Yuri Popoff

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

Meu nome é Yuri Menezes Popoff. Eu nasci no dia 18 de julho de 1951, numa cidade chamada Espinosa. Fiquei nessa cidade por dez dias, depois morei um ano em Belo Horizonte e aí fui pra Montes Claros. E desde um ano de idade eu vivo em Montes Claros. Então, eu costumo dizer: “Eu nasci em Espinosa, mas eu sou de Montes Claros”. Na verdade, toda minha referência cultural e toda referência que eu tenho como gente, todos os afetos e todos os encontros. Dez dias é muito pouco naturalmente; eu fui parido, nascido lá em Montes Claros. Eu nasci mesmo em Espinosa, mas foi só onde foi expelido o ser, e a partir daí, enfim, todo o referencial é de Montes Claros, no Norte de Minas. Quer dizer, Espinosa, Montes Claros é tudo mais ou menos, não é tão próximo, mas é bem ao Norte de Minas.

Família
Nome e origem dos pais e avós

Meu pai nasceu na Ucrânia, em Kharkov, com a família até bem abastada, moravam muito bem, viviam bem. Com a Revolução de 1917 – se eu não me engano – a Revolução Comunista, eles tiveram que sair do país. Porque, enfim, não tinha condições de ficar lá, eu acho que pela condição social. Enfim, alguém queria ficar, outros sair. Eles eram dos que queriam sair porque não estava dando certo. Meu pai saiu jovem e foram morar um tempo na Bulgária. Da família restou o meu pai e uma irmã do meu pai, que foi pro Canadá. Meu pai depois da II Guerra Mundial veio pro Brasil e a minha tia foi para o Canadá. E tanto que da família do meu pai, eu só conheço o meu pai mesmo, entende? Eu não conheço mais ninguém da família, porque era comum até na Europa, essa época, as pessoas saírem. O nome dele é Paulo; Pawel Popoff. Inclusive é o nome do meu filho, eu pus em homenagem ao meu pai. Mas, enfim, a minha avó russa chamava Maryanimar e meu avô chamava Theodor. Essa avó era pianista clássica, não era profissional, mas tocava. E eu tenho pouca informação da família do meu pai, porque, enfim, quando ele morreu eu tinha 20 e poucos anos, então a gente teve uma relação, mas não… Ele falava da família, mas eu realmente nunca sabia direito, onde eles viviam, onde estavam, se tinham morrido, se estavam vivos, quem estava, quem não estava. Então a família acabou. A parte da minha mãe, o meu avô português chegou no Rio de Janeiro aos 19 anos e morou aqui em Santa Teresa até, depois foi pra Petrópolis, depois foi pra Minas. Meu avô era um educador e foi lá pra Minas Gerais e ficava criando colégios. Fazia um colégio num lugar, mudava pra outro. E no sertão lá de Minas, subindo e fazendo, criando colégios. E meu pai quando chegou no Rio também, ambos moraram um pouquinho no Rio, depois foram pra Minas. Lá meu pai, estava viajando com uns amigos dele búlgaros que eram engenheiros, que estavam fazendo um projeto de alguma coisa de engenharia, que eu não sei exatamente o que foi e meu avô estava morando em Espinosa porque estava fazendo um colégio, uma coisa lá. E lá ele conheceu minha mãe; foi lá que começou o namoro deles. Então, quer dizer, minha origem toda tem uma descendência do avô que é europeu, que era da cidade de Viseu, minha mãe é filha desse cidadão que chamava José Menezes de Abreu e o meu avô casou com uma brasileira. Ainda não sei bem, eu sei que tem uma coisa de uma avó índia lá na história da minha avó. Então, quer dizer, eu tenho uma mistura de russo, com português e índio, sei lá. Deve ter até preto no meio, entendeu? E queira Deus que tenha mesmo! Então, realmente, tem uma grande parte da Europa e o resto é índio e preto. Deus deve ter me abençoado, com isso tudo!

Voltar ao topo INFÂNCIA

Músicas da infância

Quando eu era criança, lá em casa, engraçado que minha família não tem… pai e mãe não tinha nenhuma relação… eu nunca vi eles ouvindo… empolgados com música. Nunca vi meu pai assim. Ele era muito engraçado aos domingos. Declamava em búlgaro ou em russo, cantava canções. Ele cantava e cantava no banheiro, tomando banho. Eu lembro dele tomando banho e cantando as canções européias. Eu não sabia nem em que língua que ele estava cantando, mas ele cantava. Mas assim, de ouvir, nada! Em casa não tinha, não tinha um rádio, não tinha nada, um toca-fita. Eu ouvia muito dos vizinhos, entendeu? Porque no interior você mora na casa assim, o vizinho bota um som muito alto, o outro também botava alto e tal. Então, desde cedo eu estava assim… Tinha um vizinho que todo sábado fazia um churrasco e ficava ouvindo Anísio Silva – era fã de Nelson Gonçalves. E eu ficava lá em casa… era quase uma vila que a gente morava. Então, esse vizinho durante muitos anos, todo sábado, botava disco do Nelson Gonçalves, cantava e… Antes eu tinha uma relação com música assim muito engraçada, porque… sabe quando você ouve uma coisa, aquilo parece que tinha uma forte atração. Sabe quando você ouvia uma coisa e parece que tinha uma forte atração e você parava? Como se eu fosse já a encarnação de alguém que tivesse mexido com música. Sabe quando você ouve, você fala: “Pêra aí, isso…” E eu lembro muitas vezes, porque naquela época, por volta de 50 e pouco, 60, eu era garoto tinha, sei lá, cinco, seis, sete, oito anos e minha mãe percebeu que eu estava gostando de ouvir muita música. E isso eu eu não esqueço – que ela falou: “Você está ouvindo muita música, cara. Cuidado, isso é muito perigoso. Isso é muito perigoso. Você não pode ficar ouvindo tanta música assim”. Bom, aquilo foi marcante pra mim, eu ouvi e falei: “Você tem uma atenção dessas, cuidado!”. Você fica meio: “Opa! Qual será o perigo que mora aqui?”. Realmente, fiquei meio assim… Tanto que eu não esqueci nunca disso que ela me falou uma vez. Então a minha relação começa… da música que vem pelo ar mesmo, entende? Pelos vizinhos, pelo rádio, pelos Catopês que passavam na porta de casa – os grupos de Catopês, os cantos de igreja. Ia na igreja, tinha missa, ouvia muita música na missa, quando ele ia cantar aquelas músicas de igreja mesmo. Seis horas da manhã, tinha um programa na rádio em Montes Claros que o cara descia o pau lá com Luiz Gonzaga, aquela música nordestina. Montes Claros é uma cidade muito bem ao norte, então ela tem uma influência muito forte do Nordeste. Então, quer dizer, essa cultura do Nordeste chega forte. A cultura em geral de música, comida, enfim, de comportamento; o pessoal quente. Tinha essa coisa da cela do boi, o cheiro do boi, esse cheiro, essa coisa do boi, do cavalo, essa coisa do mato, da roça, esses cheiros todos, sabe? Esse cheiro todo eu lembro de quando era criança. Tinha um cheiro, tinha um visual, tinha um som, tinha todos os afetos: do visual, todo sentido era afetado pelo gosto, sabor da comida, sons, o olhar. Enfim, quer dizer, a paisagem tinha uma forte influência do Nordeste. Mas era Minas, e também Minas Gerais. Aí que tá! Que tem uma coisa bem mineira, forte também.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Primeiro instrumento

Minha família me criou pra ser um médico, ou um bancário, ou ser engenheiro. Ia ser o máximo naquela época, imagina, ter um engenheiro na família. Pra uma família era assim, motivo de um orgulho. Agora, ter um músico na família era um problema. Porque, na minha infância, eu lembro que lá em Montes Claros… hoje tem o conservatório de música, tem quatro mil alunos. Mas, na época que eu morava lá, músico profissional que tinha era o Lauzinho e o pessoal do batalhão que tocava na banda de música. Tinha um cara lá que chamava Lauzinho, que os meus amigos chamavam de George Harrison de Montes Claros. Uma figura, ele tocava violão elétrico, tocava na zona, tocava em seresta. Sabe aquele cara que tocava em tudo? Tinha uma Geni Rosa também que era professora de Conservatório, mas tocava mais Choro e essas coisas. Então eu via aqueles violões, via naquelas festinhas, mas com instrumento até então não tinha nenhuma relação nem nada. Eu só estava ouvindo aquele negócio e a música entrava, estava entrando. Dos sentidos todos que estavam sendo afetados, o da audição era o mais afetado. Era isso.

Formação Musical
Musicas da juventude

Aí é engraçado, porque naquela época de 1962 a 1967, quer dizer, em 1962 eu tinha 13 anos. Além da predisposição emocional, intuitiva que eu já tinha para lidar com os sons, veio aquela época dos Beatles, da Jovem Guarda, e eu era um garoto com 14 anos, do interior, imagina. Eu não sabia em 1964…, não tinha a menor idéia de quem era Tom Jobim. Eu ouvi música no rádio e lá em casa mal tinha um rádio. Tinha a televisão que pegava a Jovem Guarda e a empolgação, por incrível que pareça, a vontade de tocar um violão foi com a coisa de ouvir o Roberto Carlos, Jerry Adriani, Beatles, Wanderley Cardoso. Eu tinha um amigo que gostava muito de música; ele gostava de Altemar Dutra. Não era muito bem o que eu gostava, eu gostava mais do rock ‘n’ roll da época e ele já gostava dessas músicas românticas de Altemar. Eu gostava também… nunca achei música nenhuma ruim, entendeu? Eu sempre achei que valeu a pena, mesmo o Nelson Ned, ou seja lá quem for fazer música… fazer música. Quer dizer, eu tenho um senso crítico em relação a um monte de coisa que se faz com música. Mas naquela época eu estava ouvindo serestas, tinha um mundo completamente diferente, não tinha um senso crítico como eu tenho agora. Mas na época, inclusive – acho – tudo era feito espontaneidade e sem o profissionalismo, em todos os sentidos. Naquela época a ingenuidade, de certa forma, tinha um lugar maior no mundo. A gente acha ingenuidade hoje, mas na época era coisa que fluía, não era tão maquinado. As ordens não eram tão maquinadas como hoje. As ordens hoje são muito maquinadas, então o senso crítico também aumentou. Porque inclusive, também, eu tinha 12 anos, quer dizer, ouvia todo tipo de música. Então quer dizer, associado a isso, a essa música eu tinha 12 anos, 13. Eu acho que tocando um violão era mais fácil arrumar uma namorada, do que sem tocar violão, entendeu? Então tinha assim… associada à coisa da música também tinha vontade de se destacar também tocando violão. Chegar pra menina tocar um violão pra ela, tocar uma música, cantar e tal. A coisa começou por aí, com essa vontade. Porque lá em casa a gente era muito simples, a família era de classe média, não era paupérrima, mas era pobre. A gente comia, dormia, mas era um básico, a gente tinha um básico ali… de comer, dormir, tomar água, tomar banho, ir pra escola, voltar, uma comidinha simples. Quer dizer, era um garoto que estava ali afetados com sons e tudo, eu não estava pronto pra: “Ah, eu quero isso!”. Eu tinha determinação, a partir do momento que eu dei a mordida na maçã da música, aí eu falei: “Não, é tudo isso que eu quero!”. Mas até então, até essa maçã chegar e eu abocanhá-la, passou, foram acontecendo coisas.

Formação musical
Aprendizado de música

Aqui no Brasil, é o que eu falei, a minha condição econômica era muito pequena. Então, foi um violão que eu mesmo comprei, ninguém me deu. Eu tinha 14 anos estava trabalhando, porque lá em casa tinha aquela coisa da família: “Ah, o garoto tem que trabalhar cedo, porque ele tem que acostumar, tem que saber que trabalho é preciso, o trabalho enobrece o homem.” E desde os 12 anos eu já estava trabalhando. Minha mãe me botava para trabalhar em lojas de pessoas da família. Eu lembro… eu fui de calça curta trabalhar, pesar feijão, vender cela de burro, tirar metro disso ou daquilo. Mas acontecia que eu não me dava bem nos trabalhos. Eu cheguei depois… fui trabalhar de contínuo numa fábrica, fazia até café, servia café pros funcionários. Eu tinha, sei lá, 14 anos, estava lá servindo café, botava carta pros caras no correio e tal. E cheguei a trabalhar em alguns lugares, mas sempre era mandado embora. Até que um dia fui trabalhar num lugar que… Por incrível que pareça, a Dona Marina Lourenço Fernandes, que era a filha do Lourenço Fernandes, esse grande compositor brasileiro, foi morar em Montes Claros. Ela casou com um cidadão de lá e foi morar. Olha que benção pra cidade! E lá ela fundou um Conservatório. Mas até que fundasse esse Conservatório, ela, as filhas, a família dela, eu não sabia de nada, simplesmente fui trabalhar para o marido dela. E eles moravam num apartamento que era em cima de onde eu trabalhava. E eu lembro das filhas dela, botavam música, a gente ficava conversando. Botava uma música pra mim, naquelas vitrolas. Elas botavam uma, eu pedia: “Bota essa, põe aquela!”, música do The Jordans e não sei quem. Ficava lá ouvindo a música. Um dia eu saí e viajei, fui ver um jogo do Atlético em Belo Horizonte. Quando eu voltei, eu falhei a segunda-feira, na terça – acho – que foi o pretexto que o cara falou, porque já estava a fim de mandar embora mesmo, (RISOS) falou assim: “Esse cara falhou…” Cheguei lá, minha conta estava prontinha. E que eu fazia lá na época? Eu trabalhava com oficina. “Falta mola do carro número G, não sei o quê.” Ia lá pegava mola. “Rolamento, não sei o quê.” Eu ia lá, trabalhava no almoxarifado, ficava fazendo entrega. “Pneu não sei aonde.” Era o cara que entregava isso na oficina lá pros caras. Quando eu cheguei lá na terça: “Ah, você está despedido e tal. Toma tua conta, aqui tem 70 cruzeiros.” Foi uma coisa assim. Bom, aí eu estou subindo lá, falei: “Então, vou fazer o quê, né? Quiseram mandar embora mesmo, vou embora”. Fui subindo a rua, quando eu passo, antes de chegar, não levei o dinheiro pra casa, não, eu só estava com dinheiro no bolso. Aí quando eu cheguei, eu vi um violão vermelho numa loja de música lá, “Reis do Violão”. Era assim, um violão vermelho que tinha um S, não tinha nem aquela bola no meio. Gostei daquele violão vermelho, cheguei pro vendedor: “Quanto é que custa o violão?”. “Sessenta e dois.” “Ah, toma.” Dei tudo que eu tinha recebido, eu paguei e levei o violão lá pra casa. Quando eu cheguei com o violão lá em casa, aí imagina, sair do emprego e ainda acompanhado do violão? Quer dizer, minha avó chegou a comentar com a minha mãe: “Lucy você tem que fazer alguma coisa, esse garoto trouxe violão pra casa, isso não pode. Violão é a ruína da família! Eu conheço bem: violão vai levar ele à bebida, à prostituição e a tudo.” Entendeu? Era esse negócio. O violão significava prostituição, bebedeira, cachaçada, irresponsabilidade. Tudo isso era o kit que acompanhava o violão. Então a partir daí, minha mãe falou: “Não, deixa quieto, eu não vou devolver o violão”. A Ina que era minha irmã, ia ter aula no Conservatório. Ótimo, pelo menos não quebraram o violão naquele momento. Minha irmã começou a ter aulas, mas eu fui pegando o violão e a facilidade foi rápida. E como é que eu aprendia? Eu chegava assim… na rua que eu morava tinha o Sula que sabia tocar umas quatro ou cinco músicas da Jovem Guarda, o outro sabia tocar Wanderley Cardoso. Eu ia na casa dos caras, eles me ensinavam aquela música, depois ia na casa do outro, me ensinava outra, me ensinava outra, me ensinava outra. E eu aprendi assim, na casa dos meus amigos que sabiam tocar uma música, que e eu não sabia, eles iam me ensinando. Tinha um cara que sabia tocar dez músicas de não sei quem, eu ia lá fazia o pacote e pegava todas. E foi assim, eu ficava tocando violão naquelas festinhas, quando encontrei um amigo que sabia tocar: “Você era a mais bonita, das cabrochas…” Eu vi ele tocando essa música, fiquei louco, eu nunca tinha visto tanto acorde, eu nunca tinha ouvido nada assim na minha vida. Eu estava acostumado mais com o rock, alguma música dos Beatles e música do Roberto Carlos. Então a história do violão, o primeiro instrumento foi o violão e depois que eu descobri que o violão também, é aquela coisa, foi a descoberta de mim mesmo. Com o violão eu me descobri, descobri o mundo e o mundo também me descobriu. Ainda não, mas de certa forma já também. Abriu-se um mundo novo pra mim, com violão e a música. O violão foi o veículo e a música é a matéria, pela qual eu comecei a transitar. Sabe quando parece que você entra num calhambeque sem querer, de repente, você está indo pra Lua? É essa a sensação, que aquele calhambeque estava me levando pra Lua e da Lua para outros universos que eu jamais imaginava que pudesse ir. Aí começou.
Eu fiquei com esse violão pra cima e pra baixo, para a tortura do pessoal lá de casa. Quando descobri o violão, encontrei uma turma de uns amigos que todo mundo fazia parte de grupo de cinema; sabiam quem era Baden Powell, quem era Vivaldi, quem era Beethoven, Mozart. Sabiam quem eram todos diretores de filme da época, tinham um clube de cinema. As pessoas eram embasadas intelectualmente e eu não tinha aquele know-how todo intelectual que eles tinham. Eles todos sabiam disso, mas ninguém ali sabia tocar violão e eu sabia, eu sabia pouco, mas eu sabia. E eu fui admitido na turma, mas eu não tinha condição social, porque eles eram todos de família de classe alta da cidade e eu não, minha família era pobre e morava na periferia. E eles intelectualmente, estavam bem mais informados do mundo que eu. E eu só fui admitido, como várias e várias vezes, por causa de um violão. Eu fui admitido nessa turma e essas pessoas que começaram a fazer minha cabeça mesmo. Engraçado que meu próprio pai começou com aqueles negócios de festival. Eu lembro que meu pai, às vezes, apesar de não gostar, achava ruim, ainda tinha certo carinho, quando comprava o jornal O Globo, recortava aquelas cifras que vinham, os desenhos dos acordes com “Viola Enluarada”, “Travessia”. Vinha tudo no O Globo, aí quer dizer, eu aprendi a tocar violão pelo jornal, por esses recortes de jornal e por alguns amigos etc. Depois eu entrei no Conservatório para estudar teoria, para estudar um pouco de canto, piano. Entrei, estudei um tempinho e aí eu comecei a escrever e coisas assim.

Formação Musical
Curso de música

Depois de passar no Conservatório eu ainda cheguei a tocar na orquestra lá do conservatório. Mesmo sem aprender baixo, tinha um professor que vinha de Belo Horizonte que chamava Geraldo Figueiredo. Então tinha o Domingão lá de Montes Claros e o baixo acústico que tinha lá duas cordas. O Domingão era clarinetista, ele sabia tocar. Eu sei que ele tocava baixo assim… pegava o arco, ficava raspando, rrró-rrró. E eu: “Pô, como é que essa coisa aqui?”. Aquela corda de tripa. E ia escarafunchando o baixo: tón, era um arco e você não tinha aula, não tinha nada, era tudo meio, sabe? O cara era clarinetista, ele era o único que sabia fazer alguma coisa naquele baixo que tinha na orquestra da Polícia Militar. Na banda tinha um baixo acústico com corda de tripa, ainda, e ele tinha três cordas, faltava uma. Então eu ficava lá pum-pum-pum, com o arco, tudo errado. Aí, o professor que veio, ele dava aula de violino, de viola, ele pegou e falou: “Vamos pra Belo Horizonte que eu mesmo vou pagar umas aulas pra você.” O cara me pegava, eu vinha de trem, ele falou com um professor aqui que era o melhor professor, o Wilson de Aguiar, que era um professor muito bom de Belo Horizonte. Eu comecei pegar umas aulas, comecei ter umas dicas melhores, aí começa a pegar, começa a melhorar. Depois eu entrei para o Conservatório de Belo Horizonte que é a Universidade Federal. O que acontecia? Eu fui pra Belo Horizonte, ficava dez horas estudando lá, horas e horas estudando. Eu fiquei um ano como aluno ouvinte, aí quando eu entrei como aluno, entrei com bolsa, tocando já na orquestra, com um salariozinho pequeno, bolsa-alimentação. A universidade deu tudo pra mim, porque foi uma época de muita instabilidade pra mim, porque aos 19 anos, sem querer, a pressão da família é muito grande, não era só de mãe e pai, era toda família, um coro assim: “Pára com esta merda de música! Pára com isso seu merda! Você precisa sustentar sua família”. Uma grande voz no meu ouvido. Então, tem sempre uma mão de Deus, alguém chega e te tira desse verdadeiro inferno que você está e te dá um certo alento, dá um amparo pra você. Sempre nesses momentos tinha uma mão pra me pegar, como o professor que me trouxe de lá. Sempre assim uma pessoa que me pegava: “Ah, vou te levar ali, porque você é talentoso.” E eu nunca tive que dar nada pra essas pessoas, nada mesmo. (RISOS) Então sempre achava gente que via meu talento e via em mim um talento potencial; ou pagava aula pra mim, ou dava aula de graça, ou falava: “Não, aqui você vai ter isso, isso, isso.” Como lá no próprio conservatório em Montes Claros, que foi minha família toda lá uma vez pra me tirar, falar com a diretora: “Você tem que tirar esse rapaz, ele não trabalha, ele é vagabundo. Ele é isso, ele é aquilo e aquilo e aquilo.” Aí a diretora, a dona Marina falou: “Não, ele vai ficar aqui até quando ele quiser. Ele é talentoso, ele tem o Conservatório como a casa dele também”. Eu até entendo a preocupação da minha família. Eles estavam preocupados com meu futuro, sei lá! Até hoje eu compreendo, mas na época foi muito duro pra mim. Realmente, você com 19 anos, todo instável, sem ter nada, sem nenhum apoio de nada, de nada absolutamente, só: “Não, não, não, pára com isso, pára.” Eu ia pra casa, onde eu estivesse, estava ouvindo esse coro falando pra mim parar. Era difícil. Às vezes até em festa que eu ia, eles me chamavam assim: “Pô, você tem que…” Chamavam no quarto: “Você tem que fazer isso, porque sua família é isso, você não pode continuar tocar violão, isso é coisa de vagabundo. E isso não pode ser assim, não pode…”. Mas ninguém sabia que eu queria levar isso a sério. Era um afeto muito forte, eu não sabia o que é que dava isso também não. Eu fui e falei: “É?”. Eu acelerei pra valer e falei: “Olha, é isso e acabou. Nada, nada, nada, nada mais vai me tirar da minha trajetória. Essa é minha trajetória”. E fui, foi assim.

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Montes Claros

Montes Claros é a cidade com uma série de acontecimentos folclóricos muito fortes. É aquela região ali do norte de Minas, Jequitinhonha. Ali tem um tipo de pessoa com uma sensibilidade extrema. Impressionante o nível da sensibilidade das pessoas, um nível assim, fortíssimo. Tem um amigo meu que tem até uma teoria, fala que de acordo com o paralelo… pode ser o maior H dele. Mas tem uma coisa ali muito forte, então ali tem uma série de acontecimentos de folclore, de música, de grupos de serestas, de história, de culinária. Um povo assim extremamente criativo, num certo sentido rico, mas de uma riqueza muito grande. Então na época eu estava lá vivendo e respirando e vendo e sentindo e ouvindo tudo isso, o tempo todo. Mas na época não me tocava muito com isso. Eu estava já profundamente sendo tocado, mas eu não estava atento a esses toques, a esses acontecimentos. Isso veio depois de um certo tempo, porque já em 1992, quando eu fiz o meu primeiro CD, eu já tinha 41 anos, que é o Catopé. Ele surge com o nome Catopê. Mas nesse percurso, antes de surgir esse disco, o que eu estava ouvindo era John Coltrane. Depois que eu passei dessa fase de ouvir o rock dos Beatles, eu descobri Tom Jobim, Baden Powell, enfim, essas pessoas todas, a música clássica. Eu trabalhei em orquestra sinfônica, eu toquei todas as sinfonias de Beethoven, todas de Brahms, todas, toquei músicas de Stravinski. Eu toquei quase 15 anos na orquestra, então eu passei por um repertório de música clássica muito grande.

Formação Musical
Influências
Eu toquei na Orquestra Sinfônica em Campinas e na estadual de Belo Horizonte. Então, quer dizer, eu trabalhei, tive um contato muito grande com a música clássica e já tinha aquela coisa regional toda impregnada, ouvi muito jazz e música brasileira. Quer dizer, minha formação básica tem um pouco da coisa regional, bastante da coisa do rock, do pop um pouco, tem MPB, tem da música do Tom Jobim e da música brasileira, do Luiz Gonzaga. É Luiz Gonzaga, Villa-Lobos, Tom Jobim, Milton Nascimento, Toninho Horta, mesmo o Beto Guedes, o Lô Borges. O Clube da Esquina, de uma certa forma, também foi muito importante pra minha formação, Tavinho Moura. Então é uma formação que veio com isso aí: John Coltrane, Miles Davis, Jaco Pastorius, Bill Evans. Associado a isso, Mestre Zanza, Capitã Pedrina, misturado com Coltrane, Richard Wagner, com Beethoven, Mozart. A minha formação tem todos esses elementos. A minha música, se você ouvir, você vai ver, eu sou um mineiro com a coisa do Nordeste, entendeu? Minha música tem aquela coisa do Nordeste, mas tem a doçura de Minas, mas tem aquele negócio duro do Nordeste, tem na música. Tem a sutileza de um Wagner, como tem também a coisa do Milton… ela passa por todos esses caminhos. Essa trajetória, ela está toda impregnada com essas cores todas.

Formação Musical
Carreira

Em 1971, fui pra Belo Horizonte e comecei a estudar no Conservatório, comecei a estudar baixo acústico. Porque na época não queria nada com baixo elétrico, não. Eu falava: “Não, eu quero tocar acústico.” Foi à época da empolgação, porque foi aquela empolgação com o Roberto Carlos; empolgação também com o John Coltrane, Miles Davis. “Eu quero tocar baixo acústico e jazz.” Minha onda era tocar jazz. E naturalmente, associado a isso, eu comecei a tocar, sendo preparado pra tocar na orquestra. Comecei a tocar na orquestra do Conservatório. Na orquestra da escola meu professor e eu éramos os dois baixistas – era uma pequena orquestra e éramos os dois. Nada de baixo elétrico. Baixo elétrico só rolou em 1979 quando eu comecei a tocar com o Beto Guedes, é sim.

Formação Musical
Clube da Esquina

Foi nessa época que eu comecei. Mas na verdade eu me envolvia, mas eu já conhecia o Lô Borges. Quando eu tinha, sei lá, 12, 13 anos, 14, eu ia muito a Belo Horizonte e a minha avó morava no Edifício Levi, também. Minha avó morava no 16º, um andar abaixo do Lô. O Lô era muito amigo do Gilberto Abreu e do Gonçalo, que são meus primos. Então essa época eu ia muito lá. Eu li no depoimento do Lô, ele falando exatamente daqueles banhos; a gente invadia a casa e ia tomar banho na piscina, na casa do outro, jogava bola. Tinham umas casas abandonadas lá, a gente ia tomar banho nas piscinas. Todas as férias eu vinha passar as férias em Belo Horizonte, eles já estavam começando a tocar violão, eu ainda não. Eu não estava ligado ainda na coisa da música. Tocava um pouquinho, mas eles é que já estavam envolvidos. Eu lembro do conjunto deles, The Beavers; lembro lá no Levi, lembro lá no Banco da Lavoura, lá no clube de cinema. Lendo o livro do Marcinho, ele cita muito essa coisa do cinema. Eu só estava meio que beliscando vendo eles. Eles também me conheciam. O Lô já me conhecia há muito tempo. A gente já se falava, trocava idéia, ficava paquerando ali na Rua Tupi. Sempre que parava, eu lembro de todo dia, meio-dia, ficava parado ali pra ver as gatas passarem ali, todo mundo ficava. A gente ia num chinês ali, tinha um chinês ali. Então quer dizer, esse movimento eu estava assim por fora vendo o Clube da Esquina, quer dizer, nascer o do Clube, mas não, eu não tinha galo para estar no meio deles, não. Eu era desse tamanhozinho, era pequenininho demais pra estar, eles já eram bons demais. Mas o Milton quando eu ouvia, meu Deus do céu, você está doido!
E depois cheguei a morar no Levi mesmo, quando eu fui pra Belo Horizonte em 1971, eu morei no Levi de 1971 até 1974. Depois eu mudei, voltei em 1978, fiquei mais um ano lá. Mas eu cheguei a morar no Levi uns cinco anos, mais ou menos.

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Minas Gerais

Na época veio um historiador francês e ele tem um documento que fala assim: “Eu duvido que no norte da França, em qualquer lugar na França, um lugar, uma cidade com esse mesmo número de população, possa produzir uma música tão incrível como eles… com um nível tão alto, não só de músicos, como cantores também.” Entende? Então era uma coisa interessante. E tinha uma relação profunda, foi uma escola assim sofisticadíssima que tinha um ensino assim sensacional com mulatos, a maioria dos negros mulatos. Tinha uma média em Ouro Preto… inscritos naquelas irmandades… uma média de 250, 300 músicos profissionais. Então, em Ouro Preto em 1600, 1700. Quer dizer, isso é um dado incrível. E o nível de compositores que tinha, eram compositores que, até hoje tem música escrita lá em Minas naquelas igrejas.

Formação Musical
Violão

O violão Reis do Violão. O trágico fim foi aqui mesmo, foi na minha cabeça, entendeu? O trágico fim do violão. Aliás, foi trágico, mas ele foi recuperado também, porque depois de uma noite de bebedeira, de umas serestas, daquelas serestas, a gente fazia muitas serestas lá em Montes… Eu tinha uma turma, quando eu descobri aquela turma, nós criamos um pacto de, a gente pegava o violão e a música reunia as pessoas. Essa coisa da música, esse poder de reunião, de centralização que a música tem é fabulosa. Tem um violão, tem uma festa! Onde tem violão, tem pessoas. Onde tem pessoas, tem reunião, tem comunhão. Quer dizer, tudo, nego pode até não gostar, mas: “Vamos cantar uma música juntos?”. Canta, entendeu? As pessoas comungam ali, através da música, de alguma maneira. Acho que a música tem esse poder fantástico. Então, depois do violão a vida lá em casa ficou um inferno pra minha mãe, pra mim caí no céu! Pra minha família foi um horror. Porque tudo que eles não queriam era serenata, bebida, coisas assim, né? Uma noite lá, cheguei em casa de manhã com meu violão, minha mãe teve um ataque, um surto de nervos e quebrou o violão em cima de mim. Aí o meu primo estava lá em casa no dia, o Gilberto Abreu, pegou o violão, levou pra consertar na oficina do pai do Beto Guedes, lá em Belo Horizonte. E consertou o violão, já ficou com outra cor, eles pintaram o violão todo. O violão vermelho foi pro ar. Mas aí o que é quê aconteceu? Um amigo me emprestou um outro violão, entendeu? (RISOS) Sem violão não fiquei, não. Peguei outro violão, levei lá pra casa, continuei.

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Montes Claros

O fato de ser de Montes Claros, eu já tinha visto o Beto Guedes tocar lá com aquele grupo, Os Brucutus. Quantas vezes eu passava no Automóvel Clube? Eu não podia entrar, meu pai não era sócio do clube. Mas eu adorava ver eles cantando lá, porque eu adorava os Beatles. Eu sempre ficava lá embaixo ouvindo, tinha uma praça também. Até vi o Milton também, ele ouviu muita música dos clubes na praça, ele por outros motivos não podia entrar, também. Mesmo se pudesse, meu pai era um cara meio anti-social, ele não gostava muito. Então eu passava de madrugada com violão e ficava ali, ouvia um pouco e tal. E muitas vezes, a mesma praça que era em frente ao clube, o Patão, irmão do Beto Guedes e o Tíupas que era também do grupo, muitas vezes eu passava lá, o Lú Guedes; eles estavam lá sentados com outro violão tocando música dos Beatles. Mas aí eu já estava tocando Tom Jobim, já chegava, tocava Garota de Ipanema. Ficou até um clima assim, a gente tinha a turma da bossa nova, que era a turma que eu freqüentei e eles eram a turma dos Beatles. Ficava assim a turma dos Beatles e a turma da bossa-nova. Tinha um pouco essa coisa. Eu adorava os Beatles, sempre – adorava não – adoro até hoje! Mas também, a gente não deixava de amar profundamente Tom Jobim também, entendeu? Eu jogava nas duas. Na minha cabeça eu acho que você ouvir os Beatles, e adorar, e ouvir o Tom Jobim, adorar, era muito melhor do que só adorar um dos dois. Então eu não deixava de gostar dos Beatles. Mas eu também, eu descobri o Tom Jobim, eu descobri Beethoven, descobri Wagner. Então, quer dizer, eu fui abrindo afetos pra tudo quanto é lado. “Pô, Beethoven é bom? A música dele está me foi somando, é bem-vindo? Então era muito assim, o pessoal que tocava rock, eu lembro em Belo Horizonte mesmo, quando eu cheguei, o fato de eu tocar numa orquestra era meio assim, os caras falavam: “Pô, esse cara toca Beethoven, está por fora!, não dá”. Eu tocava Beethoven mas eu gostava de tocar tudo também, entendeu? Apesar de que naquele momento eu estava muito centrado na coisa da orquestra que eu precisava aprender mais. Então ficou um pouco essa coisa, que eu era o músico que tocava assim ou assado. Mas depois a gente se entendeu lá na frente, não teve problema mais. Mas aí, voltando, o Lô e o Beto eu já encontrava com eles lá na Rua Tupis, sempre ficava ali sentado ali. Eu via, mas não participava muito, não. E eu tinha um amigo, que era um pianista que chamava Ricardo Américo, ele namorou com a Gilda Horta que é irmã do Toninho. Ele sempre me falava: “Olha, tem um quarteto vocal, não sei que, a Lena Horta toca, a Gilda, eles cantam, Toninho é isso, ele toca violão, não sei o quê.” Ele sempre estava me dando notícia deles, dessas pessoas, antes de eu ir pra Belo Horizonte. Quando eu fui pra Belo Horizonte eu já sabia, que o Toninho era assim, que tinha uma irmã que chamava Gilda, tinha outra; mas não conhecia ninguém, até então não conhecia ninguém. O Milton, então, nem pensar. Eu já sabia quem era Fernando Brant, o Marcinho Borges, mas pra mim era todos ídolos meus, eu adorava o trabalho que eles faziam. E nunca tive assim muito contato naquela época. Era mais com Beto, Lô e depois… eu era muito freqüentador do Saloon, onde essas pessoas iam muito. Eu já cheguei a ver o Fernando Brant, o Murilo Antunes, cheguei a conhecer o Joel Cachorro Doido, que era irmão do Murilo. E eu ficava conversando com essas pessoas e tal, mas eles já sabiam que eu estava estudando música a sério. Eu estava estudando num Conservatório, eu estava fazendo um curso de contra-baixo, eu estava tocando numa orquestra. E eu me sustentava, eu tinha bolsa, eu tinha minha coisa séria com música: “Eu quero ser músico, eu quero ser compositor, quero ser músico, eu quero tocar isso bem!”. Eu tinha que tocar aquilo bem, porque eu tinha que me sustentar. Eu não tinha nenhum apoio de nada. Então, é tipo assim: “Olhava para um lado e para outro e só tem você mesmo. É em cima desse baixo aqui, que eu tinha que ir mesmo.” Então tocava clássico, pegava o violão, tocava Villa-Lobos, estava muito entretido na coisa do estudar seriamente música, entende? Então isso era um pouco hostilizado pela turma. Não o pessoal do Clube da Esquina, não, mas os músicos em geral. Porque era jovem, então todo mundo tocava muito rock aquela época. E eu era jovem também e estava buscando um caminho clássico, um caminho em cima de um trabalho de estudo, de escola de música, eu sempre gostei, sempre achei que estudar música valia a pena. E sempre dediquei horas e horas da minha vida a estudar, sempre estudei muito música. Tinha que estudar baixo, eu estudava dez horas por dia. Férias eu não viajava, eu ficava pra estudar, eu me sacrifiquei. Eu entrei, falei: “Não, eu tenho que tocar bem. Eu quero ser um grande músico. Eu quero fazer isso. Não importa nada!”.
Eu lembro uma vez, vi o Tavito tocar um violão lá na rua. Acho que era o Tavito mesmo. Eu fiquei impressionado, um impacto desses assim pra mim era enorme na época. O cara toca, que nenhum acorde, você não conhecia um acorde, nada que ele fazia. E aquela coisa linda! “Que é quê está acontecendo aqui?” Realmente foi um impacto fantástico. Como também quando eu vi o Toninho Horta tocando violão também, esse foi um impacto muito grande! Eu gostava dos impactos mais ao vivo, entende? Ou então, eu fui ver o show do Milton aqui no João Caetano, O Milagre dos Peixes. A coisa ao vivo sempre me impactou muito mais que ouvir um disco. Ouvir um disco era sempre bom quando eu ouvia, mas eu queria ver a coisa viva! Esse impacto, ele era ali na hora, naquele momento, entende? Agora sempre foi impactante o disco Clube da Esquina. Pô, ouvir aquelas canções! Falar o quê disso? Sabe, que coisa; pérolas que tem aqui dentro. Um grupo de pessoas como surgiu em Minas, todo mundo centrado na coisa incrível que era fazer uma boa música, fazer uma música de nível. Não importava, nego estava ali querendo fazer música. E se era bonita estava valendo, entende? Então, isso pra mim é uma coisa fantástica que acho no Milton. Porque acho que ele, certamente todos são maravilhosos, mas o Milton pra mim, é o centro, é o pilar mesmo do Clube da Esquina. Realmente é o cara que trouxe… a música do Milton, pra mim, trouxe todas as novidades que não existiam na época. O Milton é realmente um grande cara. Com todo o respeito ao Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Tavinho Moura, mas Milton é fantástico, fantástico! Então o Milton eu sempre tive assim, era uma espécie de um deus pra mim. Realmente pelo que ele trouxe, sem comentários. Pra mim realmente é o máximo! Milton trouxe o máximo pra mim, realmente me afetou. Então quer dizer, a novidade que só de ver o trabalho, a coisa dele, eu só não me ajoelhava, me postava aos pés dele, porque não o conhecia ao vivo. Mas realmente achava uma pessoa fabulosa, a voz, uma coisa assim: “Esse cara, ele parece que ele veio foi do céu, pra trazer isso tudo pra gente”. Sabe aquele? “Não, você vai mostrar como é que é a coisa por aqui.” Sabe? Sei lá, ele trouxe de algum lugar aquela idéia, de um lugar que a gente realmente tem vontade de ir e conhecer aquilo tudo de onde ele veio. “Pô, de onde você trouxe tudo isso, cara? Eu quero ir lá, eu quero conhecer, deve ser um lugar fantástico, maravilhoso.” Eu ainda tenho vontade de falar isso, ainda: “Como você trouxe isso tudo? Que lugar?” “Qual foi o espaço que você conseguiu isso? Não existe isso! Aonde que será isso?”. Certamente o Toninho também tem coisas maravilhosas, o Beto também tem muita sensibilidade, o Lô uma personalidade fantástica, a família Borges, todos ali são demais! Mas enfim, eu acho que o Clube da Esquina trouxe uma colaboração pra minha música que também é fundamental, extremamente fundamental. Sem o Clube da Esquina, eu não seria o que eu sou hoje. Realmente, acho que traz uma estética absolutamente diferente. Era tudo aquilo que eu queria ouvir. Acho que eu não concebo o mundo assim sem o Clube da Esquina, acho que não podia ter. Agora o mundo tem… O Clube da Esquina, no meu mundo tem que ter o Clube da Esquina. Se eu tivesse que levar algumas coisas, claro que eu tinha que levar essa música, feita por essas pessoas que é do Clube hoje, sabe? Se eu tivesse que mudar de planeta, eu vou levar algumas coisas, eu vou levar o disco do Clube da Esquina, entende? Esquecer tudo, um monte de coisa aqui, o Clube da Esquina eu levava comigo, pra não esquecer nunca mais.

Formação Musical
Clube da Esquina: avaliação

Uma das coisas mais fantásticas que eu acho no Clube, além da… não vou falar aqui que a harmonia é maravilhosa, que a melodia, que tem uma… mas é a atitude, sabe, das pessoas fazerem a música. Eu vou falar pelo menos quando começou, que eu tenho certeza, porque depois de um certo tempo eu não sei pra onde isso mais foi. Mas quando começou, era o compromisso de fazer uma coisa que todo mundo estava gostando de fazer e que tinha compromisso com a beleza; aquilo estava bonito, estava bom, entende? Beleza é que era, eram pessoas criteriosas, pessoas com um bom gosto incrível avaliando aquelas músicas todas. Eu acho que o Milton apadrinhando aquilo tudo, né? Esse pra mim é um exemplo assim maravilhoso, do comportamento diante da música, do comportamento de fazer uma boa música, de fazer uma música descompromissada com qualquer tipo de coisa. Ela é compromissada com ela mesma e com a beleza. Esse é o compromisso do Clube da Esquina. Que eu achava no início, não tinha compromisso com mercado, a princípio não tinha, eles faziam e o Marcinho – eu tenho certeza –, eles eram jovens deslumbrados com o mundo, com a vida. Eu acho que era isso, isso que eu acho que é o legado maior, entende? Claro, quer dizer, se tem isso, vai dar alguma coisa fantástica. Isso é que eu acho que é o exemplo maior. Não é o acorde que o Milton fez, não, sabe? É a atitude, é essa atitude. Porque essa atitude deles é que traz todo esse outro resultado, toda causa, todo efeito dessa causa. Então é assim, as pessoas ligadas e sintonizadas consigo mesmo, lá nas Minas Gerais, com aquela sensibilidade toda que o Milton teve; que o Marcinho; que o Fernando Brant, essas pessoas, Toninho; é muita sensibilidade junta também, entendeu? Sensibilidade, bom-gosto, atitude, sabe? Isso vai gerar a música que gerou o Clube da Esquina. Porque a música em Minas Gerais sempre foi, a música sempre foi uma coisa que foi importante pra nós lá de Minas Gerais. Desde o início, no Barroco Mineiro, a música tinha; o mineiro tinha um talento, uma aptidão pra música, uma coisa assim impressionante! Os caras quando chegavam aqui no Século XVIII ficavam impressionados em ver a qualidade musical que tinha, que eles faziam, tocavam em Vila Rica, Ouro Preto. As orquestras, os cantores, os compositores. Então, Minas tem um background fantástico desde o início da formação do estado. Minas Gerais tem base bastante forte, solidificada e alguma coisa, porque não sei, realmente, o fato de se estar já ali no início, abrindo pro sertão brasileiro, de estar no meio e não entrou pra dentro da Bahia ainda, está no meio do caminho. Quanto mais vai afastando ela vai mudando também, essa estética vai mudando da música. E aí a gente tá num lugar que é exatamente onde entra a Igreja, entra o erótico, onde está o divino e o erótico, sabe? No mesmo paralelo, exatamente. Então é isso, essa coisa que dá, que deu toda essa origem dessa música em Minas. Eu acho que desde o início, como eu estava falando, no início do Século XVIII em Minas Gerais, tinha uma escola que denominou-se como Barroco, que tinha milhares… compositores como Lobo de Mesquita, enfim, uma série de compositores que até hoje está lá por Minas Gerais, músicas, partituras em igrejas, em um montão de coisas lá fantásticas, que a gente mesmo não teve oportunidade. Mas tinha uma série de compositores que faziam missas, ladainhas, Te Deum. Tinha banda de música, realmente era um celeiro de músicas e compositores que não tinha limite. Aquelas irmandades, cada irmandade lá tinha sua orquestra, suas coisas. Então, tem a religiosidade, tem enfim, essa coisa de ser afastado, a posição geográfica, tem enfim uma série de coisas, a mistura do negro que sempre traz, que tempera com portuguesa e os índios, sempre tem esse tempero, também. Só que dado ali naquele momento, naquele local, aquilo deu no que deu.

Formação Musical
Clube da Esquina: parceiros

Eu gostaria de ter mais parcerias, né? (RISOS) Porque eu acho o Fernando Brant uma coisa incrível, como ele é direto. Já o Marcinho… eu acho as letras… o Marcinho tem uma profundidade mais… passa por outras vias diferentes. Eu não sei analisar assim literariamente, no nível literário, o que é um, o que é outro. Eu sei até sentir… sei que Marcinho, parece, entra mais na questão filosófica. O Brant não, ele é mais ligado ao cotidiano. O Ronaldo Bastos é também meio assim. O Ronaldo eu não sei dizer, mas o Brant e o Marcinho são os meus dois parceiros do Clube e o Murilo Antunes também. Eu acho que em matéria de letra, também, não fica nada a desejar a música, acho que os dois discos, os letristas foram excepcionais, assim como os músicos. Acho que os letristas também são acima da média. A parte da conversa, do papo e das letras, da sincronização, é de uma competência absurda, também. Uma letra como “Clube da Esquina”, que o Marcinho fez, é fabulosa; “Travessia”, não dá pra dizer tantas letras, a beleza estética, a mensagem dessas letras são maravilhosas. E enfim, eu digo um pouco menos da letra porque eu nunca fui cantor, então eu ouvia muito mais a música do que a letra. Mas depois de um certo tempo também comecei a ouvir mais as letras. Comecei a me interessar, porque eu também comecei, de uns cinco anos pra cá, tocar violão, alguma das minhas coisas. Então vi como é importante saber como é que canta, o que quer cantar, o que é que você está dizendo para as pessoas; o que vai dizer. Então por aí fui pegando umas letras. Mas, enfim, a letra desses caras aí são geniais, todos são muito bons, todos eu acho fantástico.

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Clube da Esquina

Eu fui para Belo Horizonte em 1979. Eu morei lá em 1971, depois mudei… de 1973 pra 1974, 1975 eu fui pra São Paulo, fiquei em Campinas lá uns três, quatro anos. Voltei pra Belo Horizonte. Em 1979, eu começo trabalhar com Beto Guedes naquela turnê, que chamava Sol de Primavera. Fiquei aqui no Rio de Janeiro porque estava na orquestra. Um belo dia eu falei: “Não, agora encerrou o meu ciclo na orquestra.” Em 1984 eu falei: “Encerrou meu ciclo. Aqui eu paro com a orquestra. Agora eu quero cuidar de mim e da minha música. Quero tocar só música popular.” Nesse meio, o que é que aconteceu? Eu já estava casado com a Lena Horta, que é irmã do Toninho Horta e, em 1980, começo também a tocar com Toninho. Eu casei com a Lena na década de 70, num desses anos de 70. Em 1979 eu estou fazendo a tour, o Toninho tinha me chamado pra tocar com ele, mas eu estava tocando com o Beto. Fiquei um ano tocando, trabalhando com o Beto, fiz até o final e início de 80. Aí comecei a trabalhar com o Toninho. Então eu comecei a tocar mesmo, tive oportunidade de tocar com o Nivaldo Ornelas; com o Tavinho Moura, com várias pessoas. Só não toquei com o Milton e com o Lô. Mas toquei com o Beto, com Toninho, com Tavinho, com Celso Adolfo, com Tadeu Franco, enfim, milhares de pessoas lá em Belo Horizonte também, quando eu morei lá. Então, quer dizer, eu de uma certa forma, também acho que faço parte desse Clube. Não sou um fundador, mas sou um cara que vem pós-Clube. Desde aquela minha primeira música “Era só começo o nosso fim”, que traz todo esse caminho harmônico, tudo isso deixado aí pelo Clube da Esquina, né? Deixado e mostrado aí pra gente, esse caminho aberto pelo Clube da Esquina que eu entro e comecei compor. Antes minha música era muito mais chegada ao Clube da Esquina, depois que eu vim pro Rio foi agregado também outras coisas como choro, a valsa, a coisa que aqui no Rio eu naturalmente fui pegando. Aqui, no Rio, é uma cidade mais cosmopolita que Belo Horizonte, naturalmente também comecei a tocar com pessoas e, naturalmente, minha música foi sendo influenciada com outros tipos de ritmos também. Outro dia mesmo estava mostrando a uma amiga minha a peça que eu estou compondo pra violino e orquestra sinfônica, começa um trecho lá, aí ela fala assim: “Não, isso aqui tá a cara de Frank Zappa, né?” O negócio estava: to-lã-lã. Quando muda assim, ela falou: “Agora virou Clube da Esquina.” (RISOS) Naturalmente tem isso, entende? Ela ficou assim com uma cara, depois imediatamente ela falou: “Oh, está muito Clube da Esquina, muito mineiro.” E a música é um baião, um baião arrasta-pé, uma dança, quer dizer, é um dos movimentos que eu estou trabalhando. Porque eu comecei também a compor, associado a minha carreira, quer dizer, eu acabei virando… tocando violão, depois comecei a estudar baixo, comecei a tocar baixo com o Toninho, comecei a fazer minha carreira como baixista. Mas aí já nos dois últimos CDs, eu estou tocando violão e até cantando. Comecei a tocar violão, escrever, ter uma vista assim para um trabalho com orquestra e comecei a escrever muitas peças, tenho meu trabalho como pesquisador. Enfim, tocava violão, baixo, depois comecei a trabalhar em orquestra sinfônica, dei muitas aulas também em várias escolas. Aqui cheguei fundar escola, no Conservatório Brasileiro de Música, com Roberto Gnattali e a Cecília Conde. Fizemos uma escola de Música Popular Brasileira no Conservatório. Depois trabalhei dez anos numa pesquisa de Congado, indo pra Minas sempre pesquisar, fiz um CD e tem um material enorme lá em casa sobre essa manifestação do Congado – que é uma das mais importantes em Minas. Enfim, quer dizer, tem o pesquisador, tem o toca-violão, canto um pouquinho, eu toco baixo, eu toco piano também e componho etc.
Principalmente agora eu escrevo os arranjos porque eu tenho uma informação; que é essa informação da pesquisa. Eu incorporei muito essa coisa dos tambores de Minas à minha música, porque eu fiquei trabalhando lá. Porque uma coisa que eu acho que no Clube da Esquina teve, que foi genial, foi essa sintonia com as raízes. Ela existiu até com o Milton e o Tavinho. Eles passaram por ali. Passaram na América Latina, música clássica, mas não dá pra aprofundar muita coisa. Então, ela não chegou a criar muitas raízes. Na música do Milton ou mesmo do pessoal todo, esse batuque mineiro passa pouco. Ele não é muito evidente não. Então indo pra Belo Horizonte, viajando todo estado, né? Eu fui pra Belo Horizonte, Oliveira, Montes Claros, Jequitinhonha, uma série de lugares, eu incorporei dez anos viajando, peguei, escrevi muito ritmo e trouxe. Então quando eu vou escrever, quando eu vou fazer eu tenho posse de um material que é tudo que eu quero. Então, se eu for pedir a outra pessoa, tenho certeza que é difícil ter um arranjador que poderia trazer essas informações e incorporar isso ao meu trabalho. Então, atualmente, eu incorporo muito essa; eu tenho uma valsa mesmo, que antigamente o que era valsa jazz, agora virou valsa de Moçambique. Tum-dumts-tum-dá-cum-dumts. Aí os batuques ficaram outros. Eu trouxe esses batuques todos de Minas, incorporo esses elementos melódicos, tanto que agora estou escrevendo umas peças pra esse violino. Então está cheio de melodias e batuques pra tocar com orquestra sinfônica, mas naturalmente com todos esses elementos rítmicos e melódicos que tem lá.

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Clube da Esquina

Eu acho que essa iniciativa do Marcinho é muito rica. Porque é deixar aí, para as pessoas que virão, informações. Coisa que a gente não teve. Eu acho que Marcinho tomou uma iniciativa absolutamente certa, porque é deixar; é isso que eu falei, deixar esse material, gravar na memória das máquinas e do próprio museu a história dos músicos, a história do nosso tempo, a história que está passando aqui e agora e que amanhã vai ser passado mesmo. Eu tenho certeza que esse movimento do Clube é um movimento, foi e é, até hoje, e continuará sendo um movimento mineiro, como o movimento contemporâneo mais importante. Porque eu acho que no Século XVIII teve o Barroco mineiro que também acho que foi fundamental pro Brasil. Mas não tinha a informação, quer dizer, a gente estava em formação, como estamos até hoje, né? Em 1600, o Brasil tinha 100 anos que tinha sido descoberto, então ainda não tinha se formado nada aqui. Tudo que a gente tinha aqui, ainda estava se formando aqui. Eu acho que com o Clube da Esquina já se criou uma solidez na nossa cultura e a gente já pôde mostrar ao mundo algo criado aqui, com um nível que foi criado, com uma coisa que qualquer pessoa no mundo, qualquer músico que ver vai respeitar, porque sabe o valor, uma coisa de grande valor, que é esse movimento. Enfim, é deixar aí essa documentação fantástica pra todo mundo. Já está registrando o nosso tempo, hoje, agora, aqui, pra daqui há muitos anos alguém estar sintonizado com esse movimento, ter mais informação. Eu mesmo quando fui atrás da coisa do Congado, comecei a pesquisar porque não tinha nenhuma informação, não tinha livro, não tinha nada. Então eu acho que é uma falha que tem na nossa História, essa coisa da gente não registrar nada. A gente não registra, nós não contamos a nossa História. Eu acho que com isso Marcinho está dando a oportunidade pra todo mundo contar a sua história, assim como eu contei a minha, e estar registrado pra daqui muitos anos isso estar vivo aí.
Eu agradeço a vocês, ao Marcinho. E vida longa ao Clube da Esquina, né? Que o trabalho continue, cada vez com um propósito que já é fantástico e esse propósito cada vez mais enraizado, mais firme e que eu tenho certeza que o futuro disso é dos melhores que pode ter.

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Uma mensagem para Yuri Popoff

  1. Décio Marques disse:

    O virtuoso Yuri,tenho mais que agradável lembrança.Em apresentação que
    fez na sala do Pró Música em Juiz de Fora/MG,fui no concerto dele e com –
    -prando o cd,pedi autógrafo o que ele pronta e gentilmente me atendeu e te –
    -nho agradável surpresa agora de saber que nossa data de aniversário coin-
    -cide.Sobre o cd que adquiri naquele show?Graças ao bom Deus que não
    fura!Viva a tecnologia!