depois uma progressiva, que nós chegamos a aprender e começamos a tocar tudo. Aí nós pegamos o Nursery Cryme inteiro, porque a gente ia pro lugar onde o Flávio ensaiava e nós três começamos a tocar juntos. Eu trabalhava na Caixa de tarde, mas de manhã tinha tempo livre. O Beto ia pra casa do Flávio às sete horas da manhã e a gente ia pro lugar onde o Flávio ensaiava com o grupo dele, escondidos. Lá tinha órgão, guitarra e baixo. Eu pegava o baixo, o Beto a guitarra e o Flávio o órgão. Outra hora o Flávio pegava o violão, eu pegava o órgão e o Beto ia pro baixo. E nós ficávamos tocando tudo, até meio-dia. Meio-dia tinha que correr, pra almoçar na casa do Flávio, onde eu morava; o Beto dar linha pra casa dele, pra comer e o Flávio fazer o que ele tinha que fazer da vida, entendeu? Então o sistema da gente era o seguinte: de manhã ensaiava isso. Já tinha o Woodstock, aquele agito, aquela coisa toda; Jimi Hendrix, The Who, Rolling Stones, que a gente sempre gostou. Eu e o Beto sempre fomos encasquetados com o Rolling Stones. A gente não gostava só de Beatles, gostava de Rolling Stones, também. O resto do pessoal sempre gostou mais de Beatles, o Flávio nunca foi muito chegado em Rolling Stones, mas eu e o Beto sempre gostamos de Rolling Stones, porque tinha muito piano. “Let spend night together”. Eu adorava o Rolling Stones porque tinha teclado. Nem sempre era o cara da banda, mas originalmente o Rolling Stones tinha teclado, que era o Ian Stewart, só que o cara era velho, meio feio e eles nem punham na banda. Verdade. E a gente gostava do Rollin
g Stones. Era mais difícil, porque o pessoal gostava dos Beatles, bonitinhos, bons meninos. E o Rolling Stones eram os “filhos da mãe”. Embora que na verdade se sabe que isso era mentira, jogada de marketing. Porque o John Lennon foi muito mais “filho da mãe” que todos eles juntos. Mas aí eu saía e ia pra Caixa, morrendo de dor. Chegava o raio do Beto Guedes, lá pelas três horas da tarde, o Beto passava lá, na Rua Espírito Santo. Eu olhava e estava lá o Beto no balcão. Ou às vezes passava ele e o Flávio. Chegava o gerente e eu tinha que dar um “171” forte. Eu sempre fui bom nisso. Porque tinha que ser, a vida te faz. “Que aconteceu?” “Minha tia adoeceu e eu tenho que ir lá. Minha tia está precisando de mim, coitada. Está com 70 anos”. “Mas sua tia está muito doente mesmo, né?” “Você falou a semana passada que ela mudou” “Não. É outra. Tenho várias tias”. Tinha que dar o golpe, não é? Eu ia, pá, via o filme, largava na metade e voltava pra Caixa Econômica. Mas meu chefe não podia me pegar, porque quando ele não deixava ir, eu fazia corpo mole. Dava uma de funcionário público. Ia lá, tomava cafezinho, conversava com a outra do caixa. Sabe caixa de banco, quando sai e larga tudo. Fila pra tudo quanto é lado, pessoal começa a reclamar, gerente fica “bravo”. Quando eu chegava, batia rápido. Ia no filme, mas quando chegava batia as duplicatas tudo rápido e coisa e tal. Passou o tempo e o Beto começou a viajar com o Milton. Nesses festivais o Beto já tinha classificado “Feira Moderna”, o Milton já tinha acontecido com “Travessia”, o Lô já estava acontecendo. O Beto chamou eu e o Flávio pra ir pro Rio. Eu conheci o Milton, mas não vou contar essa história que é um pouco grande. Numa dessas repúblicas que eu morava, um cara lá era de Três Pontas e o Milton apareceu lá. Mas o dia que teve esse festival, que vi o Beto e o Lô cantando, os caras anunciaram que estava saindo um grande músico brasileiro, Milton Nascimento, que tinha acabado de classificar uma música no Festival da Canção. Eu estava do lado e ele saiu. Foi a primeira vez que eu vi o Milton.

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Festivais Estudantis

Logo em seguida, eu e o Flávio, num desses festivais universitários, que eu até coloquei esse meu irmão junto de autor, porque eu já tinha largado a faculdade e precisava ser universitário, nós entramos com a música “Espaço Branco” e classificamos e ganhamos o festival com essa música. O Beto estava com uma música, ele botou uma banda de rock pra tocar, a música chamava “Torpor”. (RISOS) O Beto vai me matar, mas “dane-se”, o Beto entrou com essa música. Colocou uma banda chamada Tardes, que tocava rock em Belo Horizonte. O Beto tem um lado roqueiro que ele não assume, mas tem. E nessa época ele não estava querendo muito, mas colocou os caras lá pra tocar. E os caras tocaram mal pra caramba. Na hora que eu saí o Beto falou: “Me ferraram, velho”. E a gente entrou com “Espaço Branco”. E O Terço que era uma banda que tinha acabado de vencer um festival do Rio, resolveu defender a música minha e do Flávio, “Espaço Branco”. E os caras chegaram aqui e já tinham vencido o festival de Juiz de Fora, que também tinha bons festivais. Eles tocavam com o Sá e Guarabyra. O Terço nessa época era o Sérgio Hinds, o Vinícius Cantuária e o Jorge Amida, que endoidou. O Vinícius Cantuária está agora nos Estados Unidos. O único que está do Terço original é o Sérgio Hinds. Eles vieram defender a música e nós ganhamos o festival. Inclusive ganhamos a passagem ida e volta pro Uruguai. Nessa época tinha esse negócio de Tupac Amaro, guerrilha, nós ganhamos a passagem e eu falei: “Vou vender essa ‘porra’, não vou lá”. Inclusive o Lô, e aí é que eu digo que o Lô é genial; eu encontrei o Lô e falei: “Pô, ganhamos uma passagem, mas tem eu e o Flávio, como que faz?” E o Lô: “É fácil. Um vai e o outro volta”. Sabe aquelas rápidas do Lô?

PESSOAS
Toninho Horta, Fernando Brant e Márcio Borges

E nesse tempo meu contato com o Clube da Esquina começou a ser rápido, sabe por quê? Porque nessa época o Toninho Horta estudava na escola e eu resolvi ter aulas de violão com o Toninho. Eu ia lá por Horto ter aula com o Toninho. Só que ele também estudava na Fundação Artística, porque o Toninho sempre foi um cara de estudar música, de gostar de estudar música, erudita, jazz, tal. O Toninho não faz distinção. O Beto nunca estudou e deu certo. Estudou do jeito dele. Só que as aulas do Toninho, não tinha. Nunca paguei aula dele. Tive aula com Toninho, nunca paguei, nem vou pagar, não. Porque ele começava, no meio da aula ele falava: “Me dá o violão que eu vou te ensinar como é mais fácil tocar”. Ele começava a tocar, se inspirava e começava a tocar. Eu vou tirar o violão da mão do Toninho? Não vou. Aí, outro dia, estava lá tocando com ele, chegava o Fernando Brant – pode colocar aí – o Brant chegou com uma letra de “Manoel, o audaz”. Toninho começou a ensaiar a letra de “Manoel, audaz”, com adaptação que o Brant fez e começou a ensaiar ali, na hora. “Se você não chega…” Ali, na hora. Eu estava tendo aula e o Fernando Brant passando pro Toninho a letra de “Manoel, o audaz”. Estou nessa, cara, estou escutando. E aí conheci o Brant. Toninho ensaiando e eu disse pro Brant: “Pô cara, você fez uma letra bonita demais”. O Lô, numa dessas idas pra Santa Tereza, pra tomar cerveja com o Lô e o Beto, me apresentaram pro tal de Marcinho Borges, que era irmão, da família. Nessas conheci o Marilton, o Yé, que estava ali pequenininho fazendo não sei o quê. Nessa o Cláudio Venturini já estava crescendo, tocando violão e eu já estava querendo sair fora.

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Clube da Esquina

A primeira vez que escutei o Clube da Esquina foi nessas idas com o Beto. Beto e Lô tinham feito um ensaio em Mar Azul, mas eu não tinha participado disso não. O Beto estava mal e mal participando. Mas um dia eu fui ao Rio com o Beto, numa dessas idas, e a gente ia não era só pra escutar música, não. Tinha também menina no meio, porque o Beto estava achando menina bonita lá. E eu estava querendo achar. Ainda mais que Belo Horizonte na época não era uma cidade, tinha um lado musical muito forte, mas nos costumes estava muito atrás do Rio e de São Paulo, principalmente do Rio. Estou falando que as coisas andavam mais rápido lá. Belo Horizonte deslanchou a 15, 20 anos atrás. Mas eu cheguei um dia lá, estava na casa do Milton em Copacabana, o Beto soltou uma gravação e foi um tapa quase tão grande como quando eu escutei Beatles. O Beto soltou “San Vicente” e “Girassol”. Aquilo foi um tapa. Porque o Beto inclusive toca baixo nas duas. O pessoal se esquece mas um dos maiores baixistas do Brasil é o Beto Guedes, tanto é que eu aprendi com ele contrabaixo. Mas na hora que eu escutei “San Vicente” e “Girassol”, eu falei: “Pelo amor de Deus. Que diabo de música é essa?”. Não é que eu não respeitava o Milton, não. Um cara que faz “Travessia” e “Morro Velho”, que pra mim é a letra perfeita do Milton. O cara sintetizou tão bem com a melodia essa coisa do branco, do negro, da escravatura; essa coisa toda bonita que tem em Minas Gerais, mas ao mesmo tempo essa desigualdade social; o Milton soltou tudo ali, não é? Mas o “San Vicente” é outra conversa. Em “San Vicente” o Fernando Brant mandou a letra lá adiante. E no “Girassol” é aquela coisa mais linda, do girassol da cor do seu cabelo. Da mulher no auge do flower power, vocal totalmente Beatles, uma melodia fantástica, de um cara de 18 anos. E o Beto mandando um vocal fantástico junto, um baixo fenomenal. Aquele piano, dum cara que nem sabe tocar piano direito, mas o Lô arregaça no piano ali, um arranjo que não sei se é do Elmir Deodato ou se é do Dori Caymmi. Aquele arranjo já passou de mão em mão. Sou até a fim de perguntar pro Dori de quem é aquele arranjo. Porque já me falaram que é do Elmir Deodato, do Dori Caymmi – eu acredito em qualquer um deles. Pela primeira vez escutei aquele arranjo que faz aquele ta-taran-tã. É vanguarda total. Eu na época estava estudando música de vanguarda com Rogério Duprat, com Valter; estudei com esse povo todo. Eu sou um cara que tem cultura musical. Não parei em banda de música, em música erudita, tradicional. Fui estudando tudo. Villa Lobos; cheguei até Rogério Duprat, que é o George Martin brasileiro, vamos dizer, que fez todos os arranjos do Caetano no Tropicalismo e o escambau. Então, quando eu escutei isso dentro da música do…, tudo num mesmo dia, em cinco minutos, sei lá que é o tempo que demora pra tocar duas músicas seguidas, numa tarde de verão do Rio de Janeiro, deitados eu e o Beto. O cara me abre o gravador, com aquele som beleza de quatro canais, aquele som virgem na época. Você escuta hoje e ainda é um som de qualidade. Os estúdios da EMI no Rio gravavam bem em dois ou em quatro canais. As gravações são muito boas. Aquele negócio me deixou louco. As portas das gravadoras se abriram pra aquele Clube da Esquina. A partir daquele dia o Lô gravou aquele “Disco do Tênis”, do qual eu participei. Não foi muito legal comercialmente, porque não sei…, estava todo mundo muito drogado. Eu mesmo nem tanto, mas o Lô…; o Marcinho também. Eu lembro que o cara da gravadora chegou um dia e falou: “Têm três dias pra acabar essa porra”. Então se você escutar bem aquele disco… Tem músicas maravilhosas ali, que está quase a voz dele meio mole. Foram três dias pra acabar, cara! Eu tocava cravo, porque sempre gostei de tocar cravo, música barroca, essa coisa que Beatles tem, mas não pensei isso por causa de Beatles, pensei por causa de mim mesmo. Só que na hora que eu descobri que Beatles e Gênesis estavam fazendo isso, melhor ainda. Então esse negócio de progressivo é conversa fiada. Progressivo, eu respeito quem está falando porque está fazendo a pergunta da maneira certa. Mas eu dou a resposta do cara do Foccus, que foi o cara que definiu melhor pra mim: “Não deve chamar de progressivo, porque é regressivo”. Porque na verdade é o que o Verdi falou no século XIX. Que é o que você faz, cara. O Bach quando aprendeu, tomou um cara da renascença, o Bach foi talvez o maior músico que teve, porque resumiu a história de mil anos atrás dele. Os filhos do Bach já estavam fazendo música mais avançada do que ele na época. Então, o que acontece? A gente quando pega…, quando os Beatles pegaram as músicas renascentistas inglesas e misturaram com rock, com o country e o diabo a quatro dos Estados Unidos, deram uma mistura na música completamente louca de nova. O Pink Floyd quando misturou aquela simplicidade de bater o violão com técnica de música de vanguarda, de música sintetizada e concreta, deu uma virada na música. O Gênesis quando misturou esses vocais, tipo Russel da Inglaterra do século XVIII, de música de igreja, canto gregoriano – que eu cantava no colégio interno – e misturou isso com o que está moderno, virou progressivo e o escambau. Você quando está fazendo uma música instrumental e mistura procedimentos do jazz, procedimentos de música erudita, seja de Wagner, de abertura de Wagner, seja de música de Debussy, igual Toninho Horta gosta, com o que você escutou de Milles Davis, de Coltrane, vira progressivo, fica rock and roll. De acordo com a apresentação que você dá pra coisa e que vira o nome.

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Fio da Navalha

Nisso aí, não deu muito certo o primeiro disco do Lô. Então, apesar disso, nós tínhamos repertório. Saiu o segundo disco do Clube da Esquina II, do Milton, do qual eu já participei, fiz alguns arranjos junto com Tavinho Moura, cantei, participei como pianista. O Flávio a mesma coisa, o Beto e o Lô. Então a gente se juntava em Belo Horizonte e “vamos fazer um Fio da Navalha”, um show de natal. A idéia foi até do Flávio. Nós demos o nome de Fio da Navalha porque é uma música do disco do Lô, desse disco. No repertório a gente tocava “Caso Você queira Saber”, que era uma música do disco do Beto, já tinha lançado também o disco do Beto, que não deu certo. Ele, Toninho Horta, Novelli, tinha até “Belo Horror”, que é uma música minha, do Beto e do Flávio – que é um instrumental progressivo que o pessoal ficou maluco; não queriam por de jeito nenhum porque a música tinha sete minutos. O Toninho, o Novelli, o Danilo Caymmi não queriam que aquela música entrasse de jeito nenhum; aquela música não tinha nada a ver com o disco, porque eles estavam puxando mais pra Bossa Nova. O pessoal da Bossa Nova era mais radical. A gente curtia o rock, curtia Bossa Nova. O pessoal da Bossa Nova não gostava de rock, não. Só gostavam de Beatles com “Yestarday”. Rolling Stones, não queriam nem ouvir falar. Não estou querendo livrar minha cara, não. Eu Flávio e Beto sempre mandamos pros dois lados. A gente curtia o rock and roll e ao mesmo tempo curtia João Gilberto, entendeu? O Milton foi sempre um cara que andou muito bem no meio. Mas tinha gente mais radical, o que eu acho que é uma coisa normal na coisa, não atrapalhou em nada. Mas nesse disco do Beto, nesse caso específico atrapalhou um pouco. Mas nós gravamos isso tudo. O Milton, a liderança dele é muito grande, essa coisa meio Miles Davis que o Milton tem, de colocar todos os estilos ali dentro funcionando, o lado rock and roll meu, do Lô, do Beto, do Flávio, junto com o lado, vamos falar, mais jazzístico do Toninho Horta, do Wagner Tiso, uma coisa mais solta do Som Imaginário, uma coisa mais percussiva do Robertinho, do Nana Vasconcelos, que é o maior percussionista do mundo. A gente começou a fazer shows por aqui. E fizemos. Eu, Flávio, Beto, Lô, Toninho Horta. Juntava, carregava piano, montava, fazia show aqui e ali. Mas chegou uma hora que aconteceu o seguinte: o Flávio foi convidado pra aquela antiga banda que eu contei, O Terço, que já tinha uma outra formação, que estava acompanhando Sá e Guarabyra, gravando no estúdio mais moderno de São Paulo, onde tocava Rogério Duprat, que tinha sido meu professor. O Flávio foi ser organista nessa banda O Terço, que tinha já lá no baixo o Magrão, que agora está no 14 Bis. O Sérgio Hinds também tocava, esse cara que cantou no Espaço Unibanco e que vocês podem conferir.

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Bendengó

Bendengó foi uma banda que aconteceu o seguinte: num desses festivais de inverno com o Rogério Duprat, com o Ailton Escobar, todo mundo, tinha uma banda baiana maravilhosa que eu gostei muito deles, Bendengó. Tinham um vocal fantástico, um disco gravado, mas não bem gravado. Eles ao vivo eram uma coisa fantástica, muito bom. Todo mundo que assistiu, não sei se vocês tiveram oportunidade de ver, mas todo mundo que viu… Era um vocal a três vozes, letras muito bem elaboradas pelo João Santana, vulgo Patins, que hoje é um cara, ele não gosta muito de que falem dele, mas por coincidência é um grande jornalista. Por coincidência estava na Argentina fazendo campanha pra vários senadores e deputados. Por acaso um cara que acompanhou a campanha de um cara chamado Luis Inácio Lula da Silva, foi o cara que fez a campanha do Lula. Ele fazia a letra, nível Caetano Veloso. Essa banda baiana, eu fui tocar com eles, o Bendengó, e logo em seguida fomos convidados pelo Caetano pra acompanhá-lo pelo Brasil. Minha passagem com eles foi essa. Aprendi muito com o Caetano, principalmente essa maneira quase jornalística, porque o Caetano tem um conhecimento quase jornalístico de tratar bem com a imprensa, tem uma mentalidade ágil. Ainda mais na época que a gente estava, com repressão militar, os caras iam direto nele. Quando saiu aquele disco dele Jóia, justamente o que eu gravei. O Jóia e o outro. O Jóia saiu com a Dedé de peito de fora e o Caetano nu. A censura caiu direto e brecou o disco. A gente tinha ido justamente fazer um show em Santo André. Justamente onde estava um buxixo do Lula, no sindicato. A gente ia fazer um show em Santo André, São Bernardo, ali no ABC Paulista. No primeiro show, foi o dia em que os caras proibiram a capa do Caetano e proibiram o show. A gente estava ensaiando o show de tarde, o Bendengó junto com o Caetano e chamei o Hely pra tocar bateria, porque o Bendengó não tinha baterista. Então, entrou um capitão do exército, aquela tropa: “Não vai ter show”. O capitão falou isso e a gente continuou tocando: “Pára. Não pode tocar que é ordem militar”. “Não, a gente já entendeu que não tem show. Desculpa, eu sou tenente R2. A gente está só tocando”. “Não, não pode tocar nada”… daqueles ignorantes. “Se for preciso tiro o revolver e te mato”. Linha dura, São Paulo era linha dura. Saímos na porta, a Folha de S.Paulo: “O que você tem a dizer?” “Nada”. Eu saí fora daquilo.

GRUPOS
14 Bis

Nessa minha com o Bendegó, que não deu; o Flávio também saiu do Terço e a gente estava a fim de montar uma banda. E a banda ia ser eu, Beto Guedes, Flávio, Zé Eduardo e Hely. Só que gravamos o disco do Beto, o primeiro disco do Beto, se você reparar bem, inclusive tem aí umas fotos, eu vou mostrar, é um disco do 14 Bis com o Beto. Inclusive a tendência de progressivo, de instrumental, de vocal, tudo que está nesse disco é muito além da carreira do Beto que está agora. É o 14 Bis com o Beto Guedes – o primeiro disco do Beto é isso. Depois entrou o Toninho e o Robertinho Silva que tocaram também, mas na verdade não estavam no original. Original éramos nós cinco. Eu, Zé Eduardo, que nem era muito conhecido, mas toca pra caramba. É um músico que um dia vão conhecer. Zé Eduardo, eu, Flávio, Beto e Hely. Tocamos com o Beto, fizemos shows pelo Brasil inteiro, mas aí o Beto saiu pra fazer um show no Projeto Pixinguinha. A Fafá de Belém era mais conhecida que ele, só podia levar os músicos dela e nós não fomos. Eu e o Flávio ficamos meio “putos” com o Beto, briga de irmão. Logo em seguida, o Milton convidou o Flávio pra fazer uma excursão com ele pra cantar uma música chamada “Nascente”, que era uma música que a gente tocava antes. O Murilo fez a letra, que inclusive chamava Ercília, areia do Mar. Eu disse: “Pô Murilo, que nome feio”. Eu sempre fui um brigador de música, sabe? Nunca gostei que a música tivesse nome feio. Às vezes a música não era minha, mas eu brigava. O Murilo pôs o nome de uma namorada dele e eu achei que a letra não tinha nada a ver com aquilo. Enchi o saco dele, até que ele mudou o nome pra “Nascente”. Graças a Deus fizeram sucesso. Com “Nascente”, o Flávio viajou e o Beto cantava não sei o quê com o Milton. Nessa aí, o Milton apresentou o Flávio pra gravadora, a Odeon, eles gostaram. Nessa época dava força, as gravadoras escutavam o que os artistas falavam. “Flávio, nós vamos fazer um disco seu”. Só que eu não estava nessa e então falei: “Flávio, vamos fazer nossa banda agora, cara”. O Flávio: “Vamos fazer”. A banda já estava montada, tinha repertório legal que a gente tinha apresentado pra gravadora. Tivemos que fazer uma manobra lá. Pedimos pro Milton dar uma força, ir lá e escutar direito. O Mariozinho Rocha, que hoje é diretor artístico, que estava ouvindo, mas ficava cheio de fita lá. O Milton pediu, o cara ouviu e apaixonou por aquela música, que não tinha nem nome. Era eu, o Flávio, o Cláudio guitarrista – que nessa época já era guitarrista pra caramba, já tinha tocado com o Lô, com todo mundo aqui em Belo Horizonte –, o Hely, que já estava comigo desde o Bendegó, já tinha tocado no disco do Beto. E montamos a banda. Já tinha “Natural”, “Perdidos em Abbey Road”, que era uma música minha e do Flávio que a gente falava sobre Beatles, e um repertório básico.

Músicas
Canção da América

O Milton, além de ser produtor – aceitou ser produtor do disco –, entrou com uma música que a gente cantava que se chamava “Unencounter”, a gente queria gravar a música em português, mas cantou ela em inglês. Eu como sou mais atirado, falei com o Milton: “A gente queria gravar essa música, mas em português”. “Ah, fala com o Brant, não tenho nem nada a ver com isso”. Eu peguei o telefone: “Ô, Brant…” Mas o Brant é teimoso: “Não, eu fiz uma letra em inglês, está muito boa, não sei se eu vou conseguir”. Eu falei: “Ó, se você não der conta, e eu acho que você dá conta, porque você escreve bem pra caramba, nós gravamos em inglês”. Passou três dias, tinha uma nova letra “Canção da América”, mexi com o orgulho dele, porque eu falei, se não der conta em português, cantamos em inglês. Lançamos o primeiro disco do 14 Bis e deu o maior pedal.

MÚSICAS
Planeta Sonho

Inclusive muitas músicas não deram tempo de fazer letra no primeiro. Uma delas é “Planeta Sonho”, que era pra ter saído no primeiro disco, mas graças a Deus não deu conta de sair no primeiro. Assim o Marcinho teve mais tempo, porque tem música, tem letra que você dá idéia pro cara, igual “Mar de Prata” – aquele disco eu fiz praticamente a letra quase toda, a sonoridade da letra – passei pro Marcinho a sonoridade, onde eu falava cidade pequena, as ruas no chão, assim, Marcinho pegou e fez. Mas “Planeta Sonho” não teve nada disso. O Flávio fez o pedaço instrumental ta, ta… Tocava o dia inteiro isso até eu perder a paciência lá em São Paulo. Eu falei: “Cara eu vou fazer uma letra em cima disso”. Normalmente eu faço o instrumental, porque sou mais ligado em orquestração, mas nessa não, fiz a melodia toda. Aí o Flávio pegou, e ele é muito bom melodista, me seguiu na melodia. Eu consegui usar minhas técnicas de música erudita, peguei aquele negócio que repete toda hora no “Planeta Sonho”, coloquei no começo, no meio e no fim, tempo inteiro. Acho que meu conhecimento de música erudita me ajuda muito, porque eu tenho uma noção muito boa de fazer essas coisas, junto com o lado popular. Porque a gente aprendeu. Quando eu digo de aprender música, tanto o Flávio, como o Beto, o Magrão, ou o Cláudio, não necessariamente é ir lá e aprender partitura. É você ir lá e aprender, por exemplo, como Paul MacCartney, ou John Lennon jogam uma canção e faz virar um sucesso, aquilo é um estudo de música, entendeu? Por causa disso que um cara como o Beto, que é um cara que tinha um pai que sabia ler partitura, como eu tive, nunca aprendeu a ler partitura. E quando quis, eu disse: “Você não vai aprender com qualquer um, não. Não aprendeu com seu pai, não era pra aprender”. Mas eu aprendi, entendeu? Eu acho que conhecimento como eu disse, que é a grande coisa que eu acho do Clube da Esquina, é essa amizade entre as pessoas e essa possibilidade de todo mundo ter seu estilo e contribuir com o todo.

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Fredera, Sá/Ohio

O Fredera é um cara que sabe, tem cultura. O Fredera é daqueles caras que, sei lá, cada um tem seu jeito. É uma das grandes coisas pra colocar depois, do Clube, que cada um tem seu jeito. Mas, tem algumas pessoas que, não sei por que, se estudaram mais, ou são mais ligadas, tipo Marcinho, eu, o Fredera, e mais alguns outros. São pessoas que lêem, gostam de ler jornal, de discutir literatura, entendeu? São ligados. E o Fredera é um daqueles caras que você senta com ele e você conversa, sei lá, sobre Nietzsche, sobre Einstein, ele vai. É um papo pra conversar, por exemplo, com o Lô, com o Beto complica um tiquinho. Com o Flávio… Nada a ver, o cara não precisa conhecer isso. Não diminui em nada o lado musical. O Sá tem uma cultura legal. O Guarabyra é um pouco menor. O Sá é culto pra caramba, fala inglês pra caramba. Quando a gente pegou, fez aquela música do Neil Young, “Ohio”, uma música que o 14 Bis regravou, que fala de uma revolta dos estudantes que teve lá na época do Reagan ou do Nixon, e não sei o quê, a polícia americana entrou, como no Brasil, na época da revolta estudantil com os militares, entrou lá e matou estudante. Só que uma coisa é o cara entrar numa universidade no Brasil e matar estudante, porque no Brasil, na época dos militares era comum. Cara matava, sumia com o neguinho, torturava e tudo bem, estava valendo. Agora, nos Estados Unidos não é bem assim. Lá é um país que eles matam gente de fora. Vão no Iraque, no Vietnã, e lá eles matam os outros. Agora lá dentro, se matar um deles, eles não vão gostar. Então o que aconteceu? Começou revolta pra caramba. Os estudantes começaram a enfrentar a polícia, entendeu? Aí o Neil Young fez uma letra maravilhosa. E a gente queria gravar essa música e o Sá fez uma letra. Chama “Os Donos do Mundo”. “Os donos do nosso mundo, que tudo desejam ter. Mudando o nosso destino, sem que a gente possa ver…” E por aí vai a letra. Que aconteceu? Pra ser aprovada a letra tinha que mandar lá pros Estados Unidos, pro Neil Young aprovar. Tinha que ir uma explicação de quem era a banda, como era a letra que o Sá fez, como era a tradução pro inglês, porque se não, o cara não ia entender, e o porquê a gente estava fazendo a letra daquele jeito. Não ia falar dos mortos da Universidade de Ohio que aqui no Brasil ninguém ia entender. Falou “Os Donos do Mundo” e o Neil Young liberou, na primeira vez. Liberou a música, mas não sei por que nós não gravamos a música. Aí, ano passado… A segunda vez que a gente foi gravar a música, eu acho que o Neil Young tinha mudado de editora, ou não estava bem da cabeça e não aprovou. Pedimos pra gravar e não rolou. Eu acho que ele estava meio puto da vida, sabe, ou está ficando velho; está tocando com Ramones. Sabe o que me deu vontade? Se eu soubesse inglês igual o Sá, eu escrevia uma carta pra ele: “Ó Young, na boa. Nós escrevemos uma letra sobre os donos do mundo, o Bush, e você está se comportando também como os donos do mundo. Está muito prepotente com essa história. Nós estamos querendo por uma letra bonita numa música sua, que você aprovou e agora não está aprovando. Está parecendo o Bush, cara. Para com esse negócio. Aqui não é quintal seu, não. Nós gostamos de você, temos respeito. A música é boa, temos uma banda com 26 anos de carreira, só sucessos. E estamos querendo colocar uma letra aqui. Se você não entende português, não estamos pedindo pra você entender. Lê a letra aí. Se você aprovou uma vez, por que não está aprovando agora?” Depois, quer saber? Não quero mais essa música porra nenhuma!

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Clube da Esquina

Eu acho essa idéia muito fantástica, por causa disso. É essa coisa fantástica de mostrar esse monte de gente, que cada um por si só tem uma carreira completamente, ou seja, cada um funciona muito bem sozinho, vamos citar alguns tipo o Milton Nascimento, Toninho Horta, Tavinho Moura, Lô Borges, Flávio Venturini, eu, Vermelho, pessoal do Som Imaginário, Robertinho, Tiso, Nana. Esse pessoal junto, de repente faz alguma coisa, uma hora mais jazzística, outra hora mais pop, outra uma coisa mais loucona, outra mais mineira, outra mais rock e tudo da certo. E essa história é toda misturada com o que foi o Brasil, do que nós seguramos de barra no regime militar, dos amores, das loucuras, das drogas que já dependemos e não dependemos mais. E os que ficaram pra trás conseguiram sobreviver. Eu acho muito bom. O 14 Bis está lançando seu DVD agora; 26 anos de carreira e acho que grande parte dele está muito misturado com a história do Clube da Esquina, como está misturado com a história do rock mineiro, do progressivo, do erudito, com a carreira solo do Flávio, a carreira solo do Beto, como também da moçada nova do Skank, do Jota Quest, que de repente canta no DVD da gente. Toda geração nova mineira, como a gente estava falando da filha do Fredera, que era do Sonho Imaginário, que tinha a ver com o Clube da Esquina. A mistura disso tudo é que dá esperança pra gente de que o planeta em que a gente vive, inclusive esse é o ano do planeta Terra, o Planeta Sonho e o planeta Terra serem a mesma coisa, sabe? A gente, através da música, do exemplo, dessa coisa bonita que a gente vem fazendo, contribuir da nossa maneira pra tornar as pessoas felizes. É o que a gente quer.

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Uma mensagem para Vermelho

  1. Adriano disse:

    É de mais! Sinceramente não consigo expressar nenhum tipo de sentimento ao ouvir essa e muitas outras dessa galera toda: Claudio, Flavio, Beto, Vermelho, Lô…

    O Brasil está carente de poesias como essa, está carente de músicos como esses. Até lá somos obrigados a conviver com os "lixos musicais"

    Adriano , 28 anos.