Yé Borges

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, local e data de nascimento

O meu nome é uma coisa divertida, inclusive porque o meu nome é Marcos Milton Fragoso Borges, nasci numa sexta-feira 13 de carnaval de fevereiro de 53, mas eu só fui saber que chamava Marcos na escola – quando o meu nome pintou na chamada, porque eu sempre fui chamado de Yé. Então, na escola que eu soube que tinha um outro nome, um “apelido” que era Marcos. O “Yé” é desde pequeno, não sei, parece que eles ficavam brincando… Eu iria chamar José porque nasci um pouquinho depois que meu avô tinha falecido, que se chamava José. Mas depois mudaram, não colocaram José e acho que se arrependeram, e ficou Yé. Mais ou menos, por aí.

FAMÍLIA
Pais

Olha, eu tenho orgulho de ter nascido na família em que eu nasci. O meu pai é Salomão Magalhães Borges e minha mãe Dona Maricota, Maria Fragoso Borges. Foram pais que eu tenho lembranças maravilhosas. Da minha mãe que morreu; o meu pai que continua vivo; mas, da minha infância eu lembro de pouca coisa, eu tive problema de… como é que chama? Paralisia infantil! Então, custei para andar pra caramba. Eu fui andar com três anos. Desta época eu não me lembro muito, mas lembro depois de muito… Tive uma infância legal com o meu pai e com minha mãe e com o Lô – que é um ano mais velho que eu e que era o meu companheiro, foi meu companheiro a vida, na adolescência inteira, a gente estava sempre junto.

FAMÍLIA
Cotidiano

Na minha casa era muita gente, onze irmãos, onze filhos, não é? Eu com dez irmãos! Então era muito bom, mas a gente tinha… A vantagem de ter muito irmão é que você não fica muito centralizado, porque quando você tem família pequena a atenção fica muito pra você. Então, 11 filhos, você tinha… dava para você fazer as suas traquinagens sem ter muita… É lógico, porque 11, para poder ficar olhando era complicado, mas era muito bom, eu tenho, eu lembro que… Tem umas coisas engraçadas. No quarto dos homens, dormiam… Eram dois beliches, então eu dormia geralmente em cima e o Marcinho embaixo. Um dia parece que eu tomei umas para mais e eu dormi embaixo. Nem sei se eu tinha tomado, mas eu dormi embaixo e o pessoal ia me acordar com a vara para jogar futebol muito cedo no domingo. Eles me cutucavam com uma vara, já sabiam que eu dormia em cima, e o Marcinho neste dia dormiu em cima, sô, o Marcinho acordou espaventado com a rapaziada que tinha ido lá me acordar. Mas, então, era legal porque o quarto dos homens era uma democracia, era muita gente em um quarto pequeno. Nos beliches, era uma conversa muito legal, acho que a união da minha família tem muito a ver com isso, porque era mais ou menos um por todos e todos por um, porque fomos criados muito próximos, inclusive geograficamente, um em cima do outro.

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Santa Tereza

Eu fui o primeiro a nascer na casa da Rua Divinópolis, em Santa Tereza. Nasci no quarto que, hoje, Solange a minha irmã dorme, mas era o quarto que eu vivi muito tempo na minha vida. Inclusive, logo quando eu casei, ainda morei, casado, neste quarto, até ir para a minha casa. Então era muito bom, era muito bom a convivência com todo mundo. Um que eu lembro ter nascido, foi o Nico meu irmão mais novo. Mas naquela casa tinha um quintal bacana. Tinha uma goiabeira, um abacateiro e a gente curtia para caramba. Subia no abacateiro, tinha o meu cavalo lá na goiabeira, então é a casa que está lá até hoje. Eu me lembro da gente descendo de tábua, passava sebo na tábua e descia naquelas ruas de calçamento, paralelepípedo, não é? Descia ali, então, e com os irmãos, foi uma convivência legal. Ter nascido nesta família muito grande para mim foi muito importante, foi muito bom.

FORMAÇÃO MUSICAL
Músicas que ouvia

Na minha casa era muito legal porque a gente gostava de ficar escutando. Eu e Lô, ficava vendo o Marilton com o Bituca tocar lá no edifício Levy – que foi quando a música realmente entrou dentro da nossa casa. Aí a gente ficava escutando muito o pessoal tocando, e gostava; música a gente sempre gostou muito. Mesmo no princípio, quando a gente era pequeno em Santa Tereza, a minha mãe gostava muito de cantar e eu gostava de ficar ouvindo a minha mãe cantando. A convivência com eles era legal, não tinha nada de extraordinário, mas era bom, eu gostava de ouvir, e o pessoal tinha muito bom gosto. Foi uma época que estava acontecendo uma revolução na música, a Bossa Nova. Era uma coisa nova, então isso atraía muito a gente, a audição da gente, lógico.

FORMAÇÃO MUSICAL
Músicas que ouvia

Teve um tempo que eu e Lô fomos estudar música com uma professora. Como é que se chamava a Dona mesmo? Eu cheguei a ter aulas de piano – eu e o Lô –, mas era um negócio meio sacal porque no meio, a professora ficava lá na cozinha: “A mão direita está errada!”, “Mão esquerda errada!”, e no meio da aula, assim, de uma hora para outra ela parava e começava a dar aula de religião. Aula de religião, eu meio que cortava um pouco naquela época, não estava tão ligado… Poxa, como é que chama? Não lembro mais não, talvez o Lô lembre. Nossa, a minha memória é uma coisa meio triste. Mas não me lembro onde era não. Eu sei que era no centro, a gente morava no centro e não era em Santa Tereza, não. Era ali para o lado dos Funcionários, que era a professora. Eu lembro até da carinha dela, mas do nome…

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Brincadeiras de criança

E aí a gente começou a escutar Beatles, porque era a maior novidade, não começamos a escutar Beatles assim não, foi através do “A hard days night” que lançou no Brasil. O Bituca assistiu, e no outro dia levou eu e o Lô. Acho que o Marcinho foi com a gente e fomos assistir, e foi aquele negócio, foi tipo um tapa mesmo, foi tipo viciando na hora. Eu tinha 12 anos. E aí nós levamos o Beto no outro dia, porque o Beto morava lá no centro também. Nós tínhamos uma turma legal na Tupis com a São Paulo. Era uma turma grande de adolescentes que rodava o centro inteiro. A gente entrava em vários cinemas ali sem pagar porque a gente tinha entradas estratégias, passava pelo forro. Entrava pelo prédio do lado, passava pelo forro, descia. Tinha umas que você tinha… na hora que a sessão acabava a gente entrava de costa. O pessoal saindo e a gente entrando de costas no cinema, então a gente tinha os macetes. É coisa de menino, eu, o Lô, o Beto, o Fred, uma turma grande, Napola, Lê, Grilo, e a gente entrava. Teve uma vez que, no Cine Tamoios – na Tamoios quase com a Amazonas, aí tinha um cinema legal. Então, quando o filme era impróprio para a gente, a gente assistia do forro e quando a gente era liberado, porque a gente era menino, a gente descia por uma escada e entrava num banheiro dos homens e ia assistir. Aí, teve uma vez que a gente chegou para descer as escadas… O filme era legal, todo mundo, aquela turma em cima do telhado, e tinha um gordinho que estava por último, mas na hora que foi para a gente abrir a porta – o cara do cinema já tinha sacado que nós estávamos lá –, ele abriu a porta e todo mundo voltou correndo. Esse amigo meu, esse gordinho, ele estava lá por último, ele ficou. Na hora de correr furou uma telha e tinha uma loja embaixo que chamava Leão das Louças. Ele caiu em cima de uma prateleira de louça. Foi para o pronto-socorro (RISOS), foi um caos. Mas era desse tempo de 12 anos, morar no centro naquele tempo era muito divertido, a gente nadava no Instituto de Educação. Teve um lance de uma vez, eu, o Lô, o Beto, essa turma toda, a gente ia numa casa onde é o Shopping Cidade, ali na Rua São Paulo, onde é o EPA, ali mais ou menos. Tinha uma casa com piscina, uma mansão e do lado tinha um terreno baldio que a gente fazia olimpíadas. E uma vez a gente entrou para nadar nesta casa. A gente pulava o muro, entrava pelo fundo, pulava o muro e nadava, aí o vigia chegou e pegou a roupa do Beto que deu bobeira e o Beto pelado (RISOS), pedindo para o cara a roupa, chorando, tudo menino. O cara depois entregou a roupa.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação Musical: The Beavers

Depois disso, começamos a fazer o primeiro coover que foi o The Beavers. E a gente tocava, tinha um programa que chamava Petilândia – que era de jovens talentos na televisão, um programa para criança mesmo – seria a Xuxa da TV Itacolomi. A gente tocava em desfile que tinha no Peps. Nós tínhamos um empresário que era o Isaias Lance. Foi a primeira vez que a gente ganhou alguma coisa. Também, com 12 anos, nunca tinha trabalhado e ganhava uma graninha, uma mixaria, o empresário repassava para a gente alguma coisa e era uma satisfação. Era bom demais, nós tocamos em vários programas de rádio que tinha na época, em televisão. E depois depois fui ser garoto propaganda na TV Itacolomi, num programa do Moacyr Franco. O programa era ao vivo, o maior barato, um programa do Moacyr Franco. O programa não era aqui em Belo horizonte, não sei, não lembro. Eu sei que a propaganda não tinha negócio de videotape, não, era feito na hora. Então, no dia do programa eu tinha que ir para a televisão, lá no Edifício Acaiaca, e gravava e fazia a interpretação. Eu era filho de um casal e fazia interpretação na hora ali, ao vivo, a propaganda era feita assim na hora, o maior barato!
Meus pais, D. Maricota e S. Salomão, eram muito tranqüilos. Porque a gente via muitos pais assim, duro – também porque nessa época era tudo diferente, era tudo muito diferente –, então os pais eram mais rígidos com o novo. E o meu pai e minha mãe não. Aquele tanto de filho para eles controlarem, era muito difícil, então, eles exerciam a vigilância, mas, era assim, para olhar os 11, eles facilitavam um pouco para todo mundo – o que eu falei no princípio. Na música também. Eles liberaram, achavam legal, sempre apoiaram, não tinham nenhuma coisa contra.

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Lô Borges

Eu sou um ano mais novo que o Lô. A gente fazia tudo junto, mas quando ele saiu pra música mesmo eu não fui atrás não. O Lô foi porque é um cara que tem um talento enorme. O Lô é talentosíssimo, isso vem dele. E eu gostava de música, mas nunca tive a ambição de virar um artista, gostava de tocar, mas não tinha… E o Lô continuou porque o Lô tinha muito mais talento. A verdade é essa. Ele foi e começou a fazer música. Eu não estava a fim de fazer música, eu gostava de escutar e de repetir o que estava tocando, mas não estava muito ligado. E o Lô foi e começou a levar a música à sério mesmo, e eu não estava muito a fim nesta época de levar nada a sério, nada.

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Movimento Hippie

Então nessa época eu parei de estudar. Eu estava…, eu virei um hippie, quer ver: eu ia para Salvador de carona, voltava, estudava ainda, antes de parar de estudar. Mas nas férias eu ia para Salvador de carona, ficava lá em Arembepe, com os hippies de tudo quando é parte do mundo, e voltava. Lá, nesses festivais que tinha na época. Na época a gente, voltando de Salvador, tinha um festival em Pedra Azul, terra do Paulinho, e a hippaiada lá em Salvador ficou sabendo e: “Ah, tem um festival!”. Aí desceu todos os hippies de Salvador para Pedra Azul. Aí nós chegamos em Pedra Azul, poxa o prefeito arrumou um parque de exposição para a gente acampar, aí nós fomos para o parque de exposição tudo bem estruturado, tinha lugar para fazer rango, tinha tudo. Mas tinha uns mais malucos. Chegou à noite, os caras mataram um porco de exposição e fizeram um churrasco. No outro dia de manhã, na manhã cedinho – eu era difícil de acordar, agora eu acordo super cedo – os caras tentando me acordar falando que a polícia esteve lá tentando mandar todo mundo embora, mas o policial desistiu de me acordar. A hora que eu acordei – mais tarde conseguiram me acordar – eles colocaram todo mundo nesse caminhão de boi, de gado mesmo, a hippaiada toda, foram uns três quatro caminhões cheios de hippie, e colocaram na beira da Rio-Bahia, para cada um caçar, porque, pô, os caras tinham dado a maior colher de chá e um doidão lá matou o porco.

FORMAÇÃO MUSICAL
Shows

Então o Lô começou a levar mais a sério esse negócio de música, e eu estava mais por conta do Sexo, Droga e Rock-n’-roll – mais sexo e droga do que Rock-n’-roll, inclusive. Aí eu fiquei muito tempo curtindo. Eu gostava de tocar, ia para esses lugares, tocava violão. Eu tocava com um pessoal e um cara que era mecânico, o Gessi. Ele foi tocar no Serra Verde, no festival do Serra Verde e eu toquei no mesmo palco que tocou os Mutantes, olha só, para você ver, e o Mutantes e os Novos Baianos, e eu lembro lá nos bastidores, na hora que terminou o show dos Mutantes, eu já tinha tocado, aí eu continuei lá para ver o pessoal que era os feras daquela época. Na hora que terminou o show dos Mutantes, o maior barato, Arnaldo Batista, Rita Lee, e aquele monte de gente, aquelas bacias, naquela época tinham aquelas bacias com gelo seco, não é? Saindo aquela fumaçada. A hora que terminou, demorou para terminar, e o Pepeu Gomes puto da vida: “Pô, essa missa não vai acabar?” (RISOS). Na hora que acabou, que o pessoal dos Mutantes saiu, o Pepeu saiu: “Tira essa bosta daqui!”, o gelo seco. Então nesse palco eu toquei, mas nunca levei a sério. Eu tocava, as pessoas: “Vamos lá, tem que tocar!” Aí tocava, mas não… Eu comecei a gostar mais de compor, não de levar à sério, mas de pegar o violão e compor, tem pouco tempo. Depois do disco dos Borges, porque até o disco dos Borges eu tinha feito duas músicas.

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Os Borges

A idéia do disco dos Borges foi da mulher do Marcinho na época, a Duca, que cismou, falou que a gente tinha talento e correu atrás disso e fez. Eu na época nem morava em Belo Horizonte, eu morava em São Paulo. Eu tinha um trabalho, era casado, tinha dois filhos e morava em São Paulo, trabalhava na Coopersucar, em São Paulo, e estava lá trabalhando e chegaram com essa idéia: “Vamos lá fazer o disco dos Borges”, e eu: “Beleza!”. Eu tinha poucas coisas compostas, porque nessa época eu nem tinha violão, eu tocava assim, muito pouco.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

Eu comecei a gostar mais de tocar e de compor deve ter dez anos, por aí, que eu comecei a compor mais. Mas componho para o meu deleite, por uma necessidade minha de estar fazendo uma coisa que eu quero ouvir, que vai fazer bem para o meu ouvido, mas que saia de mim mesmo. Então mais por isso, sem nenhuma obrigação, eu não mostro para ninguém, às vezes os meninos lá da minha casa que escutam, então… Às vezes nem eles que escutam, eu que escuto. Componho para mim mesmo, mas pelo menos eu tenho tido prazer nisso. Algumas coisas a Solange faz letra para mim, a minha irmã. É, muito, agora eu tenho… Engraçado, não é? Agora estou mais tranqüilo. Na época eu era muito doidão, muito mesmo. Eu tive problemas sérios com drogas, de usar muito mesmo. Eu era muito doido, então eu não tinha muito tempo para isso não. Agora que eu estou muito mais centrado, muito mais tranqüilo, aí eu curto. É, naquela época eu escutava mais, inclusive. Porque naquela época eu acho que não tinha muito interesse. Agora escuto menos e tenho mais interesse de escutar o que estou produzindo.
Eu penso em lançar essas coisas novas, e devo fazer isso. Fazer um CD com as músicas que eu fiz; colocar a letra com algumas pessoas e fazer. Porque tem algumas coisas que são agradáveis, com muita autocrítica mesmo, eu acho que tem umas coisas que são ruins. Agora tem umas coisas que são legais, que eu escuto e depois eu mostro para algumas pessoas, “Isso é legal mesmo!”. Têm outras que eu nem mostro porque: “Isso não, isso está muito ruim, eu vou deixar!”, mas às vezes eu curto de ouvir mesmo o que eu acho que não está muito legal, eu toco também.

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Movimento

Quando essas coisas começaram a ter uma efervescência que ia acontecer, eu lembro disso, e eu acho legal porque lá em casa é um movimento constante. Porque depois que nós viemos do centro o pessoal que tinha freqüentado o apartamento do centro voltou com a gente, veio para Santa Tereza, onde ficamos. Então eu lembro de lá em casa ter freqüentado… Eu lembro do Naná Vasconcelos acordando. A primeira vez que eu vi o Naná Vasconcelos eu acordei de manhã cedo, cabeludo e eu levantei assim e: “Quem é esse caboclo aí? Cara com uma pinta mais doida do que eu!”, e ele assim: “Oh, Basquete!”, porque eu era magérrimo e alto e ele me apelidou logo de basquete: “Oh, Basquete!” e eu falei: “Opa!” Estava começando a produção, mas foi, eu vi acontecendo. Lembro quando foi feito lá a música do Clube da Esquina que era um lugar que a gente gostava muito de ficar em Santa Tereza tocando violão. Às vezes não estava nem tocando violão, estava sempre ali sentado onde a rapaziada se reunia para fazer um som, tomar um vinho, fazer um churrasco, fazer uma fogueirinha no frio, botar umas batatas-doce para assar, ficar lá para bater papo. Às vezes passava a noite ali batendo papo. E o pessoal da música, o Milton, o Lô, tiveram essa participação ali também. E o Bituca era um cara que bebia nessa época, e eu também, então a gente tomava tudo junto. Eu lembro do Naná Vasconcelos, ele tomava uma garrafa de pitu com o berimbau dele, ele acordava muito cedo, eu falava: “Como é que esse cara acorda tão cedo?”, ele acordava cedo e tocava o berimbau dele tomando pitu, até o meio dia ele tinha detonado a garrafa dele de pitu. Uma garrafa de pitu não é qualquer um que toma assim impunemente não. E eu me lembro quando eu fui casar, em 73, meu primeiro casamento. O Bituca foi o meu padrinho, eu convidei o Bituca para ser o meu padrinho e era o Bituca, não era nem Milton Nascimento, só Bituca. Ele era uma pessoa que andava lá, uma pessoa que circulava lá em Santa Tereza e que ninguém dava bola, e eu falei: “Não, você vai ser o meu padrinho de casamento!”. Aí, foi eu e minha primeira mulher e ele, lá no boteco do Terim tomar cachaça, tomamos todas e ele falou: “Não, eu vou casar com vocês também!” Falou que já ia fazer parte do casamento: “Eu vou casar também. Desse casamento eu não quero ser só padrinho, quero casar com vocês!”, foi uma coisa fantástica. E tomamos todas lá e depois, lógico que ele não casou com a gente, mas depois foi. A madrinha eu não sei o que aconteceu, um acidente, alguma coisa com ela e ela não pode ir. Acabou que ele ficou, nós tínhamos que arranjar uma madrinha de última hora porque aquela passou mal, teve alguma coisa séria com ela, mas foi legal. Esse tempo era um tempo tranqüilo porque era uma coisa nova. O disco do Bituca, esse Clube da Esquina, foi a partir desse disco que teve uma notoriedade mesmo o trabalho do Milton e que lançou o Lô. Aí o Lô levou o Beto, levou a turma toda junto, porque era uma turma que fazia música descompromissadamente. Não tinha, e aí passava a ter um compromisso maior. E é uma música de muita qualidade. Para você ver, o Pat Metheny veio para Belo Horizonte. Esteve lá, infelizmente eu não estava em casa, foi lá na casa do meu pai, foi lá na esquina para conhecer. Isso acontece, muitas pessoas às vezes vêm de longe, vãs de japonesinhos lá em Santa Tereza porque eles querem ver onde é o Clube da Esquina porque eles acham que vai ter alguma coisa maior, não, é uma esquina. Eu até conversei com o pessoal da prefeitura que, para fazer alguma coisa ali naquele espaço. Porque vem gente de longe para conhecer e não tem nada. Tem um projeto que depois, não está aqui comigo, vou mostrar para vocês. Tem um projeto legal de revitalização daquela esquina. Eu acho que a gente consegu emplacar, a gente tem feito alguns esforços junto com a prefeitura para isso, porque precisa, não é? Porque as pessoas vêm de tão longe e chegam ali e elas… não têm nada, é uma esquina. Tem lá agora só a placa do museu e tem a letra da música. A prefeitura, inclusive, já fez um projeto paisagístico e tem uma interferência legal que eu acredito que não deva demorar a sair não. Eu acho que vai ser legal para a cidade de Belo Horizonte, eu acho que é bom. A gente é carente de turismo em Belo Horizonte, então… Para você ver, se fosse na Bahia, isso já estava com o Olodum em cima há muito tempo. Aqui a gente é meio montanhês, nós somos meio montanheses e ficamos mais reservados e isso atrapalha um pouco.

DISCOS
Clube da Esquina

Eu não tive nenhuma participação na gravação nem na produção desse disco. Eu tive notícia, porque eu estava mais ligado com a turma que a gente tinha aqui em Belo Horizonte. Gostava de tocar também, mas não, eu não fui, não cheguei a ir, mas tive notícia dessa casa de Mar Azul, das coisas que aconteciam lá. O Lô sempre me contava o que estava acontecendo, mas eu não cheguei a ir não.
Mas a primeira vez que eu ouvi o disco foi fantástico. O disco é muito bom. O disco é uma coisa antológica mesmo, você escuta e é atemporal, qualquer época ele está sempre uma coisa nova. Eu acho que foi uma das coisas, um dos melhores álbuns que já saíram, esse do Clube da Esquina; como saiu também, tem um álbum dos Novos Baianos que eu falei agorinha mesmo, o Acabou Chorare, que é uma coisa fantástica! É outra coisa também do mesmo nível, porque é uma coisa que não tem, que não perde nunca, os caras estavam iluminados demais para fazer aquilo naquela época. E acho que tudo conspirava mesmo naquela época, não é? Porque você vê, o Acabou Chorare é mais ou menos do mesmo tempo, um pouco depois, mas acho que o tempo mesmo, o final da revolução, a revolução acabando, as pessoas estavam com a mudança mesmo do planeta. Eu acho que aquilo ali conspirou e ajudou.

CLUBE DA ESQUINA
Avaliação

O Clube da Esquina tem um papel de muita importância na MPB. Em vários setores, tem importância na parte da música, nem só da música. Tem um grande violonista , um grande compositor que se chama João Alexandre. Ele é evangélico protestante como eu. O cara é fera, toca um violão fantástico. As pessoas que… ele ficou sabendo que eu era irmão do Lô: “Poxa, eu cresci ouvindo Clube da Esquina!”, falou. Teve com o Telo também, então, as pessoas, todo mundo que, e hoje vários pais aplicam esse disco, porque é uma informação importante da pessoa ter. Quem gosta de música, ouvir isso é importante. Eu acho que o Clube da Esquina foi muito importante para a música do Brasil. Até mesmo lá fora, como eu citei antes, o Pat Metheny vem de longe mesmo. Veio e fez questão de vir para Belo Horizonte na casa do meu pai, para conhecer de onde saiu aquelas músicas. Porque o pessoal acha – eles não têm uma noção exata – que saia tudo ali, daquela esquininha, porque era um clube, onde que esse pessoal se encontra. Então eu acho que não é só realmente no âmbito nacional não, é importante em qualquer lugar do mundo de pessoas que estejam ligadas. Você fala de Clube da Esquina, as pessoas sabem que é um movimento que teve em Minas Gerais, que teve em Belo Horizonte, elas conseguem situar isso. Virou ponto de referência e é uma referência mesmo. Se você pegar hoje o disco do Clube da Esquina, tanto o um quanto o dois, o um é onde começou tudo. Se você escutar hoje: “Esse negócio é bom demais!” Você vê que o negócio não é uma coisa que foi rápida, não, é uma coisa que você ouve hoje, ela é atual. A boa música é atemporal a qualquer hora que você escute.

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Experiência religiosa

Eu gostaria de falar da minha experiência com Cristo, que é uma coisa fantástica, não é? Acho que eu, depois de ter quase morrido com drogas e de tudo. E eu não parei por mim, foi pela mão de Deus que parei realmente. Parei com as drogas, parei de beber – eu parei de beber tem onze anos –, mas com droga mesmo, foi a mão de Deus é que falou: “Esse aí eu não vou deixar!” Porque eu estive para morrer várias vezes, eu não tinha a ver, não tinha nada, eu tomava picada, mas Deus com a sua infinita bondade disse: “Não, esse aqui eu vou segurar um pouquinho porque ele ainda vai me dar fruto, está muito ruim, mas daqui a pouco vai me dar qualquer tipo de fruto!”, e foi verdade, não é? Passou um tempo, aí eu parei e estava sentindo a vida assim, super beleza, estava satisfeito, parado. Mas aí veio o toque mesmo de escutar. Eu morava perto da Igreja Metodista e lá as músicas são fantásticas, cada música linda mesmo. Eu escutava aquilo e aquilo foi me tocando – a música, para variar a música não é? A música começou a me tocar um dia. O pastor é vizinho da casa do meu pai lá, aí foi a bodas do pastor e ele chamou a gente para ir pra igreja. Chamou meu pai, minha mãe também. Eu fui e não parei mais porque: primeiro pela música e hoje, inclusive, eu toco na igreja. Toco lá com o pessoal e o pessoal, puxa, curte, todo mundo curte também O Clube da Esquina, para você ver. O pastor, todo mundo. Então, isso é uma coisa, falar do dom divino com a vida de todo mundo. Porque às vezes a gente não percebe, para estar aqui agora, quantas coisas Deus já nos livrou do caminho para chegarmos até aqui. E a gente não dá muita atenção para isso não. Porque a gente não está acostumado a dar esta atenção, mas de vez em quando é bom lembrar que a gente está aqui hoje, Deus… para você chegar aqui hoje – você vindo aqui da sua casa, até hoje –, Deus pode ter te livrado de muitas sem você saber. Os acidentes estão acontecendo toda hora, então é só isso.

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Clube da Esquina

Eu acho legal essa iniciativa do Museu, eu fiquei honrado de estar aqui, ter participado tão minimamente, mas estar aqui. Eu acho legal. A iniciativa é boa porque isso vai contar a história de um tempo. Isso é história, isso tem que ficar gravado. Nós não podemos perder a referência da história, porque isso retrata todo um tempo que a gente viveu e eu acho da maior importância, porque isso daqui, eu me sinto um pouco mais velho, museu? (RISOS), é lógico que eu não sou nenhum garoto, se bem que o espírito não envelhece. Pô eu sempre me acho aquele cara de 73, me acho até hoje, mas na hora que você olha a barrigona você fala: “Poxa, já não sou aquele!”, mas eu acho importante que isso tenha esse tratamento de estar recebendo, de guardar esse acervo, essa história. No futuro, as pessoas terem esse acesso de contar essa história, como foi essa época que eu acho umA época fantástica.

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